Posts com Tag ‘religião’

Conversando com estrelas

Publicado: quinta-feira, 28 março - 2013 em Cultura, Filosofia
Tags:, , ,

Às vezes eu preciso conversar com o céu. Contar coisas pra ele que eu não conto pra ninguém, perguntar coisas que ninguém me responderia.

Pra uns, nunca vai passar de um monólogo esquizofrênico, mas não dou a mínima. Hoje eu resolvi ir pro quintal, apagar as luzes e deixar a Lua cheia contar suas histórias. Ela certamente já mais acostumada que eu com toda essa porcaria que é o mundo. Mesmo assim, a danada brilha com uma intensidade…

Os mais chatos e céticos vão dizer “ah, a Lua não brilha”. Mas, justamente por isso, são chatos.

Sentei, olhei pra cima de relance e vi o rabo do Escorpião. E pronto, entendi. É isso… Às vezes as coisas são assim, e não adianta eu tentar explicar isso aqui, vocês teriam que ir pros seus quintais e olharem pro rabo do escorpião pra ver a mesma coisa que eu vi.

Não é diferente quando nos olhamos nos olhos e simplesmente enxergamos tudo o que tinha que ser dito e não é. Sufoca um pouco, mas liberta. Estamos tão acostumados à fala que essas comunicações subjetivas descem como fumaça quente pela garganta.

Engasga, até…

Mas às vezes as coisas simplesmente são assim.

Existe, no fim, um bom motivo pra serem assim? O rabo do escorpião me disse que não. E acho que ele entende melhor disso que eu. Respeitei.

Gosto de olhar pro céu, porque me ajuda a lembrar que eu sou, inteiro, um universo. E todo mundo é. E na nossa arrogância de tentarmos entender as pessoas, ainda temos aquele pensamento medíocre que de gira tudo ao nosso redor, que o centro de gravidade da nossa vida é nosso “eu”. E definitivamente não é… Não existe esse centro. Existe uma grade bagunça, uma dança cósmica onde, no fim, “culpa” é uma palavra burra.

E o sentido que tem o castigo, dessa perspectiva, é o mesmo sentido que tem fazer-se de vítima. Nenhum.

“Espera e olha, porque é poeira de estrela. Um forasteiro, sempre, mesmo em terra natal. Uma vida sempre pela metade, uma corrida sem linha de chegada, uma subida em espiral que às vezes está mais perto do início que do meio, mesmo tendo percorrido tanto.”

Assustei com os coleguinhas que chegaram de repente e pararam na minha frente, e naturalmente eu não percebi, porque estava em outra dimensão só minha. Não deu tempo do céu terminar de falar, mas acho que entendi o espírito da mensagem.

Eles trouxeram uma garrafa da vinho, e talvez o fim da mensagem seja essa. Então, que assim seja. Amém.

Amanhã eu continuo essa conversa estranha com o céu.

É muita pretensão querer dar uma resposta a essa pergunta. Mas pretensão é algo que transborda por minhas orelhas, então ouso me arriscar. Essa semana foi atípica. Estive doente, não fui às aulas, não encontrei muitas pessoas, não fui a festas, não participei dos habituais grupos de discussão.

E como cabeça vazia é morada do diabo, nosso senhor me trouxe mais um feixe de luz. Me coloquei a pensar. O dia das mães foi um pouco do ápice da história, e o fato de não conseguir dormir por mais de duas horas sem acordar com ânsia de vômito me impulsonou a escrever. Então esta postagem será também um vômito.

Se soar amargo, não confundam com qualquer experiência de tristeza ou trauma que eu possa ter tido relacionados à maternidade. É apenas o gosto de bile.

Não vou dar os parabéns. Não há nada de especial em ser mãe, da ótica biológica. Todas as fêmeas dos mamíferos possuem a experiência da maternidade de modo semelhante ao nosso em algum grau, e muitas outras espécies não mamíferas também. Essa figura mítica da mãe santa e virgem de Jesus Cristo é que estamos a aplaudir no dia de hoje. Pior ainda, com sentimentos travestidos que poderiam ser expressos a qualquer outro momento, mas “hoje, mamãe, eu me lembrei de você”… Há anos que eu não compro ou faço mais presentes no dia das mães. Não pela ausência de uma, mas pela falta de sentido no hábito.

Isso é porque, entre outros fatores anti-cristãos da minha indivudualidade, há algo nessa história que me irrita profundamente: a supervalorização da família. A família vista como célula fundamental da espécie. Um erro grotesco que tem nos afastado radicalmente do conceito de espécie, e da nossa própria natureza.

É difícil definir espécie. A própria biologia não conseguiu ainda. O que temos são as chamadas “ontodefinições”, ou seja, definições que dependem de outras definições para estarem corretas (se estiverem também corretas as demais definições em que se apoiam). Um jogo de palavras conveniente para que não se despenque toda uma ciência. Justo e prático.

Mas o que vou dizer hoje talvez seja rasgar prematuramente um diploma que sequer tenho em mãos. Um aborto profissional, se assim preferirem. Não que seja grande impasse – sem dramas ou martirizações.

A “célula fundamental da espécie” não é a família, tampouco um casal com filhos. Sequer é o casal. Esta unidade básica é tão somente o indivíduo. E entre ele e o conceito de espécie (o todo) não há grau intermediário. Há apenas uma mentira covarde que nos divide em famílias, tribos, castas, núcleos sociais e essa patifaria toda.

Mentira porque esses grupos são virtuais. Podem ser montados e desmontados, alterados e desfigurados. São transitórios, temporários. Intercruzam-se, se quiserem. O isolamento é psicológico. E covarde porque esse hábito surge do medo de termos a rolar pelo chão nossas próprias cabecinhas – à espécie, irrelevates.

E a má interpetação de um egoísmo genético vem a reforçar essa babaquice. Quando uma alegoria cristã ganha o respaldo científico (quase sempre, ao menos aqui no ocidente), a coisa fica mais grave. A diversidade genética é um dos bens mais fundamentais para a segurança de uma espécie. Isso significa que seu “DNAzinho” tem valor inestimável.

Mas apenas quando se mistura.

Mais importante, a evolução não ocorre apenas no nível da transmissão biológica de caracteres. A seleção natural também age sobre hábitos e comportamentos aprendidos, transmitidos culturalmente. E essa pluralidade a ciência ainda reluta em reconhecer como fundamental à espécie. E eu entendo as razões. Não podemos provar isso empiricamente.

Portanto, deste parágrafo em diante, abandono o jargão biológico, dispo-me do jaleco e caio no que, anos atrás, eu chamaria de um discursinho pedante.

Para o ser humano, o conceito de espécie vai um pouco além do que as ontodefinições têm conseguido trazer. Para entendermos o que é a espécie humana eu recomendo a concepção oriental de “olhar pra dentro”. “Metafísica”, diriam. Alguns chamam de escutar o coração, outros chamam de espírito. Eu humildemente chamo de intuição, algo do que há de melhor em nossos instintos.

O pedido de hoje é que, por um dia, no lugar de valorizar um útero como célula geradora do seu universo, pensem em si próprios como células de um organismo que é muito imenso, de um tamanho do qual nenhum de nós tem, hoje, consciência plena. E peço que dêem um singelo adeus ao útero que foi nosso ponto de partida, mas para o qual não devemos tentar retornar.

E quando os economistas dizem que “a história acabou”, que a revolução industrial e o capitalismo trouxeram nossa jornada a um platô, é disso que estão falando: uma grade nação mongolóide que cava diariamente o caminho de volta ao útero.

A maternidade é algo lindo, até invejável. E para esse tipo de descrição, gosto das mais antigas: é mágica.

Mas apenas enquanto o útero é uma porta de saída, não uma jaula.

E que isso (esse escarro libertário) valha pra mães e filhos.

Meu Jesus

Publicado: sexta-feira, 17 dezembro - 2010 em Cultura, Filosofia
Tags:, ,

Duas semanas sem escrever. Duas semanas sem saber o que dizer. E serei bem sincero… Ainda não sei muito. Estou aparecendo aqui quase que por obrigação, na esperança que que o “abrir da boca” faça algo útil ser cuspido sem querer.

O fim de ano é sempre uma época muito bagunçada pra mim, principalmente por conta do Natal. Pra mim, o Natal sempre foi uma data meio estúpida. Quando criança, eu achava divertido ganhar presentes e sempre gostei de festas onde a família senta junta e come muito. Mas o simbolismo todo nunca me afetou de verdade. Nem a figura do Papai Noel, nem o tal do “espírito de natal”. Nem falo do nascimento de Jesus, porque aí já é psicodelia demais até pra mim. Não vou me gastar aqui nos pormenores de ser uma data improvisada, de ser uma lenda transcrita, de ser uma patifaria católica e tudo mais. Temo que esse blog se pareça com uma cruzada anti-cristã. Não gosto de cruzadas, justamente por ser anti-cristão. Então chega de falar disso.

Sempre me pergunto porque os homens esperam datas específicas para se permitirem ter sentimentos e declararem seu amor pelos queridos. É muito triste essa condição em que vivemos. Há momentos em que penso que fomos lentamente aprisionados numa rotina de produção fria e esses pequenos momentos (ação de graças, natal, dia dos namorados, dia dos pais, mães, etc) são aquele mínimo necessário que nos é permitido de amor, apenas para não sucumbir. Até o capitalismo reconhece que o amor é uma necessidade ao ser humano.

Por outro lado, gosto de aproveitar essas datas de alguma forma. Sempre tento deixar uma mensagem, para alguns, de “todo dia pode ser assim”. Quando eu decidi levar minha vida o mais perto que conseguisse da filosofia “slow” – e deuses, por contraditório que pareça, como dá trabalho! – essa foi uma das primeiras reflexões que eu tive. Negar o ritmo frenético que o mercado nos cobra traz diversos lucros à mente e à vida, mas o primeiro é o tempo que temos livre para sentir, e acima disso para prestar atenção ao que sentimos, e entender.

Meu presente a todos neste natal é um conselho. E nunca me convenceu essa história de que “se conselho fosse bom, ninguém daria de graça”. Primeiro porque conselhos não são dados de graça. A gente só não gasta dinheiro por eles. Mas junto de cada conselho, há uma dose de responsabilidade. Filosofia barata de pequeno príncipe, talvez. Mas se aplica. Filosofia também não precisa ser cara pra ter valor.

Queria que todos reservassem um momento dentro desses encontros clássicos. Um intervalo entre o alvoroço do “feliz natal e próspero ano novo”. Que tirassem esse tempo para pensar profundamente sobre o que sentem pelas pessoas. Família, amigos e até mesmo aquelas criaturas que queremos longe, ou mortas. Sem hipocrisia, todos nós odiamos. E odiar não é necessariamente feio, se é sincero e profundo.

O caminho que leva ao ódio é o mesmo que leva ao amor. Ambos são construídos a partir da dor que sentimos quando caminhamos. Alguma dores sensibilizam e nos fazem amar. Outras endurecem e fazem odiar. O que vai fazer diferença é o tempo que dedicamos a nossos amores e ódios, para entendê-los. Saber qual foi a dor que nos levou a eles, e qual a dor que os sustenta, ou se já são sentimentos livres e independentes. Quando eu me dediquei a entender essas coisas, uma série de outras, aparentemente sem conexão, passaram a fazer sentido.

O final do ano é sempre um momento onde eu penso muito. Por isso acabo fugindo de algumas festas, ou sendo aquela presença ausente nas ocasiões sociais. Eu penso em tudo o que foi e porque foi. Penso no que isso pode colaborar para o que vai vir, e no que eu posso construir a partir do que sobrou.

Nós últimos anos tenho construído momentos únicos com alguns amigos. Fazemos uma grande festa de final de ano. E isso pode ter parecido idiota, pois quase todos fazem isso, mas não é igual. Nossa festa é um presente que edificamos juntos e damos uns ao outros. E todos se esforçam para que seja um momento a ser lembrado, um momento que marque, um momento em que é fundamental a presença de cada um, e que é muito sincero o que sentimos uns pelos outros. E é intenso, como tudo deve ser.

Minha versão de Jesus Cristo é também cabeluda, mas um pouco mais bêbada e libertina. Não nasceu no dia 25 de dezembro, mas nasce e morre a todo momento dentro de cada um de nós. Também transformava água em vinho. Mas seu vinho não é sagrado pelo gosto de culpa e castigo que tem e sim pelo prazer que desperta ao escorregar pela língua. A vida para ele também era um milagre, mas não o milagre “de presente” ao pobre fiel. A vida é milagrosa porque sua beleza e valor são inalcançáveis por nossa condição, e isso a torna superior em complexidade. Minha fé é 50% racionalidade e 50% curtição. E é isso que eu desejo neste Natal.

Não escolham seus hábitos a partir da lenda. Escolham sua lenda a partir dos hábitos. Amem ou odeiem, mas o façam tão profundamente que cada expressão sentimental seja um mergulho em si e no próximo. E descubra um mundo novo a cada mergulho desses, para que sua caminhada continue e os sentimentos amadureçam.

Ou você será apenas mais um idiota pedindo carona na estrada.

Fora do ritmo só há danação

Publicado: segunda-feira, 15 novembro - 2010 em Filosofia, Literatura
Tags:, ,

“Fora do ritmo só há danação. Fora da poesia não há salvação.” (M.Q.)

Eu escrevi isso tudo na quinta-feira passada, mas esqueci de colocar aqui.

Hoje conversando com minha orientadora, em algum momento ela disse “se nós formos cruéis, no sentido de ver as coisas cruas…”. Não consegui ouvir muito o restante, porque isso me fez pensar. E se eu não parasse aqui pra escrever, não ouviria mais nada o dia todo, porque continuaria pensando. Escrevo não para parar de pensar, mas para colocar o pensamento adiante.

Nós temos sempre a pção de ver a vida crua. E se o fazemos, o que vemos é a crueldade. Gente que se atropela, compete, desrespeita, violenta. Gente que consome sem freios. Que produz sem recompensa. Uma juventude que não vai além do que a mídia permite, meninos e meninas construídos por telas espalhadas em todos os cantos. Telas de TV, de cinema, de computadores… telas gigantes de papel nas ruas, telas de vidro nas lojas. Lentes que exibem, mas também enxergam. E sabem muito bem com quem estão lidando.

A cada ano que passa, guardadas as exceções, ejo os jovens mais vazios. Não vazios completamente, mas vazios de si, pois não há espaço para que se construa um indivíduo no meio de tanta bagunça em forma de produto. Jovens que têm por hábito o desinteresse. Entram numa universidade e não se importam com o que já aconteceu ali. Apenas comemoram o mérito questionável do vestibular e esperam o diplima como um cão que espera o osso. Deitam e rolam se for esse o preço. Mais que isso, se fignem de mortos.

O mundo é sim uma desgraça e a esperança é pouca. Não é necessário pessimismo para ver isso, basta o senso crítico. Mas há algo além. A partir do ponto em que estamos vivos, nossa única certeza é a de que um dia morreremos. Mas já que estamos aqui, passamos a ter duas opções: a primeira é, naturalmente, morrer. A segunda é viver. E se não sabemos direito o que é vida, fica difícil saber viver…

Eu fiz minha opção. Viver é entrar no ritmo, viver é estar em poesia.

Entrar no ritmo consta de entender a natureza, observar seus quilíbrios, reconhecer suas capacidades e aplicá-las par aum bem comum. Quanto mais reinventamos a sociedade, mais lonve estamos de nós mesmos, de nossa natureza. Do meu ponto de vista, o caminho é desinventar tudo. Nem que seja só dentro da cabeça. Quando mudamos o modo de ver, mudamos o modo de agir, e muda o que os outros vêem em nós.

Eu ando desinventando muita coisa aqui dentro. Tudo aquilo que aprisiona. E tem mudado meu modo de agir. Me sinto mais livre, e sei que isso estimula que a liberdade floresça ao lado.

O segundo passo é estar em poesia. Isso costuma parecer difícil, pois a sociedade hoje é antipoética. Os poetas hoje são verdadeiros guerrilheiros. Mas eles fazem guerra de um jeito bem diferente, pois seu stiros continuam a bombardear nossos olhos por séculos, milênios, mesmo quando morrer em batalha. Basta que tiremos os olhos das telas e somos alvejados pelos poetas (os da escrita, os da dança, os da pintura, os da música e outros tantos). A natureza é, por si só, uma grande poeta. Se não for, ao menos ela tem fornecido armamentos aos nossos guerrilheiros. E armamento pesado.

O mais intrigante é que no lugar de causar dor, as armas dos poetas nos ajudam a exprimí-la, entendê-la, conviver e lidar com ela de modo que ainda compense escolher viver. É por isso que os meus “grandes filósofos” são, na verdade, poetas. Pois eles conseguem apresentar a realidade crua como é sem que eu sangre ao assstí-la.

Quando a gente perde o “tirmo”, a cadência poética da vida, a morte é atraente. E para que se interrompa a danação, para que eu pare de sangrar, eu acendo um cigarro e olho a paisagem, talvez enquanto tome um café forte. E é assim, na overdose plena dos sentidos, que eu sinto pulsar um coração grande, lá no centro da Terra. Aos poucos, eu volto pro ritmo, sincroinzo a respiração e minha própria “pulsação”. E mesmo parado, eu danço. E mesmo em silêncio, eu me comunico. E memso no pranto há beleza.

Mas fora da poesia… Fora da poesia não há salvação.

Os valores cristãos na democracia

Publicado: quarta-feira, 27 outubro - 2010 em Cultura, Filosofia, Política
Tags:, ,

Esta postagem será longa. Para alguns, cansativa. Mas é um tipo de direito de resposta, misturada com um desabafo e uma obrigação ética pessoal.

Há algum tempo, antes do primeiro turno das eleições, um vídeo com falas do pastor Paschoal Piragine teve mais de três milhões de acessos, repercussão mundial e resultou na alteração dos programas de campanha dos dois principais partidos concorrentes à presidência. No meu entendimento, este vídeo é um dos grandes responsáveis pela ascensão súbita de Marina Silva (a onda verde estava fixa em 13% desde o início, e não acho que em uma semana as pessoas se sensibilizem com o meio ambiente), entre outras coisas.

O vídeo original foi removido do youtube, por ter sido considerado impróprio (entre os motivos, uso de cenas chocantes). Mesmo assim, ele já foi novamente ao ar e está disponível no seguinte link: http://www.youtube.com/watch?v=0ujkhDDVUHA. Quem não assistiu, eu recomendo que assista para entender melhor do que estou falando. Em breve pretendo hospedar o vídeo em algum lugar, pois este também deve ter os dias contados (eu mesmo já estou fazendo minha parte denunciando, e seria interessante que os que concordarem comigo façam o mesmo).

Piragine começa falando sobre a “iniquidade”. Palavra que pode significar discordância com a lei, ou mesmo parcialidade. A iniquidade é tão atacada quanto praticada, ao longo de todo o discurso. Ele pretende que a iniquidade não seja “institucionalizada na forma de lei”. Começamos aqui a perceber o “blablablá”. A frente fundamentalista (que está crescendo muito no país) quer impedir o que eles chamam de “lei da mordaça”. Referem-se principalmetne ao PLC 122, que criminaliza a homofobia e restringe discursos de cunho homofóbico dentro das igrejas, em sua primeira forma. Algumas alterações já foram propostas para que as igrejas não sejam afetadas, mas o importante aqui não é isso.

Se a homofobia for de fato considerada crime, como é hoje o racismo, isso significa que a lei é modificada, por um processo democrático. Assim, não há “iniquidade institucionalizada”, mas sim equidade conquistada. Não estaremos em desacordo com lei alguma no caso da aprovação do PLC 122. Segundo eles, porém, estaremos em desacordo com as leis de Deus. O fato de o estado ser laico deveria encerrar essa discussão neste ponto, tornando o discurso do pastor uma sopa de incoerências. Mas, senhores, infelizmente nosso estado não é laico. Ainda há cruzes em salas de aulas e repartições públicas, com aquele Cristo medonho morrendo assustando nossas crianças. Ainda há professores orando em sala de aula antes de iniciar as atividades. Ainda há uma parcela significativa de pastores e padres eleitos, ou indivíduos sem cargo religioso que possuem o “rabo preso” com essas instituições.

Ou seja, a “lei de Deus” em grande parte dos casos é soberana às nossas leis. Mesmo sendo “Deus” uma figura subjetiva, de existência questionável e – mais importante – não aceita pela totalidade de nossa população. O cristianismo continua a se impor, a ferro e fogo, sobre todas as demais religiosidades. Não necessariamente por princípio, pois não faz parte do dogma cristão a conversão. Isso quem inventou foram líderes religiosos. E seus seguidores ingênuos adotam como lei divina. Os cristãos historicamente não são bons conhecedores da bíblia, então isso não surpreende.

Segundo o pastor, se a iniquidade for institucionalizada, Deus não terá outra coisa a fazer senão julgar nossa Terra.

Quando a esquerda brasileira reagiu com violência aos golpes sucessivos nos anos 60, foram chamados de terroristas. Quando religiosos islâmicos brigam por terras sagradas, são chamados de terroristas. Quando os índios na região norte reagiram contra mineradores em defesa de seus territórios sagrados, também foram chamados de terroristas.

Mas quando um senhor afirma que seu deus careta irá julgar a todos nós por aceitarmos as pessoas como elas são, isso não é considerado terrorismo? Ora, conhecemos bem o modo de julgar cristão. Eu, infelizmente, tive uma educação cristã, da qual estou conseguindo me libertar aos poucos ao longo dos anos. O julgamento cristão não é uma revolta armada, não é um levante a machadadas, tampouco uma reclusão territorial. O julgamento cristão é o sofrimento eterno. A mim, soa um pouco pior. A vocês não?

Isso sem falar do que precede este sofrimento, pois se estamos falando do julgamento da “nossa Terra”, isso inclui fome, peste, guerra, chuvas de fogo, entre outros. Por mais que para mim isso soe ridiculamente, uma vez que a alegoria cristão não me cativa, a todos aqueles que crêem (nossa maioria, em população) essa é uma das piores ameaças que pode existir.

Em seqüência, o vídeo apresenta o discurso de abertura da parada gay. Não que eu a considere um evento livre de críticas, mas são lindas palavras. Não pedem nada mais do que aquilo que prega nossa constituição. Quando se afirma “não votem em fundamentalistas religiosos” o que se está pedindo ali é que se cumpra a proposta do estado laico. Nossa religiosidade é sempre ligada a nossos valores pessoais. Alguém que “aceita jesus do fundo do seu coração”, de modo prático, ou seja, submete-se aos dogmas de uma igreja, não vai se abster destes valores no momento de criar, analisar e votar leis. Não estou dizendo aqui que nosso congresso deveria ser composto apenas de ateus, mas a questão é que se prezamos por não haver “iniquidade”, a bancada cristã não pode ser uma maioria.

A união estável entre pessoas do mesmo sexo e a criminalização da homofobia não vão de encontro à nossa constituição. Não há “iniquidade” alguma nestas propostas, a não ser com as ditas “leis de deus”. Mas eu não sou cristão, me desculpem os amigos. Eu não aceito jesus do fundo do meu coração. Sequer acho provável que Jesus tenha existido, pois não há prova histórica disso. E se por acaso eu quiser me casar com outro homem, não vai ser pela vontade do deus de alguém que isso não vai acontecer.

É absurdo que as igrejas estejam pedindo para “não serem perseguidas” quando o PLC 122 propõe justamente que elas parem sua perseguição contra a população dita LGBT. Os valores cristãos estão em nossos livros didáticos, estão nas cabeças de nossos agentes públicos, estão nas novelas, nos jornais e infelizmente estão também em nosso corpo político. Eu chamaria isso de “iniquidade”.

Uma religião que se fundamenta, em teoria, no amor, não deveria ser avessa a uma lei que criminaliza o ódio que ela mesma pratica. Quem ama aceita, respeita e acima disso procura entender. Quem ama não condena. Mas os cristãos historicamente também nunca foram grande exemplo de amor (que não fosse por si próprios e pelas riquezas acumuladas). Pregam a humildade e condenam a riqueza material, mas criam templos gigantes e sustentam marajás. Pregam que se ajude os pobres, mas se o dogma é justamente a humildade e simplicidade, porque não oferecer ajuda então aos ricos, para que se livrem de seu dinheiro?

Engraçada essa história…

Mais adiante, vem o susto após a afirmação de que a bíblia é um livro antigo, e que não é sagrado. O que há de absurdo nisso? Apenas uma coisa: A bíblia não é um livro.

Bíblia, na origem latina da palavra, é plural de biblos (livro). A bíblia, pela própria definição, é um apanhado de livros. Livros escritos por indivíduos diferentes, em épocas diferentes, por razões diferentes. Vão de relatos pessoais a códigos civís de sociedades extintas há milênios. Por isso a bíblia é essa bagunça, e por isso é cheia de contradições. Por isso a figura de Deus expressa na bíblia é também tão contraditória, e por isso suas leis são também controversas.

Se eu juntar, num único encarte, pedaços das obras de nossos autores mais consagrados, teremos uma coisa interesante: algo que, se lido de cabo a rabo e encarado de modo literal, não fará muito sentido. Mas, é também algo que se encarado de determinadas perspectivas filosóficas, se lido como metáfora, nos dará material para afirmarmos muita coisa sobre seu conteúdo. E essa interpretação será dúbia.

É este o material que os cristãos têm por sagrado e por lei. Mesmo que no fundo as leis que eles sigam não sejam realmente fundamentadas na bíblia.

A próxima crítica é à pornografia. Pornografia essa consumida pelos cristãos, no auge de sua hipocrisia. Eu sugiro um levantamento dos consumidores de pornografia no Brasil que acompanhe suas declarações de religiosidade. Seria realmente interessante observar a porcentagem de cristãos nesse mercado. Mas, a despeito dessa hipocrisia, o ponto não é esse. O vídeo afirma que a indústria pornográfica possui imunidade tributária… Desde quando? O mercado negro pornográfico, talvez possua imunidade tributária. Mas até aí, o mercado negro de mp3 players, de DVDs, de alimentos, ou seja lá do que for, também a possui.

Se vivemos sob princípios de liberdade, aquele que quiser produzir ou consumir pornografia têm essa liberdade. E aqueles que não quiserem, também. Se a televisão exibe pornografia, mude de canal. Se a revista possui conteúdo pornográfico, não a compre. Se os cristãos não consumissem pornografia, ela não seria uma ameaça a seus valores. E se o risco são “nossas crianças”… Bom, a primeira coisa que os cristãos defendem são os valores da família. Então bastaria cuidar da própria (ou confiar seu filhote nas mãos de um velho líder religioso que passou a vida em repressão sexual, o que eu particularmente não recomendaria).

A próxima crítica é à pedofilia, que estaria em todos os setores da sociedade. E está. Mas uma das principais causas desse problema é justamente a repressão sexual cristã. A repressão cria loucos, que praticam loucuras, bagunçam a sexualidade de crianças, que talvez cresçam cheias de dificuldades e, com azar, também se tornarão loucas praticantes.

A pedofilia está longe de nossas vistas porque toda nossa sexualidade está longe de nossas vistas. Falo da sexualidade ampla, não da bunda das mulheres frutas. O cristão vê a sexualidade como algo sujo, maculado, impróprio e oculto. E assim ela será praticada entre os cristãos. A mulher que não se conhece e não se domina, será facilmente objeto de seu homem. A relação de domínio e posse é bastante clara, pois a mulher serve seu marido e cuida da família, enquanto ele, provedor oficial, chefe reconhecido pela sociedade, se isenta desses trabalhos e continua aproveitando dos frutos da estrutura de família feudal que o homem inventou e que a igreja acolheu.

Sabe qual o problema da família cristã (ou, família, de modo geral, como a ocnhecemos hoje)? Ela não é natural.

A família, como a conhecemos, é bastante recente na história do homem. Vivemos durante a maior parte de nossa história em aglomerados onde os pais não tinham posse sobre os filhos, tampouco o marido sobre a mulher. O modelo de família feudal consiste num homem com seus escravos. É um modo de proliferar a família, assegurar a manutenção e expansão dos bens de um sobrenome. Convenientemente ela permanece no modelo capitalista de sociedade, pelas mesmas razões, acrescidas de algumas mais: A família representa a mínima de nosso modelo social de servidão. Quando crianças, obedecemos o papai, pois ele é o provedor, a figura masculina que ocupa a poltrona maior na sala, geralmente com lugar privilegiado. Depois, será nosso chefe na empresa, ou no estado.

A família cristã é a família burguesa. E ela é uma porcaria social.

Agredir a família é visto com alarme porque é agredir a propriedade. A família se fundamenta nas relações de poder e posse, não em relações de amor. Pois se fosse fundamentada em amor, teríamos liberdade para mudar de família quando quiséssemos, de acordo com nossas relações de afeto. E não podemos, pois em nosso primeiro documento, lá está o nome de nossos donos.

Não que as relações familiares não possam existir com amor. É evidente que podem. Eu amo a maior parte da minha família com todo o meu ser. Mas a família não foi feita pra isso, é só o que quero deixar claro.

Próximo assunto: o divórcio. O divórcio é uma conquista. Se ninguém pertence a ninguém e por algum motivo o curso do tempo muda as condições de uma relação, há relamente algum motivo que não seja macabro para que ela seja eterna? Não há.

A religião cristã não aceita o divórcio porque ela não aceita a liberdade. O divórcio agride a estrutura de posse familiar. O divórcio também deixa clara a nossa liberdade de ir e vir, de livrar-se do sofrimento, e, acima de tudo, de escolha. O casamento é visto como sagrado pelo cristianismo por razões muito simples. A sexualidade é, sempre foi e sempre será uma forma de controle social muito eficiente. Uma religião que controla e espiona seus casais os têm em suas mãos.

A essa altura eu não preciso dizer poque a união homossexual assusta tanto os líderes religiosos. Mas vou dizer: Ela mostra o quanto as pessoas podem ter amor e felicidade fora das grades cristãs. Além de pisotear em cima de tudo isso o que disse anteriormente.

O casamento entre homossexuais, que assusta ainda mais a igreja, é um pouco mais que isso, pois envolve uma festa, ou seja, um dia de desforra, para celebrar a liberdade e o amor longe do prisma cristão. É justamente por isso também que sou a favor deste tipo de união ser reconhecida. Será um passo importante para a liberdade de todos nós, homossexuais ou não.

“A violência familiar é um fato”, prossegue o vídeo. Não vou me alongar aqui. Numa conformação social onde a mulher é propriedade, vai existir violência. A moral cria e sustenta esse problema, bem antes de o condenar.

Adiante, criticam alguns costumes culturais indígenas. Isso daria assunto para uma outra postagem completa. Mas vou ser direto. Quando a igreja cristã estiver aberta a ser analisada e criticada publicamente sem reagir dizendo que está sendo perseguida e amordaçada, aceitarei que ela questione outras regências culturais. Antes disso, não. Não estão eles mesmos, neste ponto, amordaçando também uma outra estrutura religiosa? Mas agora não é iniquidade? Por quê?

Já disse aqui tudo o que penso sobre o aborto (o assunto tratado em seguida). Mas retomarei sucintamente. A descriminalização do aborto reduz a violência e reduz a mortalidade de mulheres. O direito ao aborto (direito não é obrigação, frisemos) é o domínio da mulher sobre o próprio corpo. Ele livra a mulher da obrigação social de ser uma parideira. Ele retira das costas da mulher o estigma social de reprodutora. O aborto é natural, praticado em diversas sociedades animais, e condenado em nossa história apenas recentemente por valores religiosos. A concepção do início da vida é contraditória cientificamente, mas há uma faixa segura onde se pode afirmar que aquele punhado de células não constitui ainda um indivíduo.

Mas mais importante que tudo isso é que a proibição coloca um ponto final na discussão. Num país onde o aborto é legalizado, a mulher que opta por não ter o filho terá acesso a apoio médico e psicológico. Ela não precisará se esconder ou procurar criminosos para isso. Nessas condições, muitos abortos podem até mesmo deixar de ocorrer, pois a mulher poderá encontrar outras opções para lidar com seu problema.

Se o aborto for descriminalizado e/ou legalizado no Brasil, as enfermeiras cristãs não poderão tratar mal mulheres que ficam sangrando e sofrendo com dor por cerca de 4 a 6 horas num corredor enquanto são encaradas como assassinas cruéis por todos aqueles que passam por ela. Essas mulheres também não terão de conviver com tantos traumas causados pelo aborto ou pela gravidez indesejada.

Proibir o aborto no Brasil é assinar a pena de morte sobre diversas mulheres que não têm acesso a planejamento de vida, a métodos contraceptivos (que a igreja, por vezes, também condena) ou condições sociais e psicológicas de criar um filho ou lidar com a gravidez.

O aborto é sim uma questão de saúde pública. E deve ser tratado como tal. E a igreja não tem nada a ver com isso, como não deveria ter nada a ver com aquilo que é público.

Todo o restante do vídeo eu me recuso a comentar. É campanha política declarada, pois a direita fecha mais facilmente com a igreja. E ainda que o PT não seja atualmente um exemplo de partido de esquerda, não tem as pernas tão abertas quanto o PSDB e seus aliados.

Os reflexos da investida cristã sobre nosso quadro político são um candidato à presidência que já fechou acordo com as instituições religiosas para negar o PLC 122 e a gerência da candidata em oposição a ele, que admitiu ter sido um “erro ser pautado internamente por feministas”. Também pode ter levado a um segundo turno uma eleição que estava quase determinada.

Me assusta, sinceramente, o poder da igreja sobre o estado e sobre nós. Oprime, mas não cala. Todos nós devemos reagir a esse tipo de controle social de massas e eis aqui uma de minhas manifestações de reação.

Tive conhecimento deste vídeo há cerca de um mês. Me senti bastante ofendido e agredido em diversos momentos, mas não acho que os amigos que o veicularam em suas páginas pessoais tivessem essa intenção. Talvez só a desconsideração. De qualquer forma, pode ser que esse texto ofenda alguns dos meus amigos. Essa também não é minha intenção, mas pode ser considerara uma “desconsideração recíproca”. A verdadeira intenção aqui é interceder por mim e todos os amigos diretamente agredidos por essa cachorrada toda proferida pelo pastor Paschoal Piragine, mas que representam o pensamento da maioria dos falsos líderes cristãos.

Ainda assim, eu prefiro chamar isso de afirmação de liberdade. Todos têm o direito a vestir uma coleira e comer na cumbuquinha medíocre que a igreja nos oferece. Mas não podemos permitir que isso seja uma obrigação social.

O direito conquistado pelo cidadão ao lado deveria ser motivo de felicidade e alegria por todos aqueles que prezam pela democracia. Aqueles que com isso se agridem, deveriam procurar uma religião que pregue pela individualidade, pela injustiça e pelo ódio. Mas vocês cristãos não precisam se dar esse trabalho… Já encontraram.

E um perdão sincero aos poucos cristãos “direitos” que eu conheço e que também devem ter se ofendido com tudo isso tendo sido dito em nome de seus valores mais puros (especialmente minha avó Eunice e minha tia Cecília). Elas não são obrigadas a ouvir tudo isso.

Ateus cristãos

Publicado: segunda-feira, 9 agosto - 2010 em Cultura, Filosofia, Política
Tags:, ,

Aviso: post ácido. Aqueles que se ofendem com facilidade, enfim… Fodam-se.

Dentro de um curso de biologia, você fica cercado de ateus. O ar fica até mais leve, num primeiro momento, quando você olha ao seu redor e percebe que as pessoas ali aceitam a evolução, que consideram as políticas da igreja católica um atraso, que enxergam as franquias evangélicas como caça-níqueis. E batem no peito pra dizerem “Sou ateu”.

O post de hoje é pra todos vocês que se consideram ateus. O ateísmo, do meu modo de ver, é uma coisa linda. Se sincero, é tão belo quanto as mais antigas das religiões. Se praticado, é tão benevolente quanto qualquer grupo caridoso em nome de entidades.

Mas eu sinto dizer, a maioria de vocês não é ateu. Cristianismo não é e nunca foi “ir à igreja” ou mesmo “levar a sério as palavras de um padre/pastor”. O cristianismo é uma sementinha negra que enfiam na nossa cabeça desde pequenos. Uma semente de culpa, em primeiro lugar. Uma semente de preconceito, em segundo. E, em terceiro, uma semente egoísta.

Ser cristão é pensar que o aborto é feio, por exemplo. É ver sacralidade na vida de um bebê enquanto come um pedaço de bife. Ser cristão é ver a mulher como um objeto, um presente para o homem. Ser cristão é condenar o uso de drogas como uma “fuga da realidade” enquanto se apóia em valores que afirma terem vindo de uma realidade que o ser humano ainda não conhece.

Ser cristão é a maior hipocrisia possível para a vida de um ser humano. Porque o cristianismo é anti-humano. Ele violenta nossa natureza e nos transforma em monstrinhos machistas, egoístas, prepotentes e arrogantes (igual a muitos cientistas, diga-se de passagem, desses que me rodeiam por aqui).

Ser cristão é assumir ter sido feito à imagem e semelhança de um velho que julga, condena e castiga, mas diz para não julgar o próximo. Um velho que condena qualquer forma de relacionamento fora de seu padrão, mas diz ser feito de amor.

O cristianismo é um conjunto de valores bizarros que o ocidente mastigou e engoliu. A diferença é que um verdadeiro ateu vomita cada um deles antes de dizer que Deus não existe. O problema do verdadeiro ateu não é com Deus. É com o lixo de sociedade que foi construída em seu nome.

Então pra você, ateuzinho capitalista, ateuzinho machista, ateuzinho homofóbico, ateuzinho antropocêntrico… Saiba: Você não passa da porra de um crentinho, só que ainda mais mimado e chato, porque fica com esse discursinho de “não sou, não sou, não sou!”. Batam os pés e esperneiem. Vocês são cristãos.

Não expliquem Deus!

Publicado: sexta-feira, 30 julho - 2010 em Filosofia
Tags:,

Acho que o que mantém a figura de Deus acima do homem é o fato de não o explicarmos. Se isso acontecesse, ele estaria junto do restante da natureza explicada. Abaixo de nós, portanto.

Os defensores de Deus, ao tentarem entendê-lo, não percebem estarem a uns poucos passos de o destruirem…

Pra que haja conteúdo, vou ter que falar pouco. Quando o assunto é evolução, qualquer biólogo que se preze fica empolgado e tenta explicar o universo todo. Eu também sou assim, mas vou me controlar. Esse post será uma nada rápida desmistificação do conceito deturpado popular de evolução que se aplica às sociedades, muitas vezes de forma equivocada.

Primeiramente, vamos esclarecer que evolução não é um proceso. É o nome que se dá a um conjunto de diversos processos que, embora entrelaçados, são independentes. Aos conceitos, então:

Diversidade

A diversidade é inerente à vida como a conhecemos. Se há alguma forma de vida que não esta sujeita a esse princípio, ainda não a encontramos. Mas dentro dos conceitos de vida mais aceitos pelas ciências, se essa “coisa” aparecer, ela não será identificada como viva tão rapidamente. A partir do ponto em que é inerente, ela não pode ser condenada. Mais que isso, ela adquire importância. Numa população em que há grande diversidade (portanto, variedade nas características que ela expressa), temos pequenas subpopulações com capacidades distintas de resistência, aptidões desenvolvidas de modo e intensidade diferentes e o mais importante: capacidade de adaptação. Esta populção pode estar sujeita a diferente tipos de pressão, da falta de alimentos a alterações climáticas, mas ainda que perca alguns de seus exemplares (talvez até os mais notáveis) resistirá enquanto população. Uma população com pouca diversidade, por outro lado, estará sujeita à extinção com maior facilidade sob pressões, muitas vezes, pequenas. Algumas formas de vida resistem numa faixa de temperatura estreita, por exemplo. Uns graus a mais e toda a população morre. Pouca diversidade resulta em fragilidade para a população como um todo.

Seleção

A seleção é a parte mais engraçada do processo evolutivo, porque as pessoas tendem a ver processos coordenados aqui, apesar de se tratar de um fenômeno bastante caótico. O processo de seleção ocorre quando, dada uma pressão, parte da população sucumbe e parte resiste. Exemplo bobo típico da girafa: Árvores mais altas num período de seca faria com que as de maior pescoço conseguissem se alimentar mais (e se reproduzir mais), enquanto as de menor pescoço morreriam. Outro: machos de penas azuis, por algum motivo, tornam-se mais atraentes para as fêmeas de uma dada espécie de aves, assim se reproduzem mais e com o tempo teremos uma espécie cada vez mais azul. Até o momento em que esse azul, por exemplo, comece a chamar atenção de predadores, então os muito azuis serão predados e a espécie terá um tom de azul intermediário.

Talvez a biologia tenha ecolhido a palavra errada para ese processo, pois não se trata de uma escolha. E aqui vão me chamar de “cricri”, eu sei. “O André é extremamente birrento com essas coisas de terminologia”. Sou mesmo. Mas não é a toa. Quando falamos de uma população selecionada, dá a entender automaticamente que ela foi escolhida. E se pensamos numa escolha, que é um processo consciente, pensamos que se uma população foi escolhida em relação à outra, ela deve ser melhor.

Eis o grande precipício entre a ciência biológica e o senso comum. A “seleção” faz parecer que algumas das características expressas dentro de uma população diversa são melhores que outras, porque resistem. Por pura preguiça de pensar que se a pressão fosse outra, talvez a parcela extinta fosse a sobrevivente e vice-versa. Isso tira todo o sentido da diversidade, pois induz a pensar que dentro de uma população, existem diversas características: a melhores e as piores. As piores vão ficando para trás e as melhores são mantidas, e assim caminhamos rumo à perfeição platônica.

Sim, em termos de “evolução” intelectual, andamos bem menos do que pensamos. Esse – o da perfeição – é apenas um dos paradigmas que ainda mantemos desde o princípio da nossa filosofia (do meu ponto de vista “perseguidor”, graças ao cristianismo).

Isso nos dá condições para pensar que algumas das variações (lembrando que variação é a expressão do princípio da diversidade numa população) podem ser chamadas de deformidades ou inaptidões. Se a criança nasce sem a orelha esquerda, ela nasceu deformada, e é pior que as outras crianças. Em tempos obcuros da história científica, isso já foi justificativa pra matar muita gente (mas não se enganem: a eugenia ocorre ainda hoje, de modo mais sutil). Em busca do ideal perfeito, minamos lentamente nossa diversidade. Os mais dramáticos diriam que nos tornamos uma massa amorfa e sem luz. Eu não sou tão trágico. Acho que existe sim muita forma e muita cor. Mas ainda é frágil.

Quando minamos a diversidade que se manifesta ao nosso lado, tornamo-nos frágeis. Tornamo-nos frágeis enquanto indivíduo e enquanto espécie. O que costuma diferir o ser humano de outras spécies é justamente a capacidade cognitiva. Só não descobrimos até hoje se isso foi realmente uma vantagem. Às vezes parece que não. Quando tentemos nos aproximar como que querendo todos estar na “média” e isso nos faz sentir mais fortes, parece que não.

O terceiro passo do conjunto de processos (que simplifiquei em três, mas vai bastante além… De cinco a muitos, dependendo do autor) é o que segue:

Especiação

Numa dada linha da história, as populações selecionadas vão se tornando distintas ao ponto de já não pertencerem a uma mesma espécie (que é, às vezes, também um conceito difícil de definir). Elas adquirem identidades tão diferentes que deixam de se misturar. Deixam de se reproduzir entre si. Esse isolamente é resultado de processos que levam mais tempo do que a nossa história toda enquanto espécie, na maioria dos casos. Mas ainda assim parece haver um fantasma rondando esta possibilidade. Um fantasma que nos deixa apavorados com a possibilidade de não sermos mais todos irmãos, filhos de um mesmo deus, à sua imagem e semelhança.

E a coisa fica “preta” quando tentamos atribuir estes conceitos de processo em nossas organizações sociais. Por natureza, qualquer processo humano será carregado de valores. Um conceito, ou melhor, um conjunto de conceitos que já chega até nós deturpado e cheio de valores embutidos, será atribuído a processos ainda mais valorados, por pessoas ainda mais valorativas. E asneiras serão cometidas em nome do pobre Darwin, ao ponto de termos discursos bizarros saindo da boca de economistas que tentam justificar o fato de haver populações mais ricas aptas que outras e, portanto, mais preparadas para a pressão capitalista ambiental.

Dá vontade de chorar (eu estava guardando meu dramatismo pro final).

Algumas coisas têm que mudar. Temos a opção de abandonar a referência da perfeição. Esquecemos que existe um deus-molde, não pensamos em nossa trajetória espiritual histórica como um melhoramento, entendemos que a variedade (inclusa a de pensamento) é necessária à nossa sobrevivência e rompemos subitamente com essa figura tríade paterna que tanto nos tem judiado.

A outra opção é transformar essa figura. No lugar de termos todos a sua face, ela é que terá de ter todas as nossas faces. Uma figura que é semelhante à vida como um todo é uma figura tão ampla e inimaginável que não pode se espressar por nada que não seja o próprio todo. E aí, talvez, esse Deus multifacetado tenha algum sentido enquanto criador da vida. Mas na verdade, seguindo a lógica da vida em transformação e reconstrução diária, essa figura não poderia ser provocadora (criadora), mas sim resultado inconstante, sujeito a adaptações diárias para manter a semelhança.

Duas considerações a fazer, para terminar, pois já estou fugindo de minha proposta inicial, que era não tentar explicar o universo à luz da evolução.

• Se construímos uma figura de deus à nosa imagem e semelhança (já deixando claro aqui que o inverso, pra mim, é inconcebível), então precisamos primeiro mudar um pouco nossa concepção de vida e realidade. Ou nosso deus será burro como nós todos. E injusto como todos nós. E não é como tem sido?

• Perdão aos filófosos, perdão aos humanistas, perdão às “professorinhas”, mas enquanto for assim, cristianismo e ciência não podem conviver em paz. Não enquanto o conceito de evolução for usado de modo torpe para jutificar que existam os melhores e piores. E aos senhores de batina (ou terno e gravata, na modernidade) apena digo que enquanto houver gente passando fome por ser pior, morrendo por ser pior, não podendo se casar com a pessoa amada por ser pior… Enquanto houver gente nessas condições, (dói, mas é verdade) ciência e religião são inimigas sim.