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Sobre a Rabugice

Publicado: quarta-feira, 6 novembro - 2013 em Cultura, Filosofia
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Decidi tirar a poeira disso e voltar a escrever.  O Facebook me deixou mal acostumado e como estou querendo sair de lá, resolvi falar de um dos principais motivos: a rabugice.

A rabugice não é um defeito. Ela é uma característica com suas vantagens e desvantagens.

Ela é diferente da arrogância, porque não é “afetada” apenas por ser. O amargo da rabugice não é de ruindade ou superioridade, é o cansaço de um peso que se carrega, geralmente por escolha.

E justamente por isso o rabugento é assim. Ele sabe que escolheu, é o preço que ele quis pagar, mas isso não torna as coisas doces. E ele não sente a obrigação de sorrir satisfeito apenas porque fez como quis.

Ela difere da inveja, também, porque ela não se incomoda com a felicidade alheia. Ela se cansa; é diferente. Sabe aquela felicidade a qualquer preço? De gente que luta pra ser feliz? Então, pra um rabugento, só olhar essa felicidade já cansa.

O rabugento não quer ser feliz como você. Ele só não consegue entender porque ainda tem gente que batalha pra ser feliz quando isso não é uma demanda pessoal. Ser feliz pra mostrar pra alguém que se está feliz é algo como dizer que tem orgulho de ser explorado.

Ainda, a rabugice não se assemelha ao ser “mal comido(a)”. Na verdade, a maioria dos rabugentos que eu conheço estão comendo ou sendo comidos muito bem. É uma bobagem achar que o mau humor está necessariamente ligado à falta de sexo ou que o bom humor está ligado ao excesso.

Na verdade, o rabugento “caga e anda” pra essa ideia de “bom humor”. Porque o “mau humor”, pra ele, é bom. Isso não significa que ele não vá dar risada, que não vai se divertir, que não gosta de estar com amigos. Significa apenas que ele não sente a menor obrigação de forçar uma emoção pra cumprir uma expectativa social.

Que cada um fale por si, claro, mas minha rabugice é uma questão de liberdade também. Porque eu não quero sorrir e dizer “tudo bem” quando não estiver tudo bem. Porque eu não quero falar que a vida está boa enquanto tem gente morrendo de fome ou por pensar livremente. Eu não quero estar tranquilo com isso. Eu não gosto de natal, dia das mães, dia dos namorados, e todas essas outras datas dedicadas a uma emoção/sentimento, porque não faz sentido ter um dia pra sentir uma coisa.

E se bem no dia das mãe você estiver com ódio da sua? Nos outros 364 dias você pode ser o filho mais amoroso do mundo, mas isso, pros outros, vai indicar que você é rancoroso, insensível… Mas pera, quem é o insensível aqui? Quem é que está te obrigando a esconder o que você está sentindo?

O mesmo vale pra aniversários. A maioria dos meus amigos felizmente já se acostumou a não receber o parabéns… “Parabéns por ter sobrevivido mais 365 dias”… “Parabéns porque a Terra deu mais um giro inteiro em torno do Sol desde que você nasceu, independente de qualquer esforço seu”. É assim que soa pra mim. E isso não quer dizer que eu goste menos de ninguém!

Dias depois, às vezes eu mando uma mensagem desejando felicidade ou falando de coisas que eu penso da pessoa. Mas sem compromisso de ser num dia X, porque se ela for pensar que eu “esqueci” dela apenas por isso, eu honestamente quero mais é que ela chore sangue…

Estão vendo? Isso é a rabugice… E eu já cansei de ficar explicando. Vão tomar no cu! rs

Que fique uma mensagem final. Rabugentos não são necessariamente invejosos, insensíveis, rancorosos, arrogantes, ou a porra que for. Eles só colocam a sinceridade acima de tudo isso. Acima deles mesmos. E acima de você também.

E todo mundo deveria ser assim.

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[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

Essa postagem não será uma crítica ou defesa sobre qualquer das recentes polêmicas socioambientais no Brasil. As pessoas (eu incluso) já estão saturadas disso e eu particularmente ando irritado com o grande volume de hipocrisia que circula pela internet.

Só a título de curiosidade, sou contra, em âmbito geral, o projeto da usina Belo Monte e também a reforma no Código Florestal. Mas pra todos os meus amigos ambientalistas que ficam “putinhos” com a minha postura neutra na maioria desses debates, talvez esse texto explique alguma coisa.  Ou talvez confunda mais. Despretensiosamente, vamos ao blablabla…

Vou falar de energia em termos gerais, também, pra não parecer que estou puxando sardinha ou pegando rabeira em movimentos.

Crise Energética não é novidade!

Apesar de os termos “Belo Monte” e “Dilma” estarem presentes no cotidiano de qualquer usuário de facebook, twitter ou leitor de jornais, esse problema não é novo. Ele só virou destaque nas grandes mídias agora porque é interessante politicamente. O que chamamos hoje de “crise energética” é algo que começou no último mandato de FHC, por conta de um programa de expansão da produção energética que desrespeitava o sistema hídrico brasileiro (que, diga-se de passagem, é um dos mais, se não o mais adequado no mundo para a utilização de energia de hidrelétricas). Resumindo como deveria funcionar, o sistema de armazenamento faz com que se guarde água nos anos de maior precipitação para que isso seja compensado nos anos de menor precipitação. As hidrelétricas são projetadas para isso. Toda hidrelétrica passa por esse tipo de problema (fase “cheia” e fase “seca”), pois é natural do sistema hídrico.

Pois bem, lá por 2000, 2001, alguns alertas começaram a surgir sobre o mau uso desses sistemas, e um futuro com possíveis racionamentos (que, pra quem lembra, chegou a acontecer, e é um dos motivos de pagarmos tão caro em nossas contas de energia elétrica hoje). Mas a questão não se resume simplesmente a “má gestão das hidrelétricas”. Houve espansão da rede elétrica, que aumentou o consumo, e não teria mesmo outro jeito, a não ser que se buscasse novas fontes de energia (e em termos práticos estamos falando de mais hidrelétricas). Isso não quer dizer que Belo Monte seja necessária para o consumo de energia do Brasil. Mas quer dizer que é natural que se instalem mais hidrelétricas. E não dá pra fugir disso se não estivermos dispostos a outro período de racionamento, e energia ainda mais cara.

Faltou, sem dúvida, investimento na transmissão dessa energia. E continua faltando. O sistema de hidrelétricas no Brasil é interligado (e pode ser mais interligado), ou seja, usinas conectadas podem compensar as necessidades umas das outras em períodos de necessidade (dado o tamanho do nosso país e a diferença entre os regimes de cada bacia hidrográfica). Isso é uma enorme vantagem pois permite que não se desperdice energia que “sobra” em alguns processos. Só para ter noção da diferença que isso faz, o acréscimo da linha Norte-Sul acrescentou à disponibilidade energética do país uma quantidade de energia equivalente à produção de Angra I.

Por que faltou investimento? Brasileiro tem mesmo a memória bem curta, mas nesse mesmo período, do governo de FHC, foi que se iniciou a esperança das termelétricas usando gás natural que viria da Bolívia. Felizmente não deu certo, mas as razões foram econômicas, pra que conste. E muita gente, na época, que assistia televisão, achava que isso era progresso! Sem nem imaginar que termelétricas produzem energia que passam de dez vezes mais cara que hidrelétricas. E que poluem mais no processo. Muito dinheiro público foi investido na criação de quase 50 dessas usinas (boa parte mascarado pela Petrobrás).  Só que gás natural acaba, ao contrário de água.

O que se está fazendo hoje com a expansão de hidrelétricas não é um absurdo econômico, tampouco ambiental. Já se fez muito pior por muito menos há bem pouco tempo atrás. E nenhum engomadinho da rede globo se manifestou, nem deu entrevista pra Veja.

É óbvio que o processo de desapropriação que ocorre em muitas dessas instalações é grotesco. Não estou isentando este governo dos absurdos que tem cometido. Sequer sou eleitor do PT. Só não gosto de circo. E é isso que se está fazendo. A maioria das pessoas que tem se colocado contra as hidrelétricas sequer sabe como uma delas funciona. A maioria das pessoas que diz que temos que investir em energias “renováveis” não tem idéia do impacto que causam as usinas eólicas e/ou solares (células fotovoltaicas). E a maioria dessas pessoas, como forma de “protesto”, simplesmente replica informação pela internet.

Energia solar e eólica nunca serão vatagem para o Brasil porque nós não investimos em tecnologia própria. Ficamos dependendo de países desenvolvidos para comprar uma tecnologia, para investir na implantação e para ganhar dinheiro às nossas custas. Não foi diferente em outros países, ditos “pioneiros” da energia limpa na europa. Quem domina as grandes usinas eólicas são os mesmos barões do petróleo de outrora, que ao perceber que uma hora vai mesmo acabar, já estão fazendo seu pé de meia pelo resto do mundo.

Se querem saber o que eu penso ser o problema central nessa questão, podem continuar a ler, mas agora vem a parte doída. Vivemos num país burro, governado por burros, movido por burros. E, pior que isso, num país onde a classe preparada pra se pronunciar com autoridade no assunto fica calada. O corpo docente das universdades públicas brasileiras é muito covarde. Não dá pra saber se é medo, vergonha ou preguiça. Mas o fato é que deveriam se enxergar como CLASSE e fazer movimentos sólidos a respeito do avanço centífico do país. E não se contentarem em pagar anuidade a seus conselhos de profissão ou deixar a voz de comando às instituições de fomento (que o governo banca, então naturalmente defendem o governo).

Professor universitário é muito bunda mole. Quem deveria estar projetando hidrelétricas são eles. E deveriam procurar a população com um projeto em mãos, pra dizer “isso aqui é melhor do que esse programa que o governo quer fazer”. Porque muitos deles enxergam o problema, conhecem a solução, mas não fazem muito diferente da velha rabugenta que vê tudo isso do sofá de casa.

O Brasil precisa de mais que uma revolução estudantil. Ele precisa de uma revolução científica. Pra ontem. Não adianta de nada ser o mais rico entre os pobrinhos. Parece aquele orgulho imbecil de ser “a escrava branca”.

Conhecimento é poder, não é de hoje que sabemos. Mas quando a classe que detém esse conhecimento não entrega ele ao povo, então essa classe está do lado de outra coisa.

Algumas informações vieram daqui, a quem interessar:
http://www.scielo.br/pdf/asoc/n6-7/20435.pdf

E também não estou ficando velho. Sempre fui assim.

Quis começar a postagem nesse estilo curto e grosso, porque embora minha escrita flerte constantemente com o prolixo, no meu dia-a-dia não é assim que funciona. Eu fui uma criança feliz, brincava na rua e tudo mais, mas nunca fui a criatura mais simpática do mundo. As pessoas sempre me achavam “quietinho” ou estranho, eu não interagia muito com a maior parte da família, e por muito tempo ignorei a existência de mais da metade dela. Dia desses tentei lembrar o nome de uma tia, irmã do meu pai, e não consegui.

Mais de 30 segundos ao telefone me dão desespero. Ir a festas de gente desconhecida é incômodo. Conhecer pessoas, na verdade, não é algo que eu goste de fazer. Eu não estou dizendo isso para reprimir as pessoas que possuem um milhão de amigos. Eu juro que as entendo, e por isso respeito. E não deveria ser necessário ter que explicar, mas é… Porque essas pessoas, no geral, não me respeitam.

Quando eu vou a um bar, eu não quero conversar com o estranho da mesa ao lado, nem com a garota no balcão. Se não é um lugar a que eu vá com frequência, aquelas pessoas todas são irrelevantes pra mim. E não é porque eu me acho especial demais pra elas, mas porque eu não acho que caiba tanta gente num mundo sincero. Eu faço uma distinção muito clara entre amigos e colegas, e acho até feio chamar tanta gente de amigos. “Esse é meu amigo de não sei onde”, “aquele é meu amigo da academia”, “fulano é meu amigo da Estônia”. Francamente? Não tenho paciência.

Quando eu conheço alguém, e faço questão que seja por acidente, eu encaro essa pessoa como um mundo inteiro a ser descoberto. E isso exige dedicação, tempo. A julgar pela minha cara de poucos amigos, muita gente acaba pensando que eu acho que a maioria das pessoas é desinteressante. Mas não é isso. Eu só acho que elas merecem ser conhecidas de verdade, compreendidas, decifradas. E que isso acontece lentamente. Até que um dia eu as possa chamar de amigas.

Se o assunto é amizade, vale a máxima “menos é mais”. Eu desconfio muito da profundidade das pessoas que conhecem outras pessoas o tempo todo, das que fazem amigos da noite pro dia, das que se apaixonam a cada duas semanas.

Mas é  um pouco triste também. Porque entre os mais novos, isso é um costume, quase uma lei. Se você não “aceita”, você é chato. Você é obrigado a estar aberto pra tudo e pra todos, e a isso se chama liberdade – e me dói o fígado. Aos poucos eu vou sendo identificado como uma figura repressora, o menino que está ficando velho e começou a falar mal da nova juventude.

O que essas pessoas não sabem é que eu não me parecia com as pessoas do meu tempo. E ainda não me pareço. Eu não “fiquei assim”, eu me construí assim. Mas isso não dá pra cobrar que eles entendam. O conceito de construção é uma coisa abstrata demais para as pessoas rasas… Eles querem tudo pronto. Até os relacionamentos estão prontos. Você só chega ali e aceita.

Pro inferno com todas as pessoas fantásticas e interessantes que existem no mundo. Até porque, todo mundo que parece fantástico e interessante no fundo é um poço quase vazio (só não é um vazio pleno porque uma porção está cheia de tédio). As verdadeiras pessoas fantásticas e interessantes você só reconhece depois de pelo menos um ou dois anos de convivência.

Antes de ter esse mínimo de certeza, eu prefiro continuar investindo nos meus poucos e bons. E isso não é porque eu sou uma pessoa “fechada”. Isso, meus queridos, é exercício de liberdade.

O professor Pornotube

Publicado: quarta-feira, 14 setembro - 2011 em Cultura, Filosofia
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Faz tempo li um artigo (acho que na folha teen) com esse nome. Nestas últimas semanas estamos organizando algumas oficinas sobre sexualidade para aplicar em escolas de Rio Claro e no meio das discussões, me deu vontade de falar sobre esse assunto, até por ele exprimir algumas frustrações pessoais.

Eu não sei exatamente quando começou, mas a geração recém-chegada na maioridade (e toda a cria que vem seguindo) está passando por um sério problema de educação sexual. E por educação sexual, não estou falando do campo abrangente das relações interpessoais. Estou falando de aprender a fazer sexo, direto e reto.

Falando com amigos, fui percebendo que a aflição não é exatamente pessoal, mas fato consumado. As pessoas estão abdicando de aprender pela experiência, e pior ainda: estão deixando de praticar o “sexo por instinto” (aquele que flui naturalmente e os sortudos que me lêem sabem do que estou dizendo).

É triste. Não consigo encontrar outra palavra.

E há uma multidão de garotos e garotas prestes a ser decepcionada em breve. O sexo, para muitos, não foi ou será uma descoberta natural, tampouco acompanhou ou acompanhará um rico processo de autoconhecimento.

Esse sexo “virtual” consiste em tentar mostrar tudo o que você é capaz de fazer num só encontro, provar elasticidade, aceitar praticamente tudo para não parecer caretinha, seguir uma sequência CHATA de passos para ser feliz na cama, falar disso como se fosse motivo de orgulho e o pior de tudo: o exercício da visualização. É preciso poder olhar pra si e para o(a) parceiro(a) e conseguir se imaginar num filme.

Espero ao menos que estes menininhos se entendam e consigam fazer felizes uns aos outros, já que a expectativa por parte destes também não é lá essas coisas… Mas ainda assim é triste.

Triste não pelo prazer sexual intenso que talvez não cheguem a conhecer, mas por acreditar que isso é liberdade.

Não há prisão pior do que aquela que nos faz pensar sermos livres.

E nessa enxurrada de material “didático” há muito mais de repressão do que se pode imaginar.

Se querem fazer romances clichê, que o façam. Vestimentas clichê, que as tenham. Comportamentos clichê, que os manifestem. Mas sexo clichê é uma coisa que não deveria existir, pela felicidade dos homens…

Não alimente os animais

Publicado: sábado, 16 julho - 2011 em Não sei
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Faz parte do processo de crescer parar de alimentar as bestas.

Nos comovemos, pois, quando pequenas, sempre parecem dóceis. Não há uma criatura saída do ovo que não cause comoção.

Mas quando crescem, viram bestas da mesma forma.

Aí um dia você para de ser a pessoa com a comida na mão e passa a ser o velho chato que diz “não alimente os animais”.

Mas é porque você está cansado das mordidas, de ver gente sangrando e morrendo, de sangrar e de morrer, e sabe que pode sobrar pra você outra vez.

Certas coisas vão se tornando desnecessárias. O brilho nos olhos do filhote de besta olhando pra você é uma dessas coisas. Já temos monstros o suficiente soltos por aí…

Antes que me atirem pedras, devo explicar: este titulo é uma provocação, claramente. Mas não é sem motivo. A cada dia mais notícias do “bullying” aparecem na mídia e invadem as redes sociais de que participo. Para alguns, isso é bom, pois se está dando atenção à educação. Mas eu particularmente não acho que seja esse o tipo de atenção que a educação precisa, e vou explicar os motivos…

1) Conservadorismo lingüístico? Talvez.

E a trema ali foi intencional, só pra não perder a piada. A verdade é que temos uma palavra, na língua portuguesa, que sempre nos serviu muito bem: violência. Esse termo já comprime as idéias de “abuso”, de “invasão”, de “coação” e qualquer outro sentido que a palavra bullying possa ter. A origem latina é de “violentia”, resumidamente, “exercer autoridade na impossibilidade de resistência”. Longe de mim querer dar aulas de potuguês, que não é minha área, mas eu acredito que o problema começa aqui.

2) O “bullying” é novo, a “violentia” não.

E é disso que vive a mídia. Se for uma coisa já conhecida, não é manchete. E aí fica precendo que toda a questão da violência escolar foi uma importação recente ou, pior ainda, um sinal de que estamos caminhando ao primeiro mundo. Porque o “bullying” nunca foi problema no Brasil. Não ouvíamos falar disso dez anos atrás. O que não quer dizer, absolutamente, que não houvesse violência – área esta que, dentro dos estudos da educação, é um campo muito antigo e muito vasto.

E para termos a atenção das autoridades, das mídias, e mesmo das pessoas “comuns”, é necessário que seja “bullying”, pois aí parece que o problema é sério. Mas o “bullying”, seja pela importação linguística, seja pela sensação do novo que isso traz, ou seja por qualquer outro motivo imbecil, faz parecer que o abuso dentro das escolas tem emergido recentemente. Pior que isso, se apresenta como um fenômeno isolado, uma coisa que nasceu sozinha, que não se sabe exatamente de onde vem, e acaba por criminalizar e/ou demonizar jovens que, em boa parte dos casos (se não todos) são tão vítimas quando aqueles sobre quem exercem seu abuso.

A violência é um fenômeno que aconece em cadeia. A idéia de que violência gera violência, tão inserida na sabedoria popular, é a expressão mais simplificada e direta sobre o modo como ela funciona. O abuso exercido por um aluno sobre outro não é diferente do abuso exercido por governos sobre seus cidadãos, pela polícia sobre manifestações públicas, pelos pais sobre os filhos, pelo homem sobre o homem.

O “bullying” (e faço questão de repetir essa palavra insistentemente para ver se alguém mais se irrita com ela) é um termo que não faz sentido para nosso modelo de cultura. Mais que isso, é uma maneira bem suja de disfarçar um problema muito sério, que é o da violência sistêmica e interligada que permeia nossa sociedade. A mesma violência que reside na negação de direitos das minorias, a mesma violência que reside na perseguição religiosa das pequenas seitas, ou exercida peas grandes religiões.

A violência que ocorre dentro dos muros da escola é a mesma que ocorre aqui fora.Porque a escola não é um modelo para a sociedade, mas reflexo dela. Trabalha a seu serviço. E para uma sociedade onde a violência é modo de operação, como a nossa, o “bullying” nada mais é do que o recém-nascimento daquela violência que já não nos choca mais.

E através dessa palavrinha que nos foi vendida, como tantas outras coisas, massacramos os filhotes da besta sem chegarmos perto do ninho de onde sairão tantas outras.

É muita pretensão querer dar uma resposta a essa pergunta. Mas pretensão é algo que transborda por minhas orelhas, então ouso me arriscar. Essa semana foi atípica. Estive doente, não fui às aulas, não encontrei muitas pessoas, não fui a festas, não participei dos habituais grupos de discussão.

E como cabeça vazia é morada do diabo, nosso senhor me trouxe mais um feixe de luz. Me coloquei a pensar. O dia das mães foi um pouco do ápice da história, e o fato de não conseguir dormir por mais de duas horas sem acordar com ânsia de vômito me impulsonou a escrever. Então esta postagem será também um vômito.

Se soar amargo, não confundam com qualquer experiência de tristeza ou trauma que eu possa ter tido relacionados à maternidade. É apenas o gosto de bile.

Não vou dar os parabéns. Não há nada de especial em ser mãe, da ótica biológica. Todas as fêmeas dos mamíferos possuem a experiência da maternidade de modo semelhante ao nosso em algum grau, e muitas outras espécies não mamíferas também. Essa figura mítica da mãe santa e virgem de Jesus Cristo é que estamos a aplaudir no dia de hoje. Pior ainda, com sentimentos travestidos que poderiam ser expressos a qualquer outro momento, mas “hoje, mamãe, eu me lembrei de você”… Há anos que eu não compro ou faço mais presentes no dia das mães. Não pela ausência de uma, mas pela falta de sentido no hábito.

Isso é porque, entre outros fatores anti-cristãos da minha indivudualidade, há algo nessa história que me irrita profundamente: a supervalorização da família. A família vista como célula fundamental da espécie. Um erro grotesco que tem nos afastado radicalmente do conceito de espécie, e da nossa própria natureza.

É difícil definir espécie. A própria biologia não conseguiu ainda. O que temos são as chamadas “ontodefinições”, ou seja, definições que dependem de outras definições para estarem corretas (se estiverem também corretas as demais definições em que se apoiam). Um jogo de palavras conveniente para que não se despenque toda uma ciência. Justo e prático.

Mas o que vou dizer hoje talvez seja rasgar prematuramente um diploma que sequer tenho em mãos. Um aborto profissional, se assim preferirem. Não que seja grande impasse – sem dramas ou martirizações.

A “célula fundamental da espécie” não é a família, tampouco um casal com filhos. Sequer é o casal. Esta unidade básica é tão somente o indivíduo. E entre ele e o conceito de espécie (o todo) não há grau intermediário. Há apenas uma mentira covarde que nos divide em famílias, tribos, castas, núcleos sociais e essa patifaria toda.

Mentira porque esses grupos são virtuais. Podem ser montados e desmontados, alterados e desfigurados. São transitórios, temporários. Intercruzam-se, se quiserem. O isolamento é psicológico. E covarde porque esse hábito surge do medo de termos a rolar pelo chão nossas próprias cabecinhas – à espécie, irrelevates.

E a má interpetação de um egoísmo genético vem a reforçar essa babaquice. Quando uma alegoria cristã ganha o respaldo científico (quase sempre, ao menos aqui no ocidente), a coisa fica mais grave. A diversidade genética é um dos bens mais fundamentais para a segurança de uma espécie. Isso significa que seu “DNAzinho” tem valor inestimável.

Mas apenas quando se mistura.

Mais importante, a evolução não ocorre apenas no nível da transmissão biológica de caracteres. A seleção natural também age sobre hábitos e comportamentos aprendidos, transmitidos culturalmente. E essa pluralidade a ciência ainda reluta em reconhecer como fundamental à espécie. E eu entendo as razões. Não podemos provar isso empiricamente.

Portanto, deste parágrafo em diante, abandono o jargão biológico, dispo-me do jaleco e caio no que, anos atrás, eu chamaria de um discursinho pedante.

Para o ser humano, o conceito de espécie vai um pouco além do que as ontodefinições têm conseguido trazer. Para entendermos o que é a espécie humana eu recomendo a concepção oriental de “olhar pra dentro”. “Metafísica”, diriam. Alguns chamam de escutar o coração, outros chamam de espírito. Eu humildemente chamo de intuição, algo do que há de melhor em nossos instintos.

O pedido de hoje é que, por um dia, no lugar de valorizar um útero como célula geradora do seu universo, pensem em si próprios como células de um organismo que é muito imenso, de um tamanho do qual nenhum de nós tem, hoje, consciência plena. E peço que dêem um singelo adeus ao útero que foi nosso ponto de partida, mas para o qual não devemos tentar retornar.

E quando os economistas dizem que “a história acabou”, que a revolução industrial e o capitalismo trouxeram nossa jornada a um platô, é disso que estão falando: uma grade nação mongolóide que cava diariamente o caminho de volta ao útero.

A maternidade é algo lindo, até invejável. E para esse tipo de descrição, gosto das mais antigas: é mágica.

Mas apenas enquanto o útero é uma porta de saída, não uma jaula.

E que isso (esse escarro libertário) valha pra mães e filhos.

É estranho como mesmo em fases boas da vida temos aquele momento em que as coisas soam sem muita graça. Não todas as coisas, mas algumas coisas. Especificamente, hoje minha falta de perspectiva está relacionada ao mundo do trabalho.

Infelizmente, pra nós não faz sentido pensar o trabalho fora do organismo capitalista. E para aqueles de bom coração que não conseguem ser felizes no capitalismo, o trabalho é sempre uma coisa triste. Tem seus altos, seus ganhos, proveitos, aprendizados e até pequenas realizações. Mas é impossível obter satisfação.

A começar pelo fato de que somos, geralmente, mal pagos. Você que tem um bom salário, meus parabéns, mas saiba que bons salários em nosso sistema existem às custas de muitos baixos salários. E isso ja bastaria para que eu estivesse sempre insatisfeito.

E ainda que não bastasse, entra a questão da perspectiva de ascenção, e as diferenças de salário. Definir o quanto uma pessoa trabalha a mais ou o quanto o trabalho dela é mais importate, ao menos à minha humilde mente, é algo inconcebível, com exceção, talvez, de alguns extremos.

Se o trabalho é uma função social, existe lógica em qualquer carreira “privada”? Todo e qualquer trabalho, numa sociedade, para uma sociedade, é ou ao menos deveria ser considerado uma carreira pública.

Nesta semana, resolvi xeretar o tal do Linux (o Ubuntu, no caso). Para mim, a idéia sempre soou maravilhosa e interessante, admirável em diversos aspectos, mas eu nunca tinha tido a coragem de perder a segurança que tenho com o Windows. E não tive ainda. Na verdade estava trabalhando no computador do meu namorado, tentando trocar uma versão recente do Windows para uma mais antiga e resolvemos tentar a experiência (já que a partir da versão Vista o Windows tem um poderoso sistema de “não me tire daqui”, e quem já tentou seguramente sofreu com isso).

Qual foi o meu espanto? Ao contrário do que eu imaginava, o Ubuntu não é incapaz de fazer a maioria das coisas que o Windows faz. Eu é que era incapaz de fazê-las no Ubuntu. Ainda sou um pouco, mas isso está mudando aos poucos. Não me julgo, ainda, em condições de fazer comparações de desempenho e funcionalidade. Mas me arrisco a fazer uma análise de outra natureza.

Quando queremos um Windows, temos duas opções: Pagar uma fortuna (sim, é um preço absurdo) ou apelar para a ilegalidade. Não que eu seja avesso à ilegalidade, mas a questão aqui é outra. Cedo ou tarde, temos problemas. Seja com atualizações, com versões, com restrições, com amolações ou com a própria consciência. A ilegalidade seria mais justificável se não houvessem alternativas, mas há.

O Ubuntu, Sucintamente, pelo próprio projeto:

“Ubuntu é um sistema operacional baseado em Linux desenvolvido pela comunidade”

  • O Ubuntu sempre será gratuito, e não cobrará adicionais por uma “versão enterprise” ou atualizações de segurança. Nosso melhor trabalho está disponível para todos sob as mesmas condições.
  • Uma nova versão do Ubuntu é lançada periodicamente a cada seis meses. Cada nova versão possui suporte completo, incluindo atualizações de segurança pela Canonical por pelo menos 18 meses, tudo isto gratuitamente.
  • O Ubuntu possui a melhor infraestrutura de tradução e acessibilidade que a comunidade do Software Livre tem a oferecer, tornando o Ubuntu usável por tantas pessoas quanto for possível.
  • O CD do Ubuntu possui apenas Software Livre, nós encorajamos você a usar software de código aberto, melhorá-lo e distribui-lo.

“Ubuntu é uma antiga palavra africana que significa algo como ‘Humanidade para os outros’ ou ainda ‘Sou o que sou pelo que nós somos’.”

É verdade que boa parte do conteúdo livre, nos dias de hoje, já não é tão livre assim. Mas saber que grupos, dentro ou fora de universidades, trabalham para que o mundo inteiro consiga avançar sem que alguém precise ficar rico com isso, me animou um pouco. Fiquei me perguntando por que todos nós, estudantes e/ou acadêmicos, não nos dedicamos a projetos semelhantes.

Por que, por exemplo, no lugar de tentarmos isolar genes da cana-de-açúcar e entregar isso nas mãos da empresa que financiou o projeto, não juntamos o pouco recurso que temos numa salinha simples e começamos a trabalhar de verdade por um mundo mais livre?

Eu não estou dizendo que seja fácil. Eu mesmo sofro com isso diariamente. As bolsas de fomento vindas do mercado ou das instituições que ele mantêm são sempre as mais gordinhas. E as bolsas de extensão funcionam como auxílio alimentício. Mas talvez baste ter o que comer.

Longe desse espírito decrepto de Páscoa, de um “menino santo” que morre por todos nós, não venho falar de sacrifício. Estou falando de trabalho. Carreira pública, seja ela onde for, mas posta em prática como pública, dentro do nosso possível. Um trabalho que você possa concluir e tornar acessível a qualquer um para aprimorar. Um trabalho que tenha aplicação social direta.

“Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, assegurada pelos outros, não sente intimidada que os outros sejam capazes e bons, para ele ou ela ter própria auto-confiança que vem do conhecimento que ele ou ela tem o seu próprio lugar no grande todo.” — Arcebispo Desmond Tutu em Nenhum Futuro Sem Perdão (No Future Without Forgiveness).

Toda a ciência deveria ser guiada por esse princípio. Todo o trabalho deveria ser guiado por esse princípio.

Eu não quero trabalhar por mim. Nem sou capaz. E se por um lado isso traz a frustração de não conseguir ter um plano de carreira ou projeto de vida dentro de nosso sistema financeiro, por outro me faz crer num plano de carreira para a humanidade como um todo. É assim que funciona com as espécies na natureza. Não é uma batalha de indivíduos, é uma batalha de grupos. Nosso ego imbecil, um dos “bagaços” que trazemos carregados em nossa história evolutiva, é que nos faz pensar que somos indivíduos especiais. E ainda tem gente que considera isso uma bênção…

Pois bem, que seja. Se o mais louvável dos filhos do deus cristão, dessa perspectiva, abdicou do próprio plano de carreira para que todos pudessem ter alguma melhoria em suas próprias, por que nossa sociedade, extraoficialmente cristã, não adota a prática?

Altruísmo sempre foi vantajoso no processo de seleção natural, ainda que más interpretações de Dawkins (até por ele próprio) tenham feito parecer que não.

Mas eu já escrevi demais, não queria contagiar ninguém com meu cansaço…

O verdadeiro problema…

Publicado: quarta-feira, 12 janeiro - 2011 em Não sei
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[Esse é um daqueles posts confessionais, emotivos, rasgados e inconsequentes que estão pouco se fodendo se serão lidos, digeridos ou admirados. Fica o aviso.]

Ando de saco cheio de ouvir amigos (ou não ouvir, porque alguns hesitam em falar diretamente) dizendo “mas ainda nisso?” ou “mas ainda não superou?”. Não, não superei. Mas vou dizer qual é o verdadeiro problema, pois a maioria das pessoas custa a entender algumas dores que eu sinto, julgando serem parecidas com as que elas já sentiram ou sentem.

Dor de corno é uma coisa que dói bastante. Quem já foi traído por alguém que amava muito sabe disso. Mas dor de corno é uma coisa que passa, sobretudo à medida em que passa o amor. Durante algum tempo você ainda vai dizer que ama, que sente falta, mas é apenas pelo costume. E no fundo você sabe. Demora a admitir que é o sexo que faz mais falta, porque isso vai fazer você se sentir baixo. Mas convenhamos: dor de corno passa.

Contarei uma breve história sobre o modo como eu vivi e vivo minha vida.

Na adolescência, eu era aquele garotinho de coração de pedra. Aquele que não se apaixona, que evita sentimentos fortes, que foge dos envolvimentos, porque o amor é uma coisa que só pode te machucar. Não sei com quem ou onde eu aprendi que era assim, mas pra mim era verdade. E foi assim durante bastante tempo, fugindo de muita gente que poderia, eu nunca saberei, ter me ensinado muita coisa interessante.

Aí um dia, por algum caralho de asas do destino, você decide que não precisa ser assim. Porque você encontra alguém que sonha com você – e isso nunca tinha acontecido. Pela primeira vez você acha que pode dividir seus sonhos com alguém. Você planeja futuro, você planeja uma vida a dois, você começa a pensar do que vale a apena abrir mão para ter alguém que anda de mãos dadas com você. E isso não é ruim. Para muitos, é justamente o caminho para a felicidade.

E de repente um jovenzinho que achava que ter filhos era egoísmo no cenário capitalista, que ter uma casa era sedimentar a crueldade da propriedade privada, que planejar carreira era fechar os olhos para tantos futuros possíveis… Esse jovenzinho acha que vale a pena abrir mão de tudo isso pra dividir seus sonhos com alguém.

E BANG!

Eu não fui simplesmente traído pelo amor que eu mais amei. Eu fui traído pelo amigo em que eu mais confiei.

É isso que dói.

Dói, e faz você ter medo de dividir seus sonhos com quem quer que seja novamente. Faz você perder a fé, a força de vontade, o crédito nas pessoas… Faz você ver seus valores e de tanta gente, todos de cabeça pra baixo. Faz você pensar que você, no lugar dessa ou daquela pessoa, teria tido outra atitude.

E amizades vêm sempre em ciclos… E ciclos se abalam com essas coisas. E você não será o único que não saberá o que fazer. Talvez ninguém saiba. E por não saber, talvez ninguém faça. E quando alguém sair do torpor, talvez já seja tarde demais pra consertar algumas coisas.

Tudo em função de caprichos de vaidade de alguém que um dia, você também achou bonito. E se esforçou em dizer que era belo, mesmo quando não achava.

Mas essa gente se vicia e não sabe a hora de parar.

Não elogie demais seus filhos.