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Carta de um leopardo a Dionísio

Publicado: quarta-feira, 30 janeiro - 2013 em Uncategorized
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Entre savanas e florestas, caçadas e descansos, o que permanece é o hábito de correr.

Porque aquilo que é hábito, não muda. E cada um de nós possui sua natureza. Eu sou um leopardo. Territorial, agressivo, orgulhoso. E meu sangue é fúria.

Porque eu não consigo me adaptar a um rebanho. Porque meus sonhos vão além do desejo coletivo. Porque minha fome não é saciável por pastos.

Porque eu aprendi que morrer nunca é pra sempre.

E hoje eu olhei nos seus olhos, pai, e você me ofereceu tudo aquilo que eu precisava. Amor intenso e verdadeiro. Amor louco, insano, descontrolado, único… E meu. Só meu.

Amor suficiente pra cruzar um oriente, pra perder-me em oceanos, pra ir ao Hades e voltar.

E que pra você é algo tão simples… Mas tão difícil de conquistar.

Aprendi, sob o preço de cortar os pés descalços, que fiz o certo. Que não se entrega sua loucura a quem tem medo do escuro. Deixe a luz para os que gostam de viver na luz. Eu aprendi a enxergar foi no escuro do inverno.

E num mundo de dor e sofrimento, onde a cada esquina há corações dilacerados, me sinto grato. Grato em dor, grato em sofrimento, grato em desespero… Grato por estar, eu, por inteiro, dilacerado. Mas me resta o coração. E é só disso que eu preciso.

Cubro a face das tempestades de areia e respiro fundo ao encarar o deserto. Pois além dele, talvez, haja espaço para um amor insano, desses que não cabe no padrão dos homens, desses que o teatro e os livros não são capazes de padronizar, desses que não aprendemos nas histórias que nos contam.

Um amor desses que inventamos. A mais bela obra em minha criação. Um coração, e tão somente um coração.

É hora de correr.

Correr num deserto onde o acaso é a ordem, onde a sua perdição dá sentido às pequenas desarrumações dos grãos de areia. E na noite silenciosa do deserto, não há necessidade em ouvir-te, pois sinto.

Na paisagem noturna,as estrelas voltarão a desvendar mistérios, e somente a luz da Lua será capaz de me elevar a elas. Brilhar na profundidade bela do escuro, e só.

E não importa que eu não possa ver, se puder visto e curado.

E na paisagem noturna,as estrelas voltarão a desvendar mistérios, e somente a luz da Lua será capaz de me elevar a elas. Brilhar na profundidade bela do escuro.

E só.

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O professor Pornotube

Publicado: quarta-feira, 14 setembro - 2011 em Cultura, Filosofia
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Faz tempo li um artigo (acho que na folha teen) com esse nome. Nestas últimas semanas estamos organizando algumas oficinas sobre sexualidade para aplicar em escolas de Rio Claro e no meio das discussões, me deu vontade de falar sobre esse assunto, até por ele exprimir algumas frustrações pessoais.

Eu não sei exatamente quando começou, mas a geração recém-chegada na maioridade (e toda a cria que vem seguindo) está passando por um sério problema de educação sexual. E por educação sexual, não estou falando do campo abrangente das relações interpessoais. Estou falando de aprender a fazer sexo, direto e reto.

Falando com amigos, fui percebendo que a aflição não é exatamente pessoal, mas fato consumado. As pessoas estão abdicando de aprender pela experiência, e pior ainda: estão deixando de praticar o “sexo por instinto” (aquele que flui naturalmente e os sortudos que me lêem sabem do que estou dizendo).

É triste. Não consigo encontrar outra palavra.

E há uma multidão de garotos e garotas prestes a ser decepcionada em breve. O sexo, para muitos, não foi ou será uma descoberta natural, tampouco acompanhou ou acompanhará um rico processo de autoconhecimento.

Esse sexo “virtual” consiste em tentar mostrar tudo o que você é capaz de fazer num só encontro, provar elasticidade, aceitar praticamente tudo para não parecer caretinha, seguir uma sequência CHATA de passos para ser feliz na cama, falar disso como se fosse motivo de orgulho e o pior de tudo: o exercício da visualização. É preciso poder olhar pra si e para o(a) parceiro(a) e conseguir se imaginar num filme.

Espero ao menos que estes menininhos se entendam e consigam fazer felizes uns aos outros, já que a expectativa por parte destes também não é lá essas coisas… Mas ainda assim é triste.

Triste não pelo prazer sexual intenso que talvez não cheguem a conhecer, mas por acreditar que isso é liberdade.

Não há prisão pior do que aquela que nos faz pensar sermos livres.

E nessa enxurrada de material “didático” há muito mais de repressão do que se pode imaginar.

Se querem fazer romances clichê, que o façam. Vestimentas clichê, que as tenham. Comportamentos clichê, que os manifestem. Mas sexo clichê é uma coisa que não deveria existir, pela felicidade dos homens…

Venho falar hoje em defesa de todos aqueles que já desejaram profundamente a própria morte. Sobretudo, daqueles que a conquistaram.

Me irrita ouvir as pessoas dizendo que essas pessoas “desistiram” ou buscaram atenção. Decidir encerrar um sofrimento através de um outro grande sofrimento (mas este único) exige uma coragem que poucos homens nesta terra possuem.

O suicídio às vezes não é físico. E para aqueles que vivem no cotidiano os processos metafóricos de morte e renascimento, como eu faço, muitas vezes morrer exige tirar a própria vida. E ninguém imagina o quanto isso dói. Ninguém imagina o preço que se paga. Ninguém imagina o que é estar dentro de um caixão por tempo indeterminado, por vontade própria, por sentir uma certeza sobrenatural de que é ali que você deve estar.

Mato tudo o que há de pior em mim, mas morre todo o resto. E na aflição de perceber que o que havia de pior era justamente meu bem mais precioso, morre também meu orgulho.

Peço desculpas sinceras a todos os que tantas vezes me assistiram morrer, velaram meu corpo e me deixaram flores.

Mas há momentos em que a incompatibilidade com a realidade se torna tão gritante, que é preciso morrer.

“Dearest,
I feel certain that I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do.” (Virginia Woolf)

Aos que já sentiram a dor da morte, mas não tiveram a certeza de que era hora de morrer fisicamente, minhas condolências.

Atualizei a pstagem para recomendar o texto que o Edson Bueno de Camargo sugeriu nos comentários. Destaco o trecho com que mais me identifico, deixando clara a identificação com o texto todo:

A minha solidariedade aos que findam a si mesmos é infinita. Conheço a dor por dentro e por fora, esta de viver sem esperança o tempo todo, de ter a certeza de ter nascido no tempo e lugar errado, de ser estrangeiro em minha casa e  órfão na presença dos meus pais. A dama de negro ri de mim o tempo todo, ela não quer me levar , quer que caminhe meus passos até ao seu encontro.

Ver na íntegra.

É estranho como mesmo em fases boas da vida temos aquele momento em que as coisas soam sem muita graça. Não todas as coisas, mas algumas coisas. Especificamente, hoje minha falta de perspectiva está relacionada ao mundo do trabalho.

Infelizmente, pra nós não faz sentido pensar o trabalho fora do organismo capitalista. E para aqueles de bom coração que não conseguem ser felizes no capitalismo, o trabalho é sempre uma coisa triste. Tem seus altos, seus ganhos, proveitos, aprendizados e até pequenas realizações. Mas é impossível obter satisfação.

A começar pelo fato de que somos, geralmente, mal pagos. Você que tem um bom salário, meus parabéns, mas saiba que bons salários em nosso sistema existem às custas de muitos baixos salários. E isso ja bastaria para que eu estivesse sempre insatisfeito.

E ainda que não bastasse, entra a questão da perspectiva de ascenção, e as diferenças de salário. Definir o quanto uma pessoa trabalha a mais ou o quanto o trabalho dela é mais importate, ao menos à minha humilde mente, é algo inconcebível, com exceção, talvez, de alguns extremos.

Se o trabalho é uma função social, existe lógica em qualquer carreira “privada”? Todo e qualquer trabalho, numa sociedade, para uma sociedade, é ou ao menos deveria ser considerado uma carreira pública.

Nesta semana, resolvi xeretar o tal do Linux (o Ubuntu, no caso). Para mim, a idéia sempre soou maravilhosa e interessante, admirável em diversos aspectos, mas eu nunca tinha tido a coragem de perder a segurança que tenho com o Windows. E não tive ainda. Na verdade estava trabalhando no computador do meu namorado, tentando trocar uma versão recente do Windows para uma mais antiga e resolvemos tentar a experiência (já que a partir da versão Vista o Windows tem um poderoso sistema de “não me tire daqui”, e quem já tentou seguramente sofreu com isso).

Qual foi o meu espanto? Ao contrário do que eu imaginava, o Ubuntu não é incapaz de fazer a maioria das coisas que o Windows faz. Eu é que era incapaz de fazê-las no Ubuntu. Ainda sou um pouco, mas isso está mudando aos poucos. Não me julgo, ainda, em condições de fazer comparações de desempenho e funcionalidade. Mas me arrisco a fazer uma análise de outra natureza.

Quando queremos um Windows, temos duas opções: Pagar uma fortuna (sim, é um preço absurdo) ou apelar para a ilegalidade. Não que eu seja avesso à ilegalidade, mas a questão aqui é outra. Cedo ou tarde, temos problemas. Seja com atualizações, com versões, com restrições, com amolações ou com a própria consciência. A ilegalidade seria mais justificável se não houvessem alternativas, mas há.

O Ubuntu, Sucintamente, pelo próprio projeto:

“Ubuntu é um sistema operacional baseado em Linux desenvolvido pela comunidade”

  • O Ubuntu sempre será gratuito, e não cobrará adicionais por uma “versão enterprise” ou atualizações de segurança. Nosso melhor trabalho está disponível para todos sob as mesmas condições.
  • Uma nova versão do Ubuntu é lançada periodicamente a cada seis meses. Cada nova versão possui suporte completo, incluindo atualizações de segurança pela Canonical por pelo menos 18 meses, tudo isto gratuitamente.
  • O Ubuntu possui a melhor infraestrutura de tradução e acessibilidade que a comunidade do Software Livre tem a oferecer, tornando o Ubuntu usável por tantas pessoas quanto for possível.
  • O CD do Ubuntu possui apenas Software Livre, nós encorajamos você a usar software de código aberto, melhorá-lo e distribui-lo.

“Ubuntu é uma antiga palavra africana que significa algo como ‘Humanidade para os outros’ ou ainda ‘Sou o que sou pelo que nós somos’.”

É verdade que boa parte do conteúdo livre, nos dias de hoje, já não é tão livre assim. Mas saber que grupos, dentro ou fora de universidades, trabalham para que o mundo inteiro consiga avançar sem que alguém precise ficar rico com isso, me animou um pouco. Fiquei me perguntando por que todos nós, estudantes e/ou acadêmicos, não nos dedicamos a projetos semelhantes.

Por que, por exemplo, no lugar de tentarmos isolar genes da cana-de-açúcar e entregar isso nas mãos da empresa que financiou o projeto, não juntamos o pouco recurso que temos numa salinha simples e começamos a trabalhar de verdade por um mundo mais livre?

Eu não estou dizendo que seja fácil. Eu mesmo sofro com isso diariamente. As bolsas de fomento vindas do mercado ou das instituições que ele mantêm são sempre as mais gordinhas. E as bolsas de extensão funcionam como auxílio alimentício. Mas talvez baste ter o que comer.

Longe desse espírito decrepto de Páscoa, de um “menino santo” que morre por todos nós, não venho falar de sacrifício. Estou falando de trabalho. Carreira pública, seja ela onde for, mas posta em prática como pública, dentro do nosso possível. Um trabalho que você possa concluir e tornar acessível a qualquer um para aprimorar. Um trabalho que tenha aplicação social direta.

“Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, assegurada pelos outros, não sente intimidada que os outros sejam capazes e bons, para ele ou ela ter própria auto-confiança que vem do conhecimento que ele ou ela tem o seu próprio lugar no grande todo.” — Arcebispo Desmond Tutu em Nenhum Futuro Sem Perdão (No Future Without Forgiveness).

Toda a ciência deveria ser guiada por esse princípio. Todo o trabalho deveria ser guiado por esse princípio.

Eu não quero trabalhar por mim. Nem sou capaz. E se por um lado isso traz a frustração de não conseguir ter um plano de carreira ou projeto de vida dentro de nosso sistema financeiro, por outro me faz crer num plano de carreira para a humanidade como um todo. É assim que funciona com as espécies na natureza. Não é uma batalha de indivíduos, é uma batalha de grupos. Nosso ego imbecil, um dos “bagaços” que trazemos carregados em nossa história evolutiva, é que nos faz pensar que somos indivíduos especiais. E ainda tem gente que considera isso uma bênção…

Pois bem, que seja. Se o mais louvável dos filhos do deus cristão, dessa perspectiva, abdicou do próprio plano de carreira para que todos pudessem ter alguma melhoria em suas próprias, por que nossa sociedade, extraoficialmente cristã, não adota a prática?

Altruísmo sempre foi vantajoso no processo de seleção natural, ainda que más interpretações de Dawkins (até por ele próprio) tenham feito parecer que não.

Mas eu já escrevi demais, não queria contagiar ninguém com meu cansaço…

Ano passado adotamos uma gatinha aqui em casa, a Oprah. No fim do ano, ela teve a primeira cria: 4 filhotes. Comentei desse processo aqui. Quando voltei para Rio Claro com ela e os filhotes, poucos dias depois encontramos uma ninhada abandonada, com mais 5 gatinhos que estavam um pouco judiados (os bigodes queimados e alguns machucados). Eles acabaram vindo pra cá também.

Essa história, bem resumida, vai servir pra falar um pouco de nós, seres humanos. Animais, mamíferos, lactantes, peludinhos e de sangue quente, assim como os gatos.

Depois de alguns dias de desentendimento, a Oprah “adotou” os novos filhotes. Permitiu que eles mamassem como os outros, limpava eles como limpava os seus próprios, favorecia eles na hora de se alimentar, como se fosse realmente mãe. Por que os animais fazem isso? É difícil dizer. Eles se reconhecem inicialmente por cheiro. E durante uns dois ou três dias, ela até bateu em alguns. Os filhotes dela também não se entendiam muito com os novos filhotes (que eram um pouco menores). Mas em menos de uma semana, tratavam-se como do mesmo sangue.

Gatos têm personalidade bastante forte, gostos definidos, preferências por ambientes. E tendo 10 aqui em casa (a Oprah, os 4 filhotes dela e mais 5 da cria abandonada), isso ficou mais evidente do que sempre foi. Meu espírito de cientista não me permite não observar essas sutilezas.

Mugetsu é o nome do único macho da primeira cria. Ele cresceu mais rápido e é nitidamente maior e mais forte. Desses 4, também sempre foi o mais agitado. Talvez por ser macho (gatas costumam ser mais calmas). Ele sempre cuidou dos mais novos. Quando algum dos gatos se isolava, ele sempre tentava brincar; quando algum deles estava dormindo separado dos demais, ele tentava se aproximar. Quando percebia que algum dos menores estava com os olhos sujos, ele também limpava. E mesmo sendo grande e forte, sempre cobra atenção. E chora como um bebezinho quando se sente de lado.

As duas fêmeas brancas se chamam Blanca e Yuki. A Blanca já está na casa de uma amiga. Era a mais mal-humoradinha. Já a Yuki tem postura de matriarca. Vigia os outros gatos enquanto brincam, separa brigas, e costuma ficar mais em volta da brincadeira que dentro, como a mãe faz.

A menorzinha deles, Catatau, não acompanhou os outros no crescimento. Na última semana, dava pra ver que ela estava ainda menor que os gatos da segunda cria. A Catatau desde muito cedo era bastante inclusa. Não brincava muito, gostava de dormir sozinha e frequentemente ficava parada em locais aleatórios, como o meio da cozinha, por horas. A mãe tratava ela com um pouco de diferença. Quem ficava mais em volta dela era o Mugie (o maior).

Da segunda cria, o Frajola está morando com a Blanca, e o outro gatinho malhado que saiu ainda antes de ter nome também está na casa de uma amiga. Twix é o único macho que ficou dessa cria. É muito inquieto, me acorda com mordidas nos pés quando quer atenção, escala as pessoas com as garras, e não fica parado por 5 minutos. Mas é o mais carente de atenção, mia sempre pra chamar as pesoas, e faz um escândalo absurdo pra tomar remédios.

Totoro e Shoshanna são as mais delicadas. Têm postura de caçulinhas, ficam esperando agrados, raramente se irritam, e gostam de deitar perto da gente quando estamos deitados ou no sofá. A Shoshanna especialmente gosta de deitar no pescoço e no ombro das pessoas. E a Totoro é o típico gato de propaganda, com pelo macio, brilhante, toda cinza com as patinhas brancas e cara de “me ame, me alimente, numa me deixe”.

Até aqui pode ter parecido que estou apenas falando dos meus gatos. Mas eis o primeiro erro: tratá-los como meus. Os gatos que moraram ou moram comigo, trato todos como amigos ou irmãos, que ocupam uma mesma casa. Desenvolvo um tipo de relacionamento com cada um, tenho modos diferentes de tratá-los, assim com é com meus amigos, de fato. E é assim que eles me tratam também, na maior parte do tempo.

Hoje aconteceu uma coisa um pouco triste. Perdemos a pequena, Catatau. Ontem ela apresentou reação a uma superdosagem de vermífugo (tomem MUITO cuidado na escolha de seus veterinários!), e como eu já tinha acompanhado isso com outros filhotes, já esperava o pior. Durante a madrugada, ela foi perdendo um pouco a reação, e parou de comer e brincar. Só ficava parada e respirava mal. Tentei fazê-la comer ou ingerir leite, mas com pouco sucesso. Deixei ela no meu colo o tempo que consegui, pra mantê-la quente. O Mugie ficava em volta o tempo todo, lambia ela constantemente e deitava do lado. Ele sabia que ela não estava bem.

Próximo das 6 da manhã, ela desceu do meu colo e se deitou no sofá. Os outros gatos, todos, se deitaram em volta dela.Quando percebi que estaria quentinha, fui dormir. Acordei as 11 da manhã com um dos amigos que mora comigo me chamando. Ele me despertou de um pesadelo onde eu conversava com a menina que seria a futura dona da Catatau e explicava pra ela que a gata não iria mais com ela. Enquanto eu sonhava com isso, a pequena estava dando o último suspiro.

Ainda não consegui enterrá-la, pois só terei acesso às ferramentas amanhã. Mas vou fazer. O curioso foi o que aconteceu hoje. E que na verdade é a parte importante deste relato, mas que só faz sentido após dizer tudo isso.

Eu tenho uma relação com a morte muito particular. Eu não costumo chorar, nem lamentar. Talvez por ter perdido pessoas muito próximas e importantes, eu tenha entendido que faz parte da vida. Embrulhei a gatinha com naturalidade de modo que ficase protegida até amanhã e guardei numa caixinha. E depois de algumas horas, essa casa se tranformou num inferno psicológico que me faria refletir sobre minha própria condição…

Passei o dia sozinho, e ainda estou. Entre 3 da tarde umas 10 da noite, a Oprah miava sem parar procurando a filhote. E os outros gatos estavam mais carente que o normal, miando muito e indo atrás de mim onde eu fosse. O Mugie especialmente chorou bastante. Saía sozinho para o quintal e miava, miava pelos cômodos da casa. O Twix não podia me perder de vista e começava a miar de medo. E a Yuki, embora quieta como de costume, ficou perto de mim o dia todo, fosse no meu colo ou sentada do lado. Me transmitindo uma tranquilidade que, não fosse por ela, talvez estivesse eu miando também pelo quintal.

Mais ou menos meia hora atrás, esses miados todos me comoveram. E eu já não entendia mais como eu podia estar tão indiferente a tudo isso. Sentei no chão e comecei a chorar. Em minutos, estavam todos em volta de mim, com um miadinho choroso que eu não estava acostumado a ouvir. E ali ficamos chorando por um tempinho. Menos a Yuki, que ficou no meu colo quieta, transmitindo calma de um jeito que só gatos fazem (às vezes eu acho que aprendi com eles). E a Oprah, que estava sozinha miando no quintal.

E passou. Agora estamos num silêncio confortante.

Para alguns de vocês isso pode ter sido apenas minha leitura ingênua. Eu humanizando as relações dos gatos.

Mas a ingenuidade, saibam, está em vocês.

Eu não humanizo estes gatos. Eles é que me animalizam.

Nessas criautras que tantas vezes julgamos sujas, traiçoeiras, fedidas, ou nos piores casos dizemos ter “parte com o demônio”… Nessas criaturas há muito mais de solidariedade do que jamais haverá em nós.

Eu nunca chorei num velório. Mas hoje abri uma exceção, por eles.

O verdadeiro problema…

Publicado: quarta-feira, 12 janeiro - 2011 em Não sei
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[Esse é um daqueles posts confessionais, emotivos, rasgados e inconsequentes que estão pouco se fodendo se serão lidos, digeridos ou admirados. Fica o aviso.]

Ando de saco cheio de ouvir amigos (ou não ouvir, porque alguns hesitam em falar diretamente) dizendo “mas ainda nisso?” ou “mas ainda não superou?”. Não, não superei. Mas vou dizer qual é o verdadeiro problema, pois a maioria das pessoas custa a entender algumas dores que eu sinto, julgando serem parecidas com as que elas já sentiram ou sentem.

Dor de corno é uma coisa que dói bastante. Quem já foi traído por alguém que amava muito sabe disso. Mas dor de corno é uma coisa que passa, sobretudo à medida em que passa o amor. Durante algum tempo você ainda vai dizer que ama, que sente falta, mas é apenas pelo costume. E no fundo você sabe. Demora a admitir que é o sexo que faz mais falta, porque isso vai fazer você se sentir baixo. Mas convenhamos: dor de corno passa.

Contarei uma breve história sobre o modo como eu vivi e vivo minha vida.

Na adolescência, eu era aquele garotinho de coração de pedra. Aquele que não se apaixona, que evita sentimentos fortes, que foge dos envolvimentos, porque o amor é uma coisa que só pode te machucar. Não sei com quem ou onde eu aprendi que era assim, mas pra mim era verdade. E foi assim durante bastante tempo, fugindo de muita gente que poderia, eu nunca saberei, ter me ensinado muita coisa interessante.

Aí um dia, por algum caralho de asas do destino, você decide que não precisa ser assim. Porque você encontra alguém que sonha com você – e isso nunca tinha acontecido. Pela primeira vez você acha que pode dividir seus sonhos com alguém. Você planeja futuro, você planeja uma vida a dois, você começa a pensar do que vale a apena abrir mão para ter alguém que anda de mãos dadas com você. E isso não é ruim. Para muitos, é justamente o caminho para a felicidade.

E de repente um jovenzinho que achava que ter filhos era egoísmo no cenário capitalista, que ter uma casa era sedimentar a crueldade da propriedade privada, que planejar carreira era fechar os olhos para tantos futuros possíveis… Esse jovenzinho acha que vale a pena abrir mão de tudo isso pra dividir seus sonhos com alguém.

E BANG!

Eu não fui simplesmente traído pelo amor que eu mais amei. Eu fui traído pelo amigo em que eu mais confiei.

É isso que dói.

Dói, e faz você ter medo de dividir seus sonhos com quem quer que seja novamente. Faz você perder a fé, a força de vontade, o crédito nas pessoas… Faz você ver seus valores e de tanta gente, todos de cabeça pra baixo. Faz você pensar que você, no lugar dessa ou daquela pessoa, teria tido outra atitude.

E amizades vêm sempre em ciclos… E ciclos se abalam com essas coisas. E você não será o único que não saberá o que fazer. Talvez ninguém saiba. E por não saber, talvez ninguém faça. E quando alguém sair do torpor, talvez já seja tarde demais pra consertar algumas coisas.

Tudo em função de caprichos de vaidade de alguém que um dia, você também achou bonito. E se esforçou em dizer que era belo, mesmo quando não achava.

Mas essa gente se vicia e não sabe a hora de parar.

Não elogie demais seus filhos.

A vingança e a didática

Publicado: segunda-feira, 8 novembro - 2010 em Filosofia
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Andei passando por períodos de surto. O que não é de se estranhar, porque eu sou uma pessoa que surta com facilidade. O desafio dos sensíveis, costumo dizer…

Não apenas sensíveis no sentido amoroso. Sensíveis aos problemas do próximo, às dores do mundo, às coisas erradas à nossa volta.

As pessoas sensíveis também costumam evitar a vingança, porque ela dói quando é praticada. Vingar-se é tentar inutilmente devolver uma dor que é sua, não do outro. E aí até conseguimos ferir, mas nos ferimos juntos.

No entanto, eu tenho um termo particular, que alguns consideram hipócrita, mas eu não ligo. Chamo de “vingança didática”.

É um tipo estranho de vingança pensada, dessas que faz a pessoa sentir exatamente aquilo que você sentiu. E isso não deixa de ser mesquinho como outra vingança qualquer, mas em alguns momentos é um direito. A vingança didática se difere das outras porque ela não tem a intenção crua de machucar. Ela tem a intenção de ensinar ao outro o que é ter a dor que você estar tendo, pra ver se ele para de provocá-la.

Ninguém é de ferro. Nenhum coração é de pedra. A diferença é que algumas pessoas tem um coração cego.

E se esses corações não são capazes de olhar pra mim e perceber que causam sofrimento, então eu os farei sentir pelo tato.

O meu coração se esmaga sozinho só de olhar, só de ouvir. Por isso eu tendo a ser compreensivo, por isso eu sou uma pessoa sensível. Ninguém precisaria esmagá-lo intencionalmente, e ainda assim o fazem.

Mas se não são capazes de enxergar a dor quando esmagam meu coração, eu terei de esmagar de volta.

Quem sabe assim eles abram os olhos…

Entender é avesso a culpar

Publicado: quinta-feira, 21 outubro - 2010 em Filosofia
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A mensagem de hoje é curta, e vai parecer um desses pensamentos de livros de autoajuda. Mas eu não ligo.

Já pararam pra pensar em quantas coisas em nossa vida dão errado? E em como nossa primeira atitude é culpar alguém por isso (seja outro, seja a nós mesmos)? E, também, como passado um certo tempo passamos a ver as coisas de modo diferente e entendemos que ou não era a hora, ou não tinha jeito, ou foi um conjunto de fatores tão complexos que o termo “culpa” se torna injusto e imaturo?

Eu tenho pensado bastante nisso.

Primeiro, em que não podemos ter tudo na vida. Segundo, em que não podemos “consertar” ninguém que não a nós mesmos. E terceiro, mas importante: Quando nos esforçamos pra entender os vários lados de uma situação, vemos que não depende só de uma pessoa em questão, mas de várias coisas que a tangem, e que não estão sob seu controle, nem dela. Responsabilidade, em algum grau, temos todos. Seja o que está atrás do gatilho ou à frente. Mas culpa… Culpa não.

Quando entendemos porque as coisas deram errado, e entendemos de verdade, percebemos que a raiva que sentíamos ou a inconformidade com os fatos vai se transformando numa estranha solidariedade.

Talvez isso seja uma grande bobagem, ou eu seja tolerante demais.

Mas minha tendência é achar que estou amadurecendo no caminho oposto ao dos velhos rabugentos.

Mens sana in corpore sano

Publicado: sábado, 11 setembro - 2010 em Filosofia, Política
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No cotidiano escolar (tanto como estudante como pofessor) eu tive bastante contato com a “neurose do corpo”. Ninguém está satisfeito. Nunca. Ou quer emgrecer, ou ganhar massa, ou ser mais alto, ou mais isso ou aquilo. Para algumas pessoas isso pode parecer um fenômeno normal, mas não é pra mim.

Esse tipo de coisa me entristece de um jeito bastante estranho. Eu lutei durante uns bons anos da minha vida pra conseguir me aceitar, e sei que é um processo muito dolorido. Entre vômitos e academia, também tive uma fase trevosa de querer matar o espelho. A maioria dos meus amigos já passou por isso.

Essa “encanação” das aparências é uma das coisas que mais me fez e ainda faz pensar. Alguns dos meus amigos se transformaram em outras pessoas por transformação dos corpos,na busca de um padrão. E se alguns podem pensar “Ah, mas ele mudou só a aparência”, eu discordo radicalmente. Nesse processo de construir-se fisicamente, eu observo uma destruição de boa parte do “eu”.

Não que todo exercício seja ruim, nem que emagrecer seja um crime. Mas qual é o verdadeiro objetivo por trás da mudança? “Sentir-se bem” é o mais comum de se ouvir. Mas o que é sentir-se bem? Estar em paz com o padrão que a sociedade te cobra?

O que há de mais lindo na vida é a diversidade. Sem diversidade, a vida é condenada. E a beleza também. Ando cansado dessas paixões robóticas, atrações fatais pelo perfeito.

Eu aprendi a me amar assim. Magrelinho como sou. Meio torto, constantemente rabiscadinho, com roupas que muitas vezes não possuem sentido estético algum. Sentir-se bem, pra mim, é atingir uma estabilidade onde você come, se diverte, bebe e faz o que tem vontade sem sofrer com isso…

Mas esse estágio não é atingido dentro de templos da imagem (popularmente conhecidos como academias). Ele é algo que deve ser conquistado dentro de nossas cabeças.

Essa busca frenética de “saúde” é uma pandemia grave que se alastra a cada dia. E cabe a cada um se vacinar.

Tristeza não tem fim, felicidade sim

Publicado: segunda-feira, 2 agosto - 2010 em Literatura
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Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

(…)

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

(…)

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

[A Felicidade – Tom Jobim e Vinicius de Moraes]