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Carta de um leopardo a Dionísio

Publicado: quarta-feira, 30 janeiro - 2013 em Uncategorized
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Entre savanas e florestas, caçadas e descansos, o que permanece é o hábito de correr.

Porque aquilo que é hábito, não muda. E cada um de nós possui sua natureza. Eu sou um leopardo. Territorial, agressivo, orgulhoso. E meu sangue é fúria.

Porque eu não consigo me adaptar a um rebanho. Porque meus sonhos vão além do desejo coletivo. Porque minha fome não é saciável por pastos.

Porque eu aprendi que morrer nunca é pra sempre.

E hoje eu olhei nos seus olhos, pai, e você me ofereceu tudo aquilo que eu precisava. Amor intenso e verdadeiro. Amor louco, insano, descontrolado, único… E meu. Só meu.

Amor suficiente pra cruzar um oriente, pra perder-me em oceanos, pra ir ao Hades e voltar.

E que pra você é algo tão simples… Mas tão difícil de conquistar.

Aprendi, sob o preço de cortar os pés descalços, que fiz o certo. Que não se entrega sua loucura a quem tem medo do escuro. Deixe a luz para os que gostam de viver na luz. Eu aprendi a enxergar foi no escuro do inverno.

E num mundo de dor e sofrimento, onde a cada esquina há corações dilacerados, me sinto grato. Grato em dor, grato em sofrimento, grato em desespero… Grato por estar, eu, por inteiro, dilacerado. Mas me resta o coração. E é só disso que eu preciso.

Cubro a face das tempestades de areia e respiro fundo ao encarar o deserto. Pois além dele, talvez, haja espaço para um amor insano, desses que não cabe no padrão dos homens, desses que o teatro e os livros não são capazes de padronizar, desses que não aprendemos nas histórias que nos contam.

Um amor desses que inventamos. A mais bela obra em minha criação. Um coração, e tão somente um coração.

É hora de correr.

Correr num deserto onde o acaso é a ordem, onde a sua perdição dá sentido às pequenas desarrumações dos grãos de areia. E na noite silenciosa do deserto, não há necessidade em ouvir-te, pois sinto.

Na paisagem noturna,as estrelas voltarão a desvendar mistérios, e somente a luz da Lua será capaz de me elevar a elas. Brilhar na profundidade bela do escuro, e só.

E não importa que eu não possa ver, se puder visto e curado.

E na paisagem noturna,as estrelas voltarão a desvendar mistérios, e somente a luz da Lua será capaz de me elevar a elas. Brilhar na profundidade bela do escuro.

E só.

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Morrer e Nascer

Publicado: domingo, 29 janeiro - 2012 em Cultura
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Se está bem? É claro que não está bem. Eu também não estou. Nada está, ninguém. O mundo está inteiro de cabeça pra baixo nesse instante. Não que isso justifique, mas liberta um pouco da culpa. E é disso que venho falar hoje. Não culpa, liberdade.

A idéia xamânica de morte e renascimento pra mim não é exatamente um “encarar filosófico” ou ainda religioso da realidade. Foi só algo com que eu me identifiquei. Pratico desde que me entendo por gente, não porque me disseram, mas porque eu sinto assim.

Morrer não é difícil. Difícil é tudo aquilo que te arrasta para a morte, pois ela pode ser lenta, sofrida. Nem sempre se morre de repente, ou dormindo. Mas morrer não é difícil, é justamente a libertação. Difícil é nascer.

Não é qualquer um que tem paciência de esperar os nove meses de gestação pra começar a ser novo. Os que não esperam, se condenam ao nascimento prematuro e fatalmente sofrerão as sequelas. Mas não se pode generalizar também. Carícias na barriga gestante, música para o embrião, isso é importante também. São os meses de vida em que a solidão é crucial, mas permeável.

Aí vem o nascer. Eu penso que dói. A gente não sente, mas é claro que dói. Ser espremido por um pequeno funil que te cospe pro mundo, ainda que não houvesse desconforto físico, deve doer no espírito de alguma forma. E então cai a luz sobre a retina virgem. Um súbito abrir de janelas para a realidade nua e crua, a primeira mordida em nosso fruto de inocência. Nosso pulmãozinho de parasita recebe um golpe violento de ar seco e frio. E então, o grito.

Não existe liberdade sem grito. Liberdade, antes de mais nada, é poder gritar. Gritamos para ser livres e depois gritamos por ser livres.

O processo de crescer nunca caberia numa descrição dessas, e qualquer tentativa de resumi-lo o tornaria pobre. Mas dói crescer também. E a dor, inclusive, é importante para o crescimento. É causa e consequência. As perninhas moles vão ganhando força e confiança, e vai se tornando possível verbalizar. Daí em diante, toda a vida escorrega pela espiral da complexidade e é tudo tão incerto que não vale a pena divagar…

E ainda pequenos, brincamos na praia. Hora com as mãozinhas cheias de areia, hora com ela escorrendo toda pelos dedos. Hora terminando de edificar um castelinho, hora enxergando ele ser desmachado pelas ondas.

Ficamos tristes quando isso acontece, mas crescemos e esquecemos como é essa tristeza. Às vezes, temos até um estranho prazer em ver nossos castelinhos voltarem a ser grãos. Não é velhice, nem mesquihez, nem desatenção. No fundo sabemos que aqueles grãos estarão ali para serem, logo menos, outro castelinho.

E como as tartaruguinhas que desabrocham ali mesmo, alguns de nós serão apenas comida de urubu. Outros vão ser levados pela correnteza e acabar dentro da boca de algo maior. E uns poucos vão chegar ao que chamamos de oceano; imenso, profundo e indecifrável.

O ciúme é uma coisa cretina que insistimos em ensinar a nossas crianças. Mas não devíamos. Amor, por natureza, é livre. E é assim que deve ser, ainda que desaprender o ciúme seja muito mais difícil que aprender. Como é chorar.

Hoje, mais que gritar, eu queria ouvir um grito. Mas eu decidi respeitar essa gestação, mesmo sabendo que essa barriga é acariciada por outras mãos. Cada pessoa que se mistura conosco vive ao nosso lado uma vida inteira, então morremos, e não saberemos como será após o próximo nascimento. Só sabemos que vai doer.

Mas será um mundo completamente novo, e isso vale qualquer preço.

Essa é uma das postagens que vai parecer uma metáfora pela covardia do não querer dizer com todas as letras, ou uma indireta. Mas não é isso. É só que algumas coisas chegam a nós de modo tão subjetivo que não há outra forma de se refrir a elas.

Venho falar hoje em defesa de todos aqueles que já desejaram profundamente a própria morte. Sobretudo, daqueles que a conquistaram.

Me irrita ouvir as pessoas dizendo que essas pessoas “desistiram” ou buscaram atenção. Decidir encerrar um sofrimento através de um outro grande sofrimento (mas este único) exige uma coragem que poucos homens nesta terra possuem.

O suicídio às vezes não é físico. E para aqueles que vivem no cotidiano os processos metafóricos de morte e renascimento, como eu faço, muitas vezes morrer exige tirar a própria vida. E ninguém imagina o quanto isso dói. Ninguém imagina o preço que se paga. Ninguém imagina o que é estar dentro de um caixão por tempo indeterminado, por vontade própria, por sentir uma certeza sobrenatural de que é ali que você deve estar.

Mato tudo o que há de pior em mim, mas morre todo o resto. E na aflição de perceber que o que havia de pior era justamente meu bem mais precioso, morre também meu orgulho.

Peço desculpas sinceras a todos os que tantas vezes me assistiram morrer, velaram meu corpo e me deixaram flores.

Mas há momentos em que a incompatibilidade com a realidade se torna tão gritante, que é preciso morrer.

“Dearest,
I feel certain that I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do.” (Virginia Woolf)

Aos que já sentiram a dor da morte, mas não tiveram a certeza de que era hora de morrer fisicamente, minhas condolências.

Atualizei a pstagem para recomendar o texto que o Edson Bueno de Camargo sugeriu nos comentários. Destaco o trecho com que mais me identifico, deixando clara a identificação com o texto todo:

A minha solidariedade aos que findam a si mesmos é infinita. Conheço a dor por dentro e por fora, esta de viver sem esperança o tempo todo, de ter a certeza de ter nascido no tempo e lugar errado, de ser estrangeiro em minha casa e  órfão na presença dos meus pais. A dama de negro ri de mim o tempo todo, ela não quer me levar , quer que caminhe meus passos até ao seu encontro.

Ver na íntegra.

Tristeza não tem fim, felicidade sim

Publicado: segunda-feira, 2 agosto - 2010 em Literatura
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Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

(…)

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

(…)

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

[A Felicidade – Tom Jobim e Vinicius de Moraes]