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Esse não é um texto só para anarquistas, porque explica muita coisa sobre eleições. Ele vai desagradar a quem tenta tratar esse assunto de uma maneira “8 ou 80”. Vejo essa pergunta surgir diariamente nos grupos anarquistas de que participo, então pra não ter de escrever noventa vezes a mesma coisa, resolvi escrever aqui. Tentarei trazer as informações necessárias para que você tire suas conclusões, a partir do que está aqui e das duas próprias convicções. Essa, como várias outras perguntas sobre a anarquia, não tem uma resposta pronta.

 

“Anarquista não vota”

Essa máxima é a mais comum, e me arrisco a dizer, a mais “senso comum” também. Ela tem uma razão de existir, mas não acredito que a grande maioria das pessoas vá além dessa afirmação rasa na hora de argumentar e tirar suas conclusões. Afinal, anarquistas podem votar? Bem, anarquistas podem fazer o que bem entenderem. No contexto da ação direta como prática, não há quem te possa dizer o que você não possa fazer, desde que você tenha uma boa explicação pra isso. A grande questão aqui é: existe uma boa justificativa pra que um anarquista vote? Às vezes sim, às vezes não. Pra saber se você tem esse bom motivo ou não, é preciso entender algumas coisas e colocar numa balança.

 

Votos nulos, brancos e ausências

Existe muita desinformação na internet a respeito desse assunto, e muita gente tentando ensinar o que não sabe. Até mesmo a legislação eleitoral é um pouco confusa, favorecendo interpretações distorcidas. Entre anarquistas, é muito comum que existam campanhas de votos nulos, mas isso não ocorre com o objetivo de anular as eleições, como alguns supõem. O que pode chamar uma nova eleição são uma quantidade superior a 50% de votos “anulados”, nesse caso, por um TRE/TSE. Quando um candidato é impugnado, por exemplo, seus votos são anulados, e se forem superiores a 50% do eleitorado, uma nova eleição poderá ser chamada em que este candidato não poderá participar novamente (porque foi impugnado), mas os outros vão. Pela lei, nenhuma ação do eleitorado (prevista em lei) cancela um processo eleitoral. Pra isso seria necessário comprometer o processo eleitoral (com fraudes, por exemplo), o que o voto nulo não faz.

Então pra que serve o voto nulo? Isso também pode variar de pessoa pra pessoa, mas em geral, é uma das possíveis declarações de insatisfação com o processo eleitoral. Para fins de registro, é preciso entender os três tipos de “não voto”, sendo eles:

Voto Branco: O voto branco é um “tanto faz”, para fins de declaração ideológica. Eles têm uma contagem própria, mas geralmente são apresentados em conjunto dos nulos pelas mídias (ex.: “8% de brancos e nulos”). Estatisticamente, eles penas reduzem a quantidade de votos válidos, ou seja, não são contabilizados para as porcentagens finais do processo eleitoral. Vou explicar isso com calma adiante.

Voto Nulo: O voto nulo é um “nenhum deles(as)”, para fins de declaração ideológica. Também é contado separadamente para fins de registro, mas não é contabilizado entre os votos válidos. Os votos nulos, assim como os brancos, não vão “pra quem tem mais”, como se afirma por aí, mas eles também alteram a matemática final das eleições.

Ausência: A ausência, ideologicamente, é um “esse sistema não me representa, independente dos candidatos”. Por isso, entre anarquistas tem crescido a campanha não apenas para anular, mas também para não votar. A ausência pode ser justificada em outra cidade. Se não for justificada, o eleitor deverá pagar uma multa de R$3,51 para cada turno em que esteve ausente e ficará em dia com a legislação eleitoral. Esse processo é rápido e pode ser resolvido em poucas horas, e você receberá uma certidão de quitação que tem a mesma validade de um comprovante de participação nas eleições para fins de concursos públicos, ingresso em universidades, etc. Elas também reduzem o total de votos válidos.

 

Antes da matemática, algumas questões filosóficas

Algumas pessoas têm planejado usar a lei da “escusa de consciência” para não terem a obrigação de votar. A escusa de consciência é um pedido de não obrigatoriedade individual para algo determinado a todos os cidadãos por lei, em função de crença religiosa, convicção filosófica, etc. Por processo, esse cidadão receberia uma outra obrigação ou prestação de serviço social equivalente, deixando de ter a obrigação que entra em choque com seus valores. Na prática, isso já existe, e é exatamente essa multa. Como seriam milhares de brasileiros alegando escusa de consciência, cria-se um sistema padronizado, em que aquele que não se sente bem em votar poderá contribuir com essa multa.

O grande problema é que essas multas vão para o fundo partidário. Então quando você não vota por ser contra o sistema eleitoral, mas paga a multa para não perder direitos sociais, na prática está sustentando o financiamento público de campanha. Durma com esse barulho.

Eu venho estudando a possibilidade de alegar escusa de consciência no pagamento da multa, exigindo uma outra obrigação que não me envolva no processo eleitoral da democracia representativa, ainda que indiretamente. Mas até agora nada conclusivo. Se alguma alma iluminada por aí tiver embasamento jurídico sobre esse assunto e puder acrescentar nos comentários, eu atualizo a publicação. Até lá, ficaremos com esse mistério. Mas fica aí a dica para quem quiser pesquisar também.

 

Matemática eleitoral sinistra da morte

Pois bem. Até agora estava tudo lindo, eram apenas questões de convicções políticas, morais e filosóficas, e parecia lógico que, nesses contextos, anarquistas não votassem. Essa seção do texto atende ao propósito de mostrar um outro lado, onde a estratégia de cada um poderá levar a atitudes que, superficialmente, são contraditórias, mas radicalmente são válidas, legítimas e até mais plausíveis do que a negação do voto.

Como já dito, votos brancos, nulos e ausências, para fins de contagem final os votos, têm a mesma função, independente da proposta ideológica. Eles diminuem a quantidade total de votos válidos. Isso é um problema? Você é quem me diz… Veja:

 

– Eleições diretas para cargos de uma cadeira só (ex.: governador, presidente, prefeito)

Nesse tipo de processo eleitoral, o que conta é quem tiver a maior quantidade de votos na contagem absoluta. Caso essa contagem supere 50% dos voto válidos já no primeiro turno, não ocorre segundo turno. Vamos entender o tamanho dessa treta numa eleição hipotética, com números simplificados pra ficar mais claro:

SITUAÇÃO: 4 candidatos (PA, PB, PC, PD); 100 eleitores; 1 cadeira. Veja dois possíveis cenários:

1º Resultado das  eleições: PA 41 votos (41%), PB 35 votos (35%), PC 15 votos (15%), PD 9 votos (9%). Essas eleições vão para segundo turno, porque o candidato mais votado não superou 50% dos votos válidos.

2º Resultado das eleições: PA 41 votos (41%), PB 28 votos (28%), PC 8 votos (8%), PD 3 votos (3%), Brancos 7 (7%), Nulos 9 (9%), Ausências 4 (4%). Para calcular o resultado dessas eleições, primeiro retiramos os votos que não são válidos (brancos+nulos+ausências= 20 votos). Assim, o total de votos válidos passa a ser 80, e as porcentagens serão recalculadas em função desse total. O resultado final fica assim: PA 41 votos (51,2%), PB 28 votos (35%), PC 8 votos (10%), PD 3 votos (3,7%). O candidato do PA ganhou as eleições no primeiro turno com a mesma quantidade de votos.

Num eventual segundo turno, como só há 2 candidatos ganha quem tiver mais votos. Os votos não válidos só vão aumentar essa diferença proporcionalmente, mas não vão alterar significativamente os resultados. Mas num primeiro turno, uma quantidade alta de votos não válidos poderá acelerar a definição do processo eleitoral.

 

– Eleições diretas para cargos de múltiplas cadeiras, com distribuição por proporcionalidade (ex.: deputados e vereadores)

Esse caso é um pouco mais complexo, então tentarei simplificar. Após as eleições as cadeiras disponíveis serão distribuídas entre os partidos e/ou coligações conforme a proporção de votos. Se um partido tiver 50% dos votos para deputado, metade das cadeiras da câmara é desse partido. Nas eleições para deputados e vereadores, não ganham necessariamente os mais votados. Primeiro se distribui proporcionalmente as cadeiras aos partidos/coligações, e aí elas são preenchidas pelos mais votados dentro desses partidos/coligações. Se o PA consegue 3 cadeiras e p PB consegue 1 cadeira, mesmo que o segundo mais votado do PB tenha mais votos que o terceiro mais votado do PA, ele não vai entrar. Vamos colocar exemplos, novamente:

SITUAÇÃO: 3 partidos e uma coligação (PA, PB, PC e CO, esta última incluindo PD e PE); 100 eleitores; 20 cadeiras.

1º resultado das eleições: PA 40 votos (40% = 8 cadeiras), PB 30 votos (30% = 6 cadeiras), PC 20 votos (20% = 4 cadeiras), CO 10 votos (10% = 2 cadeiras). Ou seja, entram aí os 8 mais votados do PA, 6 mais votados do PB, 4 mais votados do PC e os 2 mais votados entre PD e PE. Mesmo se o 5º mais votado do PB tiver mais votos que o 8º mais votado do PA, ele não entra, porque primeiro são distribuídas as cadeiras (vagas). Agora veja a treta…

2º resultado das eleições: PA 40 votos (40%), PB 20 votos (20%), PC 15 votos (15%), CO 5 votos (5%), Brancos 4 (4%), Nulos 10 (10%) e Ausências 6 (6%). Os votos válidos contabilizam 80. Dessa forma, temos PA (50% = 10 cadeiras), PB (25% = 5 cadeiras), PC (18,7% = 4 cadeiras), CO (6,2% = 1 cadeira).  Com a mesma quantidade dos votos, o PA tem metade da câmara, e praticamente qualquer decisão nas mãos. Além disso, com a mesma quantidade de votos, o PA conseguiu colocar mais duas pessoas lá dentro, só porque houve uma quantidade expressiva de votos não válidos.

 

Tá, mas e aí?

De maneira mais objetiva, votos inválidos não vão pra quem tem mais, mas aumentam as proporcionalidades e as diferenças entre proporções. Embora eles não sejam contados pra ninguém, a diminuição do total favorece os mais votados, podendo acelerar uma eleição para que um favorito ganhe no primeiro turno ou ampliar a quantidade de cadeiras ocupada pelos partidos/coligações mais votados nas eleições.

Por que eu decidi congelar os valores dos partidos mais votados e reduzir os menores para acrescentar os não válidos? Porque na prática, costuma ser assim. O eleitorado dos grandes partidos ou candidatos “pop” é fiel. Essas pessoas não pensam muito pra votar, elas são “petistas” ou “tucanas” ou ainda “malufistas”, e têm seus cérebros congelados há 20 anos. Quem passa por esse processo de questionamento são as mesmas pessoas que considerariam votar em partidos menores, que são menores justamente por apresentarem propostas de transformações mais radicais ou valorizam setores da sociedade historicamente oprimidos.

 

Ou seja, eu tenho que votar?

Não, em absoluto. O objetivo desse texto não é te convencer a votar. Eu mesmo, das 10 eleições de que já participei, só votei em duas. A primeira por pura ingenuidade e numa outra específica vez em que eu acreditei que um candidato merecia mais visibilidade para o que estava dizendo, e que se ele fosse eleito eu teria muito mais condições de lutar pela construção da anarquia. Esse candidato era o Plínio, naquele momento no PSOL, concorrendo à presidência. Fiz isso não porque ele me representava dentro do contexto da democracia representativa. Eu não acredito nisso. Mas eu conhecia a história dele. Eu tive a oportunidade de o encontrar pessoalmente duas vezes, de fazer perguntas, e ele mantinha uma plataforma de comunicação aberta na internet. Eu julguei que valia a pena, por vários motivos, e votei. Ele não ganhou e já não está mais entre nós, mas eu não me arrependo. Aquele voto foi tático. Eu queria alguém na televisão falando sobre reforma agrária de verdade, falando em atacar banqueiros, falando em negar a dívida externa. Queria alguém falando que colocaria impostos sobre grandes fortunas e que retiraria, de fato, de quem mais, de riquezas ilegítimas e absurdas (se você é um liberalista e vai comentar apenas pra defender grandes fortunas me faça um favor e não perca seu tempo, eu só estou explicando meu contexto de decisão).

Então a pergunta que eu te faço é: Seu voto é tático? Ou: Sua anulação de voto é tática?

Um anarquista pode até mesmo se candidatar se isso for tático. Você poderia aproveitar segundos na TV ou panfletos e cartazes pra criar um personagem caricato que aponta as falhas do sistema eleitoral de dentro dele. Sem compromisso de ganhar, porque você provavelmente não vai, sem financiamento de grandes setores privados.

A anulação do voto também pode ser tática. Uma grande quantidade de votos nulos ou ausências são uma das maiores evidências que teremos para apresentar à sociedade que esse sistema está falido e que a democracia precisa ser aberta, participativa. Que não queremos mais terceirizar nossa cidadania a cada 4 anos para um capataz diferente.

Votar ou não, para um anarquista, não é a questão. A questão são os porquês. Se você não vota, mas quando te perguntam o motivo você diz “porque sou anarquista, e anarquistas não votam”, com o perdão da sinceridade, você é bem burrinho(a). Se não é burrinho, sua preguiça de explicar te faz parecer um, e isso só tira a credibilidade política da anarquia. As pessoas só vão abdicar de suas propostas pelas nossas se elas considerarem nossa proposta mais inteligente. Então se esforcem mais!

Por fim, pare de tentar fazer seus irmãos e irmãs parecerem “menos anarquistas que você” apenas porque eles decidem votar ou deixam de votar. É preciso haver respeito na diversidade tática anárquica, na mesma medida em que precisamos problematizar essas decisões, quando algum(a) compa anarco disser que vai votar ou não. No lugar de dizer “seu idiota, anarquistas fazem assim, mimimi”, comece com um “por quê?”.

Agradeço a paciência de quem chegou até aqui. Um mundo sem patrões não vai cair do céu apenas porque sentamos emburrados no canto. Mas é preciso sempre olhar pra si e repensar se não estamos nos vendendo por pouco. O processo eleitoral é uma grande fraude. Cabe a você saber o que pode tirar desa fraude ou se vale a pena destruí-la.

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[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

A Falsa Luta

Publicado: sábado, 16 junho - 2012 em Cultura, Filosofia, Política
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Não é apenas triste que exista pouca gente dedicada a entender e se envolver em problemas políticos. Desses poucos, há uma parcela bem razoável de gente que está fazendo tudo errado, sem entender o que é uma luta política. Vamos partir do princípio.

Quando uma causa política se configura como luta política, pressupõe-se aí a figura de um inimigo (que não precisa ser uma pessoa; pode ser um grupo, um valor, um hábito etc). E esse é o primeiro e mais básico dos erros cometidos nas falsas lutas. Escolher o inimigo errado é equivalente a “descontar no vizinho”. Já que eu não sei com quem brigar, vou descarregar na primeira figura fragilizada que cruzar meu caminho.

Exemplificando: Quando fazia escola técnica, eu fazia 4 trajetos de ônibus por dia. Como foram 4 anos, vi a passagem subir algumas vezes. E quem sempre ouvia era o cobrador (o motorista um pouco menos). Agora vamos entender o porquê…

A passagem subiu e o grupo de atingidos é o de passageiros (sempre maioria). O motorista está dirigindo o ônibus. Nossa chegada ao trabalho depende dele, e um pouco também nossa vida. Sobra o cobrador, a figura mais fragilizada no ônibus, pra essa situação. E ele vai ouvir uma enxurrada de absurdos, talvez nem saiba do que estão falando, talvez esteja até ele mesmo indignado com o aumento da passagem, mas ali ele é a figura mais vulnerável pra ser responsabilizada.

Outras situações semelhantes acontecem nos supermercados. Quando as sacolinhas foram proibidas, em uma semana eu vi duas caixas ouvindo uma porção de desaforos. E por que os caixas? Porque se reagirem, tomam um esporro do gerente ou do dono do estabelecimento.

O jeito mais fácil de evitar ser este tipo de idiota é fazer uma análise bem rápida. Se o seu inimigo é mais fraco que você (para aquela situação social), então provavelmente ele não é seu inimigo, ou o problema já teria sido resolvido. O inimigo, numa causa política, sempre é “alguém” mais forte. Por isso é que surge a causa e a luta. E por isso as pessoas dificilmente assumem para si as causas mais íntegras.

E pra finalizar, se o inimigo é você, isso pode ser uma causa, mas definitivamente não é uma luta. Lutar pelo meio ambiente não é fechar a torneira. Fechar a torneira é prezar pelo meio ambiente. Lutar é fazer com que se feche uma porção de torneiras que não são suas, sobre as quais você não tem poder algum, sobretudo aquelas “torneiras” bem grandes, do agronegócio e do setor industrial, que se recusam a fechar.

Definido um inimigo, é preciso ter uma estratégia. Se não houver estratégia, não é luta, é uma “briga”… Ou chame do que você preferir. Eu geralmente chamo de chilique, porque acho que os chiliquentos se incomodam mais quando os chamamos assim. “Briguento” faz parecer que ele é uma pessoa cheia de convicções e de temperamento forte, o que geralmente não é.

Isso significa que se você entendeu que o aumento da passagem é de responsabilidade dos governos e das empresas conveniadas, o próximo passo é saber que reclamar com o cobrador não vai resolver absolutamente nada. Conversar com ele, por outro lado, pode trazer informações valiosas e, quem sabe, um companheiro de luta.

Quando o filtro do inimigo não funciona, a estratégia se aplica como uma malha fina. Removidos os 90% de chiliquentos, dos 10% restantes, talvez agora se vão mais da metade. É gente que coloca pano branco na janela pra reduzir a violência, por exemplo. Gente que veste uma camiseta “100% negro” e acha que isso vai coibir o racismo também. E tantas outras gentes que até sabem que têm que lutar, têm motivos pra isso e até querem fazer alguma coisa. Mas não sabem como.

E geralmente esse cidadão se coloca da seguinte forma “Tá errado, mas eu vou fazer o quê?”. Quem começa dessa forma geralmente perde minha atenção imediatamente. Lutadores de verdade buscam ou constroem um método de luta, não ficam esperando algo cair do céu. Todo lutador é um líder, ao menos de si. Mas essas pessoas sem estratégia e de bom coração acabam sendo importantes para dar volume. Eles são a maioria esmagadora em qualquer “marcha” que você ver por aí, seja pra Jesus ou seja pra maconha.

O último termômetro é talvez o mais perigoso. Todo guerreiro que volta vitorioso de suas batalhas começa a receber o aplauso das multidões. E em pouco tempo, ele poderá estar lutando pelo aplauso, e não pela guerra. Então, se as pessoas começarem perder mais tempo te aplaudindo (estou falando de um aplauso metafórico) do que guerreando ao seu lado, sinto dizer, mas você fez tudo errado.

Uma das coisas que mais me irrita, e acredito que outros ativistas partilham dessa aflição, é depois de um momento de luta, as pessoas te parabenizarem pelo que fez. São aquelas pessoas que dizem que apoiam sua causa, que admiram seu esforço, mas que não lutam ao seu lado.

Essa reação não é sincera. E podem me chamar de paranoico, mas estou convicto disso. A pessoa que realmente se compadece por sua luta, luta ao seu lado. As outras estão apenas cumprindo uma função social. Estão dizendo aquilo porque senão “fica feio”. Conscientemente ou não, é assim que acontece.

Não confundam, por favor, com o direcionamento de esforços para outra batalha. Algumas pessoas estão lutando por outras coisas. Mas se elas estão lutando, eu entendo que estão lutando ao meu lado. São lutadores. Mas se elas só admiram outros lutadores, elas estão mais do lado da figura do inimigo que do seu.

Por fim, cabe uma observação, que é o dos emotivos do avesso. Esses são os que se dizem lutadores, mas não têm coragem de afrontar, por exemplo,  um pai, por conta da relação de afeto estabelecida. Mas vou jogar outro balde de água fria na sua cara, se você é desses. Você não está respeitando uma relação afetiva, está se submetendo a uma relação de poder, porque se fosse um filho, você interviria. Quem ama intervém. Enfrentar valores daqueles que você ama não só é justificável, como é mais bonito, porque a razão primordial para enfrentar é que você ama.

Os que abdicam totalmente da luta, bem… Esses eu respeito como respeito uma folha de alface. Não é pouco, acreditem. Mas não os consigo olhar como iguais. Luto por eles, como lutaria por qualquer outro. Só não me peça para os amar tanto…

Essa postagem não será uma crítica ou defesa sobre qualquer das recentes polêmicas socioambientais no Brasil. As pessoas (eu incluso) já estão saturadas disso e eu particularmente ando irritado com o grande volume de hipocrisia que circula pela internet.

Só a título de curiosidade, sou contra, em âmbito geral, o projeto da usina Belo Monte e também a reforma no Código Florestal. Mas pra todos os meus amigos ambientalistas que ficam “putinhos” com a minha postura neutra na maioria desses debates, talvez esse texto explique alguma coisa.  Ou talvez confunda mais. Despretensiosamente, vamos ao blablabla…

Vou falar de energia em termos gerais, também, pra não parecer que estou puxando sardinha ou pegando rabeira em movimentos.

Crise Energética não é novidade!

Apesar de os termos “Belo Monte” e “Dilma” estarem presentes no cotidiano de qualquer usuário de facebook, twitter ou leitor de jornais, esse problema não é novo. Ele só virou destaque nas grandes mídias agora porque é interessante politicamente. O que chamamos hoje de “crise energética” é algo que começou no último mandato de FHC, por conta de um programa de expansão da produção energética que desrespeitava o sistema hídrico brasileiro (que, diga-se de passagem, é um dos mais, se não o mais adequado no mundo para a utilização de energia de hidrelétricas). Resumindo como deveria funcionar, o sistema de armazenamento faz com que se guarde água nos anos de maior precipitação para que isso seja compensado nos anos de menor precipitação. As hidrelétricas são projetadas para isso. Toda hidrelétrica passa por esse tipo de problema (fase “cheia” e fase “seca”), pois é natural do sistema hídrico.

Pois bem, lá por 2000, 2001, alguns alertas começaram a surgir sobre o mau uso desses sistemas, e um futuro com possíveis racionamentos (que, pra quem lembra, chegou a acontecer, e é um dos motivos de pagarmos tão caro em nossas contas de energia elétrica hoje). Mas a questão não se resume simplesmente a “má gestão das hidrelétricas”. Houve espansão da rede elétrica, que aumentou o consumo, e não teria mesmo outro jeito, a não ser que se buscasse novas fontes de energia (e em termos práticos estamos falando de mais hidrelétricas). Isso não quer dizer que Belo Monte seja necessária para o consumo de energia do Brasil. Mas quer dizer que é natural que se instalem mais hidrelétricas. E não dá pra fugir disso se não estivermos dispostos a outro período de racionamento, e energia ainda mais cara.

Faltou, sem dúvida, investimento na transmissão dessa energia. E continua faltando. O sistema de hidrelétricas no Brasil é interligado (e pode ser mais interligado), ou seja, usinas conectadas podem compensar as necessidades umas das outras em períodos de necessidade (dado o tamanho do nosso país e a diferença entre os regimes de cada bacia hidrográfica). Isso é uma enorme vantagem pois permite que não se desperdice energia que “sobra” em alguns processos. Só para ter noção da diferença que isso faz, o acréscimo da linha Norte-Sul acrescentou à disponibilidade energética do país uma quantidade de energia equivalente à produção de Angra I.

Por que faltou investimento? Brasileiro tem mesmo a memória bem curta, mas nesse mesmo período, do governo de FHC, foi que se iniciou a esperança das termelétricas usando gás natural que viria da Bolívia. Felizmente não deu certo, mas as razões foram econômicas, pra que conste. E muita gente, na época, que assistia televisão, achava que isso era progresso! Sem nem imaginar que termelétricas produzem energia que passam de dez vezes mais cara que hidrelétricas. E que poluem mais no processo. Muito dinheiro público foi investido na criação de quase 50 dessas usinas (boa parte mascarado pela Petrobrás).  Só que gás natural acaba, ao contrário de água.

O que se está fazendo hoje com a expansão de hidrelétricas não é um absurdo econômico, tampouco ambiental. Já se fez muito pior por muito menos há bem pouco tempo atrás. E nenhum engomadinho da rede globo se manifestou, nem deu entrevista pra Veja.

É óbvio que o processo de desapropriação que ocorre em muitas dessas instalações é grotesco. Não estou isentando este governo dos absurdos que tem cometido. Sequer sou eleitor do PT. Só não gosto de circo. E é isso que se está fazendo. A maioria das pessoas que tem se colocado contra as hidrelétricas sequer sabe como uma delas funciona. A maioria das pessoas que diz que temos que investir em energias “renováveis” não tem idéia do impacto que causam as usinas eólicas e/ou solares (células fotovoltaicas). E a maioria dessas pessoas, como forma de “protesto”, simplesmente replica informação pela internet.

Energia solar e eólica nunca serão vatagem para o Brasil porque nós não investimos em tecnologia própria. Ficamos dependendo de países desenvolvidos para comprar uma tecnologia, para investir na implantação e para ganhar dinheiro às nossas custas. Não foi diferente em outros países, ditos “pioneiros” da energia limpa na europa. Quem domina as grandes usinas eólicas são os mesmos barões do petróleo de outrora, que ao perceber que uma hora vai mesmo acabar, já estão fazendo seu pé de meia pelo resto do mundo.

Se querem saber o que eu penso ser o problema central nessa questão, podem continuar a ler, mas agora vem a parte doída. Vivemos num país burro, governado por burros, movido por burros. E, pior que isso, num país onde a classe preparada pra se pronunciar com autoridade no assunto fica calada. O corpo docente das universdades públicas brasileiras é muito covarde. Não dá pra saber se é medo, vergonha ou preguiça. Mas o fato é que deveriam se enxergar como CLASSE e fazer movimentos sólidos a respeito do avanço centífico do país. E não se contentarem em pagar anuidade a seus conselhos de profissão ou deixar a voz de comando às instituições de fomento (que o governo banca, então naturalmente defendem o governo).

Professor universitário é muito bunda mole. Quem deveria estar projetando hidrelétricas são eles. E deveriam procurar a população com um projeto em mãos, pra dizer “isso aqui é melhor do que esse programa que o governo quer fazer”. Porque muitos deles enxergam o problema, conhecem a solução, mas não fazem muito diferente da velha rabugenta que vê tudo isso do sofá de casa.

O Brasil precisa de mais que uma revolução estudantil. Ele precisa de uma revolução científica. Pra ontem. Não adianta de nada ser o mais rico entre os pobrinhos. Parece aquele orgulho imbecil de ser “a escrava branca”.

Conhecimento é poder, não é de hoje que sabemos. Mas quando a classe que detém esse conhecimento não entrega ele ao povo, então essa classe está do lado de outra coisa.

Algumas informações vieram daqui, a quem interessar:
http://www.scielo.br/pdf/asoc/n6-7/20435.pdf

[Uma importante observação antes de começar: Aqui na UNESP de Rio Claro, como em diversas outras universidades públicas do estado e do país, estudantes estão se organizando para o estudo e planejamento de segurança pública, questionando o papel da polícia militar, e isso não tem sido visto com bons olhos pelo governo. Esse texto não é opinativo. Não defende estudantes da USP, não exige a retirada da PM de qualquer lugar. Estou apenas apresentando alguns dados para reflexão e cada um de vocês sinta-se livre para realizar também a própria pesquisa e parar de confiar nas mídias de massa que têm nos desinformado insistentemente em função da defesa de um plano de governo medonho que nos encaminha a uma ditadura que está deixando de ser velada para ser escancarada]

Para prestar um pouco de atenção: Quando se fala da criminalidade em São Paulo, cita-se homocídios e latrocínios em números absolutos.

[Fonte 1]

Em homicídios dolosos, perdemos apenas para o RJ. E em latrocínio, ganhamos até mesmo deles.

O que esqueceram (convenientemente?) de te dizer é que SP é o estado mais populoso do país, com mais que o dobro da população do segundo colocado (MG). Somamos mais de um quinto de toda a população brasileira.

Em valores relativos (ocorrência por 100 mil habitantes; que daqui em diante citarei como “oc/100m.hab.”), que é o valor mais lógico a se analisar, vamos ver como está nossa situação?

Homicídios dolosos (com intenção de matar): 10,8 (2008); 11,0 (2009).
São Paulo, dessa perspectiva, é o terceiro estado com MENOS homicídios dolosos por 100 mil habitantes (perdendo apenas para MG e PI).

Latrocínio (assassinato em função de roubo): 0,6 (2008); 0,7 (2009).
Aqui nossa situação não é exemplar, mas está longe de ser a mais crítica. Ainda somos o sétimo estado com MENOS casos de latrocínio (oc./100m.hab.) .

Ainda em números relativos, somos o terceiro estado com mais pessoas mortas em confrontos com a PM, e o segundo em vítimas (mortes) da PM em outras circunstâncias não identificadas como confronto (que eu entendi como execuções e acidentes).
Os gastos com policiamento (apenas policiamento e não segurança pública em geral) no ano de 2009 foram precisamente: R$8.626.688.263,48.

Querem saber o que acontecia com a educação no mesmo período? A ponta do iceberg pode ser contemplada aqui (pra quem estiver sem tempo, vale saber que a taxa de analfabetismo SUBIU 4,1%).

[Fonte 2]

Em porcentagem de despesas do orçamento do estado, a segurança pública recebeu mais que o dobro do investimento em educação nesse mesmo período. Agora, peço aos leitores uma reflexão de 5 minutos:

a) Pense em quantas vezes você precisou da polícia com sua ação preventiva (ação a que se destina) e ela estava lá para PREVENIR.

b) Pense na polícia que (por regimento e orientação da Constituição Federal) deveria atuar em conjunto com a população, e tente se lembrar se algum policial que faz (SE faz) ronda em seu bairro conhece você ou algum vizinho, se faz perguntas sobre a rotina local ou mostra algum interesse sobre a sua vida.

c) Pense em quanto tempo a polícia demora para chegar quando você precisa (eu, quando precisei, por três vezes, tive de esperar mais de uma hora).

d) Pense em quanto tempo demora para a polícia agir em casos de protestos, independente do motivo, do aumento salarial dos professores à marcha da maconha, e qual papel ela representa nessas situações (eu já vi a polícia chegar antes dos manifestantes ao menos 5 vezes).

Agora, peço uma reflexão um pouco mais longa:

a) Se a polícia se empenhasse com o mesmo rigor na prevenção do crime que tem na prevenção das reivindicações populares, será que precisaríamos esperar tanto?

b) Se o investimento em educação no estado de São Paulo fosse o dobro da segurança pública (o inverso da situação que vivemos hoje), daqui cerca de 30 anos, quem você acredita que estaria sendo criminalizado:

A polícia que abusa de seu poder e viola a lei para defender o interesse do estado enquanto espanca estudantes e professores… Ou os estudantes universitários que lutam por uma universidade livre, de acesso à toda a população?

Sem mais. Bom feriado a todos.

Fontes:

1. Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; ano 4, 2010 (o mais recente publicado); disponível em: http://www.forumseguranca.org.br
2. Relatório Oficial do Secretário da Fazenda do governo  e SP, 2009; disponível em: http://www.fazenda.sp.gov.br/download/relatorio.asp

A imagem do universitário, seja pela história ou pela mídia, é associada ao consumo de bebidas alcoólicas. Para alguns, é só uma forma de sustentar um nicho bem interessante do mercado. Para outros, é a mostra de como no início da vida adulta ainda carregamos uma mochila de irresponsabilidades nas costas. Para mim, como universitário, é apenas uma maneira de sobreviver.

Falarei de drogas de um modo geral, para não entrar nas particulares de cada uma e não me render à apologia, pois não é esse o intuito. Uma pessoa “saudável”, para os padrões de hoje (entenda por “acorda cedo, estuda, trabalha, acumula dinheiro, planeja uma vida, vira gente”), não tem tempo para pensar. E se nós, universitários, acatamos cada medida repressora que vem dos reis acadêmicos, lentamente nos dirigimos ao local onde nos querem: quietos numa cadeira, como sempre foi na vida escolar.

A universidade tem uma tendência natural a abrir mentes, ainda que ela venha sendo agredida lentamente. Não que ela seja o reduto dos pensadores, mas faz parte do processo de graduação abrir a visão sobre os problemas do mundo – ou deveria. Me chamem de fraco, de dependente, do que for, mas com uma cerveja gelada na mesa qualquer assunto flui melhor. E não estou falando do hábito social, ou dos reflexos psicológicos. Falo apenas da reação química. Ficamos menos inibidos, nos comunicamos com mais honestidade. Às vezes isso leva a brigas, outras leva a paixões. Mas não definiria melhor o álcool do que já o fazem comumente: “lubrificante social”.

Drogas alteram nosso modo de perceber as coisas, e por consequência nosso modo de interpretar as coisas. Isso não deveria ser visto como ruim. A parte ruim são os efeitos colaterais, mas sabendo escolher e medir, ninguém vai morrer disso. O problema é que o caretinha que vive em nós, o fantasma da repressão que fica acima do nosso ombro direito, não nos permite enxergar como as medidas autoritárias são complexas e intencionadas.

Quando uma lei, portaria ou ordem oficial de qualquer natureza diz que não podemos ingerir álcool dentro das universidades, indiretamente está dizendo que não quer festas e socializações que não sejam de foro estritamente acadêmico. É uma maneira de nos impedir de conversar, de nos conhecermos, de refletirmos sobre o espaço que visitamos diariamente, de criar sentimento de unidade com o local e com as pessoas.

Uma vez me disseram que o combustível do movimento estudantil era álcool e maconha. Assusta falando dessa forma, mas no fundo pode ser mesmo verdade. E não vejo nada de mal nisso. Se é o que está permitindo que o carro ande, 8 anos a menos de vida pra cada um ainda é uma medida altruísta.

A despeito da ironia desse último comentário, só gostaria de deixar claro que a medida repressora ainda é acatada por jovens universitários que ousam fazer comparações do tipo “se não podemos beber em hospitais, a lógica é não podermos beber aqui também”. Como se estivéssemos bebendo durante as aulas e fazendo festas dentro de laboratórios. Os coroados justificam pela “preservação do patrimônio”. Pois bem, do patrimônio deles. Porque não é interessante que o espaço acadêmico seja visto como nosso. Ele já pertence ao mercado, não pode haver concorrência.

O movimento estudantil, talvez pela predominância jovem, é interessante por não se fazer apenas de reuniões sérias e manifestações públicas. Há momentos de descontração pela descontração. Seja valorização ou destruição cultural, não é apenas um movimento político, mas também cultural. Isso o torna especificamente perigoso porque o objetivo não são reformas e sim transformações.

E se pensamos que estes meninos sem-lei serão os professores de amanhã, aí temos motivo para pânico. O que será de nossas crianças brancas, limpas, cristãs e obedientes na mão desses formadores degenerados? Eu imagino o que serão, pois os professores que me inspiraram em que me espelho durante toda minha vida são dessa porção degenerada. E aí fica mais claro porque os donos dessas crianças têm medo. Elas aprendem a latir, fugir e morder, no lugar de ficar choramingando na coleira por uma tigela de ração.

Aqui em Rio Claro perdemos um diretor que fazia vista grossa para nossa “bagunça” e o novo xerife está querendo mostrar serviço. Natural, pois ele também serve a um sistema que o obriga a isso, e nos apoiar, mesmo que com o próprio silêncio, é assinar embaixo. Mas covardia justificada ainda é covardia.

Ainda me pergunto o que faremos, eu e meus irmãozinhos degenerados, frente às recentes mudanças no código de conduta. Foi assim com nosso primos distantes: muros, cadeados, catracas, câmeras e restrições.

As festas são nosso local de socialização e nossa fonte de renda, enquanto grupo. E para todos os que aqui têm espírito de grupo, a sensação é a mesma: a de estar sem casa e sem emprego. Talvez a alternativa para a crise do combustível seja repensar o veículo para usar diesel ou gás natural.

Mas eu, ao menos, faço questão da minha gasolina. Nem que o custo seja cavar até encontrar petróleo. Nem que tenhamos que sair do continente pra extrair em alto mar. O que não se pode é parar de andar.

E também não estou ficando velho. Sempre fui assim.

Quis começar a postagem nesse estilo curto e grosso, porque embora minha escrita flerte constantemente com o prolixo, no meu dia-a-dia não é assim que funciona. Eu fui uma criança feliz, brincava na rua e tudo mais, mas nunca fui a criatura mais simpática do mundo. As pessoas sempre me achavam “quietinho” ou estranho, eu não interagia muito com a maior parte da família, e por muito tempo ignorei a existência de mais da metade dela. Dia desses tentei lembrar o nome de uma tia, irmã do meu pai, e não consegui.

Mais de 30 segundos ao telefone me dão desespero. Ir a festas de gente desconhecida é incômodo. Conhecer pessoas, na verdade, não é algo que eu goste de fazer. Eu não estou dizendo isso para reprimir as pessoas que possuem um milhão de amigos. Eu juro que as entendo, e por isso respeito. E não deveria ser necessário ter que explicar, mas é… Porque essas pessoas, no geral, não me respeitam.

Quando eu vou a um bar, eu não quero conversar com o estranho da mesa ao lado, nem com a garota no balcão. Se não é um lugar a que eu vá com frequência, aquelas pessoas todas são irrelevantes pra mim. E não é porque eu me acho especial demais pra elas, mas porque eu não acho que caiba tanta gente num mundo sincero. Eu faço uma distinção muito clara entre amigos e colegas, e acho até feio chamar tanta gente de amigos. “Esse é meu amigo de não sei onde”, “aquele é meu amigo da academia”, “fulano é meu amigo da Estônia”. Francamente? Não tenho paciência.

Quando eu conheço alguém, e faço questão que seja por acidente, eu encaro essa pessoa como um mundo inteiro a ser descoberto. E isso exige dedicação, tempo. A julgar pela minha cara de poucos amigos, muita gente acaba pensando que eu acho que a maioria das pessoas é desinteressante. Mas não é isso. Eu só acho que elas merecem ser conhecidas de verdade, compreendidas, decifradas. E que isso acontece lentamente. Até que um dia eu as possa chamar de amigas.

Se o assunto é amizade, vale a máxima “menos é mais”. Eu desconfio muito da profundidade das pessoas que conhecem outras pessoas o tempo todo, das que fazem amigos da noite pro dia, das que se apaixonam a cada duas semanas.

Mas é  um pouco triste também. Porque entre os mais novos, isso é um costume, quase uma lei. Se você não “aceita”, você é chato. Você é obrigado a estar aberto pra tudo e pra todos, e a isso se chama liberdade – e me dói o fígado. Aos poucos eu vou sendo identificado como uma figura repressora, o menino que está ficando velho e começou a falar mal da nova juventude.

O que essas pessoas não sabem é que eu não me parecia com as pessoas do meu tempo. E ainda não me pareço. Eu não “fiquei assim”, eu me construí assim. Mas isso não dá pra cobrar que eles entendam. O conceito de construção é uma coisa abstrata demais para as pessoas rasas… Eles querem tudo pronto. Até os relacionamentos estão prontos. Você só chega ali e aceita.

Pro inferno com todas as pessoas fantásticas e interessantes que existem no mundo. Até porque, todo mundo que parece fantástico e interessante no fundo é um poço quase vazio (só não é um vazio pleno porque uma porção está cheia de tédio). As verdadeiras pessoas fantásticas e interessantes você só reconhece depois de pelo menos um ou dois anos de convivência.

Antes de ter esse mínimo de certeza, eu prefiro continuar investindo nos meus poucos e bons. E isso não é porque eu sou uma pessoa “fechada”. Isso, meus queridos, é exercício de liberdade.

O professor Pornotube

Publicado: quarta-feira, 14 setembro - 2011 em Cultura, Filosofia
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Faz tempo li um artigo (acho que na folha teen) com esse nome. Nestas últimas semanas estamos organizando algumas oficinas sobre sexualidade para aplicar em escolas de Rio Claro e no meio das discussões, me deu vontade de falar sobre esse assunto, até por ele exprimir algumas frustrações pessoais.

Eu não sei exatamente quando começou, mas a geração recém-chegada na maioridade (e toda a cria que vem seguindo) está passando por um sério problema de educação sexual. E por educação sexual, não estou falando do campo abrangente das relações interpessoais. Estou falando de aprender a fazer sexo, direto e reto.

Falando com amigos, fui percebendo que a aflição não é exatamente pessoal, mas fato consumado. As pessoas estão abdicando de aprender pela experiência, e pior ainda: estão deixando de praticar o “sexo por instinto” (aquele que flui naturalmente e os sortudos que me lêem sabem do que estou dizendo).

É triste. Não consigo encontrar outra palavra.

E há uma multidão de garotos e garotas prestes a ser decepcionada em breve. O sexo, para muitos, não foi ou será uma descoberta natural, tampouco acompanhou ou acompanhará um rico processo de autoconhecimento.

Esse sexo “virtual” consiste em tentar mostrar tudo o que você é capaz de fazer num só encontro, provar elasticidade, aceitar praticamente tudo para não parecer caretinha, seguir uma sequência CHATA de passos para ser feliz na cama, falar disso como se fosse motivo de orgulho e o pior de tudo: o exercício da visualização. É preciso poder olhar pra si e para o(a) parceiro(a) e conseguir se imaginar num filme.

Espero ao menos que estes menininhos se entendam e consigam fazer felizes uns aos outros, já que a expectativa por parte destes também não é lá essas coisas… Mas ainda assim é triste.

Triste não pelo prazer sexual intenso que talvez não cheguem a conhecer, mas por acreditar que isso é liberdade.

Não há prisão pior do que aquela que nos faz pensar sermos livres.

E nessa enxurrada de material “didático” há muito mais de repressão do que se pode imaginar.

Se querem fazer romances clichê, que o façam. Vestimentas clichê, que as tenham. Comportamentos clichê, que os manifestem. Mas sexo clichê é uma coisa que não deveria existir, pela felicidade dos homens…

O discurso da maioria daqueles que vivem o sonho da licenciatura (e não estou usando tom pejorativo aqui) geralmente é o de educar para a transformação.

Somos ensinados a acreditar que se nos dedicarmos a educar, com o tempo isso irá resultar na emancipação intelectual de todo um povo, que passará a lutar pelo que realmente importa, fará efetiva sua participação nos espaços de construção democrática ou, de modo sucinto e direto, se tornará de fato cidadão.

Eis uma explosão de sinceridade: eu não acredito nisso.

Nos meus processos de educar, seja enquanto figura clássica do professor ou seja enquanto agente formador informal, eu não acredito nessa educação transformadora. O sistema financeiro em que estamos inseridos está muito bem treinado, adaptado e selecionado. De um modo semelhante à história natural das baratas que as tem feito indestrutíveis há centenas de milhões de anos.

Eu gosto das baratas, e já disse isso várias vezes, mas é difícil para um biólogo falar de qualquer coisa sem “enfiar” um exemplo vivo no assunto. As espécies generalistas são mais resistentes à extinção. E talvez por isso estamos aqui hoje vivendo insustentavelmente com 7 milhões de indivíduos, em sua maioria descartáveis.

E é assim com o que se chama “capitalismo”. Eu não gosto muito desse termo, pois pra mim o capitalismo deu origem a esse sistema (generalista e insustentável, porém resistente à extinção), mas ele já sofreu adaptações demais pra ser considerado aquela mesma coisa.

Para não parecer que mudei bruscamente de assunto, o que estou querendo dizer é que nosso sistema é resistente a nossas técnicas de transformação. E quem tem contato com a rede de ensino, pública ou privada, provavelmente entende o que estou dizendo. Educar para a transformação é como escalar uma cachoeira pelas gotas que caem. E qualquer um que se declare hoje um educador, está fadado a uma vida de opressões que vão de um salário miserável ao olhar de piedade das pessoas. Mas falar disso é chover no molhado.

Quando falo em educar para a catástrofe, estou querendo dizer que, como já ocorreu em nosso passado evolutivo, é muito provável que em breve nossa população comece a ser reduzida drasticamente. Evidentemente as mídias de massa não vão te dizer isso, pois é importante que você se sinta confortável para comprar, mas é fato científico.

O aquecimento atmosférico e oceânico, as mudanças de acidez da água, a esterilização dos mares, derretimento das geleiras, desertificação de florestas, tudo isso está caminhando mais rápido do que nossos melhores sistemas previram. Muito mais rápido. E quando encararmos a primeira grande crise energética, as mortes serão inevitáveis.

E seja lá quem for sobreviver, eu espero que tenha algo em mente para que não ocorra tudo de novo.

Por estranho que possa parecer, essa é minha perspectiva otimista. Não quero criar uma nação consciente e rebelde que se levantará contra o sistema e criará outro fadado ao fracasso. Quero investir o possível para que, caso alguém sobreviva, seja capaz de viver fora de um sistema.

Nossa espécie se tornou dependente de uma alegoria econômica que nos escraviza. E não será diferente com qualquer sistema econômico proposto, pois economia não existe (é outro mito da ultramodernidade, eu diria).

Essa desabafo caiu aqui de modo disforme, mas cheio de pretensões. Reflitam sobre isso e se possível opinem (sobretudo os educadores que me visitam eventualmente). É possível trabalharmos nessa perspectiva? Ou alguém acredita de verdade na educação para a transformação?