Posts com Tag ‘midias’

Este post faz parte da Blogagem Coletiva – Dia de Amar seu Corpo 2010.

Eu era uma dessas crianças esquálidas… Hoje em dia só se fala das crianças que sofrem por obesidade, e a magreza parece ter virado moda. Mas no imaginário popular, a criança magra ainda é doente. E no final dos anos 80, quando eu estava começando a viver a infância, o saudável era ser “gordinho”.

Era ritualístico as mães enfiarem comida nos filhotes, as avós olharem feio pras mães porque não estão alimentando direito as crianças, e coisas do tipo. Os leitores mais velhos certamente se lembram dessa época. E pra ajudar, eu era meio amarelinho.

Se passaram por volta de 14 anos (o período em que somos cuidados por pediatras) ouvindo que eu devia ser anêmico, que eu precisava de complexos vitamínicos, que eu devia tentar ganhar massa. Mas nenhum dos meus exames chegou a apontar qualquer desses problemas. Eu sequer estava abaixo do peso “mínimo recomendado” para minha idade. Mas isso ficou na minha cabeça durante bastante tempo. Principalmente depois dessa época, quando a maioria dos meninos começaram a “ganhar corpo” (e eu não).

Eu não tinha quadradinhos na barriga, porque eu não jogava futebol. No lugar disso eu tinha uma expressão côncava que faria um leigo questionar se eu realmente possuía todas as vísceras em tamanho e número certos. Eu também não fiquei com ombros largos. No lugar disso, eu fui me encolhendo até desenvolver uma corcundinha (o destino dos longilíneos). Você é esticado, e tem vergonha de ser assim, porque seus braços e pernas são compridos como o esperado, mas são finos. Então você se encolhe e fica parecendo ainda mais uma vareta. E aí usa roupas largas na esperança de se esconder e fica parecendo um fósforo de pijama.

Uma vez fui a um médico para fazer todos os incansáveis exames de rotina e constatar novamente que eu não tinha nada. Dei sorte. Era um senhor bem humorado, que quando ouviu a história médica que eu resumi aqui, me olhou e disse “Então, se você nunca teve nenhum problema de saúde, porque veio aqui?”. Essa pergunta mudou minha visão sobre o exercício da medicina, mas falarei disso em outro momento. O importante é que ele me disse “Você é magro, esse é seu biotipo”. Aí me mostrou um cartaz com vários desenhos de corpos, dos mais fininhos aos mais robustos, onde apareciam diferentes tipos de estruturas ósseas. Apontou pra uma delas e disse “seu corpo é assim”, depois apontou pra outra “ele nunca vai ser assim”. Mas ele me olhva com uma cara de como quem completaria com “e isso não é ruim”. Bem diferente dos modelos de corpos dos livros didáticos, não?

Aí eu perguntei pra ele se ele achava que eu devia fazer exercícios, atividade física, enfim… As pessoas já estavam quase me convencendo de que eu devia procurar uma academia e ganhar uns 10 quilos de músculo. Ele deu risada e perguntou “Você sente necessidade de fazer exercícios? Se sente cansado? Está infeliz com a sua saúde?”, e eu disse um “não” bastante sincero. Ele terminou dizendo “Então provavelmente não. Se você decidir fazer alguma atividae física, procure algo que você goste, com que você se identifique. Só não vá para uma academia porque isso é coisa de bixa que quer ficar bonitinha. Faz yoga ou algo que ajude a circulação e a respiração, acho que tem mais a ver com você e seu histórico médico”.

Daquele dia em diante, o espelho passou a sorrir pra mim de modo diferente. E eu aos poucos fui deixando de achar que eu precisava ser algo que eu não sou. Hoje sou feliz com as minhas costelinhas, com minhas canelas finas, com minhas mãos alongadas, enfim…

O que quero dizer com tudo isso é que a resposta para esses dramas de autoimagem estão sempre dentro da gente. Nós sabemos quando algo não está bem pra nós (independente de estar pros outros). Eu não suporto academias, pelo ambiente e pelas pessoas. E também porque 70% de mim concorda com o que o médico disse (e usaria o mesmo tom pejorativo).

Se alguém se der o trabalho de procurar na internet editoriais com modelos magrelos ou gordinhas, vai achar muita coisa bonita. E isso por uma questão muito simples: o que faz uma foto ficar bela é um contexto grande de trabalho de arte, não um corpo.

Esse rabisco preto foi porque eu estava com preguiça de tirar a marca da cueca num editor bom e fiz no paint mesmo.

Concluindo: Qualquer corpo pode ser belo. E saúde é um conceito particular.

Quando você se aceita como é e para de tentar se deformar em nome de um conceito padrão ou de uma beleza imposta, você não se torna um pedaço de plástico sem graça. E se não fosse assim, não haveria trabalho de edição para modelos bombados, nem para as modeletes padrão.

Já repararam como é engraçado o conceito de “corpo definido”?

Particularmente, meu espírito livre, ou melhor, mais que isso, libertário, não vai permitir que meu corpo seja definido por alguma coisa. A verdadeira definição de um corpo é sua expressão mais natural e sincera. Se eu pintar um animal antes de descrevê-lo, cortar suas penas como eu preferir, e inserir alguns adornos nas unhas, poderei ter em mãos a descrição de algo nunca visto na natureza, algo curioso, invejável. Mas será de mentira. E isso só causará frustração aos que esperarem ter um animal desse em casa.

Mas já estou biologizando meu discurso, sinal de que é hora de parar hehehe

Não deixe que definam seu corpo! Não lute para ser algo que não é! Gaste essa energia fazendo as pessoas engolirem, goela abaixo, aquilo que você realmente é.

Ferramentas de Mídia?

Publicado: quarta-feira, 14 julho - 2010 em Filosofia, Mídias
Tags:,

Hoje mais cedo estava participando do V Seminário “O professor e a leitura do jornal”. A conferência de abertura foi sobre ética e multimídia, e devo confessar que me provocou bastante. No sentido positivo de provocar. Há meses que não escrevia nada, e há uns anos que tento iniciar blogs e perco a vontade depois de duas ou três postagens. Fragmentos de uma revolta sem rosto que vão ficando largados por servidores de que nem me recordo mais.

Uma da expresões que mais ouvi durante o dia foi “ferramentas de mídia”. Tenho uma mania estranha de ficar devaneando sobre o significado que as pessoas dão às coisas e o que elas querem realmente dizer. Alguns pensamentos me vieram à mente, então decidi compartilhar.

Quando alguém me diz que vai usar ferramentas de mídia para auxiliar uma aula ou um discurso, fico pensando “Quem será a galera que esse cara vai chamar?”. Entendo que referem-se às midias enquanto ferramentas, mas ferramenta de mídia me remete automaticamente a outra coisa: uma ferramenta usada pela mídia.

Não vou entrar aqui nos méritos de a mídia ser uma ferramenta, pois ela é. Mas será que a podemos resumir a isso? Não que eu esteja concebendo a mídia enquanto entidade, mas será que em alguns momentos não somos nós as ferramentas? Quando um professor leva a uma sala de aula um texto de revista, será que ele é quem está usando a ferramenta ou a revista?

Pode parecer um pouco radical, mas quando uma revista veicula a voz de um professor, ela então é ferramenta do profesor. Mas quando ocorre o contrário, penso que a ferramenta de mídia, neste caso, é a própria figura do professor.

Não é necessariamente ruim. Se esse é um processo consciente, talvez seja até admirável. Mas quantas vezes realmente é? Quanto textos vão parar em uma sala de aula por sua verdadeira qualidade e quantos seduzem os condutores com suas artimanhas gráficas e promessas de uma linguagem jovem?

A questão primordial nesse assunto, penso eu, é a tomada de consciência. Não estamos livres de sermos ferramentas de mídia.