Posts com Tag ‘blablabla’

Morrer e Nascer

Publicado: domingo, 29 janeiro - 2012 em Cultura
Tags:, ,

Se está bem? É claro que não está bem. Eu também não estou. Nada está, ninguém. O mundo está inteiro de cabeça pra baixo nesse instante. Não que isso justifique, mas liberta um pouco da culpa. E é disso que venho falar hoje. Não culpa, liberdade.

A idéia xamânica de morte e renascimento pra mim não é exatamente um “encarar filosófico” ou ainda religioso da realidade. Foi só algo com que eu me identifiquei. Pratico desde que me entendo por gente, não porque me disseram, mas porque eu sinto assim.

Morrer não é difícil. Difícil é tudo aquilo que te arrasta para a morte, pois ela pode ser lenta, sofrida. Nem sempre se morre de repente, ou dormindo. Mas morrer não é difícil, é justamente a libertação. Difícil é nascer.

Não é qualquer um que tem paciência de esperar os nove meses de gestação pra começar a ser novo. Os que não esperam, se condenam ao nascimento prematuro e fatalmente sofrerão as sequelas. Mas não se pode generalizar também. Carícias na barriga gestante, música para o embrião, isso é importante também. São os meses de vida em que a solidão é crucial, mas permeável.

Aí vem o nascer. Eu penso que dói. A gente não sente, mas é claro que dói. Ser espremido por um pequeno funil que te cospe pro mundo, ainda que não houvesse desconforto físico, deve doer no espírito de alguma forma. E então cai a luz sobre a retina virgem. Um súbito abrir de janelas para a realidade nua e crua, a primeira mordida em nosso fruto de inocência. Nosso pulmãozinho de parasita recebe um golpe violento de ar seco e frio. E então, o grito.

Não existe liberdade sem grito. Liberdade, antes de mais nada, é poder gritar. Gritamos para ser livres e depois gritamos por ser livres.

O processo de crescer nunca caberia numa descrição dessas, e qualquer tentativa de resumi-lo o tornaria pobre. Mas dói crescer também. E a dor, inclusive, é importante para o crescimento. É causa e consequência. As perninhas moles vão ganhando força e confiança, e vai se tornando possível verbalizar. Daí em diante, toda a vida escorrega pela espiral da complexidade e é tudo tão incerto que não vale a pena divagar…

E ainda pequenos, brincamos na praia. Hora com as mãozinhas cheias de areia, hora com ela escorrendo toda pelos dedos. Hora terminando de edificar um castelinho, hora enxergando ele ser desmachado pelas ondas.

Ficamos tristes quando isso acontece, mas crescemos e esquecemos como é essa tristeza. Às vezes, temos até um estranho prazer em ver nossos castelinhos voltarem a ser grãos. Não é velhice, nem mesquihez, nem desatenção. No fundo sabemos que aqueles grãos estarão ali para serem, logo menos, outro castelinho.

E como as tartaruguinhas que desabrocham ali mesmo, alguns de nós serão apenas comida de urubu. Outros vão ser levados pela correnteza e acabar dentro da boca de algo maior. E uns poucos vão chegar ao que chamamos de oceano; imenso, profundo e indecifrável.

O ciúme é uma coisa cretina que insistimos em ensinar a nossas crianças. Mas não devíamos. Amor, por natureza, é livre. E é assim que deve ser, ainda que desaprender o ciúme seja muito mais difícil que aprender. Como é chorar.

Hoje, mais que gritar, eu queria ouvir um grito. Mas eu decidi respeitar essa gestação, mesmo sabendo que essa barriga é acariciada por outras mãos. Cada pessoa que se mistura conosco vive ao nosso lado uma vida inteira, então morremos, e não saberemos como será após o próximo nascimento. Só sabemos que vai doer.

Mas será um mundo completamente novo, e isso vale qualquer preço.

Essa é uma das postagens que vai parecer uma metáfora pela covardia do não querer dizer com todas as letras, ou uma indireta. Mas não é isso. É só que algumas coisas chegam a nós de modo tão subjetivo que não há outra forma de se refrir a elas.

Anúncios

Um dia de biólogo

Publicado: sábado, 3 setembro - 2011 em Ciência, Cultura, Filosofia
Tags:, , , ,

Hoje, 3 de setembro, é dia do biólogo. E no meio de tantos parabéns, é impossível não parar pra pensar: “Por que estão nos parabenizando?”. Mas esta não será uma postagem ranzinza sobre não merecermos parabéns. Pelo contrário. Vou exaltar um pouquinho a experiência do nosso campo de estudo.

A minha proposta é que no lugar de comemorarmos o da do biólogo, tentemos todos ter um dia de biólogo. E eu vou explicar como fazer isso, não é tão difícil.

Pra começar, você deve retirar da sua cabeça aquele medo medieval irracional de tudo o que tem perninhas, de tudo o que se esconde nas frestas, de tudo o que se rasteja silenciosamente, das criaturas que voam na noite, das que moram em cavernas, das que fazem do seu guardarroupa um lar. O segundo passo é não ter “nojinho”.

Lembra quando você tinha uns 3 ou 4 anos? Provavelmente não, mas se não conseguir, pense nas crianças que você conhece. Dessas que colocam a mão em tudo, enfiam as coisas na boca, ficam sujas e felizes.

A biologia, entre todas as ciências naturais, é a mais sensorial. E talvez isso a afaste da exatidão da química e da física (que também não são assim tão exatas…). Aquele prazer de entrar no meio do mato com a vovó e sair perguntando que árvore é essa. Depois subir na árvore, achar uma goiaba cheia de bichinhos, deixar eles de lado e comer mesmo assim. Imitar macaco antes de descer, claro.

Fazer buracos no chão, encher de água e dizer que fez um rio pra criar peixes. Prender joaninha numa ilha dentro de um pote de plástico pra ver se ela vai nadar ou voar. Brincar com o cachorro como se ele fosse um irmãozinho e não um objeto de decoração.

Acho que o que nos arrasta para a biologia é essa criança. Das ciências, também acho que seja a mais próxima da arte. A ver por todos os documentários e exposições fotográficas com a temática biológica e ambiental, que nos causam fascínio até mesmo na catástrofe.

Mas também há uma dose de crescimento. De entender que não existe normal. Que estatística é metáfora da realidade e não a realidade em si. Que a diferença é vantagem. Que a cooperação te mantém vivo. Que não existe perfeito, tampouco imperfeito. Que é irrelevante a presença de um criador. que não somos únicos, nem mais importantes. Que também não somos menos importantes. Que tudo o que é vivo merece respeito, pois temos origem comum. Quue o que não é vivo também o merece, pois somos feitos dessa mesma matéria morta.

A biologia enquanto carreira já me cansou. Porque boa parte dos biólogos acaba esquecendo a maioria dessas coisas, e eu não tenho saco pra trabalhar com “gente grande”. Mas mesmo sabendo disso, é um caso de amor que não acaba. Um caso de amor com o objeto de estudo, pois pra mim é assim que se faz ciência. E se falta espaço pra amar, eu devo procurar outro lugar pra fazer minha ciência.

Mas nós, sem modéstia, somos os mais qualificados pra falar do tal “sentido da vida”. Porque, curioso que pareça, ao contrário das outras ciências, não o buscamos. O bonito do biólogo é que vê a vida como fenômeno, então ela não precisa de um sentido.

Sem precisar procurar onça no mato, sem precisar se trancafiar num laboratório por horas, sem precisar explicar os mistérios da genética para 40 pré-adolescentes em chamas… Sem precisar de nada disso, tenha um dia de biólogo. Saia de casa, ouça o vento, os pássaros, os insetos, observe as nuvens, procure um curso d’água, deixe a chuva cair na sua cabeça, suje os pés e perceba que tudo isso está interligado, pois vida é interdependente e intradependente. Não existe vida em isolamento. Então, sem tudo isso o que está em volta, você não é porra nenhuma…

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorsos,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
– Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova.

(Manuel Bandeira, em Lua Nova)

Antes que me atirem pedras, devo explicar: este titulo é uma provocação, claramente. Mas não é sem motivo. A cada dia mais notícias do “bullying” aparecem na mídia e invadem as redes sociais de que participo. Para alguns, isso é bom, pois se está dando atenção à educação. Mas eu particularmente não acho que seja esse o tipo de atenção que a educação precisa, e vou explicar os motivos…

1) Conservadorismo lingüístico? Talvez.

E a trema ali foi intencional, só pra não perder a piada. A verdade é que temos uma palavra, na língua portuguesa, que sempre nos serviu muito bem: violência. Esse termo já comprime as idéias de “abuso”, de “invasão”, de “coação” e qualquer outro sentido que a palavra bullying possa ter. A origem latina é de “violentia”, resumidamente, “exercer autoridade na impossibilidade de resistência”. Longe de mim querer dar aulas de potuguês, que não é minha área, mas eu acredito que o problema começa aqui.

2) O “bullying” é novo, a “violentia” não.

E é disso que vive a mídia. Se for uma coisa já conhecida, não é manchete. E aí fica precendo que toda a questão da violência escolar foi uma importação recente ou, pior ainda, um sinal de que estamos caminhando ao primeiro mundo. Porque o “bullying” nunca foi problema no Brasil. Não ouvíamos falar disso dez anos atrás. O que não quer dizer, absolutamente, que não houvesse violência – área esta que, dentro dos estudos da educação, é um campo muito antigo e muito vasto.

E para termos a atenção das autoridades, das mídias, e mesmo das pessoas “comuns”, é necessário que seja “bullying”, pois aí parece que o problema é sério. Mas o “bullying”, seja pela importação linguística, seja pela sensação do novo que isso traz, ou seja por qualquer outro motivo imbecil, faz parecer que o abuso dentro das escolas tem emergido recentemente. Pior que isso, se apresenta como um fenômeno isolado, uma coisa que nasceu sozinha, que não se sabe exatamente de onde vem, e acaba por criminalizar e/ou demonizar jovens que, em boa parte dos casos (se não todos) são tão vítimas quando aqueles sobre quem exercem seu abuso.

A violência é um fenômeno que aconece em cadeia. A idéia de que violência gera violência, tão inserida na sabedoria popular, é a expressão mais simplificada e direta sobre o modo como ela funciona. O abuso exercido por um aluno sobre outro não é diferente do abuso exercido por governos sobre seus cidadãos, pela polícia sobre manifestações públicas, pelos pais sobre os filhos, pelo homem sobre o homem.

O “bullying” (e faço questão de repetir essa palavra insistentemente para ver se alguém mais se irrita com ela) é um termo que não faz sentido para nosso modelo de cultura. Mais que isso, é uma maneira bem suja de disfarçar um problema muito sério, que é o da violência sistêmica e interligada que permeia nossa sociedade. A mesma violência que reside na negação de direitos das minorias, a mesma violência que reside na perseguição religiosa das pequenas seitas, ou exercida peas grandes religiões.

A violência que ocorre dentro dos muros da escola é a mesma que ocorre aqui fora.Porque a escola não é um modelo para a sociedade, mas reflexo dela. Trabalha a seu serviço. E para uma sociedade onde a violência é modo de operação, como a nossa, o “bullying” nada mais é do que o recém-nascimento daquela violência que já não nos choca mais.

E através dessa palavrinha que nos foi vendida, como tantas outras coisas, massacramos os filhotes da besta sem chegarmos perto do ninho de onde sairão tantas outras.

Onde está o amor?

Publicado: sábado, 18 dezembro - 2010 em Cultura
Tags:, ,

Comprei uma caixa de bombons. Ao abrir um, uma figurinha:

“O coração tem status de símbolo do amor. Mas os verdadeiros culpados são o cérebro, os feromônios, a dopamina e outras coisinhas que, cá entre nós, você nunca vai desenhar num cartão romântico.

Sem querer, você troca olhares com alguém. Se nessa hora a dopamina, a feniletilamina e a ocitocina resolverem entrar em ação, xi, ferrou.”

Serenata de Amor, você já foi mais romântico…

Próximo lançamento da Garoto: Serenata de Hormônios.

I just came to say hello!

Publicado: segunda-feira, 22 novembro - 2010 em Música
Tags:

Essa música (a letra) não tem tanto a ver com o meu momento, e eu não sei exatamente porque resolvi colocar ela aqui. No meio desse ritmo político e revoltado que o blog tomou, acho que ela vem para descontrair. O fato é que não consigo parar de ouví-la há dias.

É muito gostosa de ouvir, e de certa forma explica bem o modo como eu me comporto nas festas. E toda aquela coisa do “sou legal, não estou te dando mole”. Ou “sou mole, não estou te dando legal”, enfim…

Só quis mesmo dividir uma brisinha. Me irritam pessoas que vão pra balada pela “pegação”. Sou do tipo que vai pra dançar, que até arrisca fazer amigos… Mas essas coisas de pegar no braço e dizer “GATA, SUA LINDA” não. Não mesmo.

Se alguém quiser conhecer: Martin Solveig feat Dragonette – Hello

Eu poderia ficar por aqui e curtir um tempo com você
O que não significa que eu esteja afim
Você é firmeza, mas eu estou aqui, querido, pra curtir a festa
Não se empolga, porque é o máximo que vai ter de mim

Sim, eu te acho bonitinho, mas há algo que você precisa saber
Eu só vim pra dizer “e aí?”

Não sou o tipode garota que ficaria confusa com você
Vou deixar você tentar me convencer
Tudo bem, estou ficando zonza, mas só pra curtir a festa
Por mim tudo bem se você não tiver muito a dizer

Até gosto disso e tal, mas há algo que você precisa saber Eu só vim pra dizer “e aí?”