[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

Ano passado fiz uma postagem no dia do rock onde falava que o rock’n’roll, pra mim, é justamente o grito. Esse ano vou falar de outro aspecto.

Se alguém quiser, veja aqui.

Não precisa ser nada único pra contaminar as linhas do tempo do facebook ou do twitter. Mas ao contrário das finais de campeonato de futebol ou MMA, logo o estilo de música visto como o mais “pesado” está promovendo o bom e velho “paz e amor”.

O que eu gosto do conceito de “paz e amor” é que paz sozinha corre o risco de ser mal interpretada, vista como comodismo, adequação. Amor é um processo ativo que exige movimento e transformação. Faz bem aos dois andarem juntos.

O rock’n’roll tem uma história confusa, mas o fato é que foi preciso uma guerra para que as pessoas parassem e prestassem atenção no que a população marginalizada, em sua maioria negros, estavam fazendo. E acho que é assim que a maioria das pessoas encontra o rock’n’roll. Você está na merda, aí olha outro alguém, que também está fodido, e ele está ouvindo uma música que mexe com você.

Tendo origem no blues, é natural que o motor tenha gosto amargo. O primeiro motivo pra gritar estava ali. Com as guitarras elétricas e o som mais forte, surgiu o segundo motivo. A essa altura já não tinha como voltar atrás.

O rock quebrou paradigmas físicos da dança. Você não precisaria mais se comportar e fazer os passinhos que sua mãe fazia. A sexualidade da dança passou a ser escancarada, transparente. E assim também a sexualidade das pessoas. E a contravenção estava longe de parar aí. Nao se cantava apenas das mulheres princesas, mas também das mulheres selvagens.

Anos depois, a psicodelia deu o ingrediente que faltava. Questionar a sociedade era pouco. Questionar o próprio corpo era pouco. Era preciso questionar a realidade, o “ser”. Acredito que uma porção do rock se perdeu nesse processo e deve estar num lugar bem melhor que o nosso. O rock conectou modos de pensar ocidental e oriental, deixou claro pra sociedade conservadora que a música tinha mais poder de união do que as armas.

O rock não mudou o mundo completamente. A primeira figura de pelvis rebolante a conquistar o olhar mundial tinha pele branca. Mas o rock abriu essa portas, trouxe à tona também o soul, o jazz e o R&B que estavam escondidos em bares emaconhados de vagabundos (e devemos quase tudo isso a esses “vagabundos”).

Depois se misturou com a música country, o que parecia impossível acontecer. E se por um lado hoje temos rock’n’roll conservador, temos conservadores que ouvem rock’n’roll, arte que saiu dos povos que eles mesmos oprimiram por tanto tempo. Dá pra comparar essa explosão artística ao Big Bang, com migalhas de rock’n’roll se espalhando por aí e virando de tudo, música negra religiosa, baladinhas de rancho, viagens psicodélicas intermináveis, guitarras quebradas no chão ou pegando fogo, e até menininhos arrumados na Inglaterra. Aí o rock progressivo mostrou que dava pra ser vários rocks em um só.

A ameaça do sonho acabando pode ter deixado o Flower Power fora de cena por conta de um ou outro escândalo, as campanhas contra as drogas, os fanáticos religiosos. Mas não deu tempo do rock morrer e já estavam nascendo os rockeiros emplumados do hard rock e a molecada brava do punk. E na sequência, a necessidade de um grito mais alto fez nascer o metal, um grito mais cansado e rabugento e nasceu o grunge. E nunca mais parou.

O movimento gay, o movimento feminista, o movimento negro, o movimento estudantil e tantos outros movimentos por onde os jovens se espalham devem muito ao rock’n’roll, porque ele sempre esteve ali, porque ele sempre foi, por si só, uma manifestação de contravensão.

Até mesmo o lado podre da história, os festivais multimilionários, a grande indústria da música, também só cresceram por pegar carona numa onda que era independente disso.

Rockabilly, country rock, high-school rock, classic rock, rock psicodélico, rock progressivo, surf music, ópera rock, garage rock, hard rock, glam rock, punk, hair, new wave, heavy metal, thrash metal, black metal, death metal, gótico, hardcore, rock brasileiro, britpop, grunge, funk metal, metal melódico, indie, new metal, post punk… E até a porcaria do pop-rock com seus filhinhos tristes e coloridos.

Todos são espaço de contracultura. E é  justamente por isso que desagradam. Ninguém gosta de qualquer rock. Mas todo mundo gosta de algum.

Até minha avó evangélica gosta de ACDC.

E vou fechar com uma frase do Bob Dylan, que eu particularmente acho bastante irritante (o Bob, não a frase), mas que explica bem o que quero dizer:

“Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas.”

 

É isso =]

Este é o segundo post da série “Higienização Insana”. No primeiro, introduzi o assunto, então quem tiver interesse veja o link no final dessa postagem.

De onde veio essa bobagem?

Eu também custei a descobrir. Faz tempo que já sabia que era mito e os motivos, mas não imaginava de onde isso tinha saído. Encontrei uma porção de hipóteses a esse respeito, mas a mais convincente tem embasamento científico, então vou adotá-la. Caso alguém conheça outra explicação, por favor, comente!

O fato é que a água na Europa (local de onde vêm muitos produtos de beleza e cosméticos) é muito mais “dura” que a nossa, ou seja, possui maior concentração de sais (provenientes de calcário, sobretudo). Por conta disso, para que os produtos tenham ação de limpeza eficiente com esse tipo de água, é preciso uma maior concentração de detergentes na fórmula.

Esses produtos passaram a ser vistos como “melhores”, porque o desenvolvimento cosmético desses países de fato foi superior ao brasileiro durante muito tempo (hoje isso é questionável). Assim, quando alguém tinha contato com um produto “bom” percebia maior volume de espuma. Vieram então os comerciais e os produtos nacionas resolveram acompanhar a tendência para se manterem no mercado.

Então não é melhor?

Depende. Em locais com águas mais duras, é importante que exista maior concentração de detergentes para que eles funcionem apropriadamente. Mas não é o nosso caso, e esse excesso pode ser (e geralmente é) prejudicial à nossa saúde e, principalmente, ao ambiente.

Muita espuma aqui não é sinal de limpeza. É sinal de excesso!

O que, afinal, é a espuma e por que ela se forma?

Resumindo, espuma é ar. Quando algum sabão está disperso em água, a organização molecular de seus sais em relação à água faz com que, com o atrito e a entrada de ar na mistura, pequenas bolhas sejam revestidas por uma película de moléculas de sabão que impedem que esse ar escape.  Nessa perspectiva, pensar que mais espuma resulta em mais limpeza é como bater clras em neve esperando que a agitação deixe ela mais doce. Ou seja, não tem cabimento algum.

A espuma é um sinal de que as substâncias detergentes estão presentes, mas apartir do ponto em que a espuma se torna persistente (aquelas que as modelos assopram na banheira nos comerciais, e não se desmancham), isso é um claro sinal de excesso.

Quais as alternativas?

Você pode procurar produtos no mercado com menor concentração de detergentes, mas já aviso, vai ser muito esforço pra pouco resultado, porque esses produtos têm pouco sucesso no mercado. E o motivo é porque não sabemos consumir, mas isso não vai mudar tão cedo. O que nos resta são medidas práticas que vão tornar sua limpeza mais eficiente.

Pra não me alongar muito, o que for detergente, dilua por 4, e o que for xampú, dilua por 2.

Você já deve ter visto nas propagandas a Suzana Vieira colocar uns poucos pingos de detergente na esponja dizendo que ele “rende mais”, então você usa menos. Isso é verdade, desde que você faça ele render mais. Pra isso, dilua em água. Se ficar com medinho, dilua um frasco para dois e faça o teste. É mais fácil de espalhar esse detergente pela esponja e pela superficie a ser limpa, e isso faz ele funcionar melhor (embora com menos espuma).

Um detergente, pra fazer efeito, precisa se diluir na água. Se você fizer isso antes de usar, o processo fica muito mais simples. O mesmo vale para xampú em relação aos cabelos. Ele vai ficar com mais líquido e fazer menos espuma, então parece que limpa menos. Mas ele vai se espalhar melhor pelo cabelo e qualquer componente ativo da fórmula vai ser melhor incorporado pelos fios ou pelo coro cabeludo.

Pra entender, na prática, essa diferença, tente lambuzar um prato inteiro com uma colher de óleo e com uma colher de margarina.

Se você simplesmente tentar colocar poucas gotas de detergente na esponja ou pouco xampú na mão, ele vai se diluir com dificuldade porque a consistência é viscosa, e não vai funcionar. Então, dilua antes. O motivo de esses produtos serem viscosos é porque diluem menos, aí você usa mais, acaba antes e tem que comprar outro.

Diluir não é um ato de inteligência. É questão de procedimento. Não diluir é que é a burrice.

Mas o que tem a espuma de tão ruim?

O excesso de detergentes deixa a pele ressecada. Já falamos sobre isso na primeira postagem, então não vou insistir nos perigos da pele ressecada, mas ela fica mais frágil contra infecções e alguns ferimentos.

Esse é o motivo de se colocar outros produtos hidratantes (geralmente óleos) nos xampús e sabonetes. Mas se não tivesse detergente em excesso, boa parte deles não precisaria estar ali e haveria muito menos agentes químicos no produto (menos risco de alergias, menos poluentes pelo ralo). Eles não estão ali pra proteger sua pele do ressecamento natural. Eles estão ali pra aliviar os efeitos do ressecamento que o próprio produto causa.

Mas o maior problema com as espumas dos detergentes (sabões não formam esse tipo de espuma, mas tanto sabonetes quanto xampús geralmente possuem detergentes, então se tiver bastante espuma, eles estão ali) é ambiental. A espuma custa a se desmanchare sobre a superfície da água. Quem já viu saída de esgotos industriais ou locais onde ocorre agitação de água de esgotos sabe bem como é. Isso dificulta a entrada de oxigênio nos rios e destrói boa parte da vida ali. Isso também favorece o desenvolvimento de microorganismos anaeróbicos, que geralmente liberam um cheiro extremamente desagradável.

Os detergente não-biodegradáveis ainda apresentam o inconveniente de poderem se infiltrar no solo e em águas subterrâneas, podendo chegar a consumo humano e causar problemas digestivos e intestinais. A fabricação destes é atualmente proibida no Brasil e em vários outros países. Mas mesmo os biodegradáveis em excesso causam problemas ambientais. São tóxicos para os peixes, podem destruir microorganismos necessários à manutenção do ambiente aquático e sua decomposição resulta na eutrofização de águas, o que significa um crescimento populacional desordenado de álgas e consumidores primários (aumento de biomassa), que impedem a entrada de luz e reduzem o teor de oxigênio na água.

Produtos realmente diferentes

Há ainda os detergentes sem fosfatos e até mesmo sem qualquer derivado de petróleo. Ecologicamente são muito melhores, mas são sigificativamente mais caros. Um sabão em pó destes chega a sair por mais de 20 reais o quilo e muitos desses produtos acabam sendo importados, pois as produções nacionais não alcançam o grande mercado.

Outro inconveniente é que detergente com pouco ou nenhum fosfato depende muito mais do atrito. Ou seja, vai ter que lavar no braço mesmo, porque em máquinas de lavar louça, por exemplo, o desempenho é bem ruim. No Japão se desenvolveu um produto para lavagem de roupas em máquina com bolas de cerâmica que duram até 3 anos com uso diário. E não usam nada de detergente. Mas acredito que não valha a pena para a indústria, pois voce não vai ter que repor toda semana. Esses produtos devem demorar até atingirem um custo-benefício satisfatório e agradar o consumidor, então até que isso aconteça, o mais prático é diluir.

Eduque sua mente!

Precisamos nos educar quanto aos processos de limpeza. O consumidor escolhe mal porque não sabe o que está ali, nem como funciona. Peço que façam a experiência com o detergente. As marcas mais baratas vêm mais diluídas, então vamos arriscar uma diluição de um volume para dois. Quando seu frasco acabar, transfira metade de um novo para ele e preencha os dois com água. Use esses dois até acabarem e depois tente voltar pro concentrado. Veja você mesmo como o diluído funciona igual ou até melhor. O mesmo vale ara xampús. Se tiver medo, faça a diluição na sua mão.

Quando você se acostumar com a ideia de que a espuma não estar ali não quer dizer nada, no dia em que tentar usar o produto concentrado vai perceber como ele ataca sua mão, é mais difícil de usar e acaba muito mais rápido.

Nosso maior gasto de detergentes é apertando a esponja pra tirar o “excesso de espuma”. Reparem.

Posts anteriores da série:
Sabonetes Bactericidas

A Falsa Luta

Publicado: sábado, 16 junho - 2012 em Cultura, Filosofia, Política
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Não é apenas triste que exista pouca gente dedicada a entender e se envolver em problemas políticos. Desses poucos, há uma parcela bem razoável de gente que está fazendo tudo errado, sem entender o que é uma luta política. Vamos partir do princípio.

Quando uma causa política se configura como luta política, pressupõe-se aí a figura de um inimigo (que não precisa ser uma pessoa; pode ser um grupo, um valor, um hábito etc). E esse é o primeiro e mais básico dos erros cometidos nas falsas lutas. Escolher o inimigo errado é equivalente a “descontar no vizinho”. Já que eu não sei com quem brigar, vou descarregar na primeira figura fragilizada que cruzar meu caminho.

Exemplificando: Quando fazia escola técnica, eu fazia 4 trajetos de ônibus por dia. Como foram 4 anos, vi a passagem subir algumas vezes. E quem sempre ouvia era o cobrador (o motorista um pouco menos). Agora vamos entender o porquê…

A passagem subiu e o grupo de atingidos é o de passageiros (sempre maioria). O motorista está dirigindo o ônibus. Nossa chegada ao trabalho depende dele, e um pouco também nossa vida. Sobra o cobrador, a figura mais fragilizada no ônibus, pra essa situação. E ele vai ouvir uma enxurrada de absurdos, talvez nem saiba do que estão falando, talvez esteja até ele mesmo indignado com o aumento da passagem, mas ali ele é a figura mais vulnerável pra ser responsabilizada.

Outras situações semelhantes acontecem nos supermercados. Quando as sacolinhas foram proibidas, em uma semana eu vi duas caixas ouvindo uma porção de desaforos. E por que os caixas? Porque se reagirem, tomam um esporro do gerente ou do dono do estabelecimento.

O jeito mais fácil de evitar ser este tipo de idiota é fazer uma análise bem rápida. Se o seu inimigo é mais fraco que você (para aquela situação social), então provavelmente ele não é seu inimigo, ou o problema já teria sido resolvido. O inimigo, numa causa política, sempre é “alguém” mais forte. Por isso é que surge a causa e a luta. E por isso as pessoas dificilmente assumem para si as causas mais íntegras.

E pra finalizar, se o inimigo é você, isso pode ser uma causa, mas definitivamente não é uma luta. Lutar pelo meio ambiente não é fechar a torneira. Fechar a torneira é prezar pelo meio ambiente. Lutar é fazer com que se feche uma porção de torneiras que não são suas, sobre as quais você não tem poder algum, sobretudo aquelas “torneiras” bem grandes, do agronegócio e do setor industrial, que se recusam a fechar.

Definido um inimigo, é preciso ter uma estratégia. Se não houver estratégia, não é luta, é uma “briga”… Ou chame do que você preferir. Eu geralmente chamo de chilique, porque acho que os chiliquentos se incomodam mais quando os chamamos assim. “Briguento” faz parecer que ele é uma pessoa cheia de convicções e de temperamento forte, o que geralmente não é.

Isso significa que se você entendeu que o aumento da passagem é de responsabilidade dos governos e das empresas conveniadas, o próximo passo é saber que reclamar com o cobrador não vai resolver absolutamente nada. Conversar com ele, por outro lado, pode trazer informações valiosas e, quem sabe, um companheiro de luta.

Quando o filtro do inimigo não funciona, a estratégia se aplica como uma malha fina. Removidos os 90% de chiliquentos, dos 10% restantes, talvez agora se vão mais da metade. É gente que coloca pano branco na janela pra reduzir a violência, por exemplo. Gente que veste uma camiseta “100% negro” e acha que isso vai coibir o racismo também. E tantas outras gentes que até sabem que têm que lutar, têm motivos pra isso e até querem fazer alguma coisa. Mas não sabem como.

E geralmente esse cidadão se coloca da seguinte forma “Tá errado, mas eu vou fazer o quê?”. Quem começa dessa forma geralmente perde minha atenção imediatamente. Lutadores de verdade buscam ou constroem um método de luta, não ficam esperando algo cair do céu. Todo lutador é um líder, ao menos de si. Mas essas pessoas sem estratégia e de bom coração acabam sendo importantes para dar volume. Eles são a maioria esmagadora em qualquer “marcha” que você ver por aí, seja pra Jesus ou seja pra maconha.

O último termômetro é talvez o mais perigoso. Todo guerreiro que volta vitorioso de suas batalhas começa a receber o aplauso das multidões. E em pouco tempo, ele poderá estar lutando pelo aplauso, e não pela guerra. Então, se as pessoas começarem perder mais tempo te aplaudindo (estou falando de um aplauso metafórico) do que guerreando ao seu lado, sinto dizer, mas você fez tudo errado.

Uma das coisas que mais me irrita, e acredito que outros ativistas partilham dessa aflição, é depois de um momento de luta, as pessoas te parabenizarem pelo que fez. São aquelas pessoas que dizem que apoiam sua causa, que admiram seu esforço, mas que não lutam ao seu lado.

Essa reação não é sincera. E podem me chamar de paranoico, mas estou convicto disso. A pessoa que realmente se compadece por sua luta, luta ao seu lado. As outras estão apenas cumprindo uma função social. Estão dizendo aquilo porque senão “fica feio”. Conscientemente ou não, é assim que acontece.

Não confundam, por favor, com o direcionamento de esforços para outra batalha. Algumas pessoas estão lutando por outras coisas. Mas se elas estão lutando, eu entendo que estão lutando ao meu lado. São lutadores. Mas se elas só admiram outros lutadores, elas estão mais do lado da figura do inimigo que do seu.

Por fim, cabe uma observação, que é o dos emotivos do avesso. Esses são os que se dizem lutadores, mas não têm coragem de afrontar, por exemplo,  um pai, por conta da relação de afeto estabelecida. Mas vou jogar outro balde de água fria na sua cara, se você é desses. Você não está respeitando uma relação afetiva, está se submetendo a uma relação de poder, porque se fosse um filho, você interviria. Quem ama intervém. Enfrentar valores daqueles que você ama não só é justificável, como é mais bonito, porque a razão primordial para enfrentar é que você ama.

Os que abdicam totalmente da luta, bem… Esses eu respeito como respeito uma folha de alface. Não é pouco, acreditem. Mas não os consigo olhar como iguais. Luto por eles, como lutaria por qualquer outro. Só não me peça para os amar tanto…

Este é o primeiro de uma série de futuros posts sobre nossa mania de esterilizar o mundo, e que tem deixado quase todo mundo louco, pra não dizer idiota. Será grande porque é introdutório. Os próximos não repetirão a informação aqui registrada.

Desculpem-me as donas de casa com “mania de limpeza” (que é doença!!!) e as mamães que esterilizam suas crianças, mas a ignorância de vocês pode estar condenando seus pequenos a problemas de saúde muito mais sérios do que as bactérias do nosso cotidiano poderiam causar.

Sabonetes bactericidas devem ser usados conforme as instruções!

Se você usa Protex, Lifebuoy ou variáveis como usaria um sabonete normal, você só está jogando antibióticos (e dinheiro) pelo ralo. As substâncias bactericidas ativas nestes produtos precisam de no mínimo dois minutos sobre a pele para surtirem efeito. Algum de vocês deixa as mãos ensaboadas por dois minutos antes de enxaguar? Eu duvido. Então, surpresa, todo o dinheiro que você gastou nestes sabonetes foi inútil até agora para melhorar sua saúde. Mas ele trouxe outras coisas…

“Achamos que estamos esterilizando o mundo, mas estamos mudando ele”

Palavras dos pesquisadores McMurry e Levy, numa edição da Nature de 1998 (sim, a indústria tem escondido isso de você há mais de 10 anos). Interessados podem ler o artigo “Antibacterial household products: cause for concern”. [Abstract; PDF]

Esses produtos bactericidas foram desenvolvidos inicialmente para uso em ambientes potencialmente contaminantes (hospitais, locais de coleta e análise de água poluída, laboratórios etc). Mas a partir no fim da década de 90, já estavam presentes em mais de 700 produtos destinados a uso doméstico. Isso não porque as pessoas estavam ficando doentes por conta de bactérias, mas porque estavam ficando doentes mentais (com a licença para o exagero, mas esse texto tem o propósito de ser um “alerta vermelho”).

Os problemas do uso cotidiano e excessivo desses produtos são muitos. Vou listar apenas os mais relevantes.

  • Quanto mais substâncias presentes num agente (de tratamento ou não) maior o risco de reação do organismo. Por isso não é raro encontrar pessoas que apresentam reação alérgica ao uso desses sabonetes. E reações alérgicas não são apenas pele vermelha. Elas podem se manifestar de diversas formas, muitas delas internas, difíceis de identificar. Podem envolver dores de cabeça, enfraquecimento do sistema imunológico, irritação do intestino ou do estômago, dores musculares, entre muitos outros. Isso vai da pessoa, mas é fato que essas substâncias são absorvidas pela pele e podem chegar a diversas partes do organismo.
  • Os bactericidas não escolhem a bactéria que vão atacar, e nossa pele é naturalmente revestida por bactérias ditas “boas”, ou seja, que atuam na absorção do excesso de suor e como barreira contra outras infecções. Destruir essas bactérias é deixar o organismo mais vulnerável a infecções. Vale ressaltar aqui que a relação “pacífica” que temos com esses microrganismos foram construídas ao longo de milhares de anos da evolução. E justamente por isso elas funcionam muito bem (do contrário, não estaríamos aqui).
  • Antibióticos usados dessa forma colaboram para a seleção de bactérias mutantes resistentes. Na prática, isso significa que a administração desorientada dessas substâncias, no lugar de proteger seu organismo, irá agir sobre um população de bactérias fazendo com que os menos resistentes morram e os mais resistentes possam se reproduzir. A mídia frequentemente usa o termo “superbactéria”, que você já deve ter ouvido, pra falar desse fenômeno.
  • Por fim, em decorrência disso tudo, essas substâncias podem alterar a microflora do indivíduo (a população natural de bactérias do corpo humano). Como resultado, isso pode alterar o processo de maturação de células T do seu sistema imunológico, potencializando, e muito, a chance de crianças desenvolverem alergias.

Calma, ainda não acabou.

Até mesmo a indústria já está reconhecendo o problema

O Triclosan foi a substância líder desse ramo durante um bom tempo (mas já foi banido ao menos pelas marcas mais importantes). Além desses problemas, já foi associado até mesmo a casos de desregulação hormonal e prejuízos ambientais. Os outros ativos químicos (clorocarbonos, active 5, cloroxilenol) ainda não foram tão bem estudados, mas é bom ficarmos atentos. Geralmente os bactericidas vêm com essa mensagem gritante na embalagem, porque o consumidor ainda valoriza essa propriedade, mas não custa verificar a composição do sabonete para ter certeza.

Sabonetes normais são mais seguros, mas também não devem ser usados em excesso!

Mesmo o sabonete comum, se usado em excesso, pode prejudicar a saúde do organismo. Para a limpeza corporal cotidiana, não é recomendado usar sabonete mais de uma vez ao dia. Se tomar vários banhos, não use sabonete em todos. Se lavar as mãos muitas vezes no dia, pense em usar cremes com silicone ou óleos vegetais.

O uso excessivo de sabões na pele a deixa ressecada. Isso, em outras palavras, significa que a barreira lipídica natural é removida, deixando a pele mais vulnerável a infecções. Ainda, prefira os sabonetes glicerinados, ou mesmo os infantis, que apresentam risco muito menor de reação alérgica.

Devo remover completamente estes produtos da minha vida? Quais as alternativas?

No geral, sim. Se você não for um profissional da área de saúde, não lida com agentes contaminantes (como num laboratório) e não está fazendo coleta de água em córregos poluídos, definitivamente sim. Em qualquer outra situação, água e sabão normal já fazem o serviço. E em casos onde não for possível, prefira o álcool em gel, que age apenas topicamente (não penetra na pele e não atinge a microflora interna). Mas não seja neurótico. Não leve isso na bolsa todos os dias. Álcool em gel usado com frequência também desidrata a pele.

Uma breve cutucada política/mercadológica sobre a situação

Pra finalizar, uma cutucada. A indústria se aproveita das histerias coletivas para vender. A indústria farmacêutica é especialmente campeã nesse ramo. Quando a histeria não existe, eles dão um jeito de criar uma. Álcool em gel e sabonetes bactericidas não vão re proteger da gripe suína, nem de nenhuma outra doença viral!

Sua casa não é um ambiente hostil, seu filho precisa de contato com sujeira para desenvolver o próprio sistema imunológico e não ser um merdinha quando crescer. Aquela bolha que aparece em volta das crianças nos comerciais não é uma proteção à saúde, é uma barreira contra o próprio desenvolvimento.

O mesmo vale para sabão em pó. Se você não está lavando um avental cirúrgico, não pense em usar sabões bactericidas. Além de inútil e caro, os tecidos ficam impregnados com a substância (que poderá ser absorvida pela pele, e também poderá causar alergias), além da grande quantidade de água com antibióticos liberada no ambiente.

Não seja um imbecil nas mãos dos agentes publicitários destas empresas. Proteja seu bolso, sua saúde, o ambiente e dê um basta nessa epidemia de higienização do mundo. Antes que ele esteja tão estéril que nem nós possamos sobreviver.

Algumas ironias, só pra não dizerem que não sou biólogo

O número de células bacterianas do seu corpo é maior do que o número de células do seu corpo. Umas dez vezes maior! Você é mais bactéria que gente, respeite as pequeninas! Até uns 4Kg do seu peso são bactérias.

As bactérias foram indispensáveis no processo evolutivo que formou nosso sistema imunológico. Seja grato, no mínimo.

As bactérias foram indispensáveis em todo o processo de evolução da vida na Terra. Elas foram, inclusive, a primeira forma de vida presente em nosso planeta.  Algumas são patológicas, mas a maioria delas não é. Se todas as bactérias fossem extintas hoje, a vida em nosso planeta estaria condenada. E nós conhecemos somente cerca de 50% das espécies de bactérias presentes no mundo. Elas também são importantíssimas no processo de desenvolvimento de inúmeros remédios.

Cerca de mil dessas espécies podem viver em paz em nossos intestinos. E cada um de nós possui em média 160 espécies diferentes delas. 99% dos genes presentes em seu intestino são bacterianos, e não humanos. O número de espécies de bactérias no seu intestino aumenta ao longo da vida. Elas começam a invadir seu corpo a partir do nascimento e aumenta de acordo com seu contato com o mundo (comer terra quando criança, por exemplo) e sua dieta (comer terra quando criança, por exemplo).

Por fim, a ciência ainda não decifrou completamente como as bactérias auxiliam em nosso processo digestivo, mas é fato que o fazem. E se ao longo desses milhares de anos de evolução nosso sistema imunológico permite que elas vivam ali em paz enquanto nos ajudam a sobreviver, isso já é motivo pra pensar duas (ou mais) vezes antes de mandar um antibiótico pra dentro.

Já chega. Os próximos posts serão mais sucintos e vou direcionar para esse aqui caso alguém queira saber de mais informações sobre bactérias. Daqui em diante, vou me focar nos produtos, danos específicos à saúde (que não esses genéricos) e impactos ambientais.

Morrer e Nascer

Publicado: domingo, 29 janeiro - 2012 em Cultura
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Se está bem? É claro que não está bem. Eu também não estou. Nada está, ninguém. O mundo está inteiro de cabeça pra baixo nesse instante. Não que isso justifique, mas liberta um pouco da culpa. E é disso que venho falar hoje. Não culpa, liberdade.

A idéia xamânica de morte e renascimento pra mim não é exatamente um “encarar filosófico” ou ainda religioso da realidade. Foi só algo com que eu me identifiquei. Pratico desde que me entendo por gente, não porque me disseram, mas porque eu sinto assim.

Morrer não é difícil. Difícil é tudo aquilo que te arrasta para a morte, pois ela pode ser lenta, sofrida. Nem sempre se morre de repente, ou dormindo. Mas morrer não é difícil, é justamente a libertação. Difícil é nascer.

Não é qualquer um que tem paciência de esperar os nove meses de gestação pra começar a ser novo. Os que não esperam, se condenam ao nascimento prematuro e fatalmente sofrerão as sequelas. Mas não se pode generalizar também. Carícias na barriga gestante, música para o embrião, isso é importante também. São os meses de vida em que a solidão é crucial, mas permeável.

Aí vem o nascer. Eu penso que dói. A gente não sente, mas é claro que dói. Ser espremido por um pequeno funil que te cospe pro mundo, ainda que não houvesse desconforto físico, deve doer no espírito de alguma forma. E então cai a luz sobre a retina virgem. Um súbito abrir de janelas para a realidade nua e crua, a primeira mordida em nosso fruto de inocência. Nosso pulmãozinho de parasita recebe um golpe violento de ar seco e frio. E então, o grito.

Não existe liberdade sem grito. Liberdade, antes de mais nada, é poder gritar. Gritamos para ser livres e depois gritamos por ser livres.

O processo de crescer nunca caberia numa descrição dessas, e qualquer tentativa de resumi-lo o tornaria pobre. Mas dói crescer também. E a dor, inclusive, é importante para o crescimento. É causa e consequência. As perninhas moles vão ganhando força e confiança, e vai se tornando possível verbalizar. Daí em diante, toda a vida escorrega pela espiral da complexidade e é tudo tão incerto que não vale a pena divagar…

E ainda pequenos, brincamos na praia. Hora com as mãozinhas cheias de areia, hora com ela escorrendo toda pelos dedos. Hora terminando de edificar um castelinho, hora enxergando ele ser desmachado pelas ondas.

Ficamos tristes quando isso acontece, mas crescemos e esquecemos como é essa tristeza. Às vezes, temos até um estranho prazer em ver nossos castelinhos voltarem a ser grãos. Não é velhice, nem mesquihez, nem desatenção. No fundo sabemos que aqueles grãos estarão ali para serem, logo menos, outro castelinho.

E como as tartaruguinhas que desabrocham ali mesmo, alguns de nós serão apenas comida de urubu. Outros vão ser levados pela correnteza e acabar dentro da boca de algo maior. E uns poucos vão chegar ao que chamamos de oceano; imenso, profundo e indecifrável.

O ciúme é uma coisa cretina que insistimos em ensinar a nossas crianças. Mas não devíamos. Amor, por natureza, é livre. E é assim que deve ser, ainda que desaprender o ciúme seja muito mais difícil que aprender. Como é chorar.

Hoje, mais que gritar, eu queria ouvir um grito. Mas eu decidi respeitar essa gestação, mesmo sabendo que essa barriga é acariciada por outras mãos. Cada pessoa que se mistura conosco vive ao nosso lado uma vida inteira, então morremos, e não saberemos como será após o próximo nascimento. Só sabemos que vai doer.

Mas será um mundo completamente novo, e isso vale qualquer preço.

Essa é uma das postagens que vai parecer uma metáfora pela covardia do não querer dizer com todas as letras, ou uma indireta. Mas não é isso. É só que algumas coisas chegam a nós de modo tão subjetivo que não há outra forma de se refrir a elas.

Essa postagem não será uma crítica ou defesa sobre qualquer das recentes polêmicas socioambientais no Brasil. As pessoas (eu incluso) já estão saturadas disso e eu particularmente ando irritado com o grande volume de hipocrisia que circula pela internet.

Só a título de curiosidade, sou contra, em âmbito geral, o projeto da usina Belo Monte e também a reforma no Código Florestal. Mas pra todos os meus amigos ambientalistas que ficam “putinhos” com a minha postura neutra na maioria desses debates, talvez esse texto explique alguma coisa.  Ou talvez confunda mais. Despretensiosamente, vamos ao blablabla…

Vou falar de energia em termos gerais, também, pra não parecer que estou puxando sardinha ou pegando rabeira em movimentos.

Crise Energética não é novidade!

Apesar de os termos “Belo Monte” e “Dilma” estarem presentes no cotidiano de qualquer usuário de facebook, twitter ou leitor de jornais, esse problema não é novo. Ele só virou destaque nas grandes mídias agora porque é interessante politicamente. O que chamamos hoje de “crise energética” é algo que começou no último mandato de FHC, por conta de um programa de expansão da produção energética que desrespeitava o sistema hídrico brasileiro (que, diga-se de passagem, é um dos mais, se não o mais adequado no mundo para a utilização de energia de hidrelétricas). Resumindo como deveria funcionar, o sistema de armazenamento faz com que se guarde água nos anos de maior precipitação para que isso seja compensado nos anos de menor precipitação. As hidrelétricas são projetadas para isso. Toda hidrelétrica passa por esse tipo de problema (fase “cheia” e fase “seca”), pois é natural do sistema hídrico.

Pois bem, lá por 2000, 2001, alguns alertas começaram a surgir sobre o mau uso desses sistemas, e um futuro com possíveis racionamentos (que, pra quem lembra, chegou a acontecer, e é um dos motivos de pagarmos tão caro em nossas contas de energia elétrica hoje). Mas a questão não se resume simplesmente a “má gestão das hidrelétricas”. Houve espansão da rede elétrica, que aumentou o consumo, e não teria mesmo outro jeito, a não ser que se buscasse novas fontes de energia (e em termos práticos estamos falando de mais hidrelétricas). Isso não quer dizer que Belo Monte seja necessária para o consumo de energia do Brasil. Mas quer dizer que é natural que se instalem mais hidrelétricas. E não dá pra fugir disso se não estivermos dispostos a outro período de racionamento, e energia ainda mais cara.

Faltou, sem dúvida, investimento na transmissão dessa energia. E continua faltando. O sistema de hidrelétricas no Brasil é interligado (e pode ser mais interligado), ou seja, usinas conectadas podem compensar as necessidades umas das outras em períodos de necessidade (dado o tamanho do nosso país e a diferença entre os regimes de cada bacia hidrográfica). Isso é uma enorme vantagem pois permite que não se desperdice energia que “sobra” em alguns processos. Só para ter noção da diferença que isso faz, o acréscimo da linha Norte-Sul acrescentou à disponibilidade energética do país uma quantidade de energia equivalente à produção de Angra I.

Por que faltou investimento? Brasileiro tem mesmo a memória bem curta, mas nesse mesmo período, do governo de FHC, foi que se iniciou a esperança das termelétricas usando gás natural que viria da Bolívia. Felizmente não deu certo, mas as razões foram econômicas, pra que conste. E muita gente, na época, que assistia televisão, achava que isso era progresso! Sem nem imaginar que termelétricas produzem energia que passam de dez vezes mais cara que hidrelétricas. E que poluem mais no processo. Muito dinheiro público foi investido na criação de quase 50 dessas usinas (boa parte mascarado pela Petrobrás).  Só que gás natural acaba, ao contrário de água.

O que se está fazendo hoje com a expansão de hidrelétricas não é um absurdo econômico, tampouco ambiental. Já se fez muito pior por muito menos há bem pouco tempo atrás. E nenhum engomadinho da rede globo se manifestou, nem deu entrevista pra Veja.

É óbvio que o processo de desapropriação que ocorre em muitas dessas instalações é grotesco. Não estou isentando este governo dos absurdos que tem cometido. Sequer sou eleitor do PT. Só não gosto de circo. E é isso que se está fazendo. A maioria das pessoas que tem se colocado contra as hidrelétricas sequer sabe como uma delas funciona. A maioria das pessoas que diz que temos que investir em energias “renováveis” não tem idéia do impacto que causam as usinas eólicas e/ou solares (células fotovoltaicas). E a maioria dessas pessoas, como forma de “protesto”, simplesmente replica informação pela internet.

Energia solar e eólica nunca serão vatagem para o Brasil porque nós não investimos em tecnologia própria. Ficamos dependendo de países desenvolvidos para comprar uma tecnologia, para investir na implantação e para ganhar dinheiro às nossas custas. Não foi diferente em outros países, ditos “pioneiros” da energia limpa na europa. Quem domina as grandes usinas eólicas são os mesmos barões do petróleo de outrora, que ao perceber que uma hora vai mesmo acabar, já estão fazendo seu pé de meia pelo resto do mundo.

Se querem saber o que eu penso ser o problema central nessa questão, podem continuar a ler, mas agora vem a parte doída. Vivemos num país burro, governado por burros, movido por burros. E, pior que isso, num país onde a classe preparada pra se pronunciar com autoridade no assunto fica calada. O corpo docente das universdades públicas brasileiras é muito covarde. Não dá pra saber se é medo, vergonha ou preguiça. Mas o fato é que deveriam se enxergar como CLASSE e fazer movimentos sólidos a respeito do avanço centífico do país. E não se contentarem em pagar anuidade a seus conselhos de profissão ou deixar a voz de comando às instituições de fomento (que o governo banca, então naturalmente defendem o governo).

Professor universitário é muito bunda mole. Quem deveria estar projetando hidrelétricas são eles. E deveriam procurar a população com um projeto em mãos, pra dizer “isso aqui é melhor do que esse programa que o governo quer fazer”. Porque muitos deles enxergam o problema, conhecem a solução, mas não fazem muito diferente da velha rabugenta que vê tudo isso do sofá de casa.

O Brasil precisa de mais que uma revolução estudantil. Ele precisa de uma revolução científica. Pra ontem. Não adianta de nada ser o mais rico entre os pobrinhos. Parece aquele orgulho imbecil de ser “a escrava branca”.

Conhecimento é poder, não é de hoje que sabemos. Mas quando a classe que detém esse conhecimento não entrega ele ao povo, então essa classe está do lado de outra coisa.

Algumas informações vieram daqui, a quem interessar:
http://www.scielo.br/pdf/asoc/n6-7/20435.pdf

[Uma importante observação antes de começar: Aqui na UNESP de Rio Claro, como em diversas outras universidades públicas do estado e do país, estudantes estão se organizando para o estudo e planejamento de segurança pública, questionando o papel da polícia militar, e isso não tem sido visto com bons olhos pelo governo. Esse texto não é opinativo. Não defende estudantes da USP, não exige a retirada da PM de qualquer lugar. Estou apenas apresentando alguns dados para reflexão e cada um de vocês sinta-se livre para realizar também a própria pesquisa e parar de confiar nas mídias de massa que têm nos desinformado insistentemente em função da defesa de um plano de governo medonho que nos encaminha a uma ditadura que está deixando de ser velada para ser escancarada]

Para prestar um pouco de atenção: Quando se fala da criminalidade em São Paulo, cita-se homocídios e latrocínios em números absolutos.

[Fonte 1]

Em homicídios dolosos, perdemos apenas para o RJ. E em latrocínio, ganhamos até mesmo deles.

O que esqueceram (convenientemente?) de te dizer é que SP é o estado mais populoso do país, com mais que o dobro da população do segundo colocado (MG). Somamos mais de um quinto de toda a população brasileira.

Em valores relativos (ocorrência por 100 mil habitantes; que daqui em diante citarei como “oc/100m.hab.”), que é o valor mais lógico a se analisar, vamos ver como está nossa situação?

Homicídios dolosos (com intenção de matar): 10,8 (2008); 11,0 (2009).
São Paulo, dessa perspectiva, é o terceiro estado com MENOS homicídios dolosos por 100 mil habitantes (perdendo apenas para MG e PI).

Latrocínio (assassinato em função de roubo): 0,6 (2008); 0,7 (2009).
Aqui nossa situação não é exemplar, mas está longe de ser a mais crítica. Ainda somos o sétimo estado com MENOS casos de latrocínio (oc./100m.hab.) .

Ainda em números relativos, somos o terceiro estado com mais pessoas mortas em confrontos com a PM, e o segundo em vítimas (mortes) da PM em outras circunstâncias não identificadas como confronto (que eu entendi como execuções e acidentes).
Os gastos com policiamento (apenas policiamento e não segurança pública em geral) no ano de 2009 foram precisamente: R$8.626.688.263,48.

Querem saber o que acontecia com a educação no mesmo período? A ponta do iceberg pode ser contemplada aqui (pra quem estiver sem tempo, vale saber que a taxa de analfabetismo SUBIU 4,1%).

[Fonte 2]

Em porcentagem de despesas do orçamento do estado, a segurança pública recebeu mais que o dobro do investimento em educação nesse mesmo período. Agora, peço aos leitores uma reflexão de 5 minutos:

a) Pense em quantas vezes você precisou da polícia com sua ação preventiva (ação a que se destina) e ela estava lá para PREVENIR.

b) Pense na polícia que (por regimento e orientação da Constituição Federal) deveria atuar em conjunto com a população, e tente se lembrar se algum policial que faz (SE faz) ronda em seu bairro conhece você ou algum vizinho, se faz perguntas sobre a rotina local ou mostra algum interesse sobre a sua vida.

c) Pense em quanto tempo a polícia demora para chegar quando você precisa (eu, quando precisei, por três vezes, tive de esperar mais de uma hora).

d) Pense em quanto tempo demora para a polícia agir em casos de protestos, independente do motivo, do aumento salarial dos professores à marcha da maconha, e qual papel ela representa nessas situações (eu já vi a polícia chegar antes dos manifestantes ao menos 5 vezes).

Agora, peço uma reflexão um pouco mais longa:

a) Se a polícia se empenhasse com o mesmo rigor na prevenção do crime que tem na prevenção das reivindicações populares, será que precisaríamos esperar tanto?

b) Se o investimento em educação no estado de São Paulo fosse o dobro da segurança pública (o inverso da situação que vivemos hoje), daqui cerca de 30 anos, quem você acredita que estaria sendo criminalizado:

A polícia que abusa de seu poder e viola a lei para defender o interesse do estado enquanto espanca estudantes e professores… Ou os estudantes universitários que lutam por uma universidade livre, de acesso à toda a população?

Sem mais. Bom feriado a todos.

Fontes:

1. Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; ano 4, 2010 (o mais recente publicado); disponível em: http://www.forumseguranca.org.br
2. Relatório Oficial do Secretário da Fazenda do governo  e SP, 2009; disponível em: http://www.fazenda.sp.gov.br/download/relatorio.asp

A imagem do universitário, seja pela história ou pela mídia, é associada ao consumo de bebidas alcoólicas. Para alguns, é só uma forma de sustentar um nicho bem interessante do mercado. Para outros, é a mostra de como no início da vida adulta ainda carregamos uma mochila de irresponsabilidades nas costas. Para mim, como universitário, é apenas uma maneira de sobreviver.

Falarei de drogas de um modo geral, para não entrar nas particulares de cada uma e não me render à apologia, pois não é esse o intuito. Uma pessoa “saudável”, para os padrões de hoje (entenda por “acorda cedo, estuda, trabalha, acumula dinheiro, planeja uma vida, vira gente”), não tem tempo para pensar. E se nós, universitários, acatamos cada medida repressora que vem dos reis acadêmicos, lentamente nos dirigimos ao local onde nos querem: quietos numa cadeira, como sempre foi na vida escolar.

A universidade tem uma tendência natural a abrir mentes, ainda que ela venha sendo agredida lentamente. Não que ela seja o reduto dos pensadores, mas faz parte do processo de graduação abrir a visão sobre os problemas do mundo – ou deveria. Me chamem de fraco, de dependente, do que for, mas com uma cerveja gelada na mesa qualquer assunto flui melhor. E não estou falando do hábito social, ou dos reflexos psicológicos. Falo apenas da reação química. Ficamos menos inibidos, nos comunicamos com mais honestidade. Às vezes isso leva a brigas, outras leva a paixões. Mas não definiria melhor o álcool do que já o fazem comumente: “lubrificante social”.

Drogas alteram nosso modo de perceber as coisas, e por consequência nosso modo de interpretar as coisas. Isso não deveria ser visto como ruim. A parte ruim são os efeitos colaterais, mas sabendo escolher e medir, ninguém vai morrer disso. O problema é que o caretinha que vive em nós, o fantasma da repressão que fica acima do nosso ombro direito, não nos permite enxergar como as medidas autoritárias são complexas e intencionadas.

Quando uma lei, portaria ou ordem oficial de qualquer natureza diz que não podemos ingerir álcool dentro das universidades, indiretamente está dizendo que não quer festas e socializações que não sejam de foro estritamente acadêmico. É uma maneira de nos impedir de conversar, de nos conhecermos, de refletirmos sobre o espaço que visitamos diariamente, de criar sentimento de unidade com o local e com as pessoas.

Uma vez me disseram que o combustível do movimento estudantil era álcool e maconha. Assusta falando dessa forma, mas no fundo pode ser mesmo verdade. E não vejo nada de mal nisso. Se é o que está permitindo que o carro ande, 8 anos a menos de vida pra cada um ainda é uma medida altruísta.

A despeito da ironia desse último comentário, só gostaria de deixar claro que a medida repressora ainda é acatada por jovens universitários que ousam fazer comparações do tipo “se não podemos beber em hospitais, a lógica é não podermos beber aqui também”. Como se estivéssemos bebendo durante as aulas e fazendo festas dentro de laboratórios. Os coroados justificam pela “preservação do patrimônio”. Pois bem, do patrimônio deles. Porque não é interessante que o espaço acadêmico seja visto como nosso. Ele já pertence ao mercado, não pode haver concorrência.

O movimento estudantil, talvez pela predominância jovem, é interessante por não se fazer apenas de reuniões sérias e manifestações públicas. Há momentos de descontração pela descontração. Seja valorização ou destruição cultural, não é apenas um movimento político, mas também cultural. Isso o torna especificamente perigoso porque o objetivo não são reformas e sim transformações.

E se pensamos que estes meninos sem-lei serão os professores de amanhã, aí temos motivo para pânico. O que será de nossas crianças brancas, limpas, cristãs e obedientes na mão desses formadores degenerados? Eu imagino o que serão, pois os professores que me inspiraram em que me espelho durante toda minha vida são dessa porção degenerada. E aí fica mais claro porque os donos dessas crianças têm medo. Elas aprendem a latir, fugir e morder, no lugar de ficar choramingando na coleira por uma tigela de ração.

Aqui em Rio Claro perdemos um diretor que fazia vista grossa para nossa “bagunça” e o novo xerife está querendo mostrar serviço. Natural, pois ele também serve a um sistema que o obriga a isso, e nos apoiar, mesmo que com o próprio silêncio, é assinar embaixo. Mas covardia justificada ainda é covardia.

Ainda me pergunto o que faremos, eu e meus irmãozinhos degenerados, frente às recentes mudanças no código de conduta. Foi assim com nosso primos distantes: muros, cadeados, catracas, câmeras e restrições.

As festas são nosso local de socialização e nossa fonte de renda, enquanto grupo. E para todos os que aqui têm espírito de grupo, a sensação é a mesma: a de estar sem casa e sem emprego. Talvez a alternativa para a crise do combustível seja repensar o veículo para usar diesel ou gás natural.

Mas eu, ao menos, faço questão da minha gasolina. Nem que o custo seja cavar até encontrar petróleo. Nem que tenhamos que sair do continente pra extrair em alto mar. O que não se pode é parar de andar.

E também não estou ficando velho. Sempre fui assim.

Quis começar a postagem nesse estilo curto e grosso, porque embora minha escrita flerte constantemente com o prolixo, no meu dia-a-dia não é assim que funciona. Eu fui uma criança feliz, brincava na rua e tudo mais, mas nunca fui a criatura mais simpática do mundo. As pessoas sempre me achavam “quietinho” ou estranho, eu não interagia muito com a maior parte da família, e por muito tempo ignorei a existência de mais da metade dela. Dia desses tentei lembrar o nome de uma tia, irmã do meu pai, e não consegui.

Mais de 30 segundos ao telefone me dão desespero. Ir a festas de gente desconhecida é incômodo. Conhecer pessoas, na verdade, não é algo que eu goste de fazer. Eu não estou dizendo isso para reprimir as pessoas que possuem um milhão de amigos. Eu juro que as entendo, e por isso respeito. E não deveria ser necessário ter que explicar, mas é… Porque essas pessoas, no geral, não me respeitam.

Quando eu vou a um bar, eu não quero conversar com o estranho da mesa ao lado, nem com a garota no balcão. Se não é um lugar a que eu vá com frequência, aquelas pessoas todas são irrelevantes pra mim. E não é porque eu me acho especial demais pra elas, mas porque eu não acho que caiba tanta gente num mundo sincero. Eu faço uma distinção muito clara entre amigos e colegas, e acho até feio chamar tanta gente de amigos. “Esse é meu amigo de não sei onde”, “aquele é meu amigo da academia”, “fulano é meu amigo da Estônia”. Francamente? Não tenho paciência.

Quando eu conheço alguém, e faço questão que seja por acidente, eu encaro essa pessoa como um mundo inteiro a ser descoberto. E isso exige dedicação, tempo. A julgar pela minha cara de poucos amigos, muita gente acaba pensando que eu acho que a maioria das pessoas é desinteressante. Mas não é isso. Eu só acho que elas merecem ser conhecidas de verdade, compreendidas, decifradas. E que isso acontece lentamente. Até que um dia eu as possa chamar de amigas.

Se o assunto é amizade, vale a máxima “menos é mais”. Eu desconfio muito da profundidade das pessoas que conhecem outras pessoas o tempo todo, das que fazem amigos da noite pro dia, das que se apaixonam a cada duas semanas.

Mas é  um pouco triste também. Porque entre os mais novos, isso é um costume, quase uma lei. Se você não “aceita”, você é chato. Você é obrigado a estar aberto pra tudo e pra todos, e a isso se chama liberdade – e me dói o fígado. Aos poucos eu vou sendo identificado como uma figura repressora, o menino que está ficando velho e começou a falar mal da nova juventude.

O que essas pessoas não sabem é que eu não me parecia com as pessoas do meu tempo. E ainda não me pareço. Eu não “fiquei assim”, eu me construí assim. Mas isso não dá pra cobrar que eles entendam. O conceito de construção é uma coisa abstrata demais para as pessoas rasas… Eles querem tudo pronto. Até os relacionamentos estão prontos. Você só chega ali e aceita.

Pro inferno com todas as pessoas fantásticas e interessantes que existem no mundo. Até porque, todo mundo que parece fantástico e interessante no fundo é um poço quase vazio (só não é um vazio pleno porque uma porção está cheia de tédio). As verdadeiras pessoas fantásticas e interessantes você só reconhece depois de pelo menos um ou dois anos de convivência.

Antes de ter esse mínimo de certeza, eu prefiro continuar investindo nos meus poucos e bons. E isso não é porque eu sou uma pessoa “fechada”. Isso, meus queridos, é exercício de liberdade.