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Faz várias luas que não escrevo nada aqui, mas me deu vontade de escrever, e prefiro que seja aqui mesmo. De repente eu reanimo esse espaço.

Quando eu era criança, lá pelos 5 anos, eu queria ser “cientista maluco”. Na minha cabeça, isso era uma profissão. Eu ficava brincando com os produtos de limpeza, tinta, óleo, vinagre, tudo em potinhos de iogurte que ficavam vazios. A escada do quintal era meu laboratório, cada degrau uma prateleira cheia de “experiências”, invenções que sempre que eu acreditava terem funcionado corria pra mostrar pra minha avó. Observava as formigas e, não me orgulho disso, enchia os formigueiros com água da mangueira, ou perseguia elas com uma lupa. Não era bem crueldade, mas uma sensibilidade que ainda não tinha se desenvolvido. Quando escurecia eu ficava olhando o céu e pensando o que havia naquelas estrelas, se tinha alguém olhando de volta, se as pessoas que morriam iam pra alguma delas, ou várias. E nas minhas orações eu pedia pra que Deus me desse uma nave espacial. Depois corria pra olhar pela janela e ela nunca estava lá. Às vezes eu sonhava com essas viagens, grandes laboratórios, monstros que eu fazia sem querer e corriam atrás de mim. E quando ia pra chácara com meus avós eu perguntava tudo. Queria saber o nome das plantas, porque algumas davam fruta e outras não, enfim… Eu enchia o saco de qualquer adulto com essas perguntas. Há quem diga que eu fui uma criança esquista, mas acredito que eu era bem saudável.

Cresci. Meu sonho passou a ser escritor. Adolescente ainda eu ensaiava livros, escrevia dezenas de páginas, depois achava ruim e apagava tudo. Tentei fazer quadrinhos, também não gostava e jogava fora. Poesias que depois de uns meses me cansavam e eu queimava. Uma porção de coisas que fisicamente se perdeu, mas de que eu ainda me lembro razoavelmente bem.

Nunca publiquei um livro, nem consegui me formar num curso de biologia que já se arrasta por vários anos. Não por falta de capacidade, mas de conformidade. Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido. E assim como livros largados pela metade, já se foram alguns TCCs e algumas disciplinas. Vou trabalhando como dá, numa luta por independência que também não se completou e eu nem sei quando vai se completar.

Mas o ponto aqui não é a conclusão de nada. Estava no quintal olhando para o céu noturno, da mesma forma como fazia aos cinco anos, e pensando muitas coisas que eu já pensava naquela época.

A ciência que eu faço, assim como a escrita que eu faço, raramente me dá dinheiro. Mas elas me dão prazer, e eu sinto que elas contribuem para alguém. Quando eu decidi ser articulista voluntário sem assinatura, produzindo para livre distribuição, não foi por falta de opção, mas por convicção. E eu não ganho atualmente nenhum centavo de editoras e direitos autorais (como a maioria dos escritores…), mas, puta merda, como eu escrevo! E felizmente eu consigo atingir muitas pessoas, interagir com elas, ensinar e aprender, emancipar.

Não vai ser um pedaço de papel ou um carimbo social que determinarão quem eu sou ou o que eu faço. Se eu faço ciência, sou cientista. Se eu escrevo, sou escritor. E seu julgamento sobre isso honestamente não me interessa. Me interessa investigar e escrever, obrigado.

E esse, como vários outros textos, não tem a pretensão de convencer ninguém de nada, nem de me afirmar para um grupo ou buscar legitimação. É apenas mais uma daquelas coisas que a gente faz só pra que outras pessoas saibam que não estão sozinhas, para que outras saibam que existem outros caminhos, e tantos outros além do tradicional e do meu.

Faço isso porque essas coisas, essas que as pessoas fazem pra que a gente saiba que não está sozinho, sempre foram muito importantes pra mim. Pra eu saber que não estou sozinho.

Vai ver essa é a concepção moderna de uma comunidade anarquista. Eu ainda vou precisar batalhar, e muito, pra sobreviver num sistema de merda. Mas o que eu puder fazer pra encurtar o tempo de vida desse sistema, vou fazer.

Aos anarcos, piratas, esquerdinhas, anônimos e libertários do meu convívio, meu sincero agradecimento. Somos um.

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Conversando com estrelas 2: A poesia

Publicado: terça-feira, 7 maio - 2013 em Cultura, Filosofia, Literatura
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Estou num daqueles períodos de escrever pouco aqui e deixar o blog às moscas. Mas agora eu preciso mesmo escrever.

Estava em mais uma dessas madrugadas insones, das quais já perdi a conta e provavelmente já são mais da metade das madrugadas de toda a minha vida. Estava tentando escrever e não conseguia. Tentando pensar e me sabotando. Resolvi sair por cinco minutos, tomar um ar e ver o céu.

Peguei uma mantinha, um chá bem quente e decidi que iria ficar ali no quintal, olhando pra cima até que me viesse uma inspiração. Mal deu tempo de observar a fumaça que saía da caneca se misturar com a que eu expirava, e subindo o olhar com a neblina mentirosa que eu mesmo fiz, percebi o céu bastante limpo, deixando evidente a ponta do braço da Via Láctea onde dorme a humanidade.

Antes que eu pudesse terminar de dizer mentalmente o quando a natureza é maravilhosa, metade do céu foi cortado pela estrela cadente mais bonita que já vi até hoje. Branca, enorme, muito brilhante. E, em fração de um segundo, desapareceu.

Ainda estou um pouco perplexo, e com as mãos trêmulas, parte por frio e parte por êxtase.

No fim, essa capacidade de olharmos pro céu, pra fumaça, pra si… Não é isso que nos faz poetas.

Isso nos faz a própria poesia.

 

[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

Ano passado fiz uma postagem no dia do rock onde falava que o rock’n’roll, pra mim, é justamente o grito. Esse ano vou falar de outro aspecto.

Se alguém quiser, veja aqui.

Não precisa ser nada único pra contaminar as linhas do tempo do facebook ou do twitter. Mas ao contrário das finais de campeonato de futebol ou MMA, logo o estilo de música visto como o mais “pesado” está promovendo o bom e velho “paz e amor”.

O que eu gosto do conceito de “paz e amor” é que paz sozinha corre o risco de ser mal interpretada, vista como comodismo, adequação. Amor é um processo ativo que exige movimento e transformação. Faz bem aos dois andarem juntos.

O rock’n’roll tem uma história confusa, mas o fato é que foi preciso uma guerra para que as pessoas parassem e prestassem atenção no que a população marginalizada, em sua maioria negros, estavam fazendo. E acho que é assim que a maioria das pessoas encontra o rock’n’roll. Você está na merda, aí olha outro alguém, que também está fodido, e ele está ouvindo uma música que mexe com você.

Tendo origem no blues, é natural que o motor tenha gosto amargo. O primeiro motivo pra gritar estava ali. Com as guitarras elétricas e o som mais forte, surgiu o segundo motivo. A essa altura já não tinha como voltar atrás.

O rock quebrou paradigmas físicos da dança. Você não precisaria mais se comportar e fazer os passinhos que sua mãe fazia. A sexualidade da dança passou a ser escancarada, transparente. E assim também a sexualidade das pessoas. E a contravenção estava longe de parar aí. Nao se cantava apenas das mulheres princesas, mas também das mulheres selvagens.

Anos depois, a psicodelia deu o ingrediente que faltava. Questionar a sociedade era pouco. Questionar o próprio corpo era pouco. Era preciso questionar a realidade, o “ser”. Acredito que uma porção do rock se perdeu nesse processo e deve estar num lugar bem melhor que o nosso. O rock conectou modos de pensar ocidental e oriental, deixou claro pra sociedade conservadora que a música tinha mais poder de união do que as armas.

O rock não mudou o mundo completamente. A primeira figura de pelvis rebolante a conquistar o olhar mundial tinha pele branca. Mas o rock abriu essa portas, trouxe à tona também o soul, o jazz e o R&B que estavam escondidos em bares emaconhados de vagabundos (e devemos quase tudo isso a esses “vagabundos”).

Depois se misturou com a música country, o que parecia impossível acontecer. E se por um lado hoje temos rock’n’roll conservador, temos conservadores que ouvem rock’n’roll, arte que saiu dos povos que eles mesmos oprimiram por tanto tempo. Dá pra comparar essa explosão artística ao Big Bang, com migalhas de rock’n’roll se espalhando por aí e virando de tudo, música negra religiosa, baladinhas de rancho, viagens psicodélicas intermináveis, guitarras quebradas no chão ou pegando fogo, e até menininhos arrumados na Inglaterra. Aí o rock progressivo mostrou que dava pra ser vários rocks em um só.

A ameaça do sonho acabando pode ter deixado o Flower Power fora de cena por conta de um ou outro escândalo, as campanhas contra as drogas, os fanáticos religiosos. Mas não deu tempo do rock morrer e já estavam nascendo os rockeiros emplumados do hard rock e a molecada brava do punk. E na sequência, a necessidade de um grito mais alto fez nascer o metal, um grito mais cansado e rabugento e nasceu o grunge. E nunca mais parou.

O movimento gay, o movimento feminista, o movimento negro, o movimento estudantil e tantos outros movimentos por onde os jovens se espalham devem muito ao rock’n’roll, porque ele sempre esteve ali, porque ele sempre foi, por si só, uma manifestação de contravensão.

Até mesmo o lado podre da história, os festivais multimilionários, a grande indústria da música, também só cresceram por pegar carona numa onda que era independente disso.

Rockabilly, country rock, high-school rock, classic rock, rock psicodélico, rock progressivo, surf music, ópera rock, garage rock, hard rock, glam rock, punk, hair, new wave, heavy metal, thrash metal, black metal, death metal, gótico, hardcore, rock brasileiro, britpop, grunge, funk metal, metal melódico, indie, new metal, post punk… E até a porcaria do pop-rock com seus filhinhos tristes e coloridos.

Todos são espaço de contracultura. E é  justamente por isso que desagradam. Ninguém gosta de qualquer rock. Mas todo mundo gosta de algum.

Até minha avó evangélica gosta de ACDC.

E vou fechar com uma frase do Bob Dylan, que eu particularmente acho bastante irritante (o Bob, não a frase), mas que explica bem o que quero dizer:

“Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas.”

 

É isso =]

[Uma importante observação antes de começar: Aqui na UNESP de Rio Claro, como em diversas outras universidades públicas do estado e do país, estudantes estão se organizando para o estudo e planejamento de segurança pública, questionando o papel da polícia militar, e isso não tem sido visto com bons olhos pelo governo. Esse texto não é opinativo. Não defende estudantes da USP, não exige a retirada da PM de qualquer lugar. Estou apenas apresentando alguns dados para reflexão e cada um de vocês sinta-se livre para realizar também a própria pesquisa e parar de confiar nas mídias de massa que têm nos desinformado insistentemente em função da defesa de um plano de governo medonho que nos encaminha a uma ditadura que está deixando de ser velada para ser escancarada]

Para prestar um pouco de atenção: Quando se fala da criminalidade em São Paulo, cita-se homocídios e latrocínios em números absolutos.

[Fonte 1]

Em homicídios dolosos, perdemos apenas para o RJ. E em latrocínio, ganhamos até mesmo deles.

O que esqueceram (convenientemente?) de te dizer é que SP é o estado mais populoso do país, com mais que o dobro da população do segundo colocado (MG). Somamos mais de um quinto de toda a população brasileira.

Em valores relativos (ocorrência por 100 mil habitantes; que daqui em diante citarei como “oc/100m.hab.”), que é o valor mais lógico a se analisar, vamos ver como está nossa situação?

Homicídios dolosos (com intenção de matar): 10,8 (2008); 11,0 (2009).
São Paulo, dessa perspectiva, é o terceiro estado com MENOS homicídios dolosos por 100 mil habitantes (perdendo apenas para MG e PI).

Latrocínio (assassinato em função de roubo): 0,6 (2008); 0,7 (2009).
Aqui nossa situação não é exemplar, mas está longe de ser a mais crítica. Ainda somos o sétimo estado com MENOS casos de latrocínio (oc./100m.hab.) .

Ainda em números relativos, somos o terceiro estado com mais pessoas mortas em confrontos com a PM, e o segundo em vítimas (mortes) da PM em outras circunstâncias não identificadas como confronto (que eu entendi como execuções e acidentes).
Os gastos com policiamento (apenas policiamento e não segurança pública em geral) no ano de 2009 foram precisamente: R$8.626.688.263,48.

Querem saber o que acontecia com a educação no mesmo período? A ponta do iceberg pode ser contemplada aqui (pra quem estiver sem tempo, vale saber que a taxa de analfabetismo SUBIU 4,1%).

[Fonte 2]

Em porcentagem de despesas do orçamento do estado, a segurança pública recebeu mais que o dobro do investimento em educação nesse mesmo período. Agora, peço aos leitores uma reflexão de 5 minutos:

a) Pense em quantas vezes você precisou da polícia com sua ação preventiva (ação a que se destina) e ela estava lá para PREVENIR.

b) Pense na polícia que (por regimento e orientação da Constituição Federal) deveria atuar em conjunto com a população, e tente se lembrar se algum policial que faz (SE faz) ronda em seu bairro conhece você ou algum vizinho, se faz perguntas sobre a rotina local ou mostra algum interesse sobre a sua vida.

c) Pense em quanto tempo a polícia demora para chegar quando você precisa (eu, quando precisei, por três vezes, tive de esperar mais de uma hora).

d) Pense em quanto tempo demora para a polícia agir em casos de protestos, independente do motivo, do aumento salarial dos professores à marcha da maconha, e qual papel ela representa nessas situações (eu já vi a polícia chegar antes dos manifestantes ao menos 5 vezes).

Agora, peço uma reflexão um pouco mais longa:

a) Se a polícia se empenhasse com o mesmo rigor na prevenção do crime que tem na prevenção das reivindicações populares, será que precisaríamos esperar tanto?

b) Se o investimento em educação no estado de São Paulo fosse o dobro da segurança pública (o inverso da situação que vivemos hoje), daqui cerca de 30 anos, quem você acredita que estaria sendo criminalizado:

A polícia que abusa de seu poder e viola a lei para defender o interesse do estado enquanto espanca estudantes e professores… Ou os estudantes universitários que lutam por uma universidade livre, de acesso à toda a população?

Sem mais. Bom feriado a todos.

Fontes:

1. Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; ano 4, 2010 (o mais recente publicado); disponível em: http://www.forumseguranca.org.br
2. Relatório Oficial do Secretário da Fazenda do governo  e SP, 2009; disponível em: http://www.fazenda.sp.gov.br/download/relatorio.asp

Um dia de biólogo

Publicado: sábado, 3 setembro - 2011 em Ciência, Cultura, Filosofia
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Hoje, 3 de setembro, é dia do biólogo. E no meio de tantos parabéns, é impossível não parar pra pensar: “Por que estão nos parabenizando?”. Mas esta não será uma postagem ranzinza sobre não merecermos parabéns. Pelo contrário. Vou exaltar um pouquinho a experiência do nosso campo de estudo.

A minha proposta é que no lugar de comemorarmos o da do biólogo, tentemos todos ter um dia de biólogo. E eu vou explicar como fazer isso, não é tão difícil.

Pra começar, você deve retirar da sua cabeça aquele medo medieval irracional de tudo o que tem perninhas, de tudo o que se esconde nas frestas, de tudo o que se rasteja silenciosamente, das criaturas que voam na noite, das que moram em cavernas, das que fazem do seu guardarroupa um lar. O segundo passo é não ter “nojinho”.

Lembra quando você tinha uns 3 ou 4 anos? Provavelmente não, mas se não conseguir, pense nas crianças que você conhece. Dessas que colocam a mão em tudo, enfiam as coisas na boca, ficam sujas e felizes.

A biologia, entre todas as ciências naturais, é a mais sensorial. E talvez isso a afaste da exatidão da química e da física (que também não são assim tão exatas…). Aquele prazer de entrar no meio do mato com a vovó e sair perguntando que árvore é essa. Depois subir na árvore, achar uma goiaba cheia de bichinhos, deixar eles de lado e comer mesmo assim. Imitar macaco antes de descer, claro.

Fazer buracos no chão, encher de água e dizer que fez um rio pra criar peixes. Prender joaninha numa ilha dentro de um pote de plástico pra ver se ela vai nadar ou voar. Brincar com o cachorro como se ele fosse um irmãozinho e não um objeto de decoração.

Acho que o que nos arrasta para a biologia é essa criança. Das ciências, também acho que seja a mais próxima da arte. A ver por todos os documentários e exposições fotográficas com a temática biológica e ambiental, que nos causam fascínio até mesmo na catástrofe.

Mas também há uma dose de crescimento. De entender que não existe normal. Que estatística é metáfora da realidade e não a realidade em si. Que a diferença é vantagem. Que a cooperação te mantém vivo. Que não existe perfeito, tampouco imperfeito. Que é irrelevante a presença de um criador. que não somos únicos, nem mais importantes. Que também não somos menos importantes. Que tudo o que é vivo merece respeito, pois temos origem comum. Quue o que não é vivo também o merece, pois somos feitos dessa mesma matéria morta.

A biologia enquanto carreira já me cansou. Porque boa parte dos biólogos acaba esquecendo a maioria dessas coisas, e eu não tenho saco pra trabalhar com “gente grande”. Mas mesmo sabendo disso, é um caso de amor que não acaba. Um caso de amor com o objeto de estudo, pois pra mim é assim que se faz ciência. E se falta espaço pra amar, eu devo procurar outro lugar pra fazer minha ciência.

Mas nós, sem modéstia, somos os mais qualificados pra falar do tal “sentido da vida”. Porque, curioso que pareça, ao contrário das outras ciências, não o buscamos. O bonito do biólogo é que vê a vida como fenômeno, então ela não precisa de um sentido.

Sem precisar procurar onça no mato, sem precisar se trancafiar num laboratório por horas, sem precisar explicar os mistérios da genética para 40 pré-adolescentes em chamas… Sem precisar de nada disso, tenha um dia de biólogo. Saia de casa, ouça o vento, os pássaros, os insetos, observe as nuvens, procure um curso d’água, deixe a chuva cair na sua cabeça, suje os pés e perceba que tudo isso está interligado, pois vida é interdependente e intradependente. Não existe vida em isolamento. Então, sem tudo isso o que está em volta, você não é porra nenhuma…

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorsos,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
– Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova.

(Manuel Bandeira, em Lua Nova)

Venho falar hoje em defesa de todos aqueles que já desejaram profundamente a própria morte. Sobretudo, daqueles que a conquistaram.

Me irrita ouvir as pessoas dizendo que essas pessoas “desistiram” ou buscaram atenção. Decidir encerrar um sofrimento através de um outro grande sofrimento (mas este único) exige uma coragem que poucos homens nesta terra possuem.

O suicídio às vezes não é físico. E para aqueles que vivem no cotidiano os processos metafóricos de morte e renascimento, como eu faço, muitas vezes morrer exige tirar a própria vida. E ninguém imagina o quanto isso dói. Ninguém imagina o preço que se paga. Ninguém imagina o que é estar dentro de um caixão por tempo indeterminado, por vontade própria, por sentir uma certeza sobrenatural de que é ali que você deve estar.

Mato tudo o que há de pior em mim, mas morre todo o resto. E na aflição de perceber que o que havia de pior era justamente meu bem mais precioso, morre também meu orgulho.

Peço desculpas sinceras a todos os que tantas vezes me assistiram morrer, velaram meu corpo e me deixaram flores.

Mas há momentos em que a incompatibilidade com a realidade se torna tão gritante, que é preciso morrer.

“Dearest,
I feel certain that I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do.” (Virginia Woolf)

Aos que já sentiram a dor da morte, mas não tiveram a certeza de que era hora de morrer fisicamente, minhas condolências.

Atualizei a pstagem para recomendar o texto que o Edson Bueno de Camargo sugeriu nos comentários. Destaco o trecho com que mais me identifico, deixando clara a identificação com o texto todo:

A minha solidariedade aos que findam a si mesmos é infinita. Conheço a dor por dentro e por fora, esta de viver sem esperança o tempo todo, de ter a certeza de ter nascido no tempo e lugar errado, de ser estrangeiro em minha casa e  órfão na presença dos meus pais. A dama de negro ri de mim o tempo todo, ela não quer me levar , quer que caminhe meus passos até ao seu encontro.

Ver na íntegra.

Não alimente os animais

Publicado: sábado, 16 julho - 2011 em Não sei
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Faz parte do processo de crescer parar de alimentar as bestas.

Nos comovemos, pois, quando pequenas, sempre parecem dóceis. Não há uma criatura saída do ovo que não cause comoção.

Mas quando crescem, viram bestas da mesma forma.

Aí um dia você para de ser a pessoa com a comida na mão e passa a ser o velho chato que diz “não alimente os animais”.

Mas é porque você está cansado das mordidas, de ver gente sangrando e morrendo, de sangrar e de morrer, e sabe que pode sobrar pra você outra vez.

Certas coisas vão se tornando desnecessárias. O brilho nos olhos do filhote de besta olhando pra você é uma dessas coisas. Já temos monstros o suficiente soltos por aí…

Minha história do Rock

Publicado: quarta-feira, 13 julho - 2011 em Cultura, Música
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Não sei quanto tempo faz que não escrevia nada aqui. Mas hoje me ocorreu uma mistura tão forte de sensações que não tinha como engolir.

Começou com uma brincadeira no Facebook, onde as pessoas trocaram suas fotos por ídolos do Rock. De início, estava muito engraçado. Em um chat, conversavam Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Johnny Cash. Em outro, Robert Smith, Siouxsie, Debbie Harry e Bono Vox. Aos poucos fui percebendo o quanto aquelas imagens e as músicas desses ídolos falavam sobre as pessoas.

Agora no fim da tarde, vi uma imagem da Joan Baez. Automaticamente me veio à mente a cena em que, no Woodstock, ela cantou “Swing slow sweet chariot” sem instrumento algum, apenas com uma luz azul sobre o corpo, e calou um dos maiores festivais de rock da história.

Isso me fez lembrar como a música, especialmente o “rock’n’roll” mudou minha vida. Eu sei que toda música tem potencial transformador, expressa sentimentos e tudo mais. Mas o rock pra mim é sempre um grito. Seja de dor, de tristeza, de raiva ou de alegria. É a música que definitivamente coloca pedras para rolar.

Eu cresci ouvindo Led Zeppelin, Raul Seixas, Legião Urbana, Alice in Chains, Ramones, The Doors, Deep Purple, entre tantas outras coisas fantásticas. Já tive meus momentos punks, meus momentos hardrock chorosos, meus surtos flower power e eventualmente síncopes furiosas de metal. Já chorei ouvindo Renato Russo e Cazuza. Já curti fossa ouvindo Heart. Já “peguei balada” ouvindo Blondie. Já virei a noite ouvindo Smiths. E cada momento desses fez de mim uma pessoa diferente.

Eu não sei em que proporção eu procurei o rock’n’roll pelo processo de revolta que foi minha vida ou ele mesmo contribuiu para que eu começasse a jogar tudo pro alto. A história do rock é a história dos jovens, muitas vezes contada por “velhos” que nunca envelheceram de verdade.

O rock também foi o cenário onde a psicodelia se manifestou em sua forma mais bonita. E também foi o primeiro a pedir pra pararem de jogar bombas. É hoje através do rock (ainda que a gente não entenda muito) que a maioria dos jovens chora suas dores (que a gente também não entende muito).

O que entedemos hoje por “espetáculo de música”, o modo como os shows se transformaram em apresentações circenses de proporção absurda, é culpa do rock. E das faces mais libertadoras às mais aprisionantes do universo das drogas se espalharam pelo mundo com sua ajuda.

E cada vez mais vejo gente da minha idade dizer que vive na época errada. Particularmente, esse anacronismo pra mim é bom, porque me sinto menos só. Mas por outro lado me preocupa, pois é sinal de que alguém não está fazendo as coisas direito. E não estou falando de música comercial, pois o que temos hoje por “clássicos do rock” sempre foi muito comercial. Estou falando dos gritos que fazem pedras rolarem.

Algumas angústias são grandes demais para serem gritadas. Às vezes se fazem necessários baixos, baterias e guitarras, ligados num bom amplificador, para que a alma possa gritar.

Pode ser prepotência, pensando nos holocaustos e guerras do passado, dizer que hoje vivemos tempos de angústia como nunca antes. É muito provavel que seja prepotência. Mas defendo a idéia de que a angústia só existe no presente, como tudo o que existe. Mesmo a lembrança das angústias do passado são angústias que vivemos no presente. E as grandes bandas nos ajudam, quando falam por nós, a gritar por toda essa angústia.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi alguém dizer “isso não é música, isso é gritaria”. Nem todo mundo consegue entender. Mas é que quando a gritaria vira música… Acho que quando gritaria se torna música, passa a ser o grito de um grupo. Algumas vezes, de todo um povo.

A história do rock pra mim é uma história de gritos. E a minha própria história é uma história de gritos.

E alguém aqui tem uma história que não seja feita de gritos?

Antes que me atirem pedras, devo explicar: este titulo é uma provocação, claramente. Mas não é sem motivo. A cada dia mais notícias do “bullying” aparecem na mídia e invadem as redes sociais de que participo. Para alguns, isso é bom, pois se está dando atenção à educação. Mas eu particularmente não acho que seja esse o tipo de atenção que a educação precisa, e vou explicar os motivos…

1) Conservadorismo lingüístico? Talvez.

E a trema ali foi intencional, só pra não perder a piada. A verdade é que temos uma palavra, na língua portuguesa, que sempre nos serviu muito bem: violência. Esse termo já comprime as idéias de “abuso”, de “invasão”, de “coação” e qualquer outro sentido que a palavra bullying possa ter. A origem latina é de “violentia”, resumidamente, “exercer autoridade na impossibilidade de resistência”. Longe de mim querer dar aulas de potuguês, que não é minha área, mas eu acredito que o problema começa aqui.

2) O “bullying” é novo, a “violentia” não.

E é disso que vive a mídia. Se for uma coisa já conhecida, não é manchete. E aí fica precendo que toda a questão da violência escolar foi uma importação recente ou, pior ainda, um sinal de que estamos caminhando ao primeiro mundo. Porque o “bullying” nunca foi problema no Brasil. Não ouvíamos falar disso dez anos atrás. O que não quer dizer, absolutamente, que não houvesse violência – área esta que, dentro dos estudos da educação, é um campo muito antigo e muito vasto.

E para termos a atenção das autoridades, das mídias, e mesmo das pessoas “comuns”, é necessário que seja “bullying”, pois aí parece que o problema é sério. Mas o “bullying”, seja pela importação linguística, seja pela sensação do novo que isso traz, ou seja por qualquer outro motivo imbecil, faz parecer que o abuso dentro das escolas tem emergido recentemente. Pior que isso, se apresenta como um fenômeno isolado, uma coisa que nasceu sozinha, que não se sabe exatamente de onde vem, e acaba por criminalizar e/ou demonizar jovens que, em boa parte dos casos (se não todos) são tão vítimas quando aqueles sobre quem exercem seu abuso.

A violência é um fenômeno que aconece em cadeia. A idéia de que violência gera violência, tão inserida na sabedoria popular, é a expressão mais simplificada e direta sobre o modo como ela funciona. O abuso exercido por um aluno sobre outro não é diferente do abuso exercido por governos sobre seus cidadãos, pela polícia sobre manifestações públicas, pelos pais sobre os filhos, pelo homem sobre o homem.

O “bullying” (e faço questão de repetir essa palavra insistentemente para ver se alguém mais se irrita com ela) é um termo que não faz sentido para nosso modelo de cultura. Mais que isso, é uma maneira bem suja de disfarçar um problema muito sério, que é o da violência sistêmica e interligada que permeia nossa sociedade. A mesma violência que reside na negação de direitos das minorias, a mesma violência que reside na perseguição religiosa das pequenas seitas, ou exercida peas grandes religiões.

A violência que ocorre dentro dos muros da escola é a mesma que ocorre aqui fora.Porque a escola não é um modelo para a sociedade, mas reflexo dela. Trabalha a seu serviço. E para uma sociedade onde a violência é modo de operação, como a nossa, o “bullying” nada mais é do que o recém-nascimento daquela violência que já não nos choca mais.

E através dessa palavrinha que nos foi vendida, como tantas outras coisas, massacramos os filhotes da besta sem chegarmos perto do ninho de onde sairão tantas outras.