Posts com Tag ‘gente louca’

Esse post é bem doido e destoante. Eu fiz ele em função de uma discussão sobre esse assunto num fórum. Ele não traz respostas definitivas, apenas meus resultados sobre uns anos de pesquisa nesse assunto. Eu perdi muita coisa porque sou burro e não salvei, e várias páginas foram atualizadas. Mesmo assim falei algumas dessas coisas, deixando claro as que não podem mais ser comprovadas. Todo o resto, Google. Pra quem sabe usar, é a deep web dos preguiçosos. Mas como quase ninguém sabe usar, dei esse adianto aqui. Enjoy.

Olha, toda vez que esse assunto surgiu nesse grupo eu ignorei ou fui pelo caminho da zueira. Mas eu gostei de você. Lucky of you. Vou te dar umas perspectivas aqui e uns pontos de partida, daí vc é quem me diz o que pensa… [Eu mesmo]

 

SEM CONSPIRAÇÃO

O Verichip é um dispositivo RFID (radio-frequency identification), ou seja, que pode ser localizado e identificado através de frequência de rádio. É essa mesma tecnologia que o mantém funcionando (ele não tem baterias nem é carregado em tomadas, o próprio impulso eletromagnético ativa ele).

Dispositivos RFIDs já existem em abundância no mundo e o mercado atual já é parcialmente dependente deles, pra identificação e acompanhamento de cargas. Eles também têm aplicação médica atual para localização de crianças com necessidades especiais e idosos com doenças degenerativas. E também têm aplicação veterinária para localização de animais, além de aplicações em segurança para rastreamento de bens roubados.

A maioria das propostas de aplicação médica generalizada aponta para maior eficiência de pronto atendimento em emergências, porque se tem rapidamente acesso a histórico médico, alergias, tipo sanguíneo, doenças crônicas, etc. Contudo, algumas pesquisas já apontam para possibilidade de desenvolvimento de câncer, alergias e rejeição em camundongos. Quando esse resultado veio à tona pela FDA (Food and Drugs Association) as ações da VeriChip caíram em 40% e o assunto deu uma esfriada. Mesmo assim, o desenvolvimento de sarcomas (cancros/câncer) em roedores é muito mais frequente que em humanos para esse tipo de reação a implantes, mas ciência nesse mundo é mídia e geral ficou com medo (compreensível).

Essa é a origem da proposta do VeriChip. Mas daí tem um tanto de coisas que você gostaria de saber, eu acho…

 

COM PREOCUPAÇÃO

A VeriChip não atende mais por esse nome, e sim por PositiveID, subsidiária da Applied Digital Solutions (ADS). Quem começou a desenvolver essa tecnologia pra Verichip foi a Destron Fearing, uma empresa especializada em identificação animal. A principal linha de produção deles até então era com aquelas etiquetas que ficam na orelha principalmente de gado.

Verichip pra se tornar a PositiveID se fundiu com a Steel Vault Corp., especializada em computadores e hardware. A partir daí, se tornaram uma empresa especializada em biotecnologia.

É fundamental entender essa história, assim como é fundamental que as cabeças por trás dessas movimentações não são médicos, nem biólogos, nem engenheiros, mas sim especialistas em finanças, como é o caso do Richard Sullivan (ex-CEO da PositiveID, e ex-CEO da Digital Angel), atual membro da Global Digital Solutions (GDSI). Esse cara é responsável pela compra e aprimoramento de 42 grupos e atualmente trabalha com a GDSI em consultoria para negócios na área de… Segurança ;)

Nos relatórios de finanças da PositiveID (PSID) eles dizem que por serem uma empresa pequena, não precisam revelar seus financiadores. Isso é garantido por lei. Pela empresa, só dá pra saber que quem cuida disso é William Caragol (procure o perfil dele na Forbes e tire suas conclusões). O único financiador que eles foram obrigados a apresentar em relatório (a lei estadunidense protege corporações) é a VeriTeq. Quem é VeriTeq? O nome atual da Digital Angel.

Esses conglomerados se subdividem, mudam de nome, mas são basicamente o mesmo grupo, sob mesma gerência, e MUITO dinheiro, que fragmentado parece pouco. E baixos valores não precisam ser declarados publicamente. Saca?

O fundador da ADS é Jamie Sugar, que trabalhou antes na Dictaphone Corp. por 20 anos como diretor de soluções em segurança nacional para o governo federal dos EUA. Esses caras migram do setor público para o privado para fazer o mesmo trabalho com mais proteção de privacidade. E a partir desses conglomerados, os relatórios financeiros entram na categoria “Smaller reporting company”, que não obrigam uma série de declarações.

Bem-vindo ao mundo corporativo estadunidense e ao motivo de quase tudo que não presta buscar sede nos EUA.

Outro membro do conglomerado é a Blue Moon, especializada em tecnologias de energia, e mais tarde comprada pela PSID. Antes disso ela comprou uma boa parte da Digital Angel. Percebe a treta? O responsável por essas transações é Scott R. Silverman. No momento ele era chairman da IFTH, uma empresa especializada em aquisição de outras empresas. Mas sabe onde mais ele trabalhou? Na Steel Vault Corp, na VeriTeq e na PSID. Curioso, não?

Eu não consigo mais encontrar nos relatórios, mas nas versões antigas do site tinha rastros de negociação até com dinheiro da ADX (autoridade em prisões de segurança máxima). Os relatórios financeiros da PSID foram substituídos e todos datam de 2014. Provavelmente por uma mudança na legislação que os permitiu ocultar mais informações (que vão me dar um trabalho do cão pra conseguir de novo), mas havia mais umas três especializadas em segurança e homeland security (segurança nacional), vinculadas de alguma forma ao DHS (Department of Homeland Security), cuja missão é “garantir a segurança da nação [EUA] das muitas ameaças que enfrentamos”. Esse dado vai ficar de boa fé mesmo, não precisam acreditar porque não dá pra achar assim de boa na internet. Todo o resto que eu disse até agora é acessível pelo Google, pelas páginas oficiais das corporações, pela Forbes e nos relatórios financeiros (que estão nas páginas), além de fóruns de economia que acompanham essas transações e aparecem nos primeiros resultados do Google com uma busca simples.

Não vou me alongar muito nessa parte porque iria mudar de assunto, mas pra quem curte esse tipo de investigação, os secretários do DHS nos períodos que envolveram as negociações relativas à PSID são James Milton Loy (principalmente) e Michael Chertoff (pegou o fina das transações, e é um dos fundadores do Patriot ACT, que também vale a pena pesquisar, até mais que o Verichip). Gente boa, só que não. Ambos indicados pelo então presidente Bush. Agora voltando ao assunto.

 

COM ESPECULAÇÃO

Em linhas gerais, o Verichip (eu prefiro usar esse nome, mas já está claro que se trata de muitas corporações e pessoas envolvidas) se inicia com uma proposta médica-veterinária, mas desperta interesse de companhias de tecologia, energia e segurança, e principalmente do governo.

Ele chegou a ser testado em regiões mais conservadoras dos EUA durate a gestão Bush, mas a interferência negativa da FDA (cujas motivações eu ainda não entendi) atrasou o processo. Recentemente houve pressão sobre o Obama pra que ele voltasse a incorporar a ideia em seu projeto de saúde pública nos EUA, mas até agora sem apontamentos de que isso fosse dar resultados.

De lá pra cá, a principal especulação sobre o Verichip tem sido no setor comercial. Bancos e empresas de crédito têm flertado com a possibilidade de um “cartão” subcutâneo que facilitaria suas compras (e facilitaria mesmo) e é muito capaz que isso comecea ocorrer com ou sem consentimento do governo americano nos próximos anos.

O grande medo da maioria das pessoas (e meu também) é que se crie um sistema integrado de identificação, aproveitando a brecha que aparecer (seja médica ou financeira) para usar essa tecnologia para apresentar a “praticidade” de ter nesse chip seu RG, passaporte, etc.

Não é recente a literatura de ficção que aponta pra essa realidade. E num mundo onde você já pode ter sua face reconhecida por câmeras na rua e ser identificado num protesto, a presença desse tipo de chip poderia significar a possibilidade do seu rastreamento e localização por satélite em qualquer lugar do mundo com precisão de DOIS CENTÍMETROS. Louco. Essa é a tecnologia que já existe.

Há inúmeras razões pra ser contra esse tipo de medida, mas isso não vai acontecer do dia pra noite, porque não dá. Pra isso acontecer, eles vão precisar que as pessoas QUEIRAM isso. Bush chegou perto com a históra do terrorismo, mas ainda assim não deu. Por mais ignorante que seja o estadunidense médio (assim como o brasileiro) ainda existe uma cultura de liberdade, nem que seja da boca pra fora, que torna esse processo difícil. Eles vão atuar sobre essa cultura.

Ninguém vai forçar um chip no seu braço. Eles vão te fazer pedir por um chip no braço. E da mesma maneira que se criou emanda e dependência por telefonia celular e internet, vai se criar emanda e dependência para chips RFID. É questão de tempo.

 

SOBRE AS CONSPIRAÇÕES

Crença é crença. Não vou ficar aqui perdendo tempo dizendo se o anticristo vai voltar ou não, até porque não sou cristão. Mas é preciso deixar de lado as páginas da surface de fundo preto e acordar pra uma realidade: conspirações são uma arma REACIONÁRIA, não revolucionária.

A revolução se faz com fatos, não com medos. Quanto mais informação dispersa se tem sobre um assunto, mais difícil encontrar a verdade. E essas corporações e centros financeiros encontraram um grande escudo nessa galera que só sabe falar de Illuminatis e Chip da Besta. Não se esqueçam que os principais difusores dessas conspirações atuais são igrejas neopentecostais institucionalizadas, e que elas SEMPRE estiveram do lado do imperialismo global. Abandonem a inocência digital.

Ademais, um conspirador nunca faria o que eu fiz aqui. Obscurantistas ficam nessa de “eu sei de coisas que…”, “eu ouvi uma coisa que você não ouviu”, “eu conheci uma pessoa que me disse” e blablablabla… Posso ver meia dúzia deles se retorcendo enquanto leem isso aqui. Quero que o cu eles pegue fogo.

Comecem a pesquisar como gente grande. Investiguem a informação institucional antes de mais nada, e a partir dela procurem a mentira, não o contrário.

 

E COMO RESISTIR?

Não dá. Sorry.

A única maneira possível de resistir agora é destruir os EUA como centro financeiro internacional, mas dadas as perspectivas atuais, os BRICS se fortalecem, as corporações migram pra esse eixo e então as legislações russas e chinesas vão mudar pra protegê-las como ocorre nos EUA.

A gente só vai ganhar tempo, e ainda assim nem é muito. Quem tiver real preocupação nesse assunto é melhor que se prepare não pra como resistir, mas sim pra como fugir.

Queria terminar com final feliz, mas não vai rolar. É choque de realidade mesmo. Só a partir das palavras chave desse texto tem material suficiente pra cada um(a) correr atrás e tirar suas conclusões, como eu fiz, sem ninguém dar nada mastigadinho.

Não vou colocar todos os links por pura preguiça, porque escrever isso aqui já deu trabalho suficiente. É só usar o Google, vocês conseguem. E aprendam a falar/ler em inglês, pra ontem. Beijos.

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Conversando com estrelas

Publicado: quinta-feira, 28 março - 2013 em Cultura, Filosofia
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Às vezes eu preciso conversar com o céu. Contar coisas pra ele que eu não conto pra ninguém, perguntar coisas que ninguém me responderia.

Pra uns, nunca vai passar de um monólogo esquizofrênico, mas não dou a mínima. Hoje eu resolvi ir pro quintal, apagar as luzes e deixar a Lua cheia contar suas histórias. Ela certamente já mais acostumada que eu com toda essa porcaria que é o mundo. Mesmo assim, a danada brilha com uma intensidade…

Os mais chatos e céticos vão dizer “ah, a Lua não brilha”. Mas, justamente por isso, são chatos.

Sentei, olhei pra cima de relance e vi o rabo do Escorpião. E pronto, entendi. É isso… Às vezes as coisas são assim, e não adianta eu tentar explicar isso aqui, vocês teriam que ir pros seus quintais e olharem pro rabo do escorpião pra ver a mesma coisa que eu vi.

Não é diferente quando nos olhamos nos olhos e simplesmente enxergamos tudo o que tinha que ser dito e não é. Sufoca um pouco, mas liberta. Estamos tão acostumados à fala que essas comunicações subjetivas descem como fumaça quente pela garganta.

Engasga, até…

Mas às vezes as coisas simplesmente são assim.

Existe, no fim, um bom motivo pra serem assim? O rabo do escorpião me disse que não. E acho que ele entende melhor disso que eu. Respeitei.

Gosto de olhar pro céu, porque me ajuda a lembrar que eu sou, inteiro, um universo. E todo mundo é. E na nossa arrogância de tentarmos entender as pessoas, ainda temos aquele pensamento medíocre que de gira tudo ao nosso redor, que o centro de gravidade da nossa vida é nosso “eu”. E definitivamente não é… Não existe esse centro. Existe uma grade bagunça, uma dança cósmica onde, no fim, “culpa” é uma palavra burra.

E o sentido que tem o castigo, dessa perspectiva, é o mesmo sentido que tem fazer-se de vítima. Nenhum.

“Espera e olha, porque é poeira de estrela. Um forasteiro, sempre, mesmo em terra natal. Uma vida sempre pela metade, uma corrida sem linha de chegada, uma subida em espiral que às vezes está mais perto do início que do meio, mesmo tendo percorrido tanto.”

Assustei com os coleguinhas que chegaram de repente e pararam na minha frente, e naturalmente eu não percebi, porque estava em outra dimensão só minha. Não deu tempo do céu terminar de falar, mas acho que entendi o espírito da mensagem.

Eles trouxeram uma garrafa da vinho, e talvez o fim da mensagem seja essa. Então, que assim seja. Amém.

Amanhã eu continuo essa conversa estranha com o céu.

Ouriços no estômago

Publicado: sexta-feira, 22 março - 2013 em Cultura, Filosofia, Política
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Às vezes parece que eu vou vomitar um ouriço.

[Esse é um daqueles posts que não vai te deixar animado. Se estiver mal, talvez seja melhor não ler.]

Não que algum dia eu tenha vivido num ambiente confortável. Minha natureza anacrônica e alienígena nunca permitiu. Queria lembrar como é estar num útero pra poder ter essa certeza. Mas a essa altura, já é irrelevante.

Também nunca vi felicidade como obrigação, nunca fiz questão de sorrisos, e não acho que essa é a chave pra uma vida melhor. Mas porra… Quando você sente que o meio do mato, longe de tudo (ou quase tudo, ao menos) é o único lugar onde vai conseguir respirar em paz… Sei lá, as agulhinhas dos ouriços incomodam um pouco mais em dias assim.

Estou num momento da vida em que eu não analiso mais as pessoas pelas posturas que tem, pelas convicções, crenças ou orientações políticas. Já não faz mais tanto sentido. Meu critério é a capacidade delas serem sensíveis.

Dizem que pra você ser feliz e estar bem consigo mesmo, você precisa ignorar as expectativas do mundo meritocrático, ignorar os padrões de beleza, ignorar as relações históricas de poder de alguns grupos sobre outros, enfim… É fácil estar acima de tudo isso por dentro, mas em ambientes sociais, não tem como.

A gente tem que escolher um lado, e a partir do dia em que eu escolhi o lado mais fraco (e essa escolha foi completamente consciente) eu comecei a chorar. Não porque fiquei triste, nem porque a vida ficou mais difícil (embora ambos sejam verdade), mas porque eu comecei a me dar conta de todo esse sofrimento, e o assumi como meu.

Muitos dos meus amigos, creio que com boas intenções, me dizem que eu tenho que colocar isso de lado pra conseguir “seguir a vida”. E quando eu falo “não consigo”, dizem que eu tenho que me esforçar mais. Pois então que seja, não é questão de não conseguir. Eu sequer me esforço.

EU NÃO QUERO.

Eu não quero conseguir dormir sabendo que tem gente tacando fogo em favelas e jogando spray de pimenta em cara de criança, em mulher com bebê de colo, jogando granadas em jornalistas, só pra deixar um lugar mais bonitinho pra copa do mundo.

Eu não quero conseguir me concentrar pra escrever um TCC enquanto tem gente sem ter o que comer porque existe um complexo econômico que controla a produção e venda de alimentos no mundo.

Eu não quero deixar a vida pessoal pra fora do meu ambiente de trabalho enquanto homossexuais são espancados, transexuais são apedrejadas, mulheres apanham de maridos, meninas e meninos sofrem porque seus corpos não se adequam a um padrão.

A única coisa que eu quero agora é vomitar esses ouriços. Tirar cada espinho e enfiar nos olhos de cada desgraçado que finge que não vê.

Eu não sou depressivo. Eu não preciso de remédios. Eu não quero me tratar.

Eu sou um ser humano que aceita a própria natureza, visceralmente.

Eu preciso de mais seres humanos assim, vomitando ouriços.

E eu quero que quem guarda tudo isso numa caixinha e esconde em cima do guarda-roupas sofra o suficiente pra abrir a caixa e perceber que é tão humano quanto aqueles que estão sendo pisoteados nesse exato momento.

Este é o segundo post da série “Higienização Insana”. No primeiro, introduzi o assunto, então quem tiver interesse veja o link no final dessa postagem.

De onde veio essa bobagem?

Eu também custei a descobrir. Faz tempo que já sabia que era mito e os motivos, mas não imaginava de onde isso tinha saído. Encontrei uma porção de hipóteses a esse respeito, mas a mais convincente tem embasamento científico, então vou adotá-la. Caso alguém conheça outra explicação, por favor, comente!

O fato é que a água na Europa (local de onde vêm muitos produtos de beleza e cosméticos) é muito mais “dura” que a nossa, ou seja, possui maior concentração de sais (provenientes de calcário, sobretudo). Por conta disso, para que os produtos tenham ação de limpeza eficiente com esse tipo de água, é preciso uma maior concentração de detergentes na fórmula.

Esses produtos passaram a ser vistos como “melhores”, porque o desenvolvimento cosmético desses países de fato foi superior ao brasileiro durante muito tempo (hoje isso é questionável). Assim, quando alguém tinha contato com um produto “bom” percebia maior volume de espuma. Vieram então os comerciais e os produtos nacionas resolveram acompanhar a tendência para se manterem no mercado.

Então não é melhor?

Depende. Em locais com águas mais duras, é importante que exista maior concentração de detergentes para que eles funcionem apropriadamente. Mas não é o nosso caso, e esse excesso pode ser (e geralmente é) prejudicial à nossa saúde e, principalmente, ao ambiente.

Muita espuma aqui não é sinal de limpeza. É sinal de excesso!

O que, afinal, é a espuma e por que ela se forma?

Resumindo, espuma é ar. Quando algum sabão está disperso em água, a organização molecular de seus sais em relação à água faz com que, com o atrito e a entrada de ar na mistura, pequenas bolhas sejam revestidas por uma película de moléculas de sabão que impedem que esse ar escape.  Nessa perspectiva, pensar que mais espuma resulta em mais limpeza é como bater clras em neve esperando que a agitação deixe ela mais doce. Ou seja, não tem cabimento algum.

A espuma é um sinal de que as substâncias detergentes estão presentes, mas apartir do ponto em que a espuma se torna persistente (aquelas que as modelos assopram na banheira nos comerciais, e não se desmancham), isso é um claro sinal de excesso.

Quais as alternativas?

Você pode procurar produtos no mercado com menor concentração de detergentes, mas já aviso, vai ser muito esforço pra pouco resultado, porque esses produtos têm pouco sucesso no mercado. E o motivo é porque não sabemos consumir, mas isso não vai mudar tão cedo. O que nos resta são medidas práticas que vão tornar sua limpeza mais eficiente.

Pra não me alongar muito, o que for detergente, dilua por 4, e o que for xampú, dilua por 2.

Você já deve ter visto nas propagandas a Suzana Vieira colocar uns poucos pingos de detergente na esponja dizendo que ele “rende mais”, então você usa menos. Isso é verdade, desde que você faça ele render mais. Pra isso, dilua em água. Se ficar com medinho, dilua um frasco para dois e faça o teste. É mais fácil de espalhar esse detergente pela esponja e pela superficie a ser limpa, e isso faz ele funcionar melhor (embora com menos espuma).

Um detergente, pra fazer efeito, precisa se diluir na água. Se você fizer isso antes de usar, o processo fica muito mais simples. O mesmo vale para xampú em relação aos cabelos. Ele vai ficar com mais líquido e fazer menos espuma, então parece que limpa menos. Mas ele vai se espalhar melhor pelo cabelo e qualquer componente ativo da fórmula vai ser melhor incorporado pelos fios ou pelo coro cabeludo.

Pra entender, na prática, essa diferença, tente lambuzar um prato inteiro com uma colher de óleo e com uma colher de margarina.

Se você simplesmente tentar colocar poucas gotas de detergente na esponja ou pouco xampú na mão, ele vai se diluir com dificuldade porque a consistência é viscosa, e não vai funcionar. Então, dilua antes. O motivo de esses produtos serem viscosos é porque diluem menos, aí você usa mais, acaba antes e tem que comprar outro.

Diluir não é um ato de inteligência. É questão de procedimento. Não diluir é que é a burrice.

Mas o que tem a espuma de tão ruim?

O excesso de detergentes deixa a pele ressecada. Já falamos sobre isso na primeira postagem, então não vou insistir nos perigos da pele ressecada, mas ela fica mais frágil contra infecções e alguns ferimentos.

Esse é o motivo de se colocar outros produtos hidratantes (geralmente óleos) nos xampús e sabonetes. Mas se não tivesse detergente em excesso, boa parte deles não precisaria estar ali e haveria muito menos agentes químicos no produto (menos risco de alergias, menos poluentes pelo ralo). Eles não estão ali pra proteger sua pele do ressecamento natural. Eles estão ali pra aliviar os efeitos do ressecamento que o próprio produto causa.

Mas o maior problema com as espumas dos detergentes (sabões não formam esse tipo de espuma, mas tanto sabonetes quanto xampús geralmente possuem detergentes, então se tiver bastante espuma, eles estão ali) é ambiental. A espuma custa a se desmanchare sobre a superfície da água. Quem já viu saída de esgotos industriais ou locais onde ocorre agitação de água de esgotos sabe bem como é. Isso dificulta a entrada de oxigênio nos rios e destrói boa parte da vida ali. Isso também favorece o desenvolvimento de microorganismos anaeróbicos, que geralmente liberam um cheiro extremamente desagradável.

Os detergente não-biodegradáveis ainda apresentam o inconveniente de poderem se infiltrar no solo e em águas subterrâneas, podendo chegar a consumo humano e causar problemas digestivos e intestinais. A fabricação destes é atualmente proibida no Brasil e em vários outros países. Mas mesmo os biodegradáveis em excesso causam problemas ambientais. São tóxicos para os peixes, podem destruir microorganismos necessários à manutenção do ambiente aquático e sua decomposição resulta na eutrofização de águas, o que significa um crescimento populacional desordenado de álgas e consumidores primários (aumento de biomassa), que impedem a entrada de luz e reduzem o teor de oxigênio na água.

Produtos realmente diferentes

Há ainda os detergentes sem fosfatos e até mesmo sem qualquer derivado de petróleo. Ecologicamente são muito melhores, mas são sigificativamente mais caros. Um sabão em pó destes chega a sair por mais de 20 reais o quilo e muitos desses produtos acabam sendo importados, pois as produções nacionais não alcançam o grande mercado.

Outro inconveniente é que detergente com pouco ou nenhum fosfato depende muito mais do atrito. Ou seja, vai ter que lavar no braço mesmo, porque em máquinas de lavar louça, por exemplo, o desempenho é bem ruim. No Japão se desenvolveu um produto para lavagem de roupas em máquina com bolas de cerâmica que duram até 3 anos com uso diário. E não usam nada de detergente. Mas acredito que não valha a pena para a indústria, pois voce não vai ter que repor toda semana. Esses produtos devem demorar até atingirem um custo-benefício satisfatório e agradar o consumidor, então até que isso aconteça, o mais prático é diluir.

Eduque sua mente!

Precisamos nos educar quanto aos processos de limpeza. O consumidor escolhe mal porque não sabe o que está ali, nem como funciona. Peço que façam a experiência com o detergente. As marcas mais baratas vêm mais diluídas, então vamos arriscar uma diluição de um volume para dois. Quando seu frasco acabar, transfira metade de um novo para ele e preencha os dois com água. Use esses dois até acabarem e depois tente voltar pro concentrado. Veja você mesmo como o diluído funciona igual ou até melhor. O mesmo vale ara xampús. Se tiver medo, faça a diluição na sua mão.

Quando você se acostumar com a ideia de que a espuma não estar ali não quer dizer nada, no dia em que tentar usar o produto concentrado vai perceber como ele ataca sua mão, é mais difícil de usar e acaba muito mais rápido.

Nosso maior gasto de detergentes é apertando a esponja pra tirar o “excesso de espuma”. Reparem.

Posts anteriores da série:
Sabonetes Bactericidas

Este é o primeiro de uma série de futuros posts sobre nossa mania de esterilizar o mundo, e que tem deixado quase todo mundo louco, pra não dizer idiota. Será grande porque é introdutório. Os próximos não repetirão a informação aqui registrada.

Desculpem-me as donas de casa com “mania de limpeza” (que é doença!!!) e as mamães que esterilizam suas crianças, mas a ignorância de vocês pode estar condenando seus pequenos a problemas de saúde muito mais sérios do que as bactérias do nosso cotidiano poderiam causar.

Sabonetes bactericidas devem ser usados conforme as instruções!

Se você usa Protex, Lifebuoy ou variáveis como usaria um sabonete normal, você só está jogando antibióticos (e dinheiro) pelo ralo. As substâncias bactericidas ativas nestes produtos precisam de no mínimo dois minutos sobre a pele para surtirem efeito. Algum de vocês deixa as mãos ensaboadas por dois minutos antes de enxaguar? Eu duvido. Então, surpresa, todo o dinheiro que você gastou nestes sabonetes foi inútil até agora para melhorar sua saúde. Mas ele trouxe outras coisas…

“Achamos que estamos esterilizando o mundo, mas estamos mudando ele”

Palavras dos pesquisadores McMurry e Levy, numa edição da Nature de 1998 (sim, a indústria tem escondido isso de você há mais de 10 anos). Interessados podem ler o artigo “Antibacterial household products: cause for concern”. [Abstract; PDF]

Esses produtos bactericidas foram desenvolvidos inicialmente para uso em ambientes potencialmente contaminantes (hospitais, locais de coleta e análise de água poluída, laboratórios etc). Mas a partir no fim da década de 90, já estavam presentes em mais de 700 produtos destinados a uso doméstico. Isso não porque as pessoas estavam ficando doentes por conta de bactérias, mas porque estavam ficando doentes mentais (com a licença para o exagero, mas esse texto tem o propósito de ser um “alerta vermelho”).

Os problemas do uso cotidiano e excessivo desses produtos são muitos. Vou listar apenas os mais relevantes.

  • Quanto mais substâncias presentes num agente (de tratamento ou não) maior o risco de reação do organismo. Por isso não é raro encontrar pessoas que apresentam reação alérgica ao uso desses sabonetes. E reações alérgicas não são apenas pele vermelha. Elas podem se manifestar de diversas formas, muitas delas internas, difíceis de identificar. Podem envolver dores de cabeça, enfraquecimento do sistema imunológico, irritação do intestino ou do estômago, dores musculares, entre muitos outros. Isso vai da pessoa, mas é fato que essas substâncias são absorvidas pela pele e podem chegar a diversas partes do organismo.
  • Os bactericidas não escolhem a bactéria que vão atacar, e nossa pele é naturalmente revestida por bactérias ditas “boas”, ou seja, que atuam na absorção do excesso de suor e como barreira contra outras infecções. Destruir essas bactérias é deixar o organismo mais vulnerável a infecções. Vale ressaltar aqui que a relação “pacífica” que temos com esses microrganismos foram construídas ao longo de milhares de anos da evolução. E justamente por isso elas funcionam muito bem (do contrário, não estaríamos aqui).
  • Antibióticos usados dessa forma colaboram para a seleção de bactérias mutantes resistentes. Na prática, isso significa que a administração desorientada dessas substâncias, no lugar de proteger seu organismo, irá agir sobre um população de bactérias fazendo com que os menos resistentes morram e os mais resistentes possam se reproduzir. A mídia frequentemente usa o termo “superbactéria”, que você já deve ter ouvido, pra falar desse fenômeno.
  • Por fim, em decorrência disso tudo, essas substâncias podem alterar a microflora do indivíduo (a população natural de bactérias do corpo humano). Como resultado, isso pode alterar o processo de maturação de células T do seu sistema imunológico, potencializando, e muito, a chance de crianças desenvolverem alergias.

Calma, ainda não acabou.

Até mesmo a indústria já está reconhecendo o problema

O Triclosan foi a substância líder desse ramo durante um bom tempo (mas já foi banido ao menos pelas marcas mais importantes). Além desses problemas, já foi associado até mesmo a casos de desregulação hormonal e prejuízos ambientais. Os outros ativos químicos (clorocarbonos, active 5, cloroxilenol) ainda não foram tão bem estudados, mas é bom ficarmos atentos. Geralmente os bactericidas vêm com essa mensagem gritante na embalagem, porque o consumidor ainda valoriza essa propriedade, mas não custa verificar a composição do sabonete para ter certeza.

Sabonetes normais são mais seguros, mas também não devem ser usados em excesso!

Mesmo o sabonete comum, se usado em excesso, pode prejudicar a saúde do organismo. Para a limpeza corporal cotidiana, não é recomendado usar sabonete mais de uma vez ao dia. Se tomar vários banhos, não use sabonete em todos. Se lavar as mãos muitas vezes no dia, pense em usar cremes com silicone ou óleos vegetais.

O uso excessivo de sabões na pele a deixa ressecada. Isso, em outras palavras, significa que a barreira lipídica natural é removida, deixando a pele mais vulnerável a infecções. Ainda, prefira os sabonetes glicerinados, ou mesmo os infantis, que apresentam risco muito menor de reação alérgica.

Devo remover completamente estes produtos da minha vida? Quais as alternativas?

No geral, sim. Se você não for um profissional da área de saúde, não lida com agentes contaminantes (como num laboratório) e não está fazendo coleta de água em córregos poluídos, definitivamente sim. Em qualquer outra situação, água e sabão normal já fazem o serviço. E em casos onde não for possível, prefira o álcool em gel, que age apenas topicamente (não penetra na pele e não atinge a microflora interna). Mas não seja neurótico. Não leve isso na bolsa todos os dias. Álcool em gel usado com frequência também desidrata a pele.

Uma breve cutucada política/mercadológica sobre a situação

Pra finalizar, uma cutucada. A indústria se aproveita das histerias coletivas para vender. A indústria farmacêutica é especialmente campeã nesse ramo. Quando a histeria não existe, eles dão um jeito de criar uma. Álcool em gel e sabonetes bactericidas não vão re proteger da gripe suína, nem de nenhuma outra doença viral!

Sua casa não é um ambiente hostil, seu filho precisa de contato com sujeira para desenvolver o próprio sistema imunológico e não ser um merdinha quando crescer. Aquela bolha que aparece em volta das crianças nos comerciais não é uma proteção à saúde, é uma barreira contra o próprio desenvolvimento.

O mesmo vale para sabão em pó. Se você não está lavando um avental cirúrgico, não pense em usar sabões bactericidas. Além de inútil e caro, os tecidos ficam impregnados com a substância (que poderá ser absorvida pela pele, e também poderá causar alergias), além da grande quantidade de água com antibióticos liberada no ambiente.

Não seja um imbecil nas mãos dos agentes publicitários destas empresas. Proteja seu bolso, sua saúde, o ambiente e dê um basta nessa epidemia de higienização do mundo. Antes que ele esteja tão estéril que nem nós possamos sobreviver.

Algumas ironias, só pra não dizerem que não sou biólogo

O número de células bacterianas do seu corpo é maior do que o número de células do seu corpo. Umas dez vezes maior! Você é mais bactéria que gente, respeite as pequeninas! Até uns 4Kg do seu peso são bactérias.

As bactérias foram indispensáveis no processo evolutivo que formou nosso sistema imunológico. Seja grato, no mínimo.

As bactérias foram indispensáveis em todo o processo de evolução da vida na Terra. Elas foram, inclusive, a primeira forma de vida presente em nosso planeta.  Algumas são patológicas, mas a maioria delas não é. Se todas as bactérias fossem extintas hoje, a vida em nosso planeta estaria condenada. E nós conhecemos somente cerca de 50% das espécies de bactérias presentes no mundo. Elas também são importantíssimas no processo de desenvolvimento de inúmeros remédios.

Cerca de mil dessas espécies podem viver em paz em nossos intestinos. E cada um de nós possui em média 160 espécies diferentes delas. 99% dos genes presentes em seu intestino são bacterianos, e não humanos. O número de espécies de bactérias no seu intestino aumenta ao longo da vida. Elas começam a invadir seu corpo a partir do nascimento e aumenta de acordo com seu contato com o mundo (comer terra quando criança, por exemplo) e sua dieta (comer terra quando criança, por exemplo).

Por fim, a ciência ainda não decifrou completamente como as bactérias auxiliam em nosso processo digestivo, mas é fato que o fazem. E se ao longo desses milhares de anos de evolução nosso sistema imunológico permite que elas vivam ali em paz enquanto nos ajudam a sobreviver, isso já é motivo pra pensar duas (ou mais) vezes antes de mandar um antibiótico pra dentro.

Já chega. Os próximos posts serão mais sucintos e vou direcionar para esse aqui caso alguém queira saber de mais informações sobre bactérias. Daqui em diante, vou me focar nos produtos, danos específicos à saúde (que não esses genéricos) e impactos ambientais.