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[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

Essa postagem não será uma crítica ou defesa sobre qualquer das recentes polêmicas socioambientais no Brasil. As pessoas (eu incluso) já estão saturadas disso e eu particularmente ando irritado com o grande volume de hipocrisia que circula pela internet.

Só a título de curiosidade, sou contra, em âmbito geral, o projeto da usina Belo Monte e também a reforma no Código Florestal. Mas pra todos os meus amigos ambientalistas que ficam “putinhos” com a minha postura neutra na maioria desses debates, talvez esse texto explique alguma coisa.  Ou talvez confunda mais. Despretensiosamente, vamos ao blablabla…

Vou falar de energia em termos gerais, também, pra não parecer que estou puxando sardinha ou pegando rabeira em movimentos.

Crise Energética não é novidade!

Apesar de os termos “Belo Monte” e “Dilma” estarem presentes no cotidiano de qualquer usuário de facebook, twitter ou leitor de jornais, esse problema não é novo. Ele só virou destaque nas grandes mídias agora porque é interessante politicamente. O que chamamos hoje de “crise energética” é algo que começou no último mandato de FHC, por conta de um programa de expansão da produção energética que desrespeitava o sistema hídrico brasileiro (que, diga-se de passagem, é um dos mais, se não o mais adequado no mundo para a utilização de energia de hidrelétricas). Resumindo como deveria funcionar, o sistema de armazenamento faz com que se guarde água nos anos de maior precipitação para que isso seja compensado nos anos de menor precipitação. As hidrelétricas são projetadas para isso. Toda hidrelétrica passa por esse tipo de problema (fase “cheia” e fase “seca”), pois é natural do sistema hídrico.

Pois bem, lá por 2000, 2001, alguns alertas começaram a surgir sobre o mau uso desses sistemas, e um futuro com possíveis racionamentos (que, pra quem lembra, chegou a acontecer, e é um dos motivos de pagarmos tão caro em nossas contas de energia elétrica hoje). Mas a questão não se resume simplesmente a “má gestão das hidrelétricas”. Houve espansão da rede elétrica, que aumentou o consumo, e não teria mesmo outro jeito, a não ser que se buscasse novas fontes de energia (e em termos práticos estamos falando de mais hidrelétricas). Isso não quer dizer que Belo Monte seja necessária para o consumo de energia do Brasil. Mas quer dizer que é natural que se instalem mais hidrelétricas. E não dá pra fugir disso se não estivermos dispostos a outro período de racionamento, e energia ainda mais cara.

Faltou, sem dúvida, investimento na transmissão dessa energia. E continua faltando. O sistema de hidrelétricas no Brasil é interligado (e pode ser mais interligado), ou seja, usinas conectadas podem compensar as necessidades umas das outras em períodos de necessidade (dado o tamanho do nosso país e a diferença entre os regimes de cada bacia hidrográfica). Isso é uma enorme vantagem pois permite que não se desperdice energia que “sobra” em alguns processos. Só para ter noção da diferença que isso faz, o acréscimo da linha Norte-Sul acrescentou à disponibilidade energética do país uma quantidade de energia equivalente à produção de Angra I.

Por que faltou investimento? Brasileiro tem mesmo a memória bem curta, mas nesse mesmo período, do governo de FHC, foi que se iniciou a esperança das termelétricas usando gás natural que viria da Bolívia. Felizmente não deu certo, mas as razões foram econômicas, pra que conste. E muita gente, na época, que assistia televisão, achava que isso era progresso! Sem nem imaginar que termelétricas produzem energia que passam de dez vezes mais cara que hidrelétricas. E que poluem mais no processo. Muito dinheiro público foi investido na criação de quase 50 dessas usinas (boa parte mascarado pela Petrobrás).  Só que gás natural acaba, ao contrário de água.

O que se está fazendo hoje com a expansão de hidrelétricas não é um absurdo econômico, tampouco ambiental. Já se fez muito pior por muito menos há bem pouco tempo atrás. E nenhum engomadinho da rede globo se manifestou, nem deu entrevista pra Veja.

É óbvio que o processo de desapropriação que ocorre em muitas dessas instalações é grotesco. Não estou isentando este governo dos absurdos que tem cometido. Sequer sou eleitor do PT. Só não gosto de circo. E é isso que se está fazendo. A maioria das pessoas que tem se colocado contra as hidrelétricas sequer sabe como uma delas funciona. A maioria das pessoas que diz que temos que investir em energias “renováveis” não tem idéia do impacto que causam as usinas eólicas e/ou solares (células fotovoltaicas). E a maioria dessas pessoas, como forma de “protesto”, simplesmente replica informação pela internet.

Energia solar e eólica nunca serão vatagem para o Brasil porque nós não investimos em tecnologia própria. Ficamos dependendo de países desenvolvidos para comprar uma tecnologia, para investir na implantação e para ganhar dinheiro às nossas custas. Não foi diferente em outros países, ditos “pioneiros” da energia limpa na europa. Quem domina as grandes usinas eólicas são os mesmos barões do petróleo de outrora, que ao perceber que uma hora vai mesmo acabar, já estão fazendo seu pé de meia pelo resto do mundo.

Se querem saber o que eu penso ser o problema central nessa questão, podem continuar a ler, mas agora vem a parte doída. Vivemos num país burro, governado por burros, movido por burros. E, pior que isso, num país onde a classe preparada pra se pronunciar com autoridade no assunto fica calada. O corpo docente das universdades públicas brasileiras é muito covarde. Não dá pra saber se é medo, vergonha ou preguiça. Mas o fato é que deveriam se enxergar como CLASSE e fazer movimentos sólidos a respeito do avanço centífico do país. E não se contentarem em pagar anuidade a seus conselhos de profissão ou deixar a voz de comando às instituições de fomento (que o governo banca, então naturalmente defendem o governo).

Professor universitário é muito bunda mole. Quem deveria estar projetando hidrelétricas são eles. E deveriam procurar a população com um projeto em mãos, pra dizer “isso aqui é melhor do que esse programa que o governo quer fazer”. Porque muitos deles enxergam o problema, conhecem a solução, mas não fazem muito diferente da velha rabugenta que vê tudo isso do sofá de casa.

O Brasil precisa de mais que uma revolução estudantil. Ele precisa de uma revolução científica. Pra ontem. Não adianta de nada ser o mais rico entre os pobrinhos. Parece aquele orgulho imbecil de ser “a escrava branca”.

Conhecimento é poder, não é de hoje que sabemos. Mas quando a classe que detém esse conhecimento não entrega ele ao povo, então essa classe está do lado de outra coisa.

Algumas informações vieram daqui, a quem interessar:
http://www.scielo.br/pdf/asoc/n6-7/20435.pdf

[Uma importante observação antes de começar: Aqui na UNESP de Rio Claro, como em diversas outras universidades públicas do estado e do país, estudantes estão se organizando para o estudo e planejamento de segurança pública, questionando o papel da polícia militar, e isso não tem sido visto com bons olhos pelo governo. Esse texto não é opinativo. Não defende estudantes da USP, não exige a retirada da PM de qualquer lugar. Estou apenas apresentando alguns dados para reflexão e cada um de vocês sinta-se livre para realizar também a própria pesquisa e parar de confiar nas mídias de massa que têm nos desinformado insistentemente em função da defesa de um plano de governo medonho que nos encaminha a uma ditadura que está deixando de ser velada para ser escancarada]

Para prestar um pouco de atenção: Quando se fala da criminalidade em São Paulo, cita-se homocídios e latrocínios em números absolutos.

[Fonte 1]

Em homicídios dolosos, perdemos apenas para o RJ. E em latrocínio, ganhamos até mesmo deles.

O que esqueceram (convenientemente?) de te dizer é que SP é o estado mais populoso do país, com mais que o dobro da população do segundo colocado (MG). Somamos mais de um quinto de toda a população brasileira.

Em valores relativos (ocorrência por 100 mil habitantes; que daqui em diante citarei como “oc/100m.hab.”), que é o valor mais lógico a se analisar, vamos ver como está nossa situação?

Homicídios dolosos (com intenção de matar): 10,8 (2008); 11,0 (2009).
São Paulo, dessa perspectiva, é o terceiro estado com MENOS homicídios dolosos por 100 mil habitantes (perdendo apenas para MG e PI).

Latrocínio (assassinato em função de roubo): 0,6 (2008); 0,7 (2009).
Aqui nossa situação não é exemplar, mas está longe de ser a mais crítica. Ainda somos o sétimo estado com MENOS casos de latrocínio (oc./100m.hab.) .

Ainda em números relativos, somos o terceiro estado com mais pessoas mortas em confrontos com a PM, e o segundo em vítimas (mortes) da PM em outras circunstâncias não identificadas como confronto (que eu entendi como execuções e acidentes).
Os gastos com policiamento (apenas policiamento e não segurança pública em geral) no ano de 2009 foram precisamente: R$8.626.688.263,48.

Querem saber o que acontecia com a educação no mesmo período? A ponta do iceberg pode ser contemplada aqui (pra quem estiver sem tempo, vale saber que a taxa de analfabetismo SUBIU 4,1%).

[Fonte 2]

Em porcentagem de despesas do orçamento do estado, a segurança pública recebeu mais que o dobro do investimento em educação nesse mesmo período. Agora, peço aos leitores uma reflexão de 5 minutos:

a) Pense em quantas vezes você precisou da polícia com sua ação preventiva (ação a que se destina) e ela estava lá para PREVENIR.

b) Pense na polícia que (por regimento e orientação da Constituição Federal) deveria atuar em conjunto com a população, e tente se lembrar se algum policial que faz (SE faz) ronda em seu bairro conhece você ou algum vizinho, se faz perguntas sobre a rotina local ou mostra algum interesse sobre a sua vida.

c) Pense em quanto tempo a polícia demora para chegar quando você precisa (eu, quando precisei, por três vezes, tive de esperar mais de uma hora).

d) Pense em quanto tempo demora para a polícia agir em casos de protestos, independente do motivo, do aumento salarial dos professores à marcha da maconha, e qual papel ela representa nessas situações (eu já vi a polícia chegar antes dos manifestantes ao menos 5 vezes).

Agora, peço uma reflexão um pouco mais longa:

a) Se a polícia se empenhasse com o mesmo rigor na prevenção do crime que tem na prevenção das reivindicações populares, será que precisaríamos esperar tanto?

b) Se o investimento em educação no estado de São Paulo fosse o dobro da segurança pública (o inverso da situação que vivemos hoje), daqui cerca de 30 anos, quem você acredita que estaria sendo criminalizado:

A polícia que abusa de seu poder e viola a lei para defender o interesse do estado enquanto espanca estudantes e professores… Ou os estudantes universitários que lutam por uma universidade livre, de acesso à toda a população?

Sem mais. Bom feriado a todos.

Fontes:

1. Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; ano 4, 2010 (o mais recente publicado); disponível em: http://www.forumseguranca.org.br
2. Relatório Oficial do Secretário da Fazenda do governo  e SP, 2009; disponível em: http://www.fazenda.sp.gov.br/download/relatorio.asp

A imagem do universitário, seja pela história ou pela mídia, é associada ao consumo de bebidas alcoólicas. Para alguns, é só uma forma de sustentar um nicho bem interessante do mercado. Para outros, é a mostra de como no início da vida adulta ainda carregamos uma mochila de irresponsabilidades nas costas. Para mim, como universitário, é apenas uma maneira de sobreviver.

Falarei de drogas de um modo geral, para não entrar nas particulares de cada uma e não me render à apologia, pois não é esse o intuito. Uma pessoa “saudável”, para os padrões de hoje (entenda por “acorda cedo, estuda, trabalha, acumula dinheiro, planeja uma vida, vira gente”), não tem tempo para pensar. E se nós, universitários, acatamos cada medida repressora que vem dos reis acadêmicos, lentamente nos dirigimos ao local onde nos querem: quietos numa cadeira, como sempre foi na vida escolar.

A universidade tem uma tendência natural a abrir mentes, ainda que ela venha sendo agredida lentamente. Não que ela seja o reduto dos pensadores, mas faz parte do processo de graduação abrir a visão sobre os problemas do mundo – ou deveria. Me chamem de fraco, de dependente, do que for, mas com uma cerveja gelada na mesa qualquer assunto flui melhor. E não estou falando do hábito social, ou dos reflexos psicológicos. Falo apenas da reação química. Ficamos menos inibidos, nos comunicamos com mais honestidade. Às vezes isso leva a brigas, outras leva a paixões. Mas não definiria melhor o álcool do que já o fazem comumente: “lubrificante social”.

Drogas alteram nosso modo de perceber as coisas, e por consequência nosso modo de interpretar as coisas. Isso não deveria ser visto como ruim. A parte ruim são os efeitos colaterais, mas sabendo escolher e medir, ninguém vai morrer disso. O problema é que o caretinha que vive em nós, o fantasma da repressão que fica acima do nosso ombro direito, não nos permite enxergar como as medidas autoritárias são complexas e intencionadas.

Quando uma lei, portaria ou ordem oficial de qualquer natureza diz que não podemos ingerir álcool dentro das universidades, indiretamente está dizendo que não quer festas e socializações que não sejam de foro estritamente acadêmico. É uma maneira de nos impedir de conversar, de nos conhecermos, de refletirmos sobre o espaço que visitamos diariamente, de criar sentimento de unidade com o local e com as pessoas.

Uma vez me disseram que o combustível do movimento estudantil era álcool e maconha. Assusta falando dessa forma, mas no fundo pode ser mesmo verdade. E não vejo nada de mal nisso. Se é o que está permitindo que o carro ande, 8 anos a menos de vida pra cada um ainda é uma medida altruísta.

A despeito da ironia desse último comentário, só gostaria de deixar claro que a medida repressora ainda é acatada por jovens universitários que ousam fazer comparações do tipo “se não podemos beber em hospitais, a lógica é não podermos beber aqui também”. Como se estivéssemos bebendo durante as aulas e fazendo festas dentro de laboratórios. Os coroados justificam pela “preservação do patrimônio”. Pois bem, do patrimônio deles. Porque não é interessante que o espaço acadêmico seja visto como nosso. Ele já pertence ao mercado, não pode haver concorrência.

O movimento estudantil, talvez pela predominância jovem, é interessante por não se fazer apenas de reuniões sérias e manifestações públicas. Há momentos de descontração pela descontração. Seja valorização ou destruição cultural, não é apenas um movimento político, mas também cultural. Isso o torna especificamente perigoso porque o objetivo não são reformas e sim transformações.

E se pensamos que estes meninos sem-lei serão os professores de amanhã, aí temos motivo para pânico. O que será de nossas crianças brancas, limpas, cristãs e obedientes na mão desses formadores degenerados? Eu imagino o que serão, pois os professores que me inspiraram em que me espelho durante toda minha vida são dessa porção degenerada. E aí fica mais claro porque os donos dessas crianças têm medo. Elas aprendem a latir, fugir e morder, no lugar de ficar choramingando na coleira por uma tigela de ração.

Aqui em Rio Claro perdemos um diretor que fazia vista grossa para nossa “bagunça” e o novo xerife está querendo mostrar serviço. Natural, pois ele também serve a um sistema que o obriga a isso, e nos apoiar, mesmo que com o próprio silêncio, é assinar embaixo. Mas covardia justificada ainda é covardia.

Ainda me pergunto o que faremos, eu e meus irmãozinhos degenerados, frente às recentes mudanças no código de conduta. Foi assim com nosso primos distantes: muros, cadeados, catracas, câmeras e restrições.

As festas são nosso local de socialização e nossa fonte de renda, enquanto grupo. E para todos os que aqui têm espírito de grupo, a sensação é a mesma: a de estar sem casa e sem emprego. Talvez a alternativa para a crise do combustível seja repensar o veículo para usar diesel ou gás natural.

Mas eu, ao menos, faço questão da minha gasolina. Nem que o custo seja cavar até encontrar petróleo. Nem que tenhamos que sair do continente pra extrair em alto mar. O que não se pode é parar de andar.

E também não estou ficando velho. Sempre fui assim.

Quis começar a postagem nesse estilo curto e grosso, porque embora minha escrita flerte constantemente com o prolixo, no meu dia-a-dia não é assim que funciona. Eu fui uma criança feliz, brincava na rua e tudo mais, mas nunca fui a criatura mais simpática do mundo. As pessoas sempre me achavam “quietinho” ou estranho, eu não interagia muito com a maior parte da família, e por muito tempo ignorei a existência de mais da metade dela. Dia desses tentei lembrar o nome de uma tia, irmã do meu pai, e não consegui.

Mais de 30 segundos ao telefone me dão desespero. Ir a festas de gente desconhecida é incômodo. Conhecer pessoas, na verdade, não é algo que eu goste de fazer. Eu não estou dizendo isso para reprimir as pessoas que possuem um milhão de amigos. Eu juro que as entendo, e por isso respeito. E não deveria ser necessário ter que explicar, mas é… Porque essas pessoas, no geral, não me respeitam.

Quando eu vou a um bar, eu não quero conversar com o estranho da mesa ao lado, nem com a garota no balcão. Se não é um lugar a que eu vá com frequência, aquelas pessoas todas são irrelevantes pra mim. E não é porque eu me acho especial demais pra elas, mas porque eu não acho que caiba tanta gente num mundo sincero. Eu faço uma distinção muito clara entre amigos e colegas, e acho até feio chamar tanta gente de amigos. “Esse é meu amigo de não sei onde”, “aquele é meu amigo da academia”, “fulano é meu amigo da Estônia”. Francamente? Não tenho paciência.

Quando eu conheço alguém, e faço questão que seja por acidente, eu encaro essa pessoa como um mundo inteiro a ser descoberto. E isso exige dedicação, tempo. A julgar pela minha cara de poucos amigos, muita gente acaba pensando que eu acho que a maioria das pessoas é desinteressante. Mas não é isso. Eu só acho que elas merecem ser conhecidas de verdade, compreendidas, decifradas. E que isso acontece lentamente. Até que um dia eu as possa chamar de amigas.

Se o assunto é amizade, vale a máxima “menos é mais”. Eu desconfio muito da profundidade das pessoas que conhecem outras pessoas o tempo todo, das que fazem amigos da noite pro dia, das que se apaixonam a cada duas semanas.

Mas é  um pouco triste também. Porque entre os mais novos, isso é um costume, quase uma lei. Se você não “aceita”, você é chato. Você é obrigado a estar aberto pra tudo e pra todos, e a isso se chama liberdade – e me dói o fígado. Aos poucos eu vou sendo identificado como uma figura repressora, o menino que está ficando velho e começou a falar mal da nova juventude.

O que essas pessoas não sabem é que eu não me parecia com as pessoas do meu tempo. E ainda não me pareço. Eu não “fiquei assim”, eu me construí assim. Mas isso não dá pra cobrar que eles entendam. O conceito de construção é uma coisa abstrata demais para as pessoas rasas… Eles querem tudo pronto. Até os relacionamentos estão prontos. Você só chega ali e aceita.

Pro inferno com todas as pessoas fantásticas e interessantes que existem no mundo. Até porque, todo mundo que parece fantástico e interessante no fundo é um poço quase vazio (só não é um vazio pleno porque uma porção está cheia de tédio). As verdadeiras pessoas fantásticas e interessantes você só reconhece depois de pelo menos um ou dois anos de convivência.

Antes de ter esse mínimo de certeza, eu prefiro continuar investindo nos meus poucos e bons. E isso não é porque eu sou uma pessoa “fechada”. Isso, meus queridos, é exercício de liberdade.

O professor Pornotube

Publicado: quarta-feira, 14 setembro - 2011 em Cultura, Filosofia
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Faz tempo li um artigo (acho que na folha teen) com esse nome. Nestas últimas semanas estamos organizando algumas oficinas sobre sexualidade para aplicar em escolas de Rio Claro e no meio das discussões, me deu vontade de falar sobre esse assunto, até por ele exprimir algumas frustrações pessoais.

Eu não sei exatamente quando começou, mas a geração recém-chegada na maioridade (e toda a cria que vem seguindo) está passando por um sério problema de educação sexual. E por educação sexual, não estou falando do campo abrangente das relações interpessoais. Estou falando de aprender a fazer sexo, direto e reto.

Falando com amigos, fui percebendo que a aflição não é exatamente pessoal, mas fato consumado. As pessoas estão abdicando de aprender pela experiência, e pior ainda: estão deixando de praticar o “sexo por instinto” (aquele que flui naturalmente e os sortudos que me lêem sabem do que estou dizendo).

É triste. Não consigo encontrar outra palavra.

E há uma multidão de garotos e garotas prestes a ser decepcionada em breve. O sexo, para muitos, não foi ou será uma descoberta natural, tampouco acompanhou ou acompanhará um rico processo de autoconhecimento.

Esse sexo “virtual” consiste em tentar mostrar tudo o que você é capaz de fazer num só encontro, provar elasticidade, aceitar praticamente tudo para não parecer caretinha, seguir uma sequência CHATA de passos para ser feliz na cama, falar disso como se fosse motivo de orgulho e o pior de tudo: o exercício da visualização. É preciso poder olhar pra si e para o(a) parceiro(a) e conseguir se imaginar num filme.

Espero ao menos que estes menininhos se entendam e consigam fazer felizes uns aos outros, já que a expectativa por parte destes também não é lá essas coisas… Mas ainda assim é triste.

Triste não pelo prazer sexual intenso que talvez não cheguem a conhecer, mas por acreditar que isso é liberdade.

Não há prisão pior do que aquela que nos faz pensar sermos livres.

E nessa enxurrada de material “didático” há muito mais de repressão do que se pode imaginar.

Se querem fazer romances clichê, que o façam. Vestimentas clichê, que as tenham. Comportamentos clichê, que os manifestem. Mas sexo clichê é uma coisa que não deveria existir, pela felicidade dos homens…

O discurso da maioria daqueles que vivem o sonho da licenciatura (e não estou usando tom pejorativo aqui) geralmente é o de educar para a transformação.

Somos ensinados a acreditar que se nos dedicarmos a educar, com o tempo isso irá resultar na emancipação intelectual de todo um povo, que passará a lutar pelo que realmente importa, fará efetiva sua participação nos espaços de construção democrática ou, de modo sucinto e direto, se tornará de fato cidadão.

Eis uma explosão de sinceridade: eu não acredito nisso.

Nos meus processos de educar, seja enquanto figura clássica do professor ou seja enquanto agente formador informal, eu não acredito nessa educação transformadora. O sistema financeiro em que estamos inseridos está muito bem treinado, adaptado e selecionado. De um modo semelhante à história natural das baratas que as tem feito indestrutíveis há centenas de milhões de anos.

Eu gosto das baratas, e já disse isso várias vezes, mas é difícil para um biólogo falar de qualquer coisa sem “enfiar” um exemplo vivo no assunto. As espécies generalistas são mais resistentes à extinção. E talvez por isso estamos aqui hoje vivendo insustentavelmente com 7 milhões de indivíduos, em sua maioria descartáveis.

E é assim com o que se chama “capitalismo”. Eu não gosto muito desse termo, pois pra mim o capitalismo deu origem a esse sistema (generalista e insustentável, porém resistente à extinção), mas ele já sofreu adaptações demais pra ser considerado aquela mesma coisa.

Para não parecer que mudei bruscamente de assunto, o que estou querendo dizer é que nosso sistema é resistente a nossas técnicas de transformação. E quem tem contato com a rede de ensino, pública ou privada, provavelmente entende o que estou dizendo. Educar para a transformação é como escalar uma cachoeira pelas gotas que caem. E qualquer um que se declare hoje um educador, está fadado a uma vida de opressões que vão de um salário miserável ao olhar de piedade das pessoas. Mas falar disso é chover no molhado.

Quando falo em educar para a catástrofe, estou querendo dizer que, como já ocorreu em nosso passado evolutivo, é muito provável que em breve nossa população comece a ser reduzida drasticamente. Evidentemente as mídias de massa não vão te dizer isso, pois é importante que você se sinta confortável para comprar, mas é fato científico.

O aquecimento atmosférico e oceânico, as mudanças de acidez da água, a esterilização dos mares, derretimento das geleiras, desertificação de florestas, tudo isso está caminhando mais rápido do que nossos melhores sistemas previram. Muito mais rápido. E quando encararmos a primeira grande crise energética, as mortes serão inevitáveis.

E seja lá quem for sobreviver, eu espero que tenha algo em mente para que não ocorra tudo de novo.

Por estranho que possa parecer, essa é minha perspectiva otimista. Não quero criar uma nação consciente e rebelde que se levantará contra o sistema e criará outro fadado ao fracasso. Quero investir o possível para que, caso alguém sobreviva, seja capaz de viver fora de um sistema.

Nossa espécie se tornou dependente de uma alegoria econômica que nos escraviza. E não será diferente com qualquer sistema econômico proposto, pois economia não existe (é outro mito da ultramodernidade, eu diria).

Essa desabafo caiu aqui de modo disforme, mas cheio de pretensões. Reflitam sobre isso e se possível opinem (sobretudo os educadores que me visitam eventualmente). É possível trabalharmos nessa perspectiva? Ou alguém acredita de verdade na educação para a transformação?

Não alimente os animais

Publicado: sábado, 16 julho - 2011 em Não sei
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Faz parte do processo de crescer parar de alimentar as bestas.

Nos comovemos, pois, quando pequenas, sempre parecem dóceis. Não há uma criatura saída do ovo que não cause comoção.

Mas quando crescem, viram bestas da mesma forma.

Aí um dia você para de ser a pessoa com a comida na mão e passa a ser o velho chato que diz “não alimente os animais”.

Mas é porque você está cansado das mordidas, de ver gente sangrando e morrendo, de sangrar e de morrer, e sabe que pode sobrar pra você outra vez.

Certas coisas vão se tornando desnecessárias. O brilho nos olhos do filhote de besta olhando pra você é uma dessas coisas. Já temos monstros o suficiente soltos por aí…

Antes que me atirem pedras, devo explicar: este titulo é uma provocação, claramente. Mas não é sem motivo. A cada dia mais notícias do “bullying” aparecem na mídia e invadem as redes sociais de que participo. Para alguns, isso é bom, pois se está dando atenção à educação. Mas eu particularmente não acho que seja esse o tipo de atenção que a educação precisa, e vou explicar os motivos…

1) Conservadorismo lingüístico? Talvez.

E a trema ali foi intencional, só pra não perder a piada. A verdade é que temos uma palavra, na língua portuguesa, que sempre nos serviu muito bem: violência. Esse termo já comprime as idéias de “abuso”, de “invasão”, de “coação” e qualquer outro sentido que a palavra bullying possa ter. A origem latina é de “violentia”, resumidamente, “exercer autoridade na impossibilidade de resistência”. Longe de mim querer dar aulas de potuguês, que não é minha área, mas eu acredito que o problema começa aqui.

2) O “bullying” é novo, a “violentia” não.

E é disso que vive a mídia. Se for uma coisa já conhecida, não é manchete. E aí fica precendo que toda a questão da violência escolar foi uma importação recente ou, pior ainda, um sinal de que estamos caminhando ao primeiro mundo. Porque o “bullying” nunca foi problema no Brasil. Não ouvíamos falar disso dez anos atrás. O que não quer dizer, absolutamente, que não houvesse violência – área esta que, dentro dos estudos da educação, é um campo muito antigo e muito vasto.

E para termos a atenção das autoridades, das mídias, e mesmo das pessoas “comuns”, é necessário que seja “bullying”, pois aí parece que o problema é sério. Mas o “bullying”, seja pela importação linguística, seja pela sensação do novo que isso traz, ou seja por qualquer outro motivo imbecil, faz parecer que o abuso dentro das escolas tem emergido recentemente. Pior que isso, se apresenta como um fenômeno isolado, uma coisa que nasceu sozinha, que não se sabe exatamente de onde vem, e acaba por criminalizar e/ou demonizar jovens que, em boa parte dos casos (se não todos) são tão vítimas quando aqueles sobre quem exercem seu abuso.

A violência é um fenômeno que aconece em cadeia. A idéia de que violência gera violência, tão inserida na sabedoria popular, é a expressão mais simplificada e direta sobre o modo como ela funciona. O abuso exercido por um aluno sobre outro não é diferente do abuso exercido por governos sobre seus cidadãos, pela polícia sobre manifestações públicas, pelos pais sobre os filhos, pelo homem sobre o homem.

O “bullying” (e faço questão de repetir essa palavra insistentemente para ver se alguém mais se irrita com ela) é um termo que não faz sentido para nosso modelo de cultura. Mais que isso, é uma maneira bem suja de disfarçar um problema muito sério, que é o da violência sistêmica e interligada que permeia nossa sociedade. A mesma violência que reside na negação de direitos das minorias, a mesma violência que reside na perseguição religiosa das pequenas seitas, ou exercida peas grandes religiões.

A violência que ocorre dentro dos muros da escola é a mesma que ocorre aqui fora.Porque a escola não é um modelo para a sociedade, mas reflexo dela. Trabalha a seu serviço. E para uma sociedade onde a violência é modo de operação, como a nossa, o “bullying” nada mais é do que o recém-nascimento daquela violência que já não nos choca mais.

E através dessa palavrinha que nos foi vendida, como tantas outras coisas, massacramos os filhotes da besta sem chegarmos perto do ninho de onde sairão tantas outras.

É muita pretensão querer dar uma resposta a essa pergunta. Mas pretensão é algo que transborda por minhas orelhas, então ouso me arriscar. Essa semana foi atípica. Estive doente, não fui às aulas, não encontrei muitas pessoas, não fui a festas, não participei dos habituais grupos de discussão.

E como cabeça vazia é morada do diabo, nosso senhor me trouxe mais um feixe de luz. Me coloquei a pensar. O dia das mães foi um pouco do ápice da história, e o fato de não conseguir dormir por mais de duas horas sem acordar com ânsia de vômito me impulsonou a escrever. Então esta postagem será também um vômito.

Se soar amargo, não confundam com qualquer experiência de tristeza ou trauma que eu possa ter tido relacionados à maternidade. É apenas o gosto de bile.

Não vou dar os parabéns. Não há nada de especial em ser mãe, da ótica biológica. Todas as fêmeas dos mamíferos possuem a experiência da maternidade de modo semelhante ao nosso em algum grau, e muitas outras espécies não mamíferas também. Essa figura mítica da mãe santa e virgem de Jesus Cristo é que estamos a aplaudir no dia de hoje. Pior ainda, com sentimentos travestidos que poderiam ser expressos a qualquer outro momento, mas “hoje, mamãe, eu me lembrei de você”… Há anos que eu não compro ou faço mais presentes no dia das mães. Não pela ausência de uma, mas pela falta de sentido no hábito.

Isso é porque, entre outros fatores anti-cristãos da minha indivudualidade, há algo nessa história que me irrita profundamente: a supervalorização da família. A família vista como célula fundamental da espécie. Um erro grotesco que tem nos afastado radicalmente do conceito de espécie, e da nossa própria natureza.

É difícil definir espécie. A própria biologia não conseguiu ainda. O que temos são as chamadas “ontodefinições”, ou seja, definições que dependem de outras definições para estarem corretas (se estiverem também corretas as demais definições em que se apoiam). Um jogo de palavras conveniente para que não se despenque toda uma ciência. Justo e prático.

Mas o que vou dizer hoje talvez seja rasgar prematuramente um diploma que sequer tenho em mãos. Um aborto profissional, se assim preferirem. Não que seja grande impasse – sem dramas ou martirizações.

A “célula fundamental da espécie” não é a família, tampouco um casal com filhos. Sequer é o casal. Esta unidade básica é tão somente o indivíduo. E entre ele e o conceito de espécie (o todo) não há grau intermediário. Há apenas uma mentira covarde que nos divide em famílias, tribos, castas, núcleos sociais e essa patifaria toda.

Mentira porque esses grupos são virtuais. Podem ser montados e desmontados, alterados e desfigurados. São transitórios, temporários. Intercruzam-se, se quiserem. O isolamento é psicológico. E covarde porque esse hábito surge do medo de termos a rolar pelo chão nossas próprias cabecinhas – à espécie, irrelevates.

E a má interpetação de um egoísmo genético vem a reforçar essa babaquice. Quando uma alegoria cristã ganha o respaldo científico (quase sempre, ao menos aqui no ocidente), a coisa fica mais grave. A diversidade genética é um dos bens mais fundamentais para a segurança de uma espécie. Isso significa que seu “DNAzinho” tem valor inestimável.

Mas apenas quando se mistura.

Mais importante, a evolução não ocorre apenas no nível da transmissão biológica de caracteres. A seleção natural também age sobre hábitos e comportamentos aprendidos, transmitidos culturalmente. E essa pluralidade a ciência ainda reluta em reconhecer como fundamental à espécie. E eu entendo as razões. Não podemos provar isso empiricamente.

Portanto, deste parágrafo em diante, abandono o jargão biológico, dispo-me do jaleco e caio no que, anos atrás, eu chamaria de um discursinho pedante.

Para o ser humano, o conceito de espécie vai um pouco além do que as ontodefinições têm conseguido trazer. Para entendermos o que é a espécie humana eu recomendo a concepção oriental de “olhar pra dentro”. “Metafísica”, diriam. Alguns chamam de escutar o coração, outros chamam de espírito. Eu humildemente chamo de intuição, algo do que há de melhor em nossos instintos.

O pedido de hoje é que, por um dia, no lugar de valorizar um útero como célula geradora do seu universo, pensem em si próprios como células de um organismo que é muito imenso, de um tamanho do qual nenhum de nós tem, hoje, consciência plena. E peço que dêem um singelo adeus ao útero que foi nosso ponto de partida, mas para o qual não devemos tentar retornar.

E quando os economistas dizem que “a história acabou”, que a revolução industrial e o capitalismo trouxeram nossa jornada a um platô, é disso que estão falando: uma grade nação mongolóide que cava diariamente o caminho de volta ao útero.

A maternidade é algo lindo, até invejável. E para esse tipo de descrição, gosto das mais antigas: é mágica.

Mas apenas enquanto o útero é uma porta de saída, não uma jaula.

E que isso (esse escarro libertário) valha pra mães e filhos.