Posts com Tag ‘sentimentos’

Este é o primeiro guest post que eu coloco no blog. E espero que venham outros. Em outra ocasião eu divago sobre isso. O texto a seguir é do Lucas Vitorino, um compa que eu esbarrei por aí sem querer e que me deu novas noções de respeito. E que vai ter as portas do blog abertas pra escrever sempre que quiser.

maenegraUma heroína me salvou dessa droga de vida.

Em meio aos prantos, quieto, um pouco mais confortável e mais feliz em relação ao passado, mais precisamente quando tinha entre 7 e 10 anos, eu escrevo algo que provavelmente provém de toda energia das matrizes matriarcais africanas.

Homens cis héteros quando crescem tendem a relacionar seu pai como a sua primeira figura de inspiração e de representatividade, mas no terceiro mundo, no abismo periférico, o cenário muda um pouco:

Filho de mãe negra agredida sua vida toda por um homem branco, alguém já viu esse filme antes? Eu já! E ele era uma reprise constante em meio a uma rotina massante que era viver na favela.

Que figura heroica era essa? Que agredia, que silenciava? Que figura heroica era essa que tinha sede por sangue, que transpirava raiva e inspirava uma falta de humanização tremenda? Eu não sei. Eu estava confuso. Eu não tinha nenhuma referência de herói paterna internalizada em mim, minha heroína mesmo foi quem me abraçava em meio aos prantos para me confortar e dizer que estava tudo bem, apesar de serem visível os hematomas no seu corpo e em sua alma. Minha heroína mesmo foi quem fez bonecas Abayomis de felicidade com o pouco de força e de racionalidade que lhe restava, a verdadeira provedora foi que me trouxe afeto, carinho, foi quem me trouxe barcos de esperança em meio a um mar vazio de dores e de angústias, foi quem desde cedo olhava em meus olhos e dizia:

“Por favor, não seja assim. Você pode ser diferente, eu acredito em você.”

Pessoas heroínas estão por aí, são invisibilizadas, mas isso não significa que elas não existam. Pessoas heroínas estão por ai, tentando serem vistas e ouvidas. Pessoas heroínas, que são consideradas como uma droga para essa sociedade opressora, estão por ai gritando a todos os cantos:

“Parem de falar de amor, dos bons costumes, da família tradicional. Vocês são mesquinhos, egoístas, soberbos, já estão mortos. Pois quem segrega, morre. Quem invisibiliza, morre. E é totalmente incompreensível falar de amor e a preservação do mesmo, já que você é aquele que mata, já que você é aquele que agride.”

Pessoas heroínas estão por aí,vestindo suas mascaras como disfarce de sua verdadeira identidade para tentar sobreviver.

Pessoas heroínas estão por aí, resistindo, sangrando, mas ainda assim caminhando.

Pessoas heroínas, dentre elas, minha mãe! Que me subverteu, me reeducou, me trouxe para o outro lado da trincheira, o lado real da dor, dos oprimidos, de quem realmente sofre e de quem realmente merece ser reconhecido e proclamado como pessoa heroína. E foi assim:

Com toda sua ginga, me ensinou que tenho que me movimentar contra qualquer tipo de opressão.

Com sua capoeira, me ensinou que eu preciso lutar, dia após dia, incansavelmente….

Com sua mandinga, me subverteu, fez o impossível, o audacioso, me colocou como contra ponto rebelde e caótico ao mundo dos opressores.

Com sua coroa de raiz nagô, me lembrou da importância de saber que sim, que nossa história é linda, que preciso olhar sempre pra trás para poder seguir em frente, que preciso ouvir, principalmente, quem era pra estar usando a mesma coroa e não colecionando cicatrizes.

Pessoas heroínas são aquelas esquecidas, marginalizadas, oprimidas e que ainda sim, trilham e compõe uma história linda de resistência. Pessoas heroínas estão gritando nesse exato momento, um grito de existência, de persistência e de esperança.

Para o outro lado da trincheira, para quem promove guerras, sangue e carnificina; para quem oprime, para quem segrega, eu reforço os gritos dizendo:

Sim! Uma heroína me salvou dessa droga de vida.

O Lucas está desenvolvendo uma HQ junto com dois amigos baseada nesse texto. Vamos esperar enquanto eles desenvolvem. O trabalho é uma parceria dois amigos:

Matheus Pintor é estudante de História, escritor e desenhista nas horas vagas. Atualmente preso entre Rio-São Paulo, sendo confundido como mineiro em ambos os estados. Nunca foi pra Minas. E sim, é Pintor mesmo, tipo o de parede.

Ícaro Maciel é desenhista, quadrinista e acadêmico de design gráfico na ULBRA. A partir 1998 fez diversos cursos com Daniel HDR aperfeiçoando seu traço e já publicou na Revista TexBR, atualmente está produzindo uma HQ para a Revista do Peryc de Denilson Reis, com o qual tem colaborado, ilustrando fanzines como o Quadrante Sul. Participou de um projeto que envolve charges para uma promoção cultural do ENADE.

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Faz várias luas que não escrevo nada aqui, mas me deu vontade de escrever, e prefiro que seja aqui mesmo. De repente eu reanimo esse espaço.

Quando eu era criança, lá pelos 5 anos, eu queria ser “cientista maluco”. Na minha cabeça, isso era uma profissão. Eu ficava brincando com os produtos de limpeza, tinta, óleo, vinagre, tudo em potinhos de iogurte que ficavam vazios. A escada do quintal era meu laboratório, cada degrau uma prateleira cheia de “experiências”, invenções que sempre que eu acreditava terem funcionado corria pra mostrar pra minha avó. Observava as formigas e, não me orgulho disso, enchia os formigueiros com água da mangueira, ou perseguia elas com uma lupa. Não era bem crueldade, mas uma sensibilidade que ainda não tinha se desenvolvido. Quando escurecia eu ficava olhando o céu e pensando o que havia naquelas estrelas, se tinha alguém olhando de volta, se as pessoas que morriam iam pra alguma delas, ou várias. E nas minhas orações eu pedia pra que Deus me desse uma nave espacial. Depois corria pra olhar pela janela e ela nunca estava lá. Às vezes eu sonhava com essas viagens, grandes laboratórios, monstros que eu fazia sem querer e corriam atrás de mim. E quando ia pra chácara com meus avós eu perguntava tudo. Queria saber o nome das plantas, porque algumas davam fruta e outras não, enfim… Eu enchia o saco de qualquer adulto com essas perguntas. Há quem diga que eu fui uma criança esquista, mas acredito que eu era bem saudável.

Cresci. Meu sonho passou a ser escritor. Adolescente ainda eu ensaiava livros, escrevia dezenas de páginas, depois achava ruim e apagava tudo. Tentei fazer quadrinhos, também não gostava e jogava fora. Poesias que depois de uns meses me cansavam e eu queimava. Uma porção de coisas que fisicamente se perdeu, mas de que eu ainda me lembro razoavelmente bem.

Nunca publiquei um livro, nem consegui me formar num curso de biologia que já se arrasta por vários anos. Não por falta de capacidade, mas de conformidade. Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido. E assim como livros largados pela metade, já se foram alguns TCCs e algumas disciplinas. Vou trabalhando como dá, numa luta por independência que também não se completou e eu nem sei quando vai se completar.

Mas o ponto aqui não é a conclusão de nada. Estava no quintal olhando para o céu noturno, da mesma forma como fazia aos cinco anos, e pensando muitas coisas que eu já pensava naquela época.

A ciência que eu faço, assim como a escrita que eu faço, raramente me dá dinheiro. Mas elas me dão prazer, e eu sinto que elas contribuem para alguém. Quando eu decidi ser articulista voluntário sem assinatura, produzindo para livre distribuição, não foi por falta de opção, mas por convicção. E eu não ganho atualmente nenhum centavo de editoras e direitos autorais (como a maioria dos escritores…), mas, puta merda, como eu escrevo! E felizmente eu consigo atingir muitas pessoas, interagir com elas, ensinar e aprender, emancipar.

Não vai ser um pedaço de papel ou um carimbo social que determinarão quem eu sou ou o que eu faço. Se eu faço ciência, sou cientista. Se eu escrevo, sou escritor. E seu julgamento sobre isso honestamente não me interessa. Me interessa investigar e escrever, obrigado.

E esse, como vários outros textos, não tem a pretensão de convencer ninguém de nada, nem de me afirmar para um grupo ou buscar legitimação. É apenas mais uma daquelas coisas que a gente faz só pra que outras pessoas saibam que não estão sozinhas, para que outras saibam que existem outros caminhos, e tantos outros além do tradicional e do meu.

Faço isso porque essas coisas, essas que as pessoas fazem pra que a gente saiba que não está sozinho, sempre foram muito importantes pra mim. Pra eu saber que não estou sozinho.

Vai ver essa é a concepção moderna de uma comunidade anarquista. Eu ainda vou precisar batalhar, e muito, pra sobreviver num sistema de merda. Mas o que eu puder fazer pra encurtar o tempo de vida desse sistema, vou fazer.

Aos anarcos, piratas, esquerdinhas, anônimos e libertários do meu convívio, meu sincero agradecimento. Somos um.

Sobre a Rabugice

Publicado: quarta-feira, 6 novembro - 2013 em Cultura, Filosofia
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Decidi tirar a poeira disso e voltar a escrever.  O Facebook me deixou mal acostumado e como estou querendo sair de lá, resolvi falar de um dos principais motivos: a rabugice.

A rabugice não é um defeito. Ela é uma característica com suas vantagens e desvantagens.

Ela é diferente da arrogância, porque não é “afetada” apenas por ser. O amargo da rabugice não é de ruindade ou superioridade, é o cansaço de um peso que se carrega, geralmente por escolha.

E justamente por isso o rabugento é assim. Ele sabe que escolheu, é o preço que ele quis pagar, mas isso não torna as coisas doces. E ele não sente a obrigação de sorrir satisfeito apenas porque fez como quis.

Ela difere da inveja, também, porque ela não se incomoda com a felicidade alheia. Ela se cansa; é diferente. Sabe aquela felicidade a qualquer preço? De gente que luta pra ser feliz? Então, pra um rabugento, só olhar essa felicidade já cansa.

O rabugento não quer ser feliz como você. Ele só não consegue entender porque ainda tem gente que batalha pra ser feliz quando isso não é uma demanda pessoal. Ser feliz pra mostrar pra alguém que se está feliz é algo como dizer que tem orgulho de ser explorado.

Ainda, a rabugice não se assemelha ao ser “mal comido(a)”. Na verdade, a maioria dos rabugentos que eu conheço estão comendo ou sendo comidos muito bem. É uma bobagem achar que o mau humor está necessariamente ligado à falta de sexo ou que o bom humor está ligado ao excesso.

Na verdade, o rabugento “caga e anda” pra essa ideia de “bom humor”. Porque o “mau humor”, pra ele, é bom. Isso não significa que ele não vá dar risada, que não vai se divertir, que não gosta de estar com amigos. Significa apenas que ele não sente a menor obrigação de forçar uma emoção pra cumprir uma expectativa social.

Que cada um fale por si, claro, mas minha rabugice é uma questão de liberdade também. Porque eu não quero sorrir e dizer “tudo bem” quando não estiver tudo bem. Porque eu não quero falar que a vida está boa enquanto tem gente morrendo de fome ou por pensar livremente. Eu não quero estar tranquilo com isso. Eu não gosto de natal, dia das mães, dia dos namorados, e todas essas outras datas dedicadas a uma emoção/sentimento, porque não faz sentido ter um dia pra sentir uma coisa.

E se bem no dia das mãe você estiver com ódio da sua? Nos outros 364 dias você pode ser o filho mais amoroso do mundo, mas isso, pros outros, vai indicar que você é rancoroso, insensível… Mas pera, quem é o insensível aqui? Quem é que está te obrigando a esconder o que você está sentindo?

O mesmo vale pra aniversários. A maioria dos meus amigos felizmente já se acostumou a não receber o parabéns… “Parabéns por ter sobrevivido mais 365 dias”… “Parabéns porque a Terra deu mais um giro inteiro em torno do Sol desde que você nasceu, independente de qualquer esforço seu”. É assim que soa pra mim. E isso não quer dizer que eu goste menos de ninguém!

Dias depois, às vezes eu mando uma mensagem desejando felicidade ou falando de coisas que eu penso da pessoa. Mas sem compromisso de ser num dia X, porque se ela for pensar que eu “esqueci” dela apenas por isso, eu honestamente quero mais é que ela chore sangue…

Estão vendo? Isso é a rabugice… E eu já cansei de ficar explicando. Vão tomar no cu! rs

Que fique uma mensagem final. Rabugentos não são necessariamente invejosos, insensíveis, rancorosos, arrogantes, ou a porra que for. Eles só colocam a sinceridade acima de tudo isso. Acima deles mesmos. E acima de você também.

E todo mundo deveria ser assim.

Conversando com estrelas

Publicado: quinta-feira, 28 março - 2013 em Cultura, Filosofia
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Às vezes eu preciso conversar com o céu. Contar coisas pra ele que eu não conto pra ninguém, perguntar coisas que ninguém me responderia.

Pra uns, nunca vai passar de um monólogo esquizofrênico, mas não dou a mínima. Hoje eu resolvi ir pro quintal, apagar as luzes e deixar a Lua cheia contar suas histórias. Ela certamente já mais acostumada que eu com toda essa porcaria que é o mundo. Mesmo assim, a danada brilha com uma intensidade…

Os mais chatos e céticos vão dizer “ah, a Lua não brilha”. Mas, justamente por isso, são chatos.

Sentei, olhei pra cima de relance e vi o rabo do Escorpião. E pronto, entendi. É isso… Às vezes as coisas são assim, e não adianta eu tentar explicar isso aqui, vocês teriam que ir pros seus quintais e olharem pro rabo do escorpião pra ver a mesma coisa que eu vi.

Não é diferente quando nos olhamos nos olhos e simplesmente enxergamos tudo o que tinha que ser dito e não é. Sufoca um pouco, mas liberta. Estamos tão acostumados à fala que essas comunicações subjetivas descem como fumaça quente pela garganta.

Engasga, até…

Mas às vezes as coisas simplesmente são assim.

Existe, no fim, um bom motivo pra serem assim? O rabo do escorpião me disse que não. E acho que ele entende melhor disso que eu. Respeitei.

Gosto de olhar pro céu, porque me ajuda a lembrar que eu sou, inteiro, um universo. E todo mundo é. E na nossa arrogância de tentarmos entender as pessoas, ainda temos aquele pensamento medíocre que de gira tudo ao nosso redor, que o centro de gravidade da nossa vida é nosso “eu”. E definitivamente não é… Não existe esse centro. Existe uma grade bagunça, uma dança cósmica onde, no fim, “culpa” é uma palavra burra.

E o sentido que tem o castigo, dessa perspectiva, é o mesmo sentido que tem fazer-se de vítima. Nenhum.

“Espera e olha, porque é poeira de estrela. Um forasteiro, sempre, mesmo em terra natal. Uma vida sempre pela metade, uma corrida sem linha de chegada, uma subida em espiral que às vezes está mais perto do início que do meio, mesmo tendo percorrido tanto.”

Assustei com os coleguinhas que chegaram de repente e pararam na minha frente, e naturalmente eu não percebi, porque estava em outra dimensão só minha. Não deu tempo do céu terminar de falar, mas acho que entendi o espírito da mensagem.

Eles trouxeram uma garrafa da vinho, e talvez o fim da mensagem seja essa. Então, que assim seja. Amém.

Amanhã eu continuo essa conversa estranha com o céu.

Ouriços no estômago

Publicado: sexta-feira, 22 março - 2013 em Cultura, Filosofia, Política
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Às vezes parece que eu vou vomitar um ouriço.

[Esse é um daqueles posts que não vai te deixar animado. Se estiver mal, talvez seja melhor não ler.]

Não que algum dia eu tenha vivido num ambiente confortável. Minha natureza anacrônica e alienígena nunca permitiu. Queria lembrar como é estar num útero pra poder ter essa certeza. Mas a essa altura, já é irrelevante.

Também nunca vi felicidade como obrigação, nunca fiz questão de sorrisos, e não acho que essa é a chave pra uma vida melhor. Mas porra… Quando você sente que o meio do mato, longe de tudo (ou quase tudo, ao menos) é o único lugar onde vai conseguir respirar em paz… Sei lá, as agulhinhas dos ouriços incomodam um pouco mais em dias assim.

Estou num momento da vida em que eu não analiso mais as pessoas pelas posturas que tem, pelas convicções, crenças ou orientações políticas. Já não faz mais tanto sentido. Meu critério é a capacidade delas serem sensíveis.

Dizem que pra você ser feliz e estar bem consigo mesmo, você precisa ignorar as expectativas do mundo meritocrático, ignorar os padrões de beleza, ignorar as relações históricas de poder de alguns grupos sobre outros, enfim… É fácil estar acima de tudo isso por dentro, mas em ambientes sociais, não tem como.

A gente tem que escolher um lado, e a partir do dia em que eu escolhi o lado mais fraco (e essa escolha foi completamente consciente) eu comecei a chorar. Não porque fiquei triste, nem porque a vida ficou mais difícil (embora ambos sejam verdade), mas porque eu comecei a me dar conta de todo esse sofrimento, e o assumi como meu.

Muitos dos meus amigos, creio que com boas intenções, me dizem que eu tenho que colocar isso de lado pra conseguir “seguir a vida”. E quando eu falo “não consigo”, dizem que eu tenho que me esforçar mais. Pois então que seja, não é questão de não conseguir. Eu sequer me esforço.

EU NÃO QUERO.

Eu não quero conseguir dormir sabendo que tem gente tacando fogo em favelas e jogando spray de pimenta em cara de criança, em mulher com bebê de colo, jogando granadas em jornalistas, só pra deixar um lugar mais bonitinho pra copa do mundo.

Eu não quero conseguir me concentrar pra escrever um TCC enquanto tem gente sem ter o que comer porque existe um complexo econômico que controla a produção e venda de alimentos no mundo.

Eu não quero deixar a vida pessoal pra fora do meu ambiente de trabalho enquanto homossexuais são espancados, transexuais são apedrejadas, mulheres apanham de maridos, meninas e meninos sofrem porque seus corpos não se adequam a um padrão.

A única coisa que eu quero agora é vomitar esses ouriços. Tirar cada espinho e enfiar nos olhos de cada desgraçado que finge que não vê.

Eu não sou depressivo. Eu não preciso de remédios. Eu não quero me tratar.

Eu sou um ser humano que aceita a própria natureza, visceralmente.

Eu preciso de mais seres humanos assim, vomitando ouriços.

E eu quero que quem guarda tudo isso numa caixinha e esconde em cima do guarda-roupas sofra o suficiente pra abrir a caixa e perceber que é tão humano quanto aqueles que estão sendo pisoteados nesse exato momento.

Carta de um leopardo a Dionísio

Publicado: quarta-feira, 30 janeiro - 2013 em Uncategorized
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Entre savanas e florestas, caçadas e descansos, o que permanece é o hábito de correr.

Porque aquilo que é hábito, não muda. E cada um de nós possui sua natureza. Eu sou um leopardo. Territorial, agressivo, orgulhoso. E meu sangue é fúria.

Porque eu não consigo me adaptar a um rebanho. Porque meus sonhos vão além do desejo coletivo. Porque minha fome não é saciável por pastos.

Porque eu aprendi que morrer nunca é pra sempre.

E hoje eu olhei nos seus olhos, pai, e você me ofereceu tudo aquilo que eu precisava. Amor intenso e verdadeiro. Amor louco, insano, descontrolado, único… E meu. Só meu.

Amor suficiente pra cruzar um oriente, pra perder-me em oceanos, pra ir ao Hades e voltar.

E que pra você é algo tão simples… Mas tão difícil de conquistar.

Aprendi, sob o preço de cortar os pés descalços, que fiz o certo. Que não se entrega sua loucura a quem tem medo do escuro. Deixe a luz para os que gostam de viver na luz. Eu aprendi a enxergar foi no escuro do inverno.

E num mundo de dor e sofrimento, onde a cada esquina há corações dilacerados, me sinto grato. Grato em dor, grato em sofrimento, grato em desespero… Grato por estar, eu, por inteiro, dilacerado. Mas me resta o coração. E é só disso que eu preciso.

Cubro a face das tempestades de areia e respiro fundo ao encarar o deserto. Pois além dele, talvez, haja espaço para um amor insano, desses que não cabe no padrão dos homens, desses que o teatro e os livros não são capazes de padronizar, desses que não aprendemos nas histórias que nos contam.

Um amor desses que inventamos. A mais bela obra em minha criação. Um coração, e tão somente um coração.

É hora de correr.

Correr num deserto onde o acaso é a ordem, onde a sua perdição dá sentido às pequenas desarrumações dos grãos de areia. E na noite silenciosa do deserto, não há necessidade em ouvir-te, pois sinto.

Na paisagem noturna,as estrelas voltarão a desvendar mistérios, e somente a luz da Lua será capaz de me elevar a elas. Brilhar na profundidade bela do escuro, e só.

E não importa que eu não possa ver, se puder visto e curado.

E na paisagem noturna,as estrelas voltarão a desvendar mistérios, e somente a luz da Lua será capaz de me elevar a elas. Brilhar na profundidade bela do escuro.

E só.

Ano passado fiz uma postagem no dia do rock onde falava que o rock’n’roll, pra mim, é justamente o grito. Esse ano vou falar de outro aspecto.

Se alguém quiser, veja aqui.

Não precisa ser nada único pra contaminar as linhas do tempo do facebook ou do twitter. Mas ao contrário das finais de campeonato de futebol ou MMA, logo o estilo de música visto como o mais “pesado” está promovendo o bom e velho “paz e amor”.

O que eu gosto do conceito de “paz e amor” é que paz sozinha corre o risco de ser mal interpretada, vista como comodismo, adequação. Amor é um processo ativo que exige movimento e transformação. Faz bem aos dois andarem juntos.

O rock’n’roll tem uma história confusa, mas o fato é que foi preciso uma guerra para que as pessoas parassem e prestassem atenção no que a população marginalizada, em sua maioria negros, estavam fazendo. E acho que é assim que a maioria das pessoas encontra o rock’n’roll. Você está na merda, aí olha outro alguém, que também está fodido, e ele está ouvindo uma música que mexe com você.

Tendo origem no blues, é natural que o motor tenha gosto amargo. O primeiro motivo pra gritar estava ali. Com as guitarras elétricas e o som mais forte, surgiu o segundo motivo. A essa altura já não tinha como voltar atrás.

O rock quebrou paradigmas físicos da dança. Você não precisaria mais se comportar e fazer os passinhos que sua mãe fazia. A sexualidade da dança passou a ser escancarada, transparente. E assim também a sexualidade das pessoas. E a contravenção estava longe de parar aí. Nao se cantava apenas das mulheres princesas, mas também das mulheres selvagens.

Anos depois, a psicodelia deu o ingrediente que faltava. Questionar a sociedade era pouco. Questionar o próprio corpo era pouco. Era preciso questionar a realidade, o “ser”. Acredito que uma porção do rock se perdeu nesse processo e deve estar num lugar bem melhor que o nosso. O rock conectou modos de pensar ocidental e oriental, deixou claro pra sociedade conservadora que a música tinha mais poder de união do que as armas.

O rock não mudou o mundo completamente. A primeira figura de pelvis rebolante a conquistar o olhar mundial tinha pele branca. Mas o rock abriu essa portas, trouxe à tona também o soul, o jazz e o R&B que estavam escondidos em bares emaconhados de vagabundos (e devemos quase tudo isso a esses “vagabundos”).

Depois se misturou com a música country, o que parecia impossível acontecer. E se por um lado hoje temos rock’n’roll conservador, temos conservadores que ouvem rock’n’roll, arte que saiu dos povos que eles mesmos oprimiram por tanto tempo. Dá pra comparar essa explosão artística ao Big Bang, com migalhas de rock’n’roll se espalhando por aí e virando de tudo, música negra religiosa, baladinhas de rancho, viagens psicodélicas intermináveis, guitarras quebradas no chão ou pegando fogo, e até menininhos arrumados na Inglaterra. Aí o rock progressivo mostrou que dava pra ser vários rocks em um só.

A ameaça do sonho acabando pode ter deixado o Flower Power fora de cena por conta de um ou outro escândalo, as campanhas contra as drogas, os fanáticos religiosos. Mas não deu tempo do rock morrer e já estavam nascendo os rockeiros emplumados do hard rock e a molecada brava do punk. E na sequência, a necessidade de um grito mais alto fez nascer o metal, um grito mais cansado e rabugento e nasceu o grunge. E nunca mais parou.

O movimento gay, o movimento feminista, o movimento negro, o movimento estudantil e tantos outros movimentos por onde os jovens se espalham devem muito ao rock’n’roll, porque ele sempre esteve ali, porque ele sempre foi, por si só, uma manifestação de contravensão.

Até mesmo o lado podre da história, os festivais multimilionários, a grande indústria da música, também só cresceram por pegar carona numa onda que era independente disso.

Rockabilly, country rock, high-school rock, classic rock, rock psicodélico, rock progressivo, surf music, ópera rock, garage rock, hard rock, glam rock, punk, hair, new wave, heavy metal, thrash metal, black metal, death metal, gótico, hardcore, rock brasileiro, britpop, grunge, funk metal, metal melódico, indie, new metal, post punk… E até a porcaria do pop-rock com seus filhinhos tristes e coloridos.

Todos são espaço de contracultura. E é  justamente por isso que desagradam. Ninguém gosta de qualquer rock. Mas todo mundo gosta de algum.

Até minha avó evangélica gosta de ACDC.

E vou fechar com uma frase do Bob Dylan, que eu particularmente acho bastante irritante (o Bob, não a frase), mas que explica bem o que quero dizer:

“Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas.”

 

É isso =]

Um dia de biólogo

Publicado: sábado, 3 setembro - 2011 em Ciência, Cultura, Filosofia
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Hoje, 3 de setembro, é dia do biólogo. E no meio de tantos parabéns, é impossível não parar pra pensar: “Por que estão nos parabenizando?”. Mas esta não será uma postagem ranzinza sobre não merecermos parabéns. Pelo contrário. Vou exaltar um pouquinho a experiência do nosso campo de estudo.

A minha proposta é que no lugar de comemorarmos o da do biólogo, tentemos todos ter um dia de biólogo. E eu vou explicar como fazer isso, não é tão difícil.

Pra começar, você deve retirar da sua cabeça aquele medo medieval irracional de tudo o que tem perninhas, de tudo o que se esconde nas frestas, de tudo o que se rasteja silenciosamente, das criaturas que voam na noite, das que moram em cavernas, das que fazem do seu guardarroupa um lar. O segundo passo é não ter “nojinho”.

Lembra quando você tinha uns 3 ou 4 anos? Provavelmente não, mas se não conseguir, pense nas crianças que você conhece. Dessas que colocam a mão em tudo, enfiam as coisas na boca, ficam sujas e felizes.

A biologia, entre todas as ciências naturais, é a mais sensorial. E talvez isso a afaste da exatidão da química e da física (que também não são assim tão exatas…). Aquele prazer de entrar no meio do mato com a vovó e sair perguntando que árvore é essa. Depois subir na árvore, achar uma goiaba cheia de bichinhos, deixar eles de lado e comer mesmo assim. Imitar macaco antes de descer, claro.

Fazer buracos no chão, encher de água e dizer que fez um rio pra criar peixes. Prender joaninha numa ilha dentro de um pote de plástico pra ver se ela vai nadar ou voar. Brincar com o cachorro como se ele fosse um irmãozinho e não um objeto de decoração.

Acho que o que nos arrasta para a biologia é essa criança. Das ciências, também acho que seja a mais próxima da arte. A ver por todos os documentários e exposições fotográficas com a temática biológica e ambiental, que nos causam fascínio até mesmo na catástrofe.

Mas também há uma dose de crescimento. De entender que não existe normal. Que estatística é metáfora da realidade e não a realidade em si. Que a diferença é vantagem. Que a cooperação te mantém vivo. Que não existe perfeito, tampouco imperfeito. Que é irrelevante a presença de um criador. que não somos únicos, nem mais importantes. Que também não somos menos importantes. Que tudo o que é vivo merece respeito, pois temos origem comum. Quue o que não é vivo também o merece, pois somos feitos dessa mesma matéria morta.

A biologia enquanto carreira já me cansou. Porque boa parte dos biólogos acaba esquecendo a maioria dessas coisas, e eu não tenho saco pra trabalhar com “gente grande”. Mas mesmo sabendo disso, é um caso de amor que não acaba. Um caso de amor com o objeto de estudo, pois pra mim é assim que se faz ciência. E se falta espaço pra amar, eu devo procurar outro lugar pra fazer minha ciência.

Mas nós, sem modéstia, somos os mais qualificados pra falar do tal “sentido da vida”. Porque, curioso que pareça, ao contrário das outras ciências, não o buscamos. O bonito do biólogo é que vê a vida como fenômeno, então ela não precisa de um sentido.

Sem precisar procurar onça no mato, sem precisar se trancafiar num laboratório por horas, sem precisar explicar os mistérios da genética para 40 pré-adolescentes em chamas… Sem precisar de nada disso, tenha um dia de biólogo. Saia de casa, ouça o vento, os pássaros, os insetos, observe as nuvens, procure um curso d’água, deixe a chuva cair na sua cabeça, suje os pés e perceba que tudo isso está interligado, pois vida é interdependente e intradependente. Não existe vida em isolamento. Então, sem tudo isso o que está em volta, você não é porra nenhuma…

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorsos,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
– Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova.

(Manuel Bandeira, em Lua Nova)

Venho falar hoje em defesa de todos aqueles que já desejaram profundamente a própria morte. Sobretudo, daqueles que a conquistaram.

Me irrita ouvir as pessoas dizendo que essas pessoas “desistiram” ou buscaram atenção. Decidir encerrar um sofrimento através de um outro grande sofrimento (mas este único) exige uma coragem que poucos homens nesta terra possuem.

O suicídio às vezes não é físico. E para aqueles que vivem no cotidiano os processos metafóricos de morte e renascimento, como eu faço, muitas vezes morrer exige tirar a própria vida. E ninguém imagina o quanto isso dói. Ninguém imagina o preço que se paga. Ninguém imagina o que é estar dentro de um caixão por tempo indeterminado, por vontade própria, por sentir uma certeza sobrenatural de que é ali que você deve estar.

Mato tudo o que há de pior em mim, mas morre todo o resto. E na aflição de perceber que o que havia de pior era justamente meu bem mais precioso, morre também meu orgulho.

Peço desculpas sinceras a todos os que tantas vezes me assistiram morrer, velaram meu corpo e me deixaram flores.

Mas há momentos em que a incompatibilidade com a realidade se torna tão gritante, que é preciso morrer.

“Dearest,
I feel certain that I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do.” (Virginia Woolf)

Aos que já sentiram a dor da morte, mas não tiveram a certeza de que era hora de morrer fisicamente, minhas condolências.

Atualizei a pstagem para recomendar o texto que o Edson Bueno de Camargo sugeriu nos comentários. Destaco o trecho com que mais me identifico, deixando clara a identificação com o texto todo:

A minha solidariedade aos que findam a si mesmos é infinita. Conheço a dor por dentro e por fora, esta de viver sem esperança o tempo todo, de ter a certeza de ter nascido no tempo e lugar errado, de ser estrangeiro em minha casa e  órfão na presença dos meus pais. A dama de negro ri de mim o tempo todo, ela não quer me levar , quer que caminhe meus passos até ao seu encontro.

Ver na íntegra.

Não alimente os animais

Publicado: sábado, 16 julho - 2011 em Não sei
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Faz parte do processo de crescer parar de alimentar as bestas.

Nos comovemos, pois, quando pequenas, sempre parecem dóceis. Não há uma criatura saída do ovo que não cause comoção.

Mas quando crescem, viram bestas da mesma forma.

Aí um dia você para de ser a pessoa com a comida na mão e passa a ser o velho chato que diz “não alimente os animais”.

Mas é porque você está cansado das mordidas, de ver gente sangrando e morrendo, de sangrar e de morrer, e sabe que pode sobrar pra você outra vez.

Certas coisas vão se tornando desnecessárias. O brilho nos olhos do filhote de besta olhando pra você é uma dessas coisas. Já temos monstros o suficiente soltos por aí…