Posts com Tag ‘devaneios’

Sobre a Rabugice

Publicado: quarta-feira, 6 novembro - 2013 em Cultura, Filosofia
Tags:, ,

Decidi tirar a poeira disso e voltar a escrever.  O Facebook me deixou mal acostumado e como estou querendo sair de lá, resolvi falar de um dos principais motivos: a rabugice.

A rabugice não é um defeito. Ela é uma característica com suas vantagens e desvantagens.

Ela é diferente da arrogância, porque não é “afetada” apenas por ser. O amargo da rabugice não é de ruindade ou superioridade, é o cansaço de um peso que se carrega, geralmente por escolha.

E justamente por isso o rabugento é assim. Ele sabe que escolheu, é o preço que ele quis pagar, mas isso não torna as coisas doces. E ele não sente a obrigação de sorrir satisfeito apenas porque fez como quis.

Ela difere da inveja, também, porque ela não se incomoda com a felicidade alheia. Ela se cansa; é diferente. Sabe aquela felicidade a qualquer preço? De gente que luta pra ser feliz? Então, pra um rabugento, só olhar essa felicidade já cansa.

O rabugento não quer ser feliz como você. Ele só não consegue entender porque ainda tem gente que batalha pra ser feliz quando isso não é uma demanda pessoal. Ser feliz pra mostrar pra alguém que se está feliz é algo como dizer que tem orgulho de ser explorado.

Ainda, a rabugice não se assemelha ao ser “mal comido(a)”. Na verdade, a maioria dos rabugentos que eu conheço estão comendo ou sendo comidos muito bem. É uma bobagem achar que o mau humor está necessariamente ligado à falta de sexo ou que o bom humor está ligado ao excesso.

Na verdade, o rabugento “caga e anda” pra essa ideia de “bom humor”. Porque o “mau humor”, pra ele, é bom. Isso não significa que ele não vá dar risada, que não vai se divertir, que não gosta de estar com amigos. Significa apenas que ele não sente a menor obrigação de forçar uma emoção pra cumprir uma expectativa social.

Que cada um fale por si, claro, mas minha rabugice é uma questão de liberdade também. Porque eu não quero sorrir e dizer “tudo bem” quando não estiver tudo bem. Porque eu não quero falar que a vida está boa enquanto tem gente morrendo de fome ou por pensar livremente. Eu não quero estar tranquilo com isso. Eu não gosto de natal, dia das mães, dia dos namorados, e todas essas outras datas dedicadas a uma emoção/sentimento, porque não faz sentido ter um dia pra sentir uma coisa.

E se bem no dia das mãe você estiver com ódio da sua? Nos outros 364 dias você pode ser o filho mais amoroso do mundo, mas isso, pros outros, vai indicar que você é rancoroso, insensível… Mas pera, quem é o insensível aqui? Quem é que está te obrigando a esconder o que você está sentindo?

O mesmo vale pra aniversários. A maioria dos meus amigos felizmente já se acostumou a não receber o parabéns… “Parabéns por ter sobrevivido mais 365 dias”… “Parabéns porque a Terra deu mais um giro inteiro em torno do Sol desde que você nasceu, independente de qualquer esforço seu”. É assim que soa pra mim. E isso não quer dizer que eu goste menos de ninguém!

Dias depois, às vezes eu mando uma mensagem desejando felicidade ou falando de coisas que eu penso da pessoa. Mas sem compromisso de ser num dia X, porque se ela for pensar que eu “esqueci” dela apenas por isso, eu honestamente quero mais é que ela chore sangue…

Estão vendo? Isso é a rabugice… E eu já cansei de ficar explicando. Vão tomar no cu! rs

Que fique uma mensagem final. Rabugentos não são necessariamente invejosos, insensíveis, rancorosos, arrogantes, ou a porra que for. Eles só colocam a sinceridade acima de tudo isso. Acima deles mesmos. E acima de você também.

E todo mundo deveria ser assim.

Anúncios

Conversando com estrelas 2: A poesia

Publicado: terça-feira, 7 maio - 2013 em Cultura, Filosofia, Literatura
Tags:,

Estou num daqueles períodos de escrever pouco aqui e deixar o blog às moscas. Mas agora eu preciso mesmo escrever.

Estava em mais uma dessas madrugadas insones, das quais já perdi a conta e provavelmente já são mais da metade das madrugadas de toda a minha vida. Estava tentando escrever e não conseguia. Tentando pensar e me sabotando. Resolvi sair por cinco minutos, tomar um ar e ver o céu.

Peguei uma mantinha, um chá bem quente e decidi que iria ficar ali no quintal, olhando pra cima até que me viesse uma inspiração. Mal deu tempo de observar a fumaça que saía da caneca se misturar com a que eu expirava, e subindo o olhar com a neblina mentirosa que eu mesmo fiz, percebi o céu bastante limpo, deixando evidente a ponta do braço da Via Láctea onde dorme a humanidade.

Antes que eu pudesse terminar de dizer mentalmente o quando a natureza é maravilhosa, metade do céu foi cortado pela estrela cadente mais bonita que já vi até hoje. Branca, enorme, muito brilhante. E, em fração de um segundo, desapareceu.

Ainda estou um pouco perplexo, e com as mãos trêmulas, parte por frio e parte por êxtase.

No fim, essa capacidade de olharmos pro céu, pra fumaça, pra si… Não é isso que nos faz poetas.

Isso nos faz a própria poesia.

Ouriços no estômago

Publicado: sexta-feira, 22 março - 2013 em Cultura, Filosofia, Política
Tags:, ,

Às vezes parece que eu vou vomitar um ouriço.

[Esse é um daqueles posts que não vai te deixar animado. Se estiver mal, talvez seja melhor não ler.]

Não que algum dia eu tenha vivido num ambiente confortável. Minha natureza anacrônica e alienígena nunca permitiu. Queria lembrar como é estar num útero pra poder ter essa certeza. Mas a essa altura, já é irrelevante.

Também nunca vi felicidade como obrigação, nunca fiz questão de sorrisos, e não acho que essa é a chave pra uma vida melhor. Mas porra… Quando você sente que o meio do mato, longe de tudo (ou quase tudo, ao menos) é o único lugar onde vai conseguir respirar em paz… Sei lá, as agulhinhas dos ouriços incomodam um pouco mais em dias assim.

Estou num momento da vida em que eu não analiso mais as pessoas pelas posturas que tem, pelas convicções, crenças ou orientações políticas. Já não faz mais tanto sentido. Meu critério é a capacidade delas serem sensíveis.

Dizem que pra você ser feliz e estar bem consigo mesmo, você precisa ignorar as expectativas do mundo meritocrático, ignorar os padrões de beleza, ignorar as relações históricas de poder de alguns grupos sobre outros, enfim… É fácil estar acima de tudo isso por dentro, mas em ambientes sociais, não tem como.

A gente tem que escolher um lado, e a partir do dia em que eu escolhi o lado mais fraco (e essa escolha foi completamente consciente) eu comecei a chorar. Não porque fiquei triste, nem porque a vida ficou mais difícil (embora ambos sejam verdade), mas porque eu comecei a me dar conta de todo esse sofrimento, e o assumi como meu.

Muitos dos meus amigos, creio que com boas intenções, me dizem que eu tenho que colocar isso de lado pra conseguir “seguir a vida”. E quando eu falo “não consigo”, dizem que eu tenho que me esforçar mais. Pois então que seja, não é questão de não conseguir. Eu sequer me esforço.

EU NÃO QUERO.

Eu não quero conseguir dormir sabendo que tem gente tacando fogo em favelas e jogando spray de pimenta em cara de criança, em mulher com bebê de colo, jogando granadas em jornalistas, só pra deixar um lugar mais bonitinho pra copa do mundo.

Eu não quero conseguir me concentrar pra escrever um TCC enquanto tem gente sem ter o que comer porque existe um complexo econômico que controla a produção e venda de alimentos no mundo.

Eu não quero deixar a vida pessoal pra fora do meu ambiente de trabalho enquanto homossexuais são espancados, transexuais são apedrejadas, mulheres apanham de maridos, meninas e meninos sofrem porque seus corpos não se adequam a um padrão.

A única coisa que eu quero agora é vomitar esses ouriços. Tirar cada espinho e enfiar nos olhos de cada desgraçado que finge que não vê.

Eu não sou depressivo. Eu não preciso de remédios. Eu não quero me tratar.

Eu sou um ser humano que aceita a própria natureza, visceralmente.

Eu preciso de mais seres humanos assim, vomitando ouriços.

E eu quero que quem guarda tudo isso numa caixinha e esconde em cima do guarda-roupas sofra o suficiente pra abrir a caixa e perceber que é tão humano quanto aqueles que estão sendo pisoteados nesse exato momento.

 

[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

Morrer e Nascer

Publicado: domingo, 29 janeiro - 2012 em Cultura
Tags:, ,

Se está bem? É claro que não está bem. Eu também não estou. Nada está, ninguém. O mundo está inteiro de cabeça pra baixo nesse instante. Não que isso justifique, mas liberta um pouco da culpa. E é disso que venho falar hoje. Não culpa, liberdade.

A idéia xamânica de morte e renascimento pra mim não é exatamente um “encarar filosófico” ou ainda religioso da realidade. Foi só algo com que eu me identifiquei. Pratico desde que me entendo por gente, não porque me disseram, mas porque eu sinto assim.

Morrer não é difícil. Difícil é tudo aquilo que te arrasta para a morte, pois ela pode ser lenta, sofrida. Nem sempre se morre de repente, ou dormindo. Mas morrer não é difícil, é justamente a libertação. Difícil é nascer.

Não é qualquer um que tem paciência de esperar os nove meses de gestação pra começar a ser novo. Os que não esperam, se condenam ao nascimento prematuro e fatalmente sofrerão as sequelas. Mas não se pode generalizar também. Carícias na barriga gestante, música para o embrião, isso é importante também. São os meses de vida em que a solidão é crucial, mas permeável.

Aí vem o nascer. Eu penso que dói. A gente não sente, mas é claro que dói. Ser espremido por um pequeno funil que te cospe pro mundo, ainda que não houvesse desconforto físico, deve doer no espírito de alguma forma. E então cai a luz sobre a retina virgem. Um súbito abrir de janelas para a realidade nua e crua, a primeira mordida em nosso fruto de inocência. Nosso pulmãozinho de parasita recebe um golpe violento de ar seco e frio. E então, o grito.

Não existe liberdade sem grito. Liberdade, antes de mais nada, é poder gritar. Gritamos para ser livres e depois gritamos por ser livres.

O processo de crescer nunca caberia numa descrição dessas, e qualquer tentativa de resumi-lo o tornaria pobre. Mas dói crescer também. E a dor, inclusive, é importante para o crescimento. É causa e consequência. As perninhas moles vão ganhando força e confiança, e vai se tornando possível verbalizar. Daí em diante, toda a vida escorrega pela espiral da complexidade e é tudo tão incerto que não vale a pena divagar…

E ainda pequenos, brincamos na praia. Hora com as mãozinhas cheias de areia, hora com ela escorrendo toda pelos dedos. Hora terminando de edificar um castelinho, hora enxergando ele ser desmachado pelas ondas.

Ficamos tristes quando isso acontece, mas crescemos e esquecemos como é essa tristeza. Às vezes, temos até um estranho prazer em ver nossos castelinhos voltarem a ser grãos. Não é velhice, nem mesquihez, nem desatenção. No fundo sabemos que aqueles grãos estarão ali para serem, logo menos, outro castelinho.

E como as tartaruguinhas que desabrocham ali mesmo, alguns de nós serão apenas comida de urubu. Outros vão ser levados pela correnteza e acabar dentro da boca de algo maior. E uns poucos vão chegar ao que chamamos de oceano; imenso, profundo e indecifrável.

O ciúme é uma coisa cretina que insistimos em ensinar a nossas crianças. Mas não devíamos. Amor, por natureza, é livre. E é assim que deve ser, ainda que desaprender o ciúme seja muito mais difícil que aprender. Como é chorar.

Hoje, mais que gritar, eu queria ouvir um grito. Mas eu decidi respeitar essa gestação, mesmo sabendo que essa barriga é acariciada por outras mãos. Cada pessoa que se mistura conosco vive ao nosso lado uma vida inteira, então morremos, e não saberemos como será após o próximo nascimento. Só sabemos que vai doer.

Mas será um mundo completamente novo, e isso vale qualquer preço.

Essa é uma das postagens que vai parecer uma metáfora pela covardia do não querer dizer com todas as letras, ou uma indireta. Mas não é isso. É só que algumas coisas chegam a nós de modo tão subjetivo que não há outra forma de se refrir a elas.

A imagem do universitário, seja pela história ou pela mídia, é associada ao consumo de bebidas alcoólicas. Para alguns, é só uma forma de sustentar um nicho bem interessante do mercado. Para outros, é a mostra de como no início da vida adulta ainda carregamos uma mochila de irresponsabilidades nas costas. Para mim, como universitário, é apenas uma maneira de sobreviver.

Falarei de drogas de um modo geral, para não entrar nas particulares de cada uma e não me render à apologia, pois não é esse o intuito. Uma pessoa “saudável”, para os padrões de hoje (entenda por “acorda cedo, estuda, trabalha, acumula dinheiro, planeja uma vida, vira gente”), não tem tempo para pensar. E se nós, universitários, acatamos cada medida repressora que vem dos reis acadêmicos, lentamente nos dirigimos ao local onde nos querem: quietos numa cadeira, como sempre foi na vida escolar.

A universidade tem uma tendência natural a abrir mentes, ainda que ela venha sendo agredida lentamente. Não que ela seja o reduto dos pensadores, mas faz parte do processo de graduação abrir a visão sobre os problemas do mundo – ou deveria. Me chamem de fraco, de dependente, do que for, mas com uma cerveja gelada na mesa qualquer assunto flui melhor. E não estou falando do hábito social, ou dos reflexos psicológicos. Falo apenas da reação química. Ficamos menos inibidos, nos comunicamos com mais honestidade. Às vezes isso leva a brigas, outras leva a paixões. Mas não definiria melhor o álcool do que já o fazem comumente: “lubrificante social”.

Drogas alteram nosso modo de perceber as coisas, e por consequência nosso modo de interpretar as coisas. Isso não deveria ser visto como ruim. A parte ruim são os efeitos colaterais, mas sabendo escolher e medir, ninguém vai morrer disso. O problema é que o caretinha que vive em nós, o fantasma da repressão que fica acima do nosso ombro direito, não nos permite enxergar como as medidas autoritárias são complexas e intencionadas.

Quando uma lei, portaria ou ordem oficial de qualquer natureza diz que não podemos ingerir álcool dentro das universidades, indiretamente está dizendo que não quer festas e socializações que não sejam de foro estritamente acadêmico. É uma maneira de nos impedir de conversar, de nos conhecermos, de refletirmos sobre o espaço que visitamos diariamente, de criar sentimento de unidade com o local e com as pessoas.

Uma vez me disseram que o combustível do movimento estudantil era álcool e maconha. Assusta falando dessa forma, mas no fundo pode ser mesmo verdade. E não vejo nada de mal nisso. Se é o que está permitindo que o carro ande, 8 anos a menos de vida pra cada um ainda é uma medida altruísta.

A despeito da ironia desse último comentário, só gostaria de deixar claro que a medida repressora ainda é acatada por jovens universitários que ousam fazer comparações do tipo “se não podemos beber em hospitais, a lógica é não podermos beber aqui também”. Como se estivéssemos bebendo durante as aulas e fazendo festas dentro de laboratórios. Os coroados justificam pela “preservação do patrimônio”. Pois bem, do patrimônio deles. Porque não é interessante que o espaço acadêmico seja visto como nosso. Ele já pertence ao mercado, não pode haver concorrência.

O movimento estudantil, talvez pela predominância jovem, é interessante por não se fazer apenas de reuniões sérias e manifestações públicas. Há momentos de descontração pela descontração. Seja valorização ou destruição cultural, não é apenas um movimento político, mas também cultural. Isso o torna especificamente perigoso porque o objetivo não são reformas e sim transformações.

E se pensamos que estes meninos sem-lei serão os professores de amanhã, aí temos motivo para pânico. O que será de nossas crianças brancas, limpas, cristãs e obedientes na mão desses formadores degenerados? Eu imagino o que serão, pois os professores que me inspiraram em que me espelho durante toda minha vida são dessa porção degenerada. E aí fica mais claro porque os donos dessas crianças têm medo. Elas aprendem a latir, fugir e morder, no lugar de ficar choramingando na coleira por uma tigela de ração.

Aqui em Rio Claro perdemos um diretor que fazia vista grossa para nossa “bagunça” e o novo xerife está querendo mostrar serviço. Natural, pois ele também serve a um sistema que o obriga a isso, e nos apoiar, mesmo que com o próprio silêncio, é assinar embaixo. Mas covardia justificada ainda é covardia.

Ainda me pergunto o que faremos, eu e meus irmãozinhos degenerados, frente às recentes mudanças no código de conduta. Foi assim com nosso primos distantes: muros, cadeados, catracas, câmeras e restrições.

As festas são nosso local de socialização e nossa fonte de renda, enquanto grupo. E para todos os que aqui têm espírito de grupo, a sensação é a mesma: a de estar sem casa e sem emprego. Talvez a alternativa para a crise do combustível seja repensar o veículo para usar diesel ou gás natural.

Mas eu, ao menos, faço questão da minha gasolina. Nem que o custo seja cavar até encontrar petróleo. Nem que tenhamos que sair do continente pra extrair em alto mar. O que não se pode é parar de andar.

Não alimente os animais

Publicado: sábado, 16 julho - 2011 em Não sei
Tags:, , , ,

Faz parte do processo de crescer parar de alimentar as bestas.

Nos comovemos, pois, quando pequenas, sempre parecem dóceis. Não há uma criatura saída do ovo que não cause comoção.

Mas quando crescem, viram bestas da mesma forma.

Aí um dia você para de ser a pessoa com a comida na mão e passa a ser o velho chato que diz “não alimente os animais”.

Mas é porque você está cansado das mordidas, de ver gente sangrando e morrendo, de sangrar e de morrer, e sabe que pode sobrar pra você outra vez.

Certas coisas vão se tornando desnecessárias. O brilho nos olhos do filhote de besta olhando pra você é uma dessas coisas. Já temos monstros o suficiente soltos por aí…

Minha história do Rock

Publicado: quarta-feira, 13 julho - 2011 em Cultura, Música
Tags:, ,

Não sei quanto tempo faz que não escrevia nada aqui. Mas hoje me ocorreu uma mistura tão forte de sensações que não tinha como engolir.

Começou com uma brincadeira no Facebook, onde as pessoas trocaram suas fotos por ídolos do Rock. De início, estava muito engraçado. Em um chat, conversavam Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Johnny Cash. Em outro, Robert Smith, Siouxsie, Debbie Harry e Bono Vox. Aos poucos fui percebendo o quanto aquelas imagens e as músicas desses ídolos falavam sobre as pessoas.

Agora no fim da tarde, vi uma imagem da Joan Baez. Automaticamente me veio à mente a cena em que, no Woodstock, ela cantou “Swing slow sweet chariot” sem instrumento algum, apenas com uma luz azul sobre o corpo, e calou um dos maiores festivais de rock da história.

Isso me fez lembrar como a música, especialmente o “rock’n’roll” mudou minha vida. Eu sei que toda música tem potencial transformador, expressa sentimentos e tudo mais. Mas o rock pra mim é sempre um grito. Seja de dor, de tristeza, de raiva ou de alegria. É a música que definitivamente coloca pedras para rolar.

Eu cresci ouvindo Led Zeppelin, Raul Seixas, Legião Urbana, Alice in Chains, Ramones, The Doors, Deep Purple, entre tantas outras coisas fantásticas. Já tive meus momentos punks, meus momentos hardrock chorosos, meus surtos flower power e eventualmente síncopes furiosas de metal. Já chorei ouvindo Renato Russo e Cazuza. Já curti fossa ouvindo Heart. Já “peguei balada” ouvindo Blondie. Já virei a noite ouvindo Smiths. E cada momento desses fez de mim uma pessoa diferente.

Eu não sei em que proporção eu procurei o rock’n’roll pelo processo de revolta que foi minha vida ou ele mesmo contribuiu para que eu começasse a jogar tudo pro alto. A história do rock é a história dos jovens, muitas vezes contada por “velhos” que nunca envelheceram de verdade.

O rock também foi o cenário onde a psicodelia se manifestou em sua forma mais bonita. E também foi o primeiro a pedir pra pararem de jogar bombas. É hoje através do rock (ainda que a gente não entenda muito) que a maioria dos jovens chora suas dores (que a gente também não entende muito).

O que entedemos hoje por “espetáculo de música”, o modo como os shows se transformaram em apresentações circenses de proporção absurda, é culpa do rock. E das faces mais libertadoras às mais aprisionantes do universo das drogas se espalharam pelo mundo com sua ajuda.

E cada vez mais vejo gente da minha idade dizer que vive na época errada. Particularmente, esse anacronismo pra mim é bom, porque me sinto menos só. Mas por outro lado me preocupa, pois é sinal de que alguém não está fazendo as coisas direito. E não estou falando de música comercial, pois o que temos hoje por “clássicos do rock” sempre foi muito comercial. Estou falando dos gritos que fazem pedras rolarem.

Algumas angústias são grandes demais para serem gritadas. Às vezes se fazem necessários baixos, baterias e guitarras, ligados num bom amplificador, para que a alma possa gritar.

Pode ser prepotência, pensando nos holocaustos e guerras do passado, dizer que hoje vivemos tempos de angústia como nunca antes. É muito provavel que seja prepotência. Mas defendo a idéia de que a angústia só existe no presente, como tudo o que existe. Mesmo a lembrança das angústias do passado são angústias que vivemos no presente. E as grandes bandas nos ajudam, quando falam por nós, a gritar por toda essa angústia.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi alguém dizer “isso não é música, isso é gritaria”. Nem todo mundo consegue entender. Mas é que quando a gritaria vira música… Acho que quando gritaria se torna música, passa a ser o grito de um grupo. Algumas vezes, de todo um povo.

A história do rock pra mim é uma história de gritos. E a minha própria história é uma história de gritos.

E alguém aqui tem uma história que não seja feita de gritos?

Grand Canyon (Tracey Thorn)

Publicado: sábado, 4 junho - 2011 em Cultura, Literatura, Música
Tags:,

Faz um tempo razoável que não falo de música aqui. No meio de tanta revolta política e religiosa, pensamento profundos sobre o cotidiano fútil ou leituras simplistas da complexidadesenti vontade de divulgar sem propósito. Geralmente uso outras mídias pra fazer isso, dessa vez, isso fala para mim e por mim. É o tipo de coisa que eu gosto de ouvir, que eu diria aqui, e que eu diria a algumas pessoas.

A voz dessa mulher mexe muito comigo. Desde os tempos do Everything but the Girl, que também é uma delícia. E isso fica aí como prova de que “louge music” não é necessariamente música de elevador.

Como é de costume, minha livre tradução da letra:

Garoto, acho que você chegou ao lar
Abra a porta e entre
Tantas pessoas se sentem como você
Seus sonhos mais doces têm sido negados

Tranque o passado numa caixa e jogue fora a chave
E deixe pra trás os dias de noites intermináveis
Todos estão esperando, todos estão aqui
Saida da floresta e venha para a luz

Todos te amam aqui

Garoto, você andou por estradas erradas
Agindo como outra pessoa
Quem disse que você não era como tinha de ser?
E te fez cumprir deveres alheios?

Este é o lugar pra você só olhar para esta sala
Alguém aqui é feito de pedra?
Caído entre os hereges, os perdedores e os santos
Você aqui está entre os seus

Você está em casa

Olhe esse buraco dentro do seu coração
Ninguém poderá preencher
É como o Grand Canyon
Olhe essa conexão quebrada
Entre você e o mundo
É como o Grand Canyon

Mas todos te amam aqui
Você está em casa

Esse buraco que nada preenche. Se procuramos bem, o temos todos. É o buraco que fica quando abandonamos nossa condição de ser humano, enquanto espécie, e tentamos ser qualquer outra coisa “malparida” que não sabemos definir. E quando percebemos, até dói um pouco. Mas em grupos, ainda que seja um grupo de dois, aí sim fazemos sentido enquanto indivíduos.

Então fica aí pra todos os coleguinhas que se sentem à parte da realidade. Quando nos encontramos, estamos em casa. Quando estamos juntos, estamos em casa. E todos te amam aqui.

Construam seus lares

Publicado: quarta-feira, 25 maio - 2011 em Cultura, Filosofia
Tags:, ,

Pra quem fica olhando o tempo todo pela janela, sempre vai parecer que existem mil lugares no mundo melhores que a própria casa. Para quem trabalha pela melhoria do lar, no entanto, ele vai ser o melhor lugar do mundo. E sim, isso é uma metáfora…

Às vezes me cansa um pouco ver as pessoas procurando por aí. Procurando um lugar melhor, uma companhia melhor, como se uma hora fosse esbarrar no que o destino te preparou pra ser perfeito. Mas isso não existe fora dos filmes/seriados enlatados. Construam seus lares. E aí o mundo inteiro vai parecer um lugar melhor. Estamos onde estamos por termos deixado de sermos nômades.

Regredir é tolice.

A verdade é que quem fica muito tempo procurando, mesmo quando deveria estar construindo, não encontra nada.

E é justo que seja assim. Nesse contexto, existe trabalho que dignifica o homem.