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Este é o segundo post da série “Higienização Insana”. No primeiro, introduzi o assunto, então quem tiver interesse veja o link no final dessa postagem.

De onde veio essa bobagem?

Eu também custei a descobrir. Faz tempo que já sabia que era mito e os motivos, mas não imaginava de onde isso tinha saído. Encontrei uma porção de hipóteses a esse respeito, mas a mais convincente tem embasamento científico, então vou adotá-la. Caso alguém conheça outra explicação, por favor, comente!

O fato é que a água na Europa (local de onde vêm muitos produtos de beleza e cosméticos) é muito mais “dura” que a nossa, ou seja, possui maior concentração de sais (provenientes de calcário, sobretudo). Por conta disso, para que os produtos tenham ação de limpeza eficiente com esse tipo de água, é preciso uma maior concentração de detergentes na fórmula.

Esses produtos passaram a ser vistos como “melhores”, porque o desenvolvimento cosmético desses países de fato foi superior ao brasileiro durante muito tempo (hoje isso é questionável). Assim, quando alguém tinha contato com um produto “bom” percebia maior volume de espuma. Vieram então os comerciais e os produtos nacionas resolveram acompanhar a tendência para se manterem no mercado.

Então não é melhor?

Depende. Em locais com águas mais duras, é importante que exista maior concentração de detergentes para que eles funcionem apropriadamente. Mas não é o nosso caso, e esse excesso pode ser (e geralmente é) prejudicial à nossa saúde e, principalmente, ao ambiente.

Muita espuma aqui não é sinal de limpeza. É sinal de excesso!

O que, afinal, é a espuma e por que ela se forma?

Resumindo, espuma é ar. Quando algum sabão está disperso em água, a organização molecular de seus sais em relação à água faz com que, com o atrito e a entrada de ar na mistura, pequenas bolhas sejam revestidas por uma película de moléculas de sabão que impedem que esse ar escape.  Nessa perspectiva, pensar que mais espuma resulta em mais limpeza é como bater clras em neve esperando que a agitação deixe ela mais doce. Ou seja, não tem cabimento algum.

A espuma é um sinal de que as substâncias detergentes estão presentes, mas apartir do ponto em que a espuma se torna persistente (aquelas que as modelos assopram na banheira nos comerciais, e não se desmancham), isso é um claro sinal de excesso.

Quais as alternativas?

Você pode procurar produtos no mercado com menor concentração de detergentes, mas já aviso, vai ser muito esforço pra pouco resultado, porque esses produtos têm pouco sucesso no mercado. E o motivo é porque não sabemos consumir, mas isso não vai mudar tão cedo. O que nos resta são medidas práticas que vão tornar sua limpeza mais eficiente.

Pra não me alongar muito, o que for detergente, dilua por 4, e o que for xampú, dilua por 2.

Você já deve ter visto nas propagandas a Suzana Vieira colocar uns poucos pingos de detergente na esponja dizendo que ele “rende mais”, então você usa menos. Isso é verdade, desde que você faça ele render mais. Pra isso, dilua em água. Se ficar com medinho, dilua um frasco para dois e faça o teste. É mais fácil de espalhar esse detergente pela esponja e pela superficie a ser limpa, e isso faz ele funcionar melhor (embora com menos espuma).

Um detergente, pra fazer efeito, precisa se diluir na água. Se você fizer isso antes de usar, o processo fica muito mais simples. O mesmo vale para xampú em relação aos cabelos. Ele vai ficar com mais líquido e fazer menos espuma, então parece que limpa menos. Mas ele vai se espalhar melhor pelo cabelo e qualquer componente ativo da fórmula vai ser melhor incorporado pelos fios ou pelo coro cabeludo.

Pra entender, na prática, essa diferença, tente lambuzar um prato inteiro com uma colher de óleo e com uma colher de margarina.

Se você simplesmente tentar colocar poucas gotas de detergente na esponja ou pouco xampú na mão, ele vai se diluir com dificuldade porque a consistência é viscosa, e não vai funcionar. Então, dilua antes. O motivo de esses produtos serem viscosos é porque diluem menos, aí você usa mais, acaba antes e tem que comprar outro.

Diluir não é um ato de inteligência. É questão de procedimento. Não diluir é que é a burrice.

Mas o que tem a espuma de tão ruim?

O excesso de detergentes deixa a pele ressecada. Já falamos sobre isso na primeira postagem, então não vou insistir nos perigos da pele ressecada, mas ela fica mais frágil contra infecções e alguns ferimentos.

Esse é o motivo de se colocar outros produtos hidratantes (geralmente óleos) nos xampús e sabonetes. Mas se não tivesse detergente em excesso, boa parte deles não precisaria estar ali e haveria muito menos agentes químicos no produto (menos risco de alergias, menos poluentes pelo ralo). Eles não estão ali pra proteger sua pele do ressecamento natural. Eles estão ali pra aliviar os efeitos do ressecamento que o próprio produto causa.

Mas o maior problema com as espumas dos detergentes (sabões não formam esse tipo de espuma, mas tanto sabonetes quanto xampús geralmente possuem detergentes, então se tiver bastante espuma, eles estão ali) é ambiental. A espuma custa a se desmanchare sobre a superfície da água. Quem já viu saída de esgotos industriais ou locais onde ocorre agitação de água de esgotos sabe bem como é. Isso dificulta a entrada de oxigênio nos rios e destrói boa parte da vida ali. Isso também favorece o desenvolvimento de microorganismos anaeróbicos, que geralmente liberam um cheiro extremamente desagradável.

Os detergente não-biodegradáveis ainda apresentam o inconveniente de poderem se infiltrar no solo e em águas subterrâneas, podendo chegar a consumo humano e causar problemas digestivos e intestinais. A fabricação destes é atualmente proibida no Brasil e em vários outros países. Mas mesmo os biodegradáveis em excesso causam problemas ambientais. São tóxicos para os peixes, podem destruir microorganismos necessários à manutenção do ambiente aquático e sua decomposição resulta na eutrofização de águas, o que significa um crescimento populacional desordenado de álgas e consumidores primários (aumento de biomassa), que impedem a entrada de luz e reduzem o teor de oxigênio na água.

Produtos realmente diferentes

Há ainda os detergentes sem fosfatos e até mesmo sem qualquer derivado de petróleo. Ecologicamente são muito melhores, mas são sigificativamente mais caros. Um sabão em pó destes chega a sair por mais de 20 reais o quilo e muitos desses produtos acabam sendo importados, pois as produções nacionais não alcançam o grande mercado.

Outro inconveniente é que detergente com pouco ou nenhum fosfato depende muito mais do atrito. Ou seja, vai ter que lavar no braço mesmo, porque em máquinas de lavar louça, por exemplo, o desempenho é bem ruim. No Japão se desenvolveu um produto para lavagem de roupas em máquina com bolas de cerâmica que duram até 3 anos com uso diário. E não usam nada de detergente. Mas acredito que não valha a pena para a indústria, pois voce não vai ter que repor toda semana. Esses produtos devem demorar até atingirem um custo-benefício satisfatório e agradar o consumidor, então até que isso aconteça, o mais prático é diluir.

Eduque sua mente!

Precisamos nos educar quanto aos processos de limpeza. O consumidor escolhe mal porque não sabe o que está ali, nem como funciona. Peço que façam a experiência com o detergente. As marcas mais baratas vêm mais diluídas, então vamos arriscar uma diluição de um volume para dois. Quando seu frasco acabar, transfira metade de um novo para ele e preencha os dois com água. Use esses dois até acabarem e depois tente voltar pro concentrado. Veja você mesmo como o diluído funciona igual ou até melhor. O mesmo vale ara xampús. Se tiver medo, faça a diluição na sua mão.

Quando você se acostumar com a ideia de que a espuma não estar ali não quer dizer nada, no dia em que tentar usar o produto concentrado vai perceber como ele ataca sua mão, é mais difícil de usar e acaba muito mais rápido.

Nosso maior gasto de detergentes é apertando a esponja pra tirar o “excesso de espuma”. Reparem.

Posts anteriores da série:
Sabonetes Bactericidas

Este é o primeiro de uma série de futuros posts sobre nossa mania de esterilizar o mundo, e que tem deixado quase todo mundo louco, pra não dizer idiota. Será grande porque é introdutório. Os próximos não repetirão a informação aqui registrada.

Desculpem-me as donas de casa com “mania de limpeza” (que é doença!!!) e as mamães que esterilizam suas crianças, mas a ignorância de vocês pode estar condenando seus pequenos a problemas de saúde muito mais sérios do que as bactérias do nosso cotidiano poderiam causar.

Sabonetes bactericidas devem ser usados conforme as instruções!

Se você usa Protex, Lifebuoy ou variáveis como usaria um sabonete normal, você só está jogando antibióticos (e dinheiro) pelo ralo. As substâncias bactericidas ativas nestes produtos precisam de no mínimo dois minutos sobre a pele para surtirem efeito. Algum de vocês deixa as mãos ensaboadas por dois minutos antes de enxaguar? Eu duvido. Então, surpresa, todo o dinheiro que você gastou nestes sabonetes foi inútil até agora para melhorar sua saúde. Mas ele trouxe outras coisas…

“Achamos que estamos esterilizando o mundo, mas estamos mudando ele”

Palavras dos pesquisadores McMurry e Levy, numa edição da Nature de 1998 (sim, a indústria tem escondido isso de você há mais de 10 anos). Interessados podem ler o artigo “Antibacterial household products: cause for concern”. [Abstract; PDF]

Esses produtos bactericidas foram desenvolvidos inicialmente para uso em ambientes potencialmente contaminantes (hospitais, locais de coleta e análise de água poluída, laboratórios etc). Mas a partir no fim da década de 90, já estavam presentes em mais de 700 produtos destinados a uso doméstico. Isso não porque as pessoas estavam ficando doentes por conta de bactérias, mas porque estavam ficando doentes mentais (com a licença para o exagero, mas esse texto tem o propósito de ser um “alerta vermelho”).

Os problemas do uso cotidiano e excessivo desses produtos são muitos. Vou listar apenas os mais relevantes.

  • Quanto mais substâncias presentes num agente (de tratamento ou não) maior o risco de reação do organismo. Por isso não é raro encontrar pessoas que apresentam reação alérgica ao uso desses sabonetes. E reações alérgicas não são apenas pele vermelha. Elas podem se manifestar de diversas formas, muitas delas internas, difíceis de identificar. Podem envolver dores de cabeça, enfraquecimento do sistema imunológico, irritação do intestino ou do estômago, dores musculares, entre muitos outros. Isso vai da pessoa, mas é fato que essas substâncias são absorvidas pela pele e podem chegar a diversas partes do organismo.
  • Os bactericidas não escolhem a bactéria que vão atacar, e nossa pele é naturalmente revestida por bactérias ditas “boas”, ou seja, que atuam na absorção do excesso de suor e como barreira contra outras infecções. Destruir essas bactérias é deixar o organismo mais vulnerável a infecções. Vale ressaltar aqui que a relação “pacífica” que temos com esses microrganismos foram construídas ao longo de milhares de anos da evolução. E justamente por isso elas funcionam muito bem (do contrário, não estaríamos aqui).
  • Antibióticos usados dessa forma colaboram para a seleção de bactérias mutantes resistentes. Na prática, isso significa que a administração desorientada dessas substâncias, no lugar de proteger seu organismo, irá agir sobre um população de bactérias fazendo com que os menos resistentes morram e os mais resistentes possam se reproduzir. A mídia frequentemente usa o termo “superbactéria”, que você já deve ter ouvido, pra falar desse fenômeno.
  • Por fim, em decorrência disso tudo, essas substâncias podem alterar a microflora do indivíduo (a população natural de bactérias do corpo humano). Como resultado, isso pode alterar o processo de maturação de células T do seu sistema imunológico, potencializando, e muito, a chance de crianças desenvolverem alergias.

Calma, ainda não acabou.

Até mesmo a indústria já está reconhecendo o problema

O Triclosan foi a substância líder desse ramo durante um bom tempo (mas já foi banido ao menos pelas marcas mais importantes). Além desses problemas, já foi associado até mesmo a casos de desregulação hormonal e prejuízos ambientais. Os outros ativos químicos (clorocarbonos, active 5, cloroxilenol) ainda não foram tão bem estudados, mas é bom ficarmos atentos. Geralmente os bactericidas vêm com essa mensagem gritante na embalagem, porque o consumidor ainda valoriza essa propriedade, mas não custa verificar a composição do sabonete para ter certeza.

Sabonetes normais são mais seguros, mas também não devem ser usados em excesso!

Mesmo o sabonete comum, se usado em excesso, pode prejudicar a saúde do organismo. Para a limpeza corporal cotidiana, não é recomendado usar sabonete mais de uma vez ao dia. Se tomar vários banhos, não use sabonete em todos. Se lavar as mãos muitas vezes no dia, pense em usar cremes com silicone ou óleos vegetais.

O uso excessivo de sabões na pele a deixa ressecada. Isso, em outras palavras, significa que a barreira lipídica natural é removida, deixando a pele mais vulnerável a infecções. Ainda, prefira os sabonetes glicerinados, ou mesmo os infantis, que apresentam risco muito menor de reação alérgica.

Devo remover completamente estes produtos da minha vida? Quais as alternativas?

No geral, sim. Se você não for um profissional da área de saúde, não lida com agentes contaminantes (como num laboratório) e não está fazendo coleta de água em córregos poluídos, definitivamente sim. Em qualquer outra situação, água e sabão normal já fazem o serviço. E em casos onde não for possível, prefira o álcool em gel, que age apenas topicamente (não penetra na pele e não atinge a microflora interna). Mas não seja neurótico. Não leve isso na bolsa todos os dias. Álcool em gel usado com frequência também desidrata a pele.

Uma breve cutucada política/mercadológica sobre a situação

Pra finalizar, uma cutucada. A indústria se aproveita das histerias coletivas para vender. A indústria farmacêutica é especialmente campeã nesse ramo. Quando a histeria não existe, eles dão um jeito de criar uma. Álcool em gel e sabonetes bactericidas não vão re proteger da gripe suína, nem de nenhuma outra doença viral!

Sua casa não é um ambiente hostil, seu filho precisa de contato com sujeira para desenvolver o próprio sistema imunológico e não ser um merdinha quando crescer. Aquela bolha que aparece em volta das crianças nos comerciais não é uma proteção à saúde, é uma barreira contra o próprio desenvolvimento.

O mesmo vale para sabão em pó. Se você não está lavando um avental cirúrgico, não pense em usar sabões bactericidas. Além de inútil e caro, os tecidos ficam impregnados com a substância (que poderá ser absorvida pela pele, e também poderá causar alergias), além da grande quantidade de água com antibióticos liberada no ambiente.

Não seja um imbecil nas mãos dos agentes publicitários destas empresas. Proteja seu bolso, sua saúde, o ambiente e dê um basta nessa epidemia de higienização do mundo. Antes que ele esteja tão estéril que nem nós possamos sobreviver.

Algumas ironias, só pra não dizerem que não sou biólogo

O número de células bacterianas do seu corpo é maior do que o número de células do seu corpo. Umas dez vezes maior! Você é mais bactéria que gente, respeite as pequeninas! Até uns 4Kg do seu peso são bactérias.

As bactérias foram indispensáveis no processo evolutivo que formou nosso sistema imunológico. Seja grato, no mínimo.

As bactérias foram indispensáveis em todo o processo de evolução da vida na Terra. Elas foram, inclusive, a primeira forma de vida presente em nosso planeta.  Algumas são patológicas, mas a maioria delas não é. Se todas as bactérias fossem extintas hoje, a vida em nosso planeta estaria condenada. E nós conhecemos somente cerca de 50% das espécies de bactérias presentes no mundo. Elas também são importantíssimas no processo de desenvolvimento de inúmeros remédios.

Cerca de mil dessas espécies podem viver em paz em nossos intestinos. E cada um de nós possui em média 160 espécies diferentes delas. 99% dos genes presentes em seu intestino são bacterianos, e não humanos. O número de espécies de bactérias no seu intestino aumenta ao longo da vida. Elas começam a invadir seu corpo a partir do nascimento e aumenta de acordo com seu contato com o mundo (comer terra quando criança, por exemplo) e sua dieta (comer terra quando criança, por exemplo).

Por fim, a ciência ainda não decifrou completamente como as bactérias auxiliam em nosso processo digestivo, mas é fato que o fazem. E se ao longo desses milhares de anos de evolução nosso sistema imunológico permite que elas vivam ali em paz enquanto nos ajudam a sobreviver, isso já é motivo pra pensar duas (ou mais) vezes antes de mandar um antibiótico pra dentro.

Já chega. Os próximos posts serão mais sucintos e vou direcionar para esse aqui caso alguém queira saber de mais informações sobre bactérias. Daqui em diante, vou me focar nos produtos, danos específicos à saúde (que não esses genéricos) e impactos ambientais.

[Uma importante observação antes de começar: Aqui na UNESP de Rio Claro, como em diversas outras universidades públicas do estado e do país, estudantes estão se organizando para o estudo e planejamento de segurança pública, questionando o papel da polícia militar, e isso não tem sido visto com bons olhos pelo governo. Esse texto não é opinativo. Não defende estudantes da USP, não exige a retirada da PM de qualquer lugar. Estou apenas apresentando alguns dados para reflexão e cada um de vocês sinta-se livre para realizar também a própria pesquisa e parar de confiar nas mídias de massa que têm nos desinformado insistentemente em função da defesa de um plano de governo medonho que nos encaminha a uma ditadura que está deixando de ser velada para ser escancarada]

Para prestar um pouco de atenção: Quando se fala da criminalidade em São Paulo, cita-se homocídios e latrocínios em números absolutos.

[Fonte 1]

Em homicídios dolosos, perdemos apenas para o RJ. E em latrocínio, ganhamos até mesmo deles.

O que esqueceram (convenientemente?) de te dizer é que SP é o estado mais populoso do país, com mais que o dobro da população do segundo colocado (MG). Somamos mais de um quinto de toda a população brasileira.

Em valores relativos (ocorrência por 100 mil habitantes; que daqui em diante citarei como “oc/100m.hab.”), que é o valor mais lógico a se analisar, vamos ver como está nossa situação?

Homicídios dolosos (com intenção de matar): 10,8 (2008); 11,0 (2009).
São Paulo, dessa perspectiva, é o terceiro estado com MENOS homicídios dolosos por 100 mil habitantes (perdendo apenas para MG e PI).

Latrocínio (assassinato em função de roubo): 0,6 (2008); 0,7 (2009).
Aqui nossa situação não é exemplar, mas está longe de ser a mais crítica. Ainda somos o sétimo estado com MENOS casos de latrocínio (oc./100m.hab.) .

Ainda em números relativos, somos o terceiro estado com mais pessoas mortas em confrontos com a PM, e o segundo em vítimas (mortes) da PM em outras circunstâncias não identificadas como confronto (que eu entendi como execuções e acidentes).
Os gastos com policiamento (apenas policiamento e não segurança pública em geral) no ano de 2009 foram precisamente: R$8.626.688.263,48.

Querem saber o que acontecia com a educação no mesmo período? A ponta do iceberg pode ser contemplada aqui (pra quem estiver sem tempo, vale saber que a taxa de analfabetismo SUBIU 4,1%).

[Fonte 2]

Em porcentagem de despesas do orçamento do estado, a segurança pública recebeu mais que o dobro do investimento em educação nesse mesmo período. Agora, peço aos leitores uma reflexão de 5 minutos:

a) Pense em quantas vezes você precisou da polícia com sua ação preventiva (ação a que se destina) e ela estava lá para PREVENIR.

b) Pense na polícia que (por regimento e orientação da Constituição Federal) deveria atuar em conjunto com a população, e tente se lembrar se algum policial que faz (SE faz) ronda em seu bairro conhece você ou algum vizinho, se faz perguntas sobre a rotina local ou mostra algum interesse sobre a sua vida.

c) Pense em quanto tempo a polícia demora para chegar quando você precisa (eu, quando precisei, por três vezes, tive de esperar mais de uma hora).

d) Pense em quanto tempo demora para a polícia agir em casos de protestos, independente do motivo, do aumento salarial dos professores à marcha da maconha, e qual papel ela representa nessas situações (eu já vi a polícia chegar antes dos manifestantes ao menos 5 vezes).

Agora, peço uma reflexão um pouco mais longa:

a) Se a polícia se empenhasse com o mesmo rigor na prevenção do crime que tem na prevenção das reivindicações populares, será que precisaríamos esperar tanto?

b) Se o investimento em educação no estado de São Paulo fosse o dobro da segurança pública (o inverso da situação que vivemos hoje), daqui cerca de 30 anos, quem você acredita que estaria sendo criminalizado:

A polícia que abusa de seu poder e viola a lei para defender o interesse do estado enquanto espanca estudantes e professores… Ou os estudantes universitários que lutam por uma universidade livre, de acesso à toda a população?

Sem mais. Bom feriado a todos.

Fontes:

1. Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; ano 4, 2010 (o mais recente publicado); disponível em: http://www.forumseguranca.org.br
2. Relatório Oficial do Secretário da Fazenda do governo  e SP, 2009; disponível em: http://www.fazenda.sp.gov.br/download/relatorio.asp

O professor Pornotube

Publicado: quarta-feira, 14 setembro - 2011 em Cultura, Filosofia
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Faz tempo li um artigo (acho que na folha teen) com esse nome. Nestas últimas semanas estamos organizando algumas oficinas sobre sexualidade para aplicar em escolas de Rio Claro e no meio das discussões, me deu vontade de falar sobre esse assunto, até por ele exprimir algumas frustrações pessoais.

Eu não sei exatamente quando começou, mas a geração recém-chegada na maioridade (e toda a cria que vem seguindo) está passando por um sério problema de educação sexual. E por educação sexual, não estou falando do campo abrangente das relações interpessoais. Estou falando de aprender a fazer sexo, direto e reto.

Falando com amigos, fui percebendo que a aflição não é exatamente pessoal, mas fato consumado. As pessoas estão abdicando de aprender pela experiência, e pior ainda: estão deixando de praticar o “sexo por instinto” (aquele que flui naturalmente e os sortudos que me lêem sabem do que estou dizendo).

É triste. Não consigo encontrar outra palavra.

E há uma multidão de garotos e garotas prestes a ser decepcionada em breve. O sexo, para muitos, não foi ou será uma descoberta natural, tampouco acompanhou ou acompanhará um rico processo de autoconhecimento.

Esse sexo “virtual” consiste em tentar mostrar tudo o que você é capaz de fazer num só encontro, provar elasticidade, aceitar praticamente tudo para não parecer caretinha, seguir uma sequência CHATA de passos para ser feliz na cama, falar disso como se fosse motivo de orgulho e o pior de tudo: o exercício da visualização. É preciso poder olhar pra si e para o(a) parceiro(a) e conseguir se imaginar num filme.

Espero ao menos que estes menininhos se entendam e consigam fazer felizes uns aos outros, já que a expectativa por parte destes também não é lá essas coisas… Mas ainda assim é triste.

Triste não pelo prazer sexual intenso que talvez não cheguem a conhecer, mas por acreditar que isso é liberdade.

Não há prisão pior do que aquela que nos faz pensar sermos livres.

E nessa enxurrada de material “didático” há muito mais de repressão do que se pode imaginar.

Se querem fazer romances clichê, que o façam. Vestimentas clichê, que as tenham. Comportamentos clichê, que os manifestem. Mas sexo clichê é uma coisa que não deveria existir, pela felicidade dos homens…

Antes que me atirem pedras, devo explicar: este titulo é uma provocação, claramente. Mas não é sem motivo. A cada dia mais notícias do “bullying” aparecem na mídia e invadem as redes sociais de que participo. Para alguns, isso é bom, pois se está dando atenção à educação. Mas eu particularmente não acho que seja esse o tipo de atenção que a educação precisa, e vou explicar os motivos…

1) Conservadorismo lingüístico? Talvez.

E a trema ali foi intencional, só pra não perder a piada. A verdade é que temos uma palavra, na língua portuguesa, que sempre nos serviu muito bem: violência. Esse termo já comprime as idéias de “abuso”, de “invasão”, de “coação” e qualquer outro sentido que a palavra bullying possa ter. A origem latina é de “violentia”, resumidamente, “exercer autoridade na impossibilidade de resistência”. Longe de mim querer dar aulas de potuguês, que não é minha área, mas eu acredito que o problema começa aqui.

2) O “bullying” é novo, a “violentia” não.

E é disso que vive a mídia. Se for uma coisa já conhecida, não é manchete. E aí fica precendo que toda a questão da violência escolar foi uma importação recente ou, pior ainda, um sinal de que estamos caminhando ao primeiro mundo. Porque o “bullying” nunca foi problema no Brasil. Não ouvíamos falar disso dez anos atrás. O que não quer dizer, absolutamente, que não houvesse violência – área esta que, dentro dos estudos da educação, é um campo muito antigo e muito vasto.

E para termos a atenção das autoridades, das mídias, e mesmo das pessoas “comuns”, é necessário que seja “bullying”, pois aí parece que o problema é sério. Mas o “bullying”, seja pela importação linguística, seja pela sensação do novo que isso traz, ou seja por qualquer outro motivo imbecil, faz parecer que o abuso dentro das escolas tem emergido recentemente. Pior que isso, se apresenta como um fenômeno isolado, uma coisa que nasceu sozinha, que não se sabe exatamente de onde vem, e acaba por criminalizar e/ou demonizar jovens que, em boa parte dos casos (se não todos) são tão vítimas quando aqueles sobre quem exercem seu abuso.

A violência é um fenômeno que aconece em cadeia. A idéia de que violência gera violência, tão inserida na sabedoria popular, é a expressão mais simplificada e direta sobre o modo como ela funciona. O abuso exercido por um aluno sobre outro não é diferente do abuso exercido por governos sobre seus cidadãos, pela polícia sobre manifestações públicas, pelos pais sobre os filhos, pelo homem sobre o homem.

O “bullying” (e faço questão de repetir essa palavra insistentemente para ver se alguém mais se irrita com ela) é um termo que não faz sentido para nosso modelo de cultura. Mais que isso, é uma maneira bem suja de disfarçar um problema muito sério, que é o da violência sistêmica e interligada que permeia nossa sociedade. A mesma violência que reside na negação de direitos das minorias, a mesma violência que reside na perseguição religiosa das pequenas seitas, ou exercida peas grandes religiões.

A violência que ocorre dentro dos muros da escola é a mesma que ocorre aqui fora.Porque a escola não é um modelo para a sociedade, mas reflexo dela. Trabalha a seu serviço. E para uma sociedade onde a violência é modo de operação, como a nossa, o “bullying” nada mais é do que o recém-nascimento daquela violência que já não nos choca mais.

E através dessa palavrinha que nos foi vendida, como tantas outras coisas, massacramos os filhotes da besta sem chegarmos perto do ninho de onde sairão tantas outras.

Onde está o amor?

Publicado: sábado, 18 dezembro - 2010 em Cultura
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Comprei uma caixa de bombons. Ao abrir um, uma figurinha:

“O coração tem status de símbolo do amor. Mas os verdadeiros culpados são o cérebro, os feromônios, a dopamina e outras coisinhas que, cá entre nós, você nunca vai desenhar num cartão romântico.

Sem querer, você troca olhares com alguém. Se nessa hora a dopamina, a feniletilamina e a ocitocina resolverem entrar em ação, xi, ferrou.”

Serenata de Amor, você já foi mais romântico…

Próximo lançamento da Garoto: Serenata de Hormônios.