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Homofobia? Sim

Publicado: quinta-feira, 18 novembro - 2010 em Filosofia, Mídias, Política
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De ontem pra hoje pipocaram manifestações pela internet por conta do “twiteiro” @homofobiasim. Isso me fez pensar algumas coisas e me levou a ler mais sobre o assunto também, aí tive vontade de dividir algumas reflexões.

• Homofobia é crime?

Sim e não. Não existe uma lei federal que criminalize a homofobia diretamente, mas para quem sabe ler (no sentido de ler, interpretar e entender) a constituição de 88 deixa claros os direitos de liberdade e igualdade em geral, à liberdade de consciência, à intimidade, à vida privada e, como base de todos, à “dignidade da pessoa humana”.

Isso não criminaliza ou deixa claro nenhum tipo de pena, mas dá espaço para abertura de processo por privação de direito. E quando tratamos de um direito fundamental (um dos 5 do primeiro artigo), a coisa pode ficar bastante séria.

Isso não significa que não há necessidade de termos leis (como prevê o PLC 122) que qualifiquem esses diferentes tipos de violação de direitos. Qualquer pessoa que sofra discriminação por ser homossexual pode recorrer a processo por ter um direito fundamental violado, mas algumas leis adicionais agilizariam esse processo, como já ocorre para diversas formas de discriminação (racial, à mulher, entre outras).

Quando a constituição fala em promover o bem de todos “sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade, ou quaisquer outras formas de discriminação”, acredito que está claro que “quaisquer outras formas” é literal.

Então quando ouvirem um homofóbico dizer, como tenho ouvido nessa semana, que “homossexual não é raça” como justificativa para comentários discriminatórios, podem chamá-lo de burro sem peso na consciência. É o que eu tenho feito, porque paciência tem limites, também… Em 30 minutos de pesquisa isso tudo ficou bastante claro pra mim. O tempo que esse imbecil gastou fazendo essa conta no twitter e escrevendo as porcarias que escreveu em seu perfil dariam conta dessa informação.

No estado de São Paulo já existem penalizações para diversas formas de discriminação de homossexuais (lei estadual 10.948/2001).

Se for acrescentar mais sobre o assunto, a postagem vai ficar muito grande. Vou me limitar a dizer que estou decepcionado com os alunos do Mackenzie por não terem reagido ao pronunciamento de seu “chanceler” (até agora não entendi por que uma universidade possui um chanceler de uma instituição que responde por ela depois de tantos anos de luta pela autonomia universitária) .

Anos atrás talvez eu e alguns amigos do e-jovem estivéssemos planejando alguma manifestação por ali, mas agora estou longe, no interior do estado. Então me limito a dizer que vocês, alunos do Mackenzie, a mim são um bando de bundões. Principalmente depois de ouvir sobre o depoimento de uma aluna (que pode não representar o todo, mas chama atenção para o marasmo) “Ah, eu ouvi falar, mas eu sei que eu não sou homofóbica, então…”. Sinceramente? AHPAPORRA.

Gente que se cala diante do preconceito é conivente. A omissão reprime tanto quanto, e às vezes mais que a manifestação. Sobretudo em âmbito educacional. Vale ressaltar que alguns desses alunos serão professores amanhã.

Para quem se interessar, na página da ABGLT (Associação brasileira de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) há um conteúdo bastante interessante sobre homofobia:

http://www.abglt.org.br/port/homofobia.php

http://www.abglt.org.br/port/pesquisas.php

• Blablablá linguístico:

Eu prefiro tratar essa questão fora do âmbito legal e dentro do âmbito da saúde. Os amigos da área de humanas podem ficar bravos com a minha mania biologizante, mas há horas em que eu prefiro simplificar. Se o amigo Bruno, de quem não tenho notícias desde 2004, estivesse aqui, ele diria “não vamos discutir semântica”. Mas pra essas coisas eu sou um rato pestilento, então vamos radicalizar:

Homo / phobos: Medo do igual. Hoje há alguns consensos dentro da psicologia que apontam que o termo correto seria “homofilofóbico” (medo daquele que se atrai pelo igual).

Mas parando pra pensar 5 minutos… A diferença entre o sujeito que se diz hétero e o sujeito que se diz homo (ressaltando que eu não acredito nisso) é nula. Ao menos da perspectiva de que não dividimos as pessoas por elas preferirem comer frango ou peixe, não há razão para as dividir por escolherem comer cus ou vaginas.

Ainda, pesquisas têm apontado para o fato de que uma das causas da homofobia é a própria homossexualidade reprimida.

Sendo assim, homofilofóbico ou homofóbico dá na mesma. Continua sendo fobia. E como qualquer fobia, quando começa a causar problemas de convívio, requer tratamento.

Simples assim.

Um abraço especial a todos aqueles que tomam café frio e/ou fumam cigarro de filtro vermelho (que na verdade é amarelo, já repararam?) enquanto escrevem.

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Os valores cristãos na democracia

Publicado: quarta-feira, 27 outubro - 2010 em Cultura, Filosofia, Política
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Esta postagem será longa. Para alguns, cansativa. Mas é um tipo de direito de resposta, misturada com um desabafo e uma obrigação ética pessoal.

Há algum tempo, antes do primeiro turno das eleições, um vídeo com falas do pastor Paschoal Piragine teve mais de três milhões de acessos, repercussão mundial e resultou na alteração dos programas de campanha dos dois principais partidos concorrentes à presidência. No meu entendimento, este vídeo é um dos grandes responsáveis pela ascensão súbita de Marina Silva (a onda verde estava fixa em 13% desde o início, e não acho que em uma semana as pessoas se sensibilizem com o meio ambiente), entre outras coisas.

O vídeo original foi removido do youtube, por ter sido considerado impróprio (entre os motivos, uso de cenas chocantes). Mesmo assim, ele já foi novamente ao ar e está disponível no seguinte link: http://www.youtube.com/watch?v=0ujkhDDVUHA. Quem não assistiu, eu recomendo que assista para entender melhor do que estou falando. Em breve pretendo hospedar o vídeo em algum lugar, pois este também deve ter os dias contados (eu mesmo já estou fazendo minha parte denunciando, e seria interessante que os que concordarem comigo façam o mesmo).

Piragine começa falando sobre a “iniquidade”. Palavra que pode significar discordância com a lei, ou mesmo parcialidade. A iniquidade é tão atacada quanto praticada, ao longo de todo o discurso. Ele pretende que a iniquidade não seja “institucionalizada na forma de lei”. Começamos aqui a perceber o “blablablá”. A frente fundamentalista (que está crescendo muito no país) quer impedir o que eles chamam de “lei da mordaça”. Referem-se principalmetne ao PLC 122, que criminaliza a homofobia e restringe discursos de cunho homofóbico dentro das igrejas, em sua primeira forma. Algumas alterações já foram propostas para que as igrejas não sejam afetadas, mas o importante aqui não é isso.

Se a homofobia for de fato considerada crime, como é hoje o racismo, isso significa que a lei é modificada, por um processo democrático. Assim, não há “iniquidade institucionalizada”, mas sim equidade conquistada. Não estaremos em desacordo com lei alguma no caso da aprovação do PLC 122. Segundo eles, porém, estaremos em desacordo com as leis de Deus. O fato de o estado ser laico deveria encerrar essa discussão neste ponto, tornando o discurso do pastor uma sopa de incoerências. Mas, senhores, infelizmente nosso estado não é laico. Ainda há cruzes em salas de aulas e repartições públicas, com aquele Cristo medonho morrendo assustando nossas crianças. Ainda há professores orando em sala de aula antes de iniciar as atividades. Ainda há uma parcela significativa de pastores e padres eleitos, ou indivíduos sem cargo religioso que possuem o “rabo preso” com essas instituições.

Ou seja, a “lei de Deus” em grande parte dos casos é soberana às nossas leis. Mesmo sendo “Deus” uma figura subjetiva, de existência questionável e – mais importante – não aceita pela totalidade de nossa população. O cristianismo continua a se impor, a ferro e fogo, sobre todas as demais religiosidades. Não necessariamente por princípio, pois não faz parte do dogma cristão a conversão. Isso quem inventou foram líderes religiosos. E seus seguidores ingênuos adotam como lei divina. Os cristãos historicamente não são bons conhecedores da bíblia, então isso não surpreende.

Segundo o pastor, se a iniquidade for institucionalizada, Deus não terá outra coisa a fazer senão julgar nossa Terra.

Quando a esquerda brasileira reagiu com violência aos golpes sucessivos nos anos 60, foram chamados de terroristas. Quando religiosos islâmicos brigam por terras sagradas, são chamados de terroristas. Quando os índios na região norte reagiram contra mineradores em defesa de seus territórios sagrados, também foram chamados de terroristas.

Mas quando um senhor afirma que seu deus careta irá julgar a todos nós por aceitarmos as pessoas como elas são, isso não é considerado terrorismo? Ora, conhecemos bem o modo de julgar cristão. Eu, infelizmente, tive uma educação cristã, da qual estou conseguindo me libertar aos poucos ao longo dos anos. O julgamento cristão não é uma revolta armada, não é um levante a machadadas, tampouco uma reclusão territorial. O julgamento cristão é o sofrimento eterno. A mim, soa um pouco pior. A vocês não?

Isso sem falar do que precede este sofrimento, pois se estamos falando do julgamento da “nossa Terra”, isso inclui fome, peste, guerra, chuvas de fogo, entre outros. Por mais que para mim isso soe ridiculamente, uma vez que a alegoria cristão não me cativa, a todos aqueles que crêem (nossa maioria, em população) essa é uma das piores ameaças que pode existir.

Em seqüência, o vídeo apresenta o discurso de abertura da parada gay. Não que eu a considere um evento livre de críticas, mas são lindas palavras. Não pedem nada mais do que aquilo que prega nossa constituição. Quando se afirma “não votem em fundamentalistas religiosos” o que se está pedindo ali é que se cumpra a proposta do estado laico. Nossa religiosidade é sempre ligada a nossos valores pessoais. Alguém que “aceita jesus do fundo do seu coração”, de modo prático, ou seja, submete-se aos dogmas de uma igreja, não vai se abster destes valores no momento de criar, analisar e votar leis. Não estou dizendo aqui que nosso congresso deveria ser composto apenas de ateus, mas a questão é que se prezamos por não haver “iniquidade”, a bancada cristã não pode ser uma maioria.

A união estável entre pessoas do mesmo sexo e a criminalização da homofobia não vão de encontro à nossa constituição. Não há “iniquidade” alguma nestas propostas, a não ser com as ditas “leis de deus”. Mas eu não sou cristão, me desculpem os amigos. Eu não aceito jesus do fundo do meu coração. Sequer acho provável que Jesus tenha existido, pois não há prova histórica disso. E se por acaso eu quiser me casar com outro homem, não vai ser pela vontade do deus de alguém que isso não vai acontecer.

É absurdo que as igrejas estejam pedindo para “não serem perseguidas” quando o PLC 122 propõe justamente que elas parem sua perseguição contra a população dita LGBT. Os valores cristãos estão em nossos livros didáticos, estão nas cabeças de nossos agentes públicos, estão nas novelas, nos jornais e infelizmente estão também em nosso corpo político. Eu chamaria isso de “iniquidade”.

Uma religião que se fundamenta, em teoria, no amor, não deveria ser avessa a uma lei que criminaliza o ódio que ela mesma pratica. Quem ama aceita, respeita e acima disso procura entender. Quem ama não condena. Mas os cristãos historicamente também nunca foram grande exemplo de amor (que não fosse por si próprios e pelas riquezas acumuladas). Pregam a humildade e condenam a riqueza material, mas criam templos gigantes e sustentam marajás. Pregam que se ajude os pobres, mas se o dogma é justamente a humildade e simplicidade, porque não oferecer ajuda então aos ricos, para que se livrem de seu dinheiro?

Engraçada essa história…

Mais adiante, vem o susto após a afirmação de que a bíblia é um livro antigo, e que não é sagrado. O que há de absurdo nisso? Apenas uma coisa: A bíblia não é um livro.

Bíblia, na origem latina da palavra, é plural de biblos (livro). A bíblia, pela própria definição, é um apanhado de livros. Livros escritos por indivíduos diferentes, em épocas diferentes, por razões diferentes. Vão de relatos pessoais a códigos civís de sociedades extintas há milênios. Por isso a bíblia é essa bagunça, e por isso é cheia de contradições. Por isso a figura de Deus expressa na bíblia é também tão contraditória, e por isso suas leis são também controversas.

Se eu juntar, num único encarte, pedaços das obras de nossos autores mais consagrados, teremos uma coisa interesante: algo que, se lido de cabo a rabo e encarado de modo literal, não fará muito sentido. Mas, é também algo que se encarado de determinadas perspectivas filosóficas, se lido como metáfora, nos dará material para afirmarmos muita coisa sobre seu conteúdo. E essa interpretação será dúbia.

É este o material que os cristãos têm por sagrado e por lei. Mesmo que no fundo as leis que eles sigam não sejam realmente fundamentadas na bíblia.

A próxima crítica é à pornografia. Pornografia essa consumida pelos cristãos, no auge de sua hipocrisia. Eu sugiro um levantamento dos consumidores de pornografia no Brasil que acompanhe suas declarações de religiosidade. Seria realmente interessante observar a porcentagem de cristãos nesse mercado. Mas, a despeito dessa hipocrisia, o ponto não é esse. O vídeo afirma que a indústria pornográfica possui imunidade tributária… Desde quando? O mercado negro pornográfico, talvez possua imunidade tributária. Mas até aí, o mercado negro de mp3 players, de DVDs, de alimentos, ou seja lá do que for, também a possui.

Se vivemos sob princípios de liberdade, aquele que quiser produzir ou consumir pornografia têm essa liberdade. E aqueles que não quiserem, também. Se a televisão exibe pornografia, mude de canal. Se a revista possui conteúdo pornográfico, não a compre. Se os cristãos não consumissem pornografia, ela não seria uma ameaça a seus valores. E se o risco são “nossas crianças”… Bom, a primeira coisa que os cristãos defendem são os valores da família. Então bastaria cuidar da própria (ou confiar seu filhote nas mãos de um velho líder religioso que passou a vida em repressão sexual, o que eu particularmente não recomendaria).

A próxima crítica é à pedofilia, que estaria em todos os setores da sociedade. E está. Mas uma das principais causas desse problema é justamente a repressão sexual cristã. A repressão cria loucos, que praticam loucuras, bagunçam a sexualidade de crianças, que talvez cresçam cheias de dificuldades e, com azar, também se tornarão loucas praticantes.

A pedofilia está longe de nossas vistas porque toda nossa sexualidade está longe de nossas vistas. Falo da sexualidade ampla, não da bunda das mulheres frutas. O cristão vê a sexualidade como algo sujo, maculado, impróprio e oculto. E assim ela será praticada entre os cristãos. A mulher que não se conhece e não se domina, será facilmente objeto de seu homem. A relação de domínio e posse é bastante clara, pois a mulher serve seu marido e cuida da família, enquanto ele, provedor oficial, chefe reconhecido pela sociedade, se isenta desses trabalhos e continua aproveitando dos frutos da estrutura de família feudal que o homem inventou e que a igreja acolheu.

Sabe qual o problema da família cristã (ou, família, de modo geral, como a ocnhecemos hoje)? Ela não é natural.

A família, como a conhecemos, é bastante recente na história do homem. Vivemos durante a maior parte de nossa história em aglomerados onde os pais não tinham posse sobre os filhos, tampouco o marido sobre a mulher. O modelo de família feudal consiste num homem com seus escravos. É um modo de proliferar a família, assegurar a manutenção e expansão dos bens de um sobrenome. Convenientemente ela permanece no modelo capitalista de sociedade, pelas mesmas razões, acrescidas de algumas mais: A família representa a mínima de nosso modelo social de servidão. Quando crianças, obedecemos o papai, pois ele é o provedor, a figura masculina que ocupa a poltrona maior na sala, geralmente com lugar privilegiado. Depois, será nosso chefe na empresa, ou no estado.

A família cristã é a família burguesa. E ela é uma porcaria social.

Agredir a família é visto com alarme porque é agredir a propriedade. A família se fundamenta nas relações de poder e posse, não em relações de amor. Pois se fosse fundamentada em amor, teríamos liberdade para mudar de família quando quiséssemos, de acordo com nossas relações de afeto. E não podemos, pois em nosso primeiro documento, lá está o nome de nossos donos.

Não que as relações familiares não possam existir com amor. É evidente que podem. Eu amo a maior parte da minha família com todo o meu ser. Mas a família não foi feita pra isso, é só o que quero deixar claro.

Próximo assunto: o divórcio. O divórcio é uma conquista. Se ninguém pertence a ninguém e por algum motivo o curso do tempo muda as condições de uma relação, há relamente algum motivo que não seja macabro para que ela seja eterna? Não há.

A religião cristã não aceita o divórcio porque ela não aceita a liberdade. O divórcio agride a estrutura de posse familiar. O divórcio também deixa clara a nossa liberdade de ir e vir, de livrar-se do sofrimento, e, acima de tudo, de escolha. O casamento é visto como sagrado pelo cristianismo por razões muito simples. A sexualidade é, sempre foi e sempre será uma forma de controle social muito eficiente. Uma religião que controla e espiona seus casais os têm em suas mãos.

A essa altura eu não preciso dizer poque a união homossexual assusta tanto os líderes religiosos. Mas vou dizer: Ela mostra o quanto as pessoas podem ter amor e felicidade fora das grades cristãs. Além de pisotear em cima de tudo isso o que disse anteriormente.

O casamento entre homossexuais, que assusta ainda mais a igreja, é um pouco mais que isso, pois envolve uma festa, ou seja, um dia de desforra, para celebrar a liberdade e o amor longe do prisma cristão. É justamente por isso também que sou a favor deste tipo de união ser reconhecida. Será um passo importante para a liberdade de todos nós, homossexuais ou não.

“A violência familiar é um fato”, prossegue o vídeo. Não vou me alongar aqui. Numa conformação social onde a mulher é propriedade, vai existir violência. A moral cria e sustenta esse problema, bem antes de o condenar.

Adiante, criticam alguns costumes culturais indígenas. Isso daria assunto para uma outra postagem completa. Mas vou ser direto. Quando a igreja cristã estiver aberta a ser analisada e criticada publicamente sem reagir dizendo que está sendo perseguida e amordaçada, aceitarei que ela questione outras regências culturais. Antes disso, não. Não estão eles mesmos, neste ponto, amordaçando também uma outra estrutura religiosa? Mas agora não é iniquidade? Por quê?

Já disse aqui tudo o que penso sobre o aborto (o assunto tratado em seguida). Mas retomarei sucintamente. A descriminalização do aborto reduz a violência e reduz a mortalidade de mulheres. O direito ao aborto (direito não é obrigação, frisemos) é o domínio da mulher sobre o próprio corpo. Ele livra a mulher da obrigação social de ser uma parideira. Ele retira das costas da mulher o estigma social de reprodutora. O aborto é natural, praticado em diversas sociedades animais, e condenado em nossa história apenas recentemente por valores religiosos. A concepção do início da vida é contraditória cientificamente, mas há uma faixa segura onde se pode afirmar que aquele punhado de células não constitui ainda um indivíduo.

Mas mais importante que tudo isso é que a proibição coloca um ponto final na discussão. Num país onde o aborto é legalizado, a mulher que opta por não ter o filho terá acesso a apoio médico e psicológico. Ela não precisará se esconder ou procurar criminosos para isso. Nessas condições, muitos abortos podem até mesmo deixar de ocorrer, pois a mulher poderá encontrar outras opções para lidar com seu problema.

Se o aborto for descriminalizado e/ou legalizado no Brasil, as enfermeiras cristãs não poderão tratar mal mulheres que ficam sangrando e sofrendo com dor por cerca de 4 a 6 horas num corredor enquanto são encaradas como assassinas cruéis por todos aqueles que passam por ela. Essas mulheres também não terão de conviver com tantos traumas causados pelo aborto ou pela gravidez indesejada.

Proibir o aborto no Brasil é assinar a pena de morte sobre diversas mulheres que não têm acesso a planejamento de vida, a métodos contraceptivos (que a igreja, por vezes, também condena) ou condições sociais e psicológicas de criar um filho ou lidar com a gravidez.

O aborto é sim uma questão de saúde pública. E deve ser tratado como tal. E a igreja não tem nada a ver com isso, como não deveria ter nada a ver com aquilo que é público.

Todo o restante do vídeo eu me recuso a comentar. É campanha política declarada, pois a direita fecha mais facilmente com a igreja. E ainda que o PT não seja atualmente um exemplo de partido de esquerda, não tem as pernas tão abertas quanto o PSDB e seus aliados.

Os reflexos da investida cristã sobre nosso quadro político são um candidato à presidência que já fechou acordo com as instituições religiosas para negar o PLC 122 e a gerência da candidata em oposição a ele, que admitiu ter sido um “erro ser pautado internamente por feministas”. Também pode ter levado a um segundo turno uma eleição que estava quase determinada.

Me assusta, sinceramente, o poder da igreja sobre o estado e sobre nós. Oprime, mas não cala. Todos nós devemos reagir a esse tipo de controle social de massas e eis aqui uma de minhas manifestações de reação.

Tive conhecimento deste vídeo há cerca de um mês. Me senti bastante ofendido e agredido em diversos momentos, mas não acho que os amigos que o veicularam em suas páginas pessoais tivessem essa intenção. Talvez só a desconsideração. De qualquer forma, pode ser que esse texto ofenda alguns dos meus amigos. Essa também não é minha intenção, mas pode ser considerara uma “desconsideração recíproca”. A verdadeira intenção aqui é interceder por mim e todos os amigos diretamente agredidos por essa cachorrada toda proferida pelo pastor Paschoal Piragine, mas que representam o pensamento da maioria dos falsos líderes cristãos.

Ainda assim, eu prefiro chamar isso de afirmação de liberdade. Todos têm o direito a vestir uma coleira e comer na cumbuquinha medíocre que a igreja nos oferece. Mas não podemos permitir que isso seja uma obrigação social.

O direito conquistado pelo cidadão ao lado deveria ser motivo de felicidade e alegria por todos aqueles que prezam pela democracia. Aqueles que com isso se agridem, deveriam procurar uma religião que pregue pela individualidade, pela injustiça e pelo ódio. Mas vocês cristãos não precisam se dar esse trabalho… Já encontraram.

E um perdão sincero aos poucos cristãos “direitos” que eu conheço e que também devem ter se ofendido com tudo isso tendo sido dito em nome de seus valores mais puros (especialmente minha avó Eunice e minha tia Cecília). Elas não são obrigadas a ouvir tudo isso.

Compaixão

Publicado: domingo, 22 agosto - 2010 em Filosofia
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Esta é uma daquelas postagens que fala de utopias românticas. Então se você estava esperando alguma crítica ácida, não precisa continuar.

Eu sou uma dessas pessoas que gosta de ajudar. Não do tipo que manda dinheiro pro Criança Esperança e limpa a consciência, mas do tipo que não consegue olhar pra alguém que está mal e ficar satisfeito com isso. Gosto sempre de saber o que está acontecendo com as pessoas ao meu redor. E a dor delas me dói também.

Mais que isso, tenho uma tendência (que alguns diriam ser boba) de abrir mão de coisas por essas pessoas.

Não desprezo a fé de ninguém. Tenho a minha, até. Mas sou desses que defende a idéia de que duas mãos juntas trabalhando fazem muito mais do que centenas de mãos juntas rezando. Então eu tendo a trabalhar, independente do trabalho que isso possa dar.

Algumas pessoas também já me disseram que eu tenho que pensar mais em mim, que eu me dôo demais aos outros, etc, blablabla, “eu não estou ouvindo”. Não me importa. Eu realmente não levo essas pessoas muito a sério. Não quero ter passado 70, 80, 90 anos, quem sabe, pensando em mim, pra morrer e deixar tudo isso numa caixa de madeira.

Eu penso nos outros por uma razão muito simples. Se algumas pessoas não tivessem aberto mão de coisas por mim, eu muito provavelmente não estaria aqui acordado, razoavelmente lúcido e, principalmente, vivo.

E a partir do ponto em que vidas não têm preço, o valor das coisas “perdidas” nunca se compara ao valor de ver as pessoas bem, ou melhorando, ou felizes.

Acho que esse texto demorou pra sair porque ultimamente tem ocorrido um turbilhão de sentimentos em volta de mim. Meus, de amigos, de não-amigos. E eu ainda não tinha digerido.

Escolhi o título porque ele permite um trocadilho, que é infantilóide, mas que expressa sucintamente o que eu penso. Pra entender a “compaixão”, precisamos viver com paixão. Não é só uma questão de amor, admiração e respeito. É uma coisa um pouco mais intensa, e até um pouco irracional.

A devoção ao próximo, em maior ou menor grau, é uma coisa linda. Mesmo que isso não faça sentido na contemporaneidade… Bom, que se foda a contemporaneidade, sempre fui anacrônico. Ultimamente tenho até gostado disso.

O que quero dizer com tudo isso, é que fico feliz em saber que as pessoas se preocupam comigo (afinal, eu também me preocupo com elas). Mas quando forem me dizer que eu preciso pensar mais em mim, não precisam perder este tempo. Gastem esses 2 a 3 segundos para pensar no que vocês poderiam fazer por alguém.

Obrigado.

Quando eu decidi não votar na Marina

Publicado: sexta-feira, 16 julho - 2010 em Política
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Como não sou presidente, posso me dar o luxo de falar sobre candidatos sem papas na língua. As eleições presidenciais de 2010 têm me preocupado um pouco (mesmo antes da Copa) porque alguns debates têm vindo à tona recentmente e pelo jeito o próximo presidente terá de lidar seriamente com eles.

O primeiro deles é o aborto. Antes de me justificar, já adianto: Não apenas sou favorável à descriminalização. Me coloco no grupo que briga por isso. As razões são muitas, e se houver necessidade estou aberto ao debate, mas sintetizando:

  • Sou homem. Não me sinto no direito de dizer o que uma mulher deve ou não fazer de seu corpo.
  • Sou libertário. Não me sinto no direito de dizer o que um ser humano deve ou não fazer de seu corpo.
  • Sou cientista. E se livrarmos o mundo do tabu cristão, não há razão para que o aborto seja proibido.
  • Sou biólogo. Uma leve compreensão do comportamento animal (que inlcui o humano) e aborto é tão natural como fazer uma refeição.

O segundo é a união civil entre pessoas do mesmo sexo (e a adoção por esses casais, consequentemente). Sou favorável. E honestamente não acredito que seja necessária uma justificativa. Se você é contra, deveria estudar mais. Simples assim. Usualmente eu me leria mais tarde e pensaria “como eu fui arrogante e prepotente”, mas sei que esse não vai ser o caso. Para alguns assuntos, a história já caminhou demais para termos de ficar voltando em quetões muito básicas. É o tipo de situação que está num ponto tão crítico que educar com a intenção de mudança se torna obsoleto se comparado à mudança com a intenção de educar.

Dito isso, vamos entender (na medida do possível) o que pensa Marina Silva sobre estas questões. Publicamente, ela declara-se “pró-vida” há anos. “Pró-vida” nada mais é do que um eufemismo para “contra o aborto”. É uma maneira de fazer parecer que eles são os que precisam de defesa, e não as milhares de mulheres que morrem em nosso país por conta de abortos clandestinos ou as crianças abandonadas e mal criadas. Marina se coloca contra o aborto como pessoa, mas como candidata diz que a questão deve ser resolvida num plebiscito.

O que eu penso? Que essa é uma estratégia simples e rápida para colocar um ponto final na questão. Num país católico, onde as exceções são evangélicos (como Marina), a moral cristã é lei. E é de dentro da lei que ela deve ser combatida, se pretendemos cumprir com a proposta de sermos um estado laico. Se assusmimos nossa moralidade cristã, fica evidente o resultado que esse tipo de plebiscito traria.

Como bem disse meu tio Edson hoje mais cedo, “Levar a plebiscito direito de minorias é colocar os fracos nos dentes do leão. Pergunte em pleno coliseu o que fazer com os cristãos”. Um político que se preocupe com direitos humanos não deve pensar no plebiscito como um caminho.

Quando o assunto é a união civil entre indivíduos do mesmo sexo, a coisa fica um pouco mais na sombra. Marina declarou-se publicamente contra o casamento gay, alegando que o casamento é a união entre um homem e uma mulher. Nesse ponto, não discordamos com relevância. Em termos legais, temos a união civil e a união estável. Casamento é um termo popular ou a celebração religiosa. Mas quando o assunto é a união civil, até agora não sabemos qual é a postura de Marina. Apesar de evangélica assumida, ela não fecha com a ala fundamentalista religiosa. Mas também não assume a causa para si. Quando o assunto era a criminalização da homofobia, Lula e Serra se declararam favoráves, mas Marina se manteve neutra. E tem se mantido “neutra”. Mas do meu ponto de vista, o silêncio diante de uma deseigualdade social não é neutralidade, é conivência.

Ainda, quando questionada, atém-se a essa quetão do “casamento”, no discurso da sacralidade da instituição. A grande questão é: se legalmente falando, o casamento não está em questão, porque (diabos) ela insiste nesse ponto? Há duas possibilidades, ambas preocupantes: proselitismo religioso ou uma rápida saída pela direita. Pra piorar, essas posturas vão contra as posturas que o PV historicamente vinha assumindo. Mas não vejo mais o PV como um partido político, e sim uma colcha de retalhos mal feita, onde se aceita dos humanistas radicais ao lixo rejeitado até mesmo pela direita mais conservadora.

Marina não mede palavras ao falar de meio ambiente e educação. Mas ninguém precisa medir palavras quando fala do senso comum.

Finalizando, uma rápida perspectiva das posturas dos outros três candidatos:

José Serra

É contra e considera o aborto uma coisa miserável. A discriminalização do aborto promoveria uma carnificina.
“Dificultaria o trabalho de prevenção. Vai ter gravidez pra todo o lado porque a mulher vai para o SUS fazer aborto.”

Afirma ser “propício” à união estável entre pessoas do mesmo sexo. A posição quanto à união civil não é clara. Sobre a adoção:
“Isso vale para qualquer tipo de casal, qualquer tipo de pessoa. Não vejo por que não aprovar. Acho que há tanto problema grave relacionado a crianças pobres no Brasil que [a adoção] pode ser uma salvação.”

Plínio de Arruda Sampaio

Afirma que o Estado não tem o direito de impor uma convicção fundada na fé de uma parcela da sociedade a pessoas que têm convicção diferente.
“Apoio o movimento em favor da descriminalização do aborto porque evidentemente a lei atual demonstrou ser, não apenas ineficaz, mas claramente perniciosa, uma vez que obriga as mulheres a recorrer a pessoas despreparadas e inescrupulosas para interromper uma gravidez indesejada.”
[ Recomendação de Texto ]

Defende a união civil entre pessoas do mesmo sexo e também a adoção por pais/mães homossexuais.
“Tenho me posicionado favoravelmente ao direito de livre orientação sexual e à luta das lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. A Constituição brasileira lhes assegura esse direito, uma vez que estabelece a obrigação de que todo brasileiro seja tratado como igual perante a lei.”

Dilma Roussef

O aborto deve ser tratado no âmbito da saúde pública. Um presidente não deve ser contra ou a favor do aborto.
“Não estou dizendo o que uma pessoa tem que fazer ou tentando definir o que uma mulher deve fazer, mas acho que, na sensibilidade da mulher, é uma agressão. Ela só recorre por desespero.”

É favorável à união civil entre pessoas do mesmo sexo. Não encontrei declarações sobre adoção.
“Direitos civis básicos, direito à herança e a receber a aposentadoria do parceiro, são direitos civis e devem ser reconhecidos de forma civil.”