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Este é o primeiro de uma série de futuros posts sobre nossa mania de esterilizar o mundo, e que tem deixado quase todo mundo louco, pra não dizer idiota. Será grande porque é introdutório. Os próximos não repetirão a informação aqui registrada.

Desculpem-me as donas de casa com “mania de limpeza” (que é doença!!!) e as mamães que esterilizam suas crianças, mas a ignorância de vocês pode estar condenando seus pequenos a problemas de saúde muito mais sérios do que as bactérias do nosso cotidiano poderiam causar.

Sabonetes bactericidas devem ser usados conforme as instruções!

Se você usa Protex, Lifebuoy ou variáveis como usaria um sabonete normal, você só está jogando antibióticos (e dinheiro) pelo ralo. As substâncias bactericidas ativas nestes produtos precisam de no mínimo dois minutos sobre a pele para surtirem efeito. Algum de vocês deixa as mãos ensaboadas por dois minutos antes de enxaguar? Eu duvido. Então, surpresa, todo o dinheiro que você gastou nestes sabonetes foi inútil até agora para melhorar sua saúde. Mas ele trouxe outras coisas…

“Achamos que estamos esterilizando o mundo, mas estamos mudando ele”

Palavras dos pesquisadores McMurry e Levy, numa edição da Nature de 1998 (sim, a indústria tem escondido isso de você há mais de 10 anos). Interessados podem ler o artigo “Antibacterial household products: cause for concern”. [Abstract; PDF]

Esses produtos bactericidas foram desenvolvidos inicialmente para uso em ambientes potencialmente contaminantes (hospitais, locais de coleta e análise de água poluída, laboratórios etc). Mas a partir no fim da década de 90, já estavam presentes em mais de 700 produtos destinados a uso doméstico. Isso não porque as pessoas estavam ficando doentes por conta de bactérias, mas porque estavam ficando doentes mentais (com a licença para o exagero, mas esse texto tem o propósito de ser um “alerta vermelho”).

Os problemas do uso cotidiano e excessivo desses produtos são muitos. Vou listar apenas os mais relevantes.

  • Quanto mais substâncias presentes num agente (de tratamento ou não) maior o risco de reação do organismo. Por isso não é raro encontrar pessoas que apresentam reação alérgica ao uso desses sabonetes. E reações alérgicas não são apenas pele vermelha. Elas podem se manifestar de diversas formas, muitas delas internas, difíceis de identificar. Podem envolver dores de cabeça, enfraquecimento do sistema imunológico, irritação do intestino ou do estômago, dores musculares, entre muitos outros. Isso vai da pessoa, mas é fato que essas substâncias são absorvidas pela pele e podem chegar a diversas partes do organismo.
  • Os bactericidas não escolhem a bactéria que vão atacar, e nossa pele é naturalmente revestida por bactérias ditas “boas”, ou seja, que atuam na absorção do excesso de suor e como barreira contra outras infecções. Destruir essas bactérias é deixar o organismo mais vulnerável a infecções. Vale ressaltar aqui que a relação “pacífica” que temos com esses microrganismos foram construídas ao longo de milhares de anos da evolução. E justamente por isso elas funcionam muito bem (do contrário, não estaríamos aqui).
  • Antibióticos usados dessa forma colaboram para a seleção de bactérias mutantes resistentes. Na prática, isso significa que a administração desorientada dessas substâncias, no lugar de proteger seu organismo, irá agir sobre um população de bactérias fazendo com que os menos resistentes morram e os mais resistentes possam se reproduzir. A mídia frequentemente usa o termo “superbactéria”, que você já deve ter ouvido, pra falar desse fenômeno.
  • Por fim, em decorrência disso tudo, essas substâncias podem alterar a microflora do indivíduo (a população natural de bactérias do corpo humano). Como resultado, isso pode alterar o processo de maturação de células T do seu sistema imunológico, potencializando, e muito, a chance de crianças desenvolverem alergias.

Calma, ainda não acabou.

Até mesmo a indústria já está reconhecendo o problema

O Triclosan foi a substância líder desse ramo durante um bom tempo (mas já foi banido ao menos pelas marcas mais importantes). Além desses problemas, já foi associado até mesmo a casos de desregulação hormonal e prejuízos ambientais. Os outros ativos químicos (clorocarbonos, active 5, cloroxilenol) ainda não foram tão bem estudados, mas é bom ficarmos atentos. Geralmente os bactericidas vêm com essa mensagem gritante na embalagem, porque o consumidor ainda valoriza essa propriedade, mas não custa verificar a composição do sabonete para ter certeza.

Sabonetes normais são mais seguros, mas também não devem ser usados em excesso!

Mesmo o sabonete comum, se usado em excesso, pode prejudicar a saúde do organismo. Para a limpeza corporal cotidiana, não é recomendado usar sabonete mais de uma vez ao dia. Se tomar vários banhos, não use sabonete em todos. Se lavar as mãos muitas vezes no dia, pense em usar cremes com silicone ou óleos vegetais.

O uso excessivo de sabões na pele a deixa ressecada. Isso, em outras palavras, significa que a barreira lipídica natural é removida, deixando a pele mais vulnerável a infecções. Ainda, prefira os sabonetes glicerinados, ou mesmo os infantis, que apresentam risco muito menor de reação alérgica.

Devo remover completamente estes produtos da minha vida? Quais as alternativas?

No geral, sim. Se você não for um profissional da área de saúde, não lida com agentes contaminantes (como num laboratório) e não está fazendo coleta de água em córregos poluídos, definitivamente sim. Em qualquer outra situação, água e sabão normal já fazem o serviço. E em casos onde não for possível, prefira o álcool em gel, que age apenas topicamente (não penetra na pele e não atinge a microflora interna). Mas não seja neurótico. Não leve isso na bolsa todos os dias. Álcool em gel usado com frequência também desidrata a pele.

Uma breve cutucada política/mercadológica sobre a situação

Pra finalizar, uma cutucada. A indústria se aproveita das histerias coletivas para vender. A indústria farmacêutica é especialmente campeã nesse ramo. Quando a histeria não existe, eles dão um jeito de criar uma. Álcool em gel e sabonetes bactericidas não vão re proteger da gripe suína, nem de nenhuma outra doença viral!

Sua casa não é um ambiente hostil, seu filho precisa de contato com sujeira para desenvolver o próprio sistema imunológico e não ser um merdinha quando crescer. Aquela bolha que aparece em volta das crianças nos comerciais não é uma proteção à saúde, é uma barreira contra o próprio desenvolvimento.

O mesmo vale para sabão em pó. Se você não está lavando um avental cirúrgico, não pense em usar sabões bactericidas. Além de inútil e caro, os tecidos ficam impregnados com a substância (que poderá ser absorvida pela pele, e também poderá causar alergias), além da grande quantidade de água com antibióticos liberada no ambiente.

Não seja um imbecil nas mãos dos agentes publicitários destas empresas. Proteja seu bolso, sua saúde, o ambiente e dê um basta nessa epidemia de higienização do mundo. Antes que ele esteja tão estéril que nem nós possamos sobreviver.

Algumas ironias, só pra não dizerem que não sou biólogo

O número de células bacterianas do seu corpo é maior do que o número de células do seu corpo. Umas dez vezes maior! Você é mais bactéria que gente, respeite as pequeninas! Até uns 4Kg do seu peso são bactérias.

As bactérias foram indispensáveis no processo evolutivo que formou nosso sistema imunológico. Seja grato, no mínimo.

As bactérias foram indispensáveis em todo o processo de evolução da vida na Terra. Elas foram, inclusive, a primeira forma de vida presente em nosso planeta.  Algumas são patológicas, mas a maioria delas não é. Se todas as bactérias fossem extintas hoje, a vida em nosso planeta estaria condenada. E nós conhecemos somente cerca de 50% das espécies de bactérias presentes no mundo. Elas também são importantíssimas no processo de desenvolvimento de inúmeros remédios.

Cerca de mil dessas espécies podem viver em paz em nossos intestinos. E cada um de nós possui em média 160 espécies diferentes delas. 99% dos genes presentes em seu intestino são bacterianos, e não humanos. O número de espécies de bactérias no seu intestino aumenta ao longo da vida. Elas começam a invadir seu corpo a partir do nascimento e aumenta de acordo com seu contato com o mundo (comer terra quando criança, por exemplo) e sua dieta (comer terra quando criança, por exemplo).

Por fim, a ciência ainda não decifrou completamente como as bactérias auxiliam em nosso processo digestivo, mas é fato que o fazem. E se ao longo desses milhares de anos de evolução nosso sistema imunológico permite que elas vivam ali em paz enquanto nos ajudam a sobreviver, isso já é motivo pra pensar duas (ou mais) vezes antes de mandar um antibiótico pra dentro.

Já chega. Os próximos posts serão mais sucintos e vou direcionar para esse aqui caso alguém queira saber de mais informações sobre bactérias. Daqui em diante, vou me focar nos produtos, danos específicos à saúde (que não esses genéricos) e impactos ambientais.

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A imagem do universitário, seja pela história ou pela mídia, é associada ao consumo de bebidas alcoólicas. Para alguns, é só uma forma de sustentar um nicho bem interessante do mercado. Para outros, é a mostra de como no início da vida adulta ainda carregamos uma mochila de irresponsabilidades nas costas. Para mim, como universitário, é apenas uma maneira de sobreviver.

Falarei de drogas de um modo geral, para não entrar nas particulares de cada uma e não me render à apologia, pois não é esse o intuito. Uma pessoa “saudável”, para os padrões de hoje (entenda por “acorda cedo, estuda, trabalha, acumula dinheiro, planeja uma vida, vira gente”), não tem tempo para pensar. E se nós, universitários, acatamos cada medida repressora que vem dos reis acadêmicos, lentamente nos dirigimos ao local onde nos querem: quietos numa cadeira, como sempre foi na vida escolar.

A universidade tem uma tendência natural a abrir mentes, ainda que ela venha sendo agredida lentamente. Não que ela seja o reduto dos pensadores, mas faz parte do processo de graduação abrir a visão sobre os problemas do mundo – ou deveria. Me chamem de fraco, de dependente, do que for, mas com uma cerveja gelada na mesa qualquer assunto flui melhor. E não estou falando do hábito social, ou dos reflexos psicológicos. Falo apenas da reação química. Ficamos menos inibidos, nos comunicamos com mais honestidade. Às vezes isso leva a brigas, outras leva a paixões. Mas não definiria melhor o álcool do que já o fazem comumente: “lubrificante social”.

Drogas alteram nosso modo de perceber as coisas, e por consequência nosso modo de interpretar as coisas. Isso não deveria ser visto como ruim. A parte ruim são os efeitos colaterais, mas sabendo escolher e medir, ninguém vai morrer disso. O problema é que o caretinha que vive em nós, o fantasma da repressão que fica acima do nosso ombro direito, não nos permite enxergar como as medidas autoritárias são complexas e intencionadas.

Quando uma lei, portaria ou ordem oficial de qualquer natureza diz que não podemos ingerir álcool dentro das universidades, indiretamente está dizendo que não quer festas e socializações que não sejam de foro estritamente acadêmico. É uma maneira de nos impedir de conversar, de nos conhecermos, de refletirmos sobre o espaço que visitamos diariamente, de criar sentimento de unidade com o local e com as pessoas.

Uma vez me disseram que o combustível do movimento estudantil era álcool e maconha. Assusta falando dessa forma, mas no fundo pode ser mesmo verdade. E não vejo nada de mal nisso. Se é o que está permitindo que o carro ande, 8 anos a menos de vida pra cada um ainda é uma medida altruísta.

A despeito da ironia desse último comentário, só gostaria de deixar claro que a medida repressora ainda é acatada por jovens universitários que ousam fazer comparações do tipo “se não podemos beber em hospitais, a lógica é não podermos beber aqui também”. Como se estivéssemos bebendo durante as aulas e fazendo festas dentro de laboratórios. Os coroados justificam pela “preservação do patrimônio”. Pois bem, do patrimônio deles. Porque não é interessante que o espaço acadêmico seja visto como nosso. Ele já pertence ao mercado, não pode haver concorrência.

O movimento estudantil, talvez pela predominância jovem, é interessante por não se fazer apenas de reuniões sérias e manifestações públicas. Há momentos de descontração pela descontração. Seja valorização ou destruição cultural, não é apenas um movimento político, mas também cultural. Isso o torna especificamente perigoso porque o objetivo não são reformas e sim transformações.

E se pensamos que estes meninos sem-lei serão os professores de amanhã, aí temos motivo para pânico. O que será de nossas crianças brancas, limpas, cristãs e obedientes na mão desses formadores degenerados? Eu imagino o que serão, pois os professores que me inspiraram em que me espelho durante toda minha vida são dessa porção degenerada. E aí fica mais claro porque os donos dessas crianças têm medo. Elas aprendem a latir, fugir e morder, no lugar de ficar choramingando na coleira por uma tigela de ração.

Aqui em Rio Claro perdemos um diretor que fazia vista grossa para nossa “bagunça” e o novo xerife está querendo mostrar serviço. Natural, pois ele também serve a um sistema que o obriga a isso, e nos apoiar, mesmo que com o próprio silêncio, é assinar embaixo. Mas covardia justificada ainda é covardia.

Ainda me pergunto o que faremos, eu e meus irmãozinhos degenerados, frente às recentes mudanças no código de conduta. Foi assim com nosso primos distantes: muros, cadeados, catracas, câmeras e restrições.

As festas são nosso local de socialização e nossa fonte de renda, enquanto grupo. E para todos os que aqui têm espírito de grupo, a sensação é a mesma: a de estar sem casa e sem emprego. Talvez a alternativa para a crise do combustível seja repensar o veículo para usar diesel ou gás natural.

Mas eu, ao menos, faço questão da minha gasolina. Nem que o custo seja cavar até encontrar petróleo. Nem que tenhamos que sair do continente pra extrair em alto mar. O que não se pode é parar de andar.

Um dia de biólogo

Publicado: sábado, 3 setembro - 2011 em Ciência, Cultura, Filosofia
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Hoje, 3 de setembro, é dia do biólogo. E no meio de tantos parabéns, é impossível não parar pra pensar: “Por que estão nos parabenizando?”. Mas esta não será uma postagem ranzinza sobre não merecermos parabéns. Pelo contrário. Vou exaltar um pouquinho a experiência do nosso campo de estudo.

A minha proposta é que no lugar de comemorarmos o da do biólogo, tentemos todos ter um dia de biólogo. E eu vou explicar como fazer isso, não é tão difícil.

Pra começar, você deve retirar da sua cabeça aquele medo medieval irracional de tudo o que tem perninhas, de tudo o que se esconde nas frestas, de tudo o que se rasteja silenciosamente, das criaturas que voam na noite, das que moram em cavernas, das que fazem do seu guardarroupa um lar. O segundo passo é não ter “nojinho”.

Lembra quando você tinha uns 3 ou 4 anos? Provavelmente não, mas se não conseguir, pense nas crianças que você conhece. Dessas que colocam a mão em tudo, enfiam as coisas na boca, ficam sujas e felizes.

A biologia, entre todas as ciências naturais, é a mais sensorial. E talvez isso a afaste da exatidão da química e da física (que também não são assim tão exatas…). Aquele prazer de entrar no meio do mato com a vovó e sair perguntando que árvore é essa. Depois subir na árvore, achar uma goiaba cheia de bichinhos, deixar eles de lado e comer mesmo assim. Imitar macaco antes de descer, claro.

Fazer buracos no chão, encher de água e dizer que fez um rio pra criar peixes. Prender joaninha numa ilha dentro de um pote de plástico pra ver se ela vai nadar ou voar. Brincar com o cachorro como se ele fosse um irmãozinho e não um objeto de decoração.

Acho que o que nos arrasta para a biologia é essa criança. Das ciências, também acho que seja a mais próxima da arte. A ver por todos os documentários e exposições fotográficas com a temática biológica e ambiental, que nos causam fascínio até mesmo na catástrofe.

Mas também há uma dose de crescimento. De entender que não existe normal. Que estatística é metáfora da realidade e não a realidade em si. Que a diferença é vantagem. Que a cooperação te mantém vivo. Que não existe perfeito, tampouco imperfeito. Que é irrelevante a presença de um criador. que não somos únicos, nem mais importantes. Que também não somos menos importantes. Que tudo o que é vivo merece respeito, pois temos origem comum. Quue o que não é vivo também o merece, pois somos feitos dessa mesma matéria morta.

A biologia enquanto carreira já me cansou. Porque boa parte dos biólogos acaba esquecendo a maioria dessas coisas, e eu não tenho saco pra trabalhar com “gente grande”. Mas mesmo sabendo disso, é um caso de amor que não acaba. Um caso de amor com o objeto de estudo, pois pra mim é assim que se faz ciência. E se falta espaço pra amar, eu devo procurar outro lugar pra fazer minha ciência.

Mas nós, sem modéstia, somos os mais qualificados pra falar do tal “sentido da vida”. Porque, curioso que pareça, ao contrário das outras ciências, não o buscamos. O bonito do biólogo é que vê a vida como fenômeno, então ela não precisa de um sentido.

Sem precisar procurar onça no mato, sem precisar se trancafiar num laboratório por horas, sem precisar explicar os mistérios da genética para 40 pré-adolescentes em chamas… Sem precisar de nada disso, tenha um dia de biólogo. Saia de casa, ouça o vento, os pássaros, os insetos, observe as nuvens, procure um curso d’água, deixe a chuva cair na sua cabeça, suje os pés e perceba que tudo isso está interligado, pois vida é interdependente e intradependente. Não existe vida em isolamento. Então, sem tudo isso o que está em volta, você não é porra nenhuma…

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorsos,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
– Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova.

(Manuel Bandeira, em Lua Nova)

Construam seus lares

Publicado: quarta-feira, 25 maio - 2011 em Cultura, Filosofia
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Pra quem fica olhando o tempo todo pela janela, sempre vai parecer que existem mil lugares no mundo melhores que a própria casa. Para quem trabalha pela melhoria do lar, no entanto, ele vai ser o melhor lugar do mundo. E sim, isso é uma metáfora…

Às vezes me cansa um pouco ver as pessoas procurando por aí. Procurando um lugar melhor, uma companhia melhor, como se uma hora fosse esbarrar no que o destino te preparou pra ser perfeito. Mas isso não existe fora dos filmes/seriados enlatados. Construam seus lares. E aí o mundo inteiro vai parecer um lugar melhor. Estamos onde estamos por termos deixado de sermos nômades.

Regredir é tolice.

A verdade é que quem fica muito tempo procurando, mesmo quando deveria estar construindo, não encontra nada.

E é justo que seja assim. Nesse contexto, existe trabalho que dignifica o homem.

É muita pretensão querer dar uma resposta a essa pergunta. Mas pretensão é algo que transborda por minhas orelhas, então ouso me arriscar. Essa semana foi atípica. Estive doente, não fui às aulas, não encontrei muitas pessoas, não fui a festas, não participei dos habituais grupos de discussão.

E como cabeça vazia é morada do diabo, nosso senhor me trouxe mais um feixe de luz. Me coloquei a pensar. O dia das mães foi um pouco do ápice da história, e o fato de não conseguir dormir por mais de duas horas sem acordar com ânsia de vômito me impulsonou a escrever. Então esta postagem será também um vômito.

Se soar amargo, não confundam com qualquer experiência de tristeza ou trauma que eu possa ter tido relacionados à maternidade. É apenas o gosto de bile.

Não vou dar os parabéns. Não há nada de especial em ser mãe, da ótica biológica. Todas as fêmeas dos mamíferos possuem a experiência da maternidade de modo semelhante ao nosso em algum grau, e muitas outras espécies não mamíferas também. Essa figura mítica da mãe santa e virgem de Jesus Cristo é que estamos a aplaudir no dia de hoje. Pior ainda, com sentimentos travestidos que poderiam ser expressos a qualquer outro momento, mas “hoje, mamãe, eu me lembrei de você”… Há anos que eu não compro ou faço mais presentes no dia das mães. Não pela ausência de uma, mas pela falta de sentido no hábito.

Isso é porque, entre outros fatores anti-cristãos da minha indivudualidade, há algo nessa história que me irrita profundamente: a supervalorização da família. A família vista como célula fundamental da espécie. Um erro grotesco que tem nos afastado radicalmente do conceito de espécie, e da nossa própria natureza.

É difícil definir espécie. A própria biologia não conseguiu ainda. O que temos são as chamadas “ontodefinições”, ou seja, definições que dependem de outras definições para estarem corretas (se estiverem também corretas as demais definições em que se apoiam). Um jogo de palavras conveniente para que não se despenque toda uma ciência. Justo e prático.

Mas o que vou dizer hoje talvez seja rasgar prematuramente um diploma que sequer tenho em mãos. Um aborto profissional, se assim preferirem. Não que seja grande impasse – sem dramas ou martirizações.

A “célula fundamental da espécie” não é a família, tampouco um casal com filhos. Sequer é o casal. Esta unidade básica é tão somente o indivíduo. E entre ele e o conceito de espécie (o todo) não há grau intermediário. Há apenas uma mentira covarde que nos divide em famílias, tribos, castas, núcleos sociais e essa patifaria toda.

Mentira porque esses grupos são virtuais. Podem ser montados e desmontados, alterados e desfigurados. São transitórios, temporários. Intercruzam-se, se quiserem. O isolamento é psicológico. E covarde porque esse hábito surge do medo de termos a rolar pelo chão nossas próprias cabecinhas – à espécie, irrelevates.

E a má interpetação de um egoísmo genético vem a reforçar essa babaquice. Quando uma alegoria cristã ganha o respaldo científico (quase sempre, ao menos aqui no ocidente), a coisa fica mais grave. A diversidade genética é um dos bens mais fundamentais para a segurança de uma espécie. Isso significa que seu “DNAzinho” tem valor inestimável.

Mas apenas quando se mistura.

Mais importante, a evolução não ocorre apenas no nível da transmissão biológica de caracteres. A seleção natural também age sobre hábitos e comportamentos aprendidos, transmitidos culturalmente. E essa pluralidade a ciência ainda reluta em reconhecer como fundamental à espécie. E eu entendo as razões. Não podemos provar isso empiricamente.

Portanto, deste parágrafo em diante, abandono o jargão biológico, dispo-me do jaleco e caio no que, anos atrás, eu chamaria de um discursinho pedante.

Para o ser humano, o conceito de espécie vai um pouco além do que as ontodefinições têm conseguido trazer. Para entendermos o que é a espécie humana eu recomendo a concepção oriental de “olhar pra dentro”. “Metafísica”, diriam. Alguns chamam de escutar o coração, outros chamam de espírito. Eu humildemente chamo de intuição, algo do que há de melhor em nossos instintos.

O pedido de hoje é que, por um dia, no lugar de valorizar um útero como célula geradora do seu universo, pensem em si próprios como células de um organismo que é muito imenso, de um tamanho do qual nenhum de nós tem, hoje, consciência plena. E peço que dêem um singelo adeus ao útero que foi nosso ponto de partida, mas para o qual não devemos tentar retornar.

E quando os economistas dizem que “a história acabou”, que a revolução industrial e o capitalismo trouxeram nossa jornada a um platô, é disso que estão falando: uma grade nação mongolóide que cava diariamente o caminho de volta ao útero.

A maternidade é algo lindo, até invejável. E para esse tipo de descrição, gosto das mais antigas: é mágica.

Mas apenas enquanto o útero é uma porta de saída, não uma jaula.

E que isso (esse escarro libertário) valha pra mães e filhos.

É estranho como mesmo em fases boas da vida temos aquele momento em que as coisas soam sem muita graça. Não todas as coisas, mas algumas coisas. Especificamente, hoje minha falta de perspectiva está relacionada ao mundo do trabalho.

Infelizmente, pra nós não faz sentido pensar o trabalho fora do organismo capitalista. E para aqueles de bom coração que não conseguem ser felizes no capitalismo, o trabalho é sempre uma coisa triste. Tem seus altos, seus ganhos, proveitos, aprendizados e até pequenas realizações. Mas é impossível obter satisfação.

A começar pelo fato de que somos, geralmente, mal pagos. Você que tem um bom salário, meus parabéns, mas saiba que bons salários em nosso sistema existem às custas de muitos baixos salários. E isso ja bastaria para que eu estivesse sempre insatisfeito.

E ainda que não bastasse, entra a questão da perspectiva de ascenção, e as diferenças de salário. Definir o quanto uma pessoa trabalha a mais ou o quanto o trabalho dela é mais importate, ao menos à minha humilde mente, é algo inconcebível, com exceção, talvez, de alguns extremos.

Se o trabalho é uma função social, existe lógica em qualquer carreira “privada”? Todo e qualquer trabalho, numa sociedade, para uma sociedade, é ou ao menos deveria ser considerado uma carreira pública.

Nesta semana, resolvi xeretar o tal do Linux (o Ubuntu, no caso). Para mim, a idéia sempre soou maravilhosa e interessante, admirável em diversos aspectos, mas eu nunca tinha tido a coragem de perder a segurança que tenho com o Windows. E não tive ainda. Na verdade estava trabalhando no computador do meu namorado, tentando trocar uma versão recente do Windows para uma mais antiga e resolvemos tentar a experiência (já que a partir da versão Vista o Windows tem um poderoso sistema de “não me tire daqui”, e quem já tentou seguramente sofreu com isso).

Qual foi o meu espanto? Ao contrário do que eu imaginava, o Ubuntu não é incapaz de fazer a maioria das coisas que o Windows faz. Eu é que era incapaz de fazê-las no Ubuntu. Ainda sou um pouco, mas isso está mudando aos poucos. Não me julgo, ainda, em condições de fazer comparações de desempenho e funcionalidade. Mas me arrisco a fazer uma análise de outra natureza.

Quando queremos um Windows, temos duas opções: Pagar uma fortuna (sim, é um preço absurdo) ou apelar para a ilegalidade. Não que eu seja avesso à ilegalidade, mas a questão aqui é outra. Cedo ou tarde, temos problemas. Seja com atualizações, com versões, com restrições, com amolações ou com a própria consciência. A ilegalidade seria mais justificável se não houvessem alternativas, mas há.

O Ubuntu, Sucintamente, pelo próprio projeto:

“Ubuntu é um sistema operacional baseado em Linux desenvolvido pela comunidade”

  • O Ubuntu sempre será gratuito, e não cobrará adicionais por uma “versão enterprise” ou atualizações de segurança. Nosso melhor trabalho está disponível para todos sob as mesmas condições.
  • Uma nova versão do Ubuntu é lançada periodicamente a cada seis meses. Cada nova versão possui suporte completo, incluindo atualizações de segurança pela Canonical por pelo menos 18 meses, tudo isto gratuitamente.
  • O Ubuntu possui a melhor infraestrutura de tradução e acessibilidade que a comunidade do Software Livre tem a oferecer, tornando o Ubuntu usável por tantas pessoas quanto for possível.
  • O CD do Ubuntu possui apenas Software Livre, nós encorajamos você a usar software de código aberto, melhorá-lo e distribui-lo.

“Ubuntu é uma antiga palavra africana que significa algo como ‘Humanidade para os outros’ ou ainda ‘Sou o que sou pelo que nós somos’.”

É verdade que boa parte do conteúdo livre, nos dias de hoje, já não é tão livre assim. Mas saber que grupos, dentro ou fora de universidades, trabalham para que o mundo inteiro consiga avançar sem que alguém precise ficar rico com isso, me animou um pouco. Fiquei me perguntando por que todos nós, estudantes e/ou acadêmicos, não nos dedicamos a projetos semelhantes.

Por que, por exemplo, no lugar de tentarmos isolar genes da cana-de-açúcar e entregar isso nas mãos da empresa que financiou o projeto, não juntamos o pouco recurso que temos numa salinha simples e começamos a trabalhar de verdade por um mundo mais livre?

Eu não estou dizendo que seja fácil. Eu mesmo sofro com isso diariamente. As bolsas de fomento vindas do mercado ou das instituições que ele mantêm são sempre as mais gordinhas. E as bolsas de extensão funcionam como auxílio alimentício. Mas talvez baste ter o que comer.

Longe desse espírito decrepto de Páscoa, de um “menino santo” que morre por todos nós, não venho falar de sacrifício. Estou falando de trabalho. Carreira pública, seja ela onde for, mas posta em prática como pública, dentro do nosso possível. Um trabalho que você possa concluir e tornar acessível a qualquer um para aprimorar. Um trabalho que tenha aplicação social direta.

“Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, assegurada pelos outros, não sente intimidada que os outros sejam capazes e bons, para ele ou ela ter própria auto-confiança que vem do conhecimento que ele ou ela tem o seu próprio lugar no grande todo.” — Arcebispo Desmond Tutu em Nenhum Futuro Sem Perdão (No Future Without Forgiveness).

Toda a ciência deveria ser guiada por esse princípio. Todo o trabalho deveria ser guiado por esse princípio.

Eu não quero trabalhar por mim. Nem sou capaz. E se por um lado isso traz a frustração de não conseguir ter um plano de carreira ou projeto de vida dentro de nosso sistema financeiro, por outro me faz crer num plano de carreira para a humanidade como um todo. É assim que funciona com as espécies na natureza. Não é uma batalha de indivíduos, é uma batalha de grupos. Nosso ego imbecil, um dos “bagaços” que trazemos carregados em nossa história evolutiva, é que nos faz pensar que somos indivíduos especiais. E ainda tem gente que considera isso uma bênção…

Pois bem, que seja. Se o mais louvável dos filhos do deus cristão, dessa perspectiva, abdicou do próprio plano de carreira para que todos pudessem ter alguma melhoria em suas próprias, por que nossa sociedade, extraoficialmente cristã, não adota a prática?

Altruísmo sempre foi vantajoso no processo de seleção natural, ainda que más interpretações de Dawkins (até por ele próprio) tenham feito parecer que não.

Mas eu já escrevi demais, não queria contagiar ninguém com meu cansaço…

Ano passado adotamos uma gatinha aqui em casa, a Oprah. No fim do ano, ela teve a primeira cria: 4 filhotes. Comentei desse processo aqui. Quando voltei para Rio Claro com ela e os filhotes, poucos dias depois encontramos uma ninhada abandonada, com mais 5 gatinhos que estavam um pouco judiados (os bigodes queimados e alguns machucados). Eles acabaram vindo pra cá também.

Essa história, bem resumida, vai servir pra falar um pouco de nós, seres humanos. Animais, mamíferos, lactantes, peludinhos e de sangue quente, assim como os gatos.

Depois de alguns dias de desentendimento, a Oprah “adotou” os novos filhotes. Permitiu que eles mamassem como os outros, limpava eles como limpava os seus próprios, favorecia eles na hora de se alimentar, como se fosse realmente mãe. Por que os animais fazem isso? É difícil dizer. Eles se reconhecem inicialmente por cheiro. E durante uns dois ou três dias, ela até bateu em alguns. Os filhotes dela também não se entendiam muito com os novos filhotes (que eram um pouco menores). Mas em menos de uma semana, tratavam-se como do mesmo sangue.

Gatos têm personalidade bastante forte, gostos definidos, preferências por ambientes. E tendo 10 aqui em casa (a Oprah, os 4 filhotes dela e mais 5 da cria abandonada), isso ficou mais evidente do que sempre foi. Meu espírito de cientista não me permite não observar essas sutilezas.

Mugetsu é o nome do único macho da primeira cria. Ele cresceu mais rápido e é nitidamente maior e mais forte. Desses 4, também sempre foi o mais agitado. Talvez por ser macho (gatas costumam ser mais calmas). Ele sempre cuidou dos mais novos. Quando algum dos gatos se isolava, ele sempre tentava brincar; quando algum deles estava dormindo separado dos demais, ele tentava se aproximar. Quando percebia que algum dos menores estava com os olhos sujos, ele também limpava. E mesmo sendo grande e forte, sempre cobra atenção. E chora como um bebezinho quando se sente de lado.

As duas fêmeas brancas se chamam Blanca e Yuki. A Blanca já está na casa de uma amiga. Era a mais mal-humoradinha. Já a Yuki tem postura de matriarca. Vigia os outros gatos enquanto brincam, separa brigas, e costuma ficar mais em volta da brincadeira que dentro, como a mãe faz.

A menorzinha deles, Catatau, não acompanhou os outros no crescimento. Na última semana, dava pra ver que ela estava ainda menor que os gatos da segunda cria. A Catatau desde muito cedo era bastante inclusa. Não brincava muito, gostava de dormir sozinha e frequentemente ficava parada em locais aleatórios, como o meio da cozinha, por horas. A mãe tratava ela com um pouco de diferença. Quem ficava mais em volta dela era o Mugie (o maior).

Da segunda cria, o Frajola está morando com a Blanca, e o outro gatinho malhado que saiu ainda antes de ter nome também está na casa de uma amiga. Twix é o único macho que ficou dessa cria. É muito inquieto, me acorda com mordidas nos pés quando quer atenção, escala as pessoas com as garras, e não fica parado por 5 minutos. Mas é o mais carente de atenção, mia sempre pra chamar as pesoas, e faz um escândalo absurdo pra tomar remédios.

Totoro e Shoshanna são as mais delicadas. Têm postura de caçulinhas, ficam esperando agrados, raramente se irritam, e gostam de deitar perto da gente quando estamos deitados ou no sofá. A Shoshanna especialmente gosta de deitar no pescoço e no ombro das pessoas. E a Totoro é o típico gato de propaganda, com pelo macio, brilhante, toda cinza com as patinhas brancas e cara de “me ame, me alimente, numa me deixe”.

Até aqui pode ter parecido que estou apenas falando dos meus gatos. Mas eis o primeiro erro: tratá-los como meus. Os gatos que moraram ou moram comigo, trato todos como amigos ou irmãos, que ocupam uma mesma casa. Desenvolvo um tipo de relacionamento com cada um, tenho modos diferentes de tratá-los, assim com é com meus amigos, de fato. E é assim que eles me tratam também, na maior parte do tempo.

Hoje aconteceu uma coisa um pouco triste. Perdemos a pequena, Catatau. Ontem ela apresentou reação a uma superdosagem de vermífugo (tomem MUITO cuidado na escolha de seus veterinários!), e como eu já tinha acompanhado isso com outros filhotes, já esperava o pior. Durante a madrugada, ela foi perdendo um pouco a reação, e parou de comer e brincar. Só ficava parada e respirava mal. Tentei fazê-la comer ou ingerir leite, mas com pouco sucesso. Deixei ela no meu colo o tempo que consegui, pra mantê-la quente. O Mugie ficava em volta o tempo todo, lambia ela constantemente e deitava do lado. Ele sabia que ela não estava bem.

Próximo das 6 da manhã, ela desceu do meu colo e se deitou no sofá. Os outros gatos, todos, se deitaram em volta dela.Quando percebi que estaria quentinha, fui dormir. Acordei as 11 da manhã com um dos amigos que mora comigo me chamando. Ele me despertou de um pesadelo onde eu conversava com a menina que seria a futura dona da Catatau e explicava pra ela que a gata não iria mais com ela. Enquanto eu sonhava com isso, a pequena estava dando o último suspiro.

Ainda não consegui enterrá-la, pois só terei acesso às ferramentas amanhã. Mas vou fazer. O curioso foi o que aconteceu hoje. E que na verdade é a parte importante deste relato, mas que só faz sentido após dizer tudo isso.

Eu tenho uma relação com a morte muito particular. Eu não costumo chorar, nem lamentar. Talvez por ter perdido pessoas muito próximas e importantes, eu tenha entendido que faz parte da vida. Embrulhei a gatinha com naturalidade de modo que ficase protegida até amanhã e guardei numa caixinha. E depois de algumas horas, essa casa se tranformou num inferno psicológico que me faria refletir sobre minha própria condição…

Passei o dia sozinho, e ainda estou. Entre 3 da tarde umas 10 da noite, a Oprah miava sem parar procurando a filhote. E os outros gatos estavam mais carente que o normal, miando muito e indo atrás de mim onde eu fosse. O Mugie especialmente chorou bastante. Saía sozinho para o quintal e miava, miava pelos cômodos da casa. O Twix não podia me perder de vista e começava a miar de medo. E a Yuki, embora quieta como de costume, ficou perto de mim o dia todo, fosse no meu colo ou sentada do lado. Me transmitindo uma tranquilidade que, não fosse por ela, talvez estivesse eu miando também pelo quintal.

Mais ou menos meia hora atrás, esses miados todos me comoveram. E eu já não entendia mais como eu podia estar tão indiferente a tudo isso. Sentei no chão e comecei a chorar. Em minutos, estavam todos em volta de mim, com um miadinho choroso que eu não estava acostumado a ouvir. E ali ficamos chorando por um tempinho. Menos a Yuki, que ficou no meu colo quieta, transmitindo calma de um jeito que só gatos fazem (às vezes eu acho que aprendi com eles). E a Oprah, que estava sozinha miando no quintal.

E passou. Agora estamos num silêncio confortante.

Para alguns de vocês isso pode ter sido apenas minha leitura ingênua. Eu humanizando as relações dos gatos.

Mas a ingenuidade, saibam, está em vocês.

Eu não humanizo estes gatos. Eles é que me animalizam.

Nessas criautras que tantas vezes julgamos sujas, traiçoeiras, fedidas, ou nos piores casos dizemos ter “parte com o demônio”… Nessas criaturas há muito mais de solidariedade do que jamais haverá em nós.

Eu nunca chorei num velório. Mas hoje abri uma exceção, por eles.

Como me tornei um leitor

Publicado: quinta-feira, 14 outubro - 2010 em Filosofia, Literatura
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Vão te dizer muitas coisas sobre leitura. Algumas são verdadeiras, como o fato de que ver adultos lendo te despertará interesse sobre livros. Outras são falsas, como aquela história de que temos que começar com as leituras mais fáceis e depois ir pras mais difíceis. Mas aqui eu gostaria de falar de uma experiência particular, minha. Cada um de vocês deve ter uma história dessas pra contar, pois se está aqui, em algum nível é também um leitor.

A leitura pra mim trasncende a folha de papel. E não estou falando das caixas iluminadas que têm substituído a celulose. Quando você observa alguém, está lendo um pouco da história daquela pessoa. Quando você ouve um depoimento, está incorporando uma nova leitura do mundo. Quando você admira uma paisagem, você está lendo uma poesia que a natureza escreveu.

Ler não é apenas prazeroso. Ler é fundamental. E nas suas diversas formas.

É na leitura que tiramos nossas primeiras impressões sobre um assunto. É a leitura que nos instiga a curiosidade por novas leituras, novos pontos de vista. É lendo que crescemos, acima disso.

Pois a cada página do universo que é lida, não bastasse só a mágica deste fenômeno, ocorre algo ainda mais encantador: Olhamos pras nossas próprias páginas e há algo mais escrito ali. Quanto mais absorvemos de nossas leituras de mundo, mais espesso fica o livro de nossa própria vida.

Podemos nos tornar bons leitores com a prática, mas no fundo não é um processo de “tornar-se”, e sim de “descobrir-se”. Todo ser humano tem capacidades maravilhosas de leitura. É questão apenas de se permitir parar um pouco o que estiver fazendo e tentar ler o que está à sua frente.

Alguns dos livros que lemos, voltamos a ler em outro momento da vida, ou várias vezes durante ela. Outros nós deixamos empoeirar numa prateleira ou caixa num sótão. Há ainda os que emprestamos aos amigos, damos de presente ou doamos a sebos e bibliotecas.

É assim com tudo na vida, pois da ótica do leitor, tudo são páginas.

E isso não é triste ou alegre. É apenas pleno.

Pra que haja conteúdo, vou ter que falar pouco. Quando o assunto é evolução, qualquer biólogo que se preze fica empolgado e tenta explicar o universo todo. Eu também sou assim, mas vou me controlar. Esse post será uma nada rápida desmistificação do conceito deturpado popular de evolução que se aplica às sociedades, muitas vezes de forma equivocada.

Primeiramente, vamos esclarecer que evolução não é um proceso. É o nome que se dá a um conjunto de diversos processos que, embora entrelaçados, são independentes. Aos conceitos, então:

Diversidade

A diversidade é inerente à vida como a conhecemos. Se há alguma forma de vida que não esta sujeita a esse princípio, ainda não a encontramos. Mas dentro dos conceitos de vida mais aceitos pelas ciências, se essa “coisa” aparecer, ela não será identificada como viva tão rapidamente. A partir do ponto em que é inerente, ela não pode ser condenada. Mais que isso, ela adquire importância. Numa população em que há grande diversidade (portanto, variedade nas características que ela expressa), temos pequenas subpopulações com capacidades distintas de resistência, aptidões desenvolvidas de modo e intensidade diferentes e o mais importante: capacidade de adaptação. Esta populção pode estar sujeita a diferente tipos de pressão, da falta de alimentos a alterações climáticas, mas ainda que perca alguns de seus exemplares (talvez até os mais notáveis) resistirá enquanto população. Uma população com pouca diversidade, por outro lado, estará sujeita à extinção com maior facilidade sob pressões, muitas vezes, pequenas. Algumas formas de vida resistem numa faixa de temperatura estreita, por exemplo. Uns graus a mais e toda a população morre. Pouca diversidade resulta em fragilidade para a população como um todo.

Seleção

A seleção é a parte mais engraçada do processo evolutivo, porque as pessoas tendem a ver processos coordenados aqui, apesar de se tratar de um fenômeno bastante caótico. O processo de seleção ocorre quando, dada uma pressão, parte da população sucumbe e parte resiste. Exemplo bobo típico da girafa: Árvores mais altas num período de seca faria com que as de maior pescoço conseguissem se alimentar mais (e se reproduzir mais), enquanto as de menor pescoço morreriam. Outro: machos de penas azuis, por algum motivo, tornam-se mais atraentes para as fêmeas de uma dada espécie de aves, assim se reproduzem mais e com o tempo teremos uma espécie cada vez mais azul. Até o momento em que esse azul, por exemplo, comece a chamar atenção de predadores, então os muito azuis serão predados e a espécie terá um tom de azul intermediário.

Talvez a biologia tenha ecolhido a palavra errada para ese processo, pois não se trata de uma escolha. E aqui vão me chamar de “cricri”, eu sei. “O André é extremamente birrento com essas coisas de terminologia”. Sou mesmo. Mas não é a toa. Quando falamos de uma população selecionada, dá a entender automaticamente que ela foi escolhida. E se pensamos numa escolha, que é um processo consciente, pensamos que se uma população foi escolhida em relação à outra, ela deve ser melhor.

Eis o grande precipício entre a ciência biológica e o senso comum. A “seleção” faz parecer que algumas das características expressas dentro de uma população diversa são melhores que outras, porque resistem. Por pura preguiça de pensar que se a pressão fosse outra, talvez a parcela extinta fosse a sobrevivente e vice-versa. Isso tira todo o sentido da diversidade, pois induz a pensar que dentro de uma população, existem diversas características: a melhores e as piores. As piores vão ficando para trás e as melhores são mantidas, e assim caminhamos rumo à perfeição platônica.

Sim, em termos de “evolução” intelectual, andamos bem menos do que pensamos. Esse – o da perfeição – é apenas um dos paradigmas que ainda mantemos desde o princípio da nossa filosofia (do meu ponto de vista “perseguidor”, graças ao cristianismo).

Isso nos dá condições para pensar que algumas das variações (lembrando que variação é a expressão do princípio da diversidade numa população) podem ser chamadas de deformidades ou inaptidões. Se a criança nasce sem a orelha esquerda, ela nasceu deformada, e é pior que as outras crianças. Em tempos obcuros da história científica, isso já foi justificativa pra matar muita gente (mas não se enganem: a eugenia ocorre ainda hoje, de modo mais sutil). Em busca do ideal perfeito, minamos lentamente nossa diversidade. Os mais dramáticos diriam que nos tornamos uma massa amorfa e sem luz. Eu não sou tão trágico. Acho que existe sim muita forma e muita cor. Mas ainda é frágil.

Quando minamos a diversidade que se manifesta ao nosso lado, tornamo-nos frágeis. Tornamo-nos frágeis enquanto indivíduo e enquanto espécie. O que costuma diferir o ser humano de outras spécies é justamente a capacidade cognitiva. Só não descobrimos até hoje se isso foi realmente uma vantagem. Às vezes parece que não. Quando tentemos nos aproximar como que querendo todos estar na “média” e isso nos faz sentir mais fortes, parece que não.

O terceiro passo do conjunto de processos (que simplifiquei em três, mas vai bastante além… De cinco a muitos, dependendo do autor) é o que segue:

Especiação

Numa dada linha da história, as populações selecionadas vão se tornando distintas ao ponto de já não pertencerem a uma mesma espécie (que é, às vezes, também um conceito difícil de definir). Elas adquirem identidades tão diferentes que deixam de se misturar. Deixam de se reproduzir entre si. Esse isolamente é resultado de processos que levam mais tempo do que a nossa história toda enquanto espécie, na maioria dos casos. Mas ainda assim parece haver um fantasma rondando esta possibilidade. Um fantasma que nos deixa apavorados com a possibilidade de não sermos mais todos irmãos, filhos de um mesmo deus, à sua imagem e semelhança.

E a coisa fica “preta” quando tentamos atribuir estes conceitos de processo em nossas organizações sociais. Por natureza, qualquer processo humano será carregado de valores. Um conceito, ou melhor, um conjunto de conceitos que já chega até nós deturpado e cheio de valores embutidos, será atribuído a processos ainda mais valorados, por pessoas ainda mais valorativas. E asneiras serão cometidas em nome do pobre Darwin, ao ponto de termos discursos bizarros saindo da boca de economistas que tentam justificar o fato de haver populações mais ricas aptas que outras e, portanto, mais preparadas para a pressão capitalista ambiental.

Dá vontade de chorar (eu estava guardando meu dramatismo pro final).

Algumas coisas têm que mudar. Temos a opção de abandonar a referência da perfeição. Esquecemos que existe um deus-molde, não pensamos em nossa trajetória espiritual histórica como um melhoramento, entendemos que a variedade (inclusa a de pensamento) é necessária à nossa sobrevivência e rompemos subitamente com essa figura tríade paterna que tanto nos tem judiado.

A outra opção é transformar essa figura. No lugar de termos todos a sua face, ela é que terá de ter todas as nossas faces. Uma figura que é semelhante à vida como um todo é uma figura tão ampla e inimaginável que não pode se espressar por nada que não seja o próprio todo. E aí, talvez, esse Deus multifacetado tenha algum sentido enquanto criador da vida. Mas na verdade, seguindo a lógica da vida em transformação e reconstrução diária, essa figura não poderia ser provocadora (criadora), mas sim resultado inconstante, sujeito a adaptações diárias para manter a semelhança.

Duas considerações a fazer, para terminar, pois já estou fugindo de minha proposta inicial, que era não tentar explicar o universo à luz da evolução.

• Se construímos uma figura de deus à nosa imagem e semelhança (já deixando claro aqui que o inverso, pra mim, é inconcebível), então precisamos primeiro mudar um pouco nossa concepção de vida e realidade. Ou nosso deus será burro como nós todos. E injusto como todos nós. E não é como tem sido?

• Perdão aos filófosos, perdão aos humanistas, perdão às “professorinhas”, mas enquanto for assim, cristianismo e ciência não podem conviver em paz. Não enquanto o conceito de evolução for usado de modo torpe para jutificar que existam os melhores e piores. E aos senhores de batina (ou terno e gravata, na modernidade) apena digo que enquanto houver gente passando fome por ser pior, morrendo por ser pior, não podendo se casar com a pessoa amada por ser pior… Enquanto houver gente nessas condições, (dói, mas é verdade) ciência e religião são inimigas sim.