Arquivo da categoria ‘Política’

Este é o primeiro guest post que eu coloco no blog. E espero que venham outros. Em outra ocasião eu divago sobre isso. O texto a seguir é do Lucas Vitorino, um compa que eu esbarrei por aí sem querer e que me deu novas noções de respeito. E que vai ter as portas do blog abertas pra escrever sempre que quiser.

maenegraUma heroína me salvou dessa droga de vida.

Em meio aos prantos, quieto, um pouco mais confortável e mais feliz em relação ao passado, mais precisamente quando tinha entre 7 e 10 anos, eu escrevo algo que provavelmente provém de toda energia das matrizes matriarcais africanas.

Homens cis héteros quando crescem tendem a relacionar seu pai como a sua primeira figura de inspiração e de representatividade, mas no terceiro mundo, no abismo periférico, o cenário muda um pouco:

Filho de mãe negra agredida sua vida toda por um homem branco, alguém já viu esse filme antes? Eu já! E ele era uma reprise constante em meio a uma rotina massante que era viver na favela.

Que figura heroica era essa? Que agredia, que silenciava? Que figura heroica era essa que tinha sede por sangue, que transpirava raiva e inspirava uma falta de humanização tremenda? Eu não sei. Eu estava confuso. Eu não tinha nenhuma referência de herói paterna internalizada em mim, minha heroína mesmo foi quem me abraçava em meio aos prantos para me confortar e dizer que estava tudo bem, apesar de serem visível os hematomas no seu corpo e em sua alma. Minha heroína mesmo foi quem fez bonecas Abayomis de felicidade com o pouco de força e de racionalidade que lhe restava, a verdadeira provedora foi que me trouxe afeto, carinho, foi quem me trouxe barcos de esperança em meio a um mar vazio de dores e de angústias, foi quem desde cedo olhava em meus olhos e dizia:

“Por favor, não seja assim. Você pode ser diferente, eu acredito em você.”

Pessoas heroínas estão por aí, são invisibilizadas, mas isso não significa que elas não existam. Pessoas heroínas estão por ai, tentando serem vistas e ouvidas. Pessoas heroínas, que são consideradas como uma droga para essa sociedade opressora, estão por ai gritando a todos os cantos:

“Parem de falar de amor, dos bons costumes, da família tradicional. Vocês são mesquinhos, egoístas, soberbos, já estão mortos. Pois quem segrega, morre. Quem invisibiliza, morre. E é totalmente incompreensível falar de amor e a preservação do mesmo, já que você é aquele que mata, já que você é aquele que agride.”

Pessoas heroínas estão por aí,vestindo suas mascaras como disfarce de sua verdadeira identidade para tentar sobreviver.

Pessoas heroínas estão por aí, resistindo, sangrando, mas ainda assim caminhando.

Pessoas heroínas, dentre elas, minha mãe! Que me subverteu, me reeducou, me trouxe para o outro lado da trincheira, o lado real da dor, dos oprimidos, de quem realmente sofre e de quem realmente merece ser reconhecido e proclamado como pessoa heroína. E foi assim:

Com toda sua ginga, me ensinou que tenho que me movimentar contra qualquer tipo de opressão.

Com sua capoeira, me ensinou que eu preciso lutar, dia após dia, incansavelmente….

Com sua mandinga, me subverteu, fez o impossível, o audacioso, me colocou como contra ponto rebelde e caótico ao mundo dos opressores.

Com sua coroa de raiz nagô, me lembrou da importância de saber que sim, que nossa história é linda, que preciso olhar sempre pra trás para poder seguir em frente, que preciso ouvir, principalmente, quem era pra estar usando a mesma coroa e não colecionando cicatrizes.

Pessoas heroínas são aquelas esquecidas, marginalizadas, oprimidas e que ainda sim, trilham e compõe uma história linda de resistência. Pessoas heroínas estão gritando nesse exato momento, um grito de existência, de persistência e de esperança.

Para o outro lado da trincheira, para quem promove guerras, sangue e carnificina; para quem oprime, para quem segrega, eu reforço os gritos dizendo:

Sim! Uma heroína me salvou dessa droga de vida.

O Lucas está desenvolvendo uma HQ junto com dois amigos baseada nesse texto. Vamos esperar enquanto eles desenvolvem. O trabalho é uma parceria dois amigos:

Matheus Pintor é estudante de História, escritor e desenhista nas horas vagas. Atualmente preso entre Rio-São Paulo, sendo confundido como mineiro em ambos os estados. Nunca foi pra Minas. E sim, é Pintor mesmo, tipo o de parede.

Ícaro Maciel é desenhista, quadrinista e acadêmico de design gráfico na ULBRA. A partir 1998 fez diversos cursos com Daniel HDR aperfeiçoando seu traço e já publicou na Revista TexBR, atualmente está produzindo uma HQ para a Revista do Peryc de Denilson Reis, com o qual tem colaborado, ilustrando fanzines como o Quadrante Sul. Participou de um projeto que envolve charges para uma promoção cultural do ENADE.

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Esse post é bem doido e destoante. Eu fiz ele em função de uma discussão sobre esse assunto num fórum. Ele não traz respostas definitivas, apenas meus resultados sobre uns anos de pesquisa nesse assunto. Eu perdi muita coisa porque sou burro e não salvei, e várias páginas foram atualizadas. Mesmo assim falei algumas dessas coisas, deixando claro as que não podem mais ser comprovadas. Todo o resto, Google. Pra quem sabe usar, é a deep web dos preguiçosos. Mas como quase ninguém sabe usar, dei esse adianto aqui. Enjoy.

Olha, toda vez que esse assunto surgiu nesse grupo eu ignorei ou fui pelo caminho da zueira. Mas eu gostei de você. Lucky of you. Vou te dar umas perspectivas aqui e uns pontos de partida, daí vc é quem me diz o que pensa… [Eu mesmo]

 

SEM CONSPIRAÇÃO

O Verichip é um dispositivo RFID (radio-frequency identification), ou seja, que pode ser localizado e identificado através de frequência de rádio. É essa mesma tecnologia que o mantém funcionando (ele não tem baterias nem é carregado em tomadas, o próprio impulso eletromagnético ativa ele).

Dispositivos RFIDs já existem em abundância no mundo e o mercado atual já é parcialmente dependente deles, pra identificação e acompanhamento de cargas. Eles também têm aplicação médica atual para localização de crianças com necessidades especiais e idosos com doenças degenerativas. E também têm aplicação veterinária para localização de animais, além de aplicações em segurança para rastreamento de bens roubados.

A maioria das propostas de aplicação médica generalizada aponta para maior eficiência de pronto atendimento em emergências, porque se tem rapidamente acesso a histórico médico, alergias, tipo sanguíneo, doenças crônicas, etc. Contudo, algumas pesquisas já apontam para possibilidade de desenvolvimento de câncer, alergias e rejeição em camundongos. Quando esse resultado veio à tona pela FDA (Food and Drugs Association) as ações da VeriChip caíram em 40% e o assunto deu uma esfriada. Mesmo assim, o desenvolvimento de sarcomas (cancros/câncer) em roedores é muito mais frequente que em humanos para esse tipo de reação a implantes, mas ciência nesse mundo é mídia e geral ficou com medo (compreensível).

Essa é a origem da proposta do VeriChip. Mas daí tem um tanto de coisas que você gostaria de saber, eu acho…

 

COM PREOCUPAÇÃO

A VeriChip não atende mais por esse nome, e sim por PositiveID, subsidiária da Applied Digital Solutions (ADS). Quem começou a desenvolver essa tecnologia pra Verichip foi a Destron Fearing, uma empresa especializada em identificação animal. A principal linha de produção deles até então era com aquelas etiquetas que ficam na orelha principalmente de gado.

Verichip pra se tornar a PositiveID se fundiu com a Steel Vault Corp., especializada em computadores e hardware. A partir daí, se tornaram uma empresa especializada em biotecnologia.

É fundamental entender essa história, assim como é fundamental que as cabeças por trás dessas movimentações não são médicos, nem biólogos, nem engenheiros, mas sim especialistas em finanças, como é o caso do Richard Sullivan (ex-CEO da PositiveID, e ex-CEO da Digital Angel), atual membro da Global Digital Solutions (GDSI). Esse cara é responsável pela compra e aprimoramento de 42 grupos e atualmente trabalha com a GDSI em consultoria para negócios na área de… Segurança ;)

Nos relatórios de finanças da PositiveID (PSID) eles dizem que por serem uma empresa pequena, não precisam revelar seus financiadores. Isso é garantido por lei. Pela empresa, só dá pra saber que quem cuida disso é William Caragol (procure o perfil dele na Forbes e tire suas conclusões). O único financiador que eles foram obrigados a apresentar em relatório (a lei estadunidense protege corporações) é a VeriTeq. Quem é VeriTeq? O nome atual da Digital Angel.

Esses conglomerados se subdividem, mudam de nome, mas são basicamente o mesmo grupo, sob mesma gerência, e MUITO dinheiro, que fragmentado parece pouco. E baixos valores não precisam ser declarados publicamente. Saca?

O fundador da ADS é Jamie Sugar, que trabalhou antes na Dictaphone Corp. por 20 anos como diretor de soluções em segurança nacional para o governo federal dos EUA. Esses caras migram do setor público para o privado para fazer o mesmo trabalho com mais proteção de privacidade. E a partir desses conglomerados, os relatórios financeiros entram na categoria “Smaller reporting company”, que não obrigam uma série de declarações.

Bem-vindo ao mundo corporativo estadunidense e ao motivo de quase tudo que não presta buscar sede nos EUA.

Outro membro do conglomerado é a Blue Moon, especializada em tecnologias de energia, e mais tarde comprada pela PSID. Antes disso ela comprou uma boa parte da Digital Angel. Percebe a treta? O responsável por essas transações é Scott R. Silverman. No momento ele era chairman da IFTH, uma empresa especializada em aquisição de outras empresas. Mas sabe onde mais ele trabalhou? Na Steel Vault Corp, na VeriTeq e na PSID. Curioso, não?

Eu não consigo mais encontrar nos relatórios, mas nas versões antigas do site tinha rastros de negociação até com dinheiro da ADX (autoridade em prisões de segurança máxima). Os relatórios financeiros da PSID foram substituídos e todos datam de 2014. Provavelmente por uma mudança na legislação que os permitiu ocultar mais informações (que vão me dar um trabalho do cão pra conseguir de novo), mas havia mais umas três especializadas em segurança e homeland security (segurança nacional), vinculadas de alguma forma ao DHS (Department of Homeland Security), cuja missão é “garantir a segurança da nação [EUA] das muitas ameaças que enfrentamos”. Esse dado vai ficar de boa fé mesmo, não precisam acreditar porque não dá pra achar assim de boa na internet. Todo o resto que eu disse até agora é acessível pelo Google, pelas páginas oficiais das corporações, pela Forbes e nos relatórios financeiros (que estão nas páginas), além de fóruns de economia que acompanham essas transações e aparecem nos primeiros resultados do Google com uma busca simples.

Não vou me alongar muito nessa parte porque iria mudar de assunto, mas pra quem curte esse tipo de investigação, os secretários do DHS nos períodos que envolveram as negociações relativas à PSID são James Milton Loy (principalmente) e Michael Chertoff (pegou o fina das transações, e é um dos fundadores do Patriot ACT, que também vale a pena pesquisar, até mais que o Verichip). Gente boa, só que não. Ambos indicados pelo então presidente Bush. Agora voltando ao assunto.

 

COM ESPECULAÇÃO

Em linhas gerais, o Verichip (eu prefiro usar esse nome, mas já está claro que se trata de muitas corporações e pessoas envolvidas) se inicia com uma proposta médica-veterinária, mas desperta interesse de companhias de tecologia, energia e segurança, e principalmente do governo.

Ele chegou a ser testado em regiões mais conservadoras dos EUA durate a gestão Bush, mas a interferência negativa da FDA (cujas motivações eu ainda não entendi) atrasou o processo. Recentemente houve pressão sobre o Obama pra que ele voltasse a incorporar a ideia em seu projeto de saúde pública nos EUA, mas até agora sem apontamentos de que isso fosse dar resultados.

De lá pra cá, a principal especulação sobre o Verichip tem sido no setor comercial. Bancos e empresas de crédito têm flertado com a possibilidade de um “cartão” subcutâneo que facilitaria suas compras (e facilitaria mesmo) e é muito capaz que isso comecea ocorrer com ou sem consentimento do governo americano nos próximos anos.

O grande medo da maioria das pessoas (e meu também) é que se crie um sistema integrado de identificação, aproveitando a brecha que aparecer (seja médica ou financeira) para usar essa tecnologia para apresentar a “praticidade” de ter nesse chip seu RG, passaporte, etc.

Não é recente a literatura de ficção que aponta pra essa realidade. E num mundo onde você já pode ter sua face reconhecida por câmeras na rua e ser identificado num protesto, a presença desse tipo de chip poderia significar a possibilidade do seu rastreamento e localização por satélite em qualquer lugar do mundo com precisão de DOIS CENTÍMETROS. Louco. Essa é a tecnologia que já existe.

Há inúmeras razões pra ser contra esse tipo de medida, mas isso não vai acontecer do dia pra noite, porque não dá. Pra isso acontecer, eles vão precisar que as pessoas QUEIRAM isso. Bush chegou perto com a históra do terrorismo, mas ainda assim não deu. Por mais ignorante que seja o estadunidense médio (assim como o brasileiro) ainda existe uma cultura de liberdade, nem que seja da boca pra fora, que torna esse processo difícil. Eles vão atuar sobre essa cultura.

Ninguém vai forçar um chip no seu braço. Eles vão te fazer pedir por um chip no braço. E da mesma maneira que se criou emanda e dependência por telefonia celular e internet, vai se criar emanda e dependência para chips RFID. É questão de tempo.

 

SOBRE AS CONSPIRAÇÕES

Crença é crença. Não vou ficar aqui perdendo tempo dizendo se o anticristo vai voltar ou não, até porque não sou cristão. Mas é preciso deixar de lado as páginas da surface de fundo preto e acordar pra uma realidade: conspirações são uma arma REACIONÁRIA, não revolucionária.

A revolução se faz com fatos, não com medos. Quanto mais informação dispersa se tem sobre um assunto, mais difícil encontrar a verdade. E essas corporações e centros financeiros encontraram um grande escudo nessa galera que só sabe falar de Illuminatis e Chip da Besta. Não se esqueçam que os principais difusores dessas conspirações atuais são igrejas neopentecostais institucionalizadas, e que elas SEMPRE estiveram do lado do imperialismo global. Abandonem a inocência digital.

Ademais, um conspirador nunca faria o que eu fiz aqui. Obscurantistas ficam nessa de “eu sei de coisas que…”, “eu ouvi uma coisa que você não ouviu”, “eu conheci uma pessoa que me disse” e blablablabla… Posso ver meia dúzia deles se retorcendo enquanto leem isso aqui. Quero que o cu eles pegue fogo.

Comecem a pesquisar como gente grande. Investiguem a informação institucional antes de mais nada, e a partir dela procurem a mentira, não o contrário.

 

E COMO RESISTIR?

Não dá. Sorry.

A única maneira possível de resistir agora é destruir os EUA como centro financeiro internacional, mas dadas as perspectivas atuais, os BRICS se fortalecem, as corporações migram pra esse eixo e então as legislações russas e chinesas vão mudar pra protegê-las como ocorre nos EUA.

A gente só vai ganhar tempo, e ainda assim nem é muito. Quem tiver real preocupação nesse assunto é melhor que se prepare não pra como resistir, mas sim pra como fugir.

Queria terminar com final feliz, mas não vai rolar. É choque de realidade mesmo. Só a partir das palavras chave desse texto tem material suficiente pra cada um(a) correr atrás e tirar suas conclusões, como eu fiz, sem ninguém dar nada mastigadinho.

Não vou colocar todos os links por pura preguiça, porque escrever isso aqui já deu trabalho suficiente. É só usar o Google, vocês conseguem. E aprendam a falar/ler em inglês, pra ontem. Beijos.

Esse não é um texto só para anarquistas, porque explica muita coisa sobre eleições. Ele vai desagradar a quem tenta tratar esse assunto de uma maneira “8 ou 80”. Vejo essa pergunta surgir diariamente nos grupos anarquistas de que participo, então pra não ter de escrever noventa vezes a mesma coisa, resolvi escrever aqui. Tentarei trazer as informações necessárias para que você tire suas conclusões, a partir do que está aqui e das duas próprias convicções. Essa, como várias outras perguntas sobre a anarquia, não tem uma resposta pronta.

 

“Anarquista não vota”

Essa máxima é a mais comum, e me arrisco a dizer, a mais “senso comum” também. Ela tem uma razão de existir, mas não acredito que a grande maioria das pessoas vá além dessa afirmação rasa na hora de argumentar e tirar suas conclusões. Afinal, anarquistas podem votar? Bem, anarquistas podem fazer o que bem entenderem. No contexto da ação direta como prática, não há quem te possa dizer o que você não possa fazer, desde que você tenha uma boa explicação pra isso. A grande questão aqui é: existe uma boa justificativa pra que um anarquista vote? Às vezes sim, às vezes não. Pra saber se você tem esse bom motivo ou não, é preciso entender algumas coisas e colocar numa balança.

 

Votos nulos, brancos e ausências

Existe muita desinformação na internet a respeito desse assunto, e muita gente tentando ensinar o que não sabe. Até mesmo a legislação eleitoral é um pouco confusa, favorecendo interpretações distorcidas. Entre anarquistas, é muito comum que existam campanhas de votos nulos, mas isso não ocorre com o objetivo de anular as eleições, como alguns supõem. O que pode chamar uma nova eleição são uma quantidade superior a 50% de votos “anulados”, nesse caso, por um TRE/TSE. Quando um candidato é impugnado, por exemplo, seus votos são anulados, e se forem superiores a 50% do eleitorado, uma nova eleição poderá ser chamada em que este candidato não poderá participar novamente (porque foi impugnado), mas os outros vão. Pela lei, nenhuma ação do eleitorado (prevista em lei) cancela um processo eleitoral. Pra isso seria necessário comprometer o processo eleitoral (com fraudes, por exemplo), o que o voto nulo não faz.

Então pra que serve o voto nulo? Isso também pode variar de pessoa pra pessoa, mas em geral, é uma das possíveis declarações de insatisfação com o processo eleitoral. Para fins de registro, é preciso entender os três tipos de “não voto”, sendo eles:

Voto Branco: O voto branco é um “tanto faz”, para fins de declaração ideológica. Eles têm uma contagem própria, mas geralmente são apresentados em conjunto dos nulos pelas mídias (ex.: “8% de brancos e nulos”). Estatisticamente, eles penas reduzem a quantidade de votos válidos, ou seja, não são contabilizados para as porcentagens finais do processo eleitoral. Vou explicar isso com calma adiante.

Voto Nulo: O voto nulo é um “nenhum deles(as)”, para fins de declaração ideológica. Também é contado separadamente para fins de registro, mas não é contabilizado entre os votos válidos. Os votos nulos, assim como os brancos, não vão “pra quem tem mais”, como se afirma por aí, mas eles também alteram a matemática final das eleições.

Ausência: A ausência, ideologicamente, é um “esse sistema não me representa, independente dos candidatos”. Por isso, entre anarquistas tem crescido a campanha não apenas para anular, mas também para não votar. A ausência pode ser justificada em outra cidade. Se não for justificada, o eleitor deverá pagar uma multa de R$3,51 para cada turno em que esteve ausente e ficará em dia com a legislação eleitoral. Esse processo é rápido e pode ser resolvido em poucas horas, e você receberá uma certidão de quitação que tem a mesma validade de um comprovante de participação nas eleições para fins de concursos públicos, ingresso em universidades, etc. Elas também reduzem o total de votos válidos.

 

Antes da matemática, algumas questões filosóficas

Algumas pessoas têm planejado usar a lei da “escusa de consciência” para não terem a obrigação de votar. A escusa de consciência é um pedido de não obrigatoriedade individual para algo determinado a todos os cidadãos por lei, em função de crença religiosa, convicção filosófica, etc. Por processo, esse cidadão receberia uma outra obrigação ou prestação de serviço social equivalente, deixando de ter a obrigação que entra em choque com seus valores. Na prática, isso já existe, e é exatamente essa multa. Como seriam milhares de brasileiros alegando escusa de consciência, cria-se um sistema padronizado, em que aquele que não se sente bem em votar poderá contribuir com essa multa.

O grande problema é que essas multas vão para o fundo partidário. Então quando você não vota por ser contra o sistema eleitoral, mas paga a multa para não perder direitos sociais, na prática está sustentando o financiamento público de campanha. Durma com esse barulho.

Eu venho estudando a possibilidade de alegar escusa de consciência no pagamento da multa, exigindo uma outra obrigação que não me envolva no processo eleitoral da democracia representativa, ainda que indiretamente. Mas até agora nada conclusivo. Se alguma alma iluminada por aí tiver embasamento jurídico sobre esse assunto e puder acrescentar nos comentários, eu atualizo a publicação. Até lá, ficaremos com esse mistério. Mas fica aí a dica para quem quiser pesquisar também.

 

Matemática eleitoral sinistra da morte

Pois bem. Até agora estava tudo lindo, eram apenas questões de convicções políticas, morais e filosóficas, e parecia lógico que, nesses contextos, anarquistas não votassem. Essa seção do texto atende ao propósito de mostrar um outro lado, onde a estratégia de cada um poderá levar a atitudes que, superficialmente, são contraditórias, mas radicalmente são válidas, legítimas e até mais plausíveis do que a negação do voto.

Como já dito, votos brancos, nulos e ausências, para fins de contagem final os votos, têm a mesma função, independente da proposta ideológica. Eles diminuem a quantidade total de votos válidos. Isso é um problema? Você é quem me diz… Veja:

 

– Eleições diretas para cargos de uma cadeira só (ex.: governador, presidente, prefeito)

Nesse tipo de processo eleitoral, o que conta é quem tiver a maior quantidade de votos na contagem absoluta. Caso essa contagem supere 50% dos voto válidos já no primeiro turno, não ocorre segundo turno. Vamos entender o tamanho dessa treta numa eleição hipotética, com números simplificados pra ficar mais claro:

SITUAÇÃO: 4 candidatos (PA, PB, PC, PD); 100 eleitores; 1 cadeira. Veja dois possíveis cenários:

1º Resultado das  eleições: PA 41 votos (41%), PB 35 votos (35%), PC 15 votos (15%), PD 9 votos (9%). Essas eleições vão para segundo turno, porque o candidato mais votado não superou 50% dos votos válidos.

2º Resultado das eleições: PA 41 votos (41%), PB 28 votos (28%), PC 8 votos (8%), PD 3 votos (3%), Brancos 7 (7%), Nulos 9 (9%), Ausências 4 (4%). Para calcular o resultado dessas eleições, primeiro retiramos os votos que não são válidos (brancos+nulos+ausências= 20 votos). Assim, o total de votos válidos passa a ser 80, e as porcentagens serão recalculadas em função desse total. O resultado final fica assim: PA 41 votos (51,2%), PB 28 votos (35%), PC 8 votos (10%), PD 3 votos (3,7%). O candidato do PA ganhou as eleições no primeiro turno com a mesma quantidade de votos.

Num eventual segundo turno, como só há 2 candidatos ganha quem tiver mais votos. Os votos não válidos só vão aumentar essa diferença proporcionalmente, mas não vão alterar significativamente os resultados. Mas num primeiro turno, uma quantidade alta de votos não válidos poderá acelerar a definição do processo eleitoral.

 

– Eleições diretas para cargos de múltiplas cadeiras, com distribuição por proporcionalidade (ex.: deputados e vereadores)

Esse caso é um pouco mais complexo, então tentarei simplificar. Após as eleições as cadeiras disponíveis serão distribuídas entre os partidos e/ou coligações conforme a proporção de votos. Se um partido tiver 50% dos votos para deputado, metade das cadeiras da câmara é desse partido. Nas eleições para deputados e vereadores, não ganham necessariamente os mais votados. Primeiro se distribui proporcionalmente as cadeiras aos partidos/coligações, e aí elas são preenchidas pelos mais votados dentro desses partidos/coligações. Se o PA consegue 3 cadeiras e p PB consegue 1 cadeira, mesmo que o segundo mais votado do PB tenha mais votos que o terceiro mais votado do PA, ele não vai entrar. Vamos colocar exemplos, novamente:

SITUAÇÃO: 3 partidos e uma coligação (PA, PB, PC e CO, esta última incluindo PD e PE); 100 eleitores; 20 cadeiras.

1º resultado das eleições: PA 40 votos (40% = 8 cadeiras), PB 30 votos (30% = 6 cadeiras), PC 20 votos (20% = 4 cadeiras), CO 10 votos (10% = 2 cadeiras). Ou seja, entram aí os 8 mais votados do PA, 6 mais votados do PB, 4 mais votados do PC e os 2 mais votados entre PD e PE. Mesmo se o 5º mais votado do PB tiver mais votos que o 8º mais votado do PA, ele não entra, porque primeiro são distribuídas as cadeiras (vagas). Agora veja a treta…

2º resultado das eleições: PA 40 votos (40%), PB 20 votos (20%), PC 15 votos (15%), CO 5 votos (5%), Brancos 4 (4%), Nulos 10 (10%) e Ausências 6 (6%). Os votos válidos contabilizam 80. Dessa forma, temos PA (50% = 10 cadeiras), PB (25% = 5 cadeiras), PC (18,7% = 4 cadeiras), CO (6,2% = 1 cadeira).  Com a mesma quantidade dos votos, o PA tem metade da câmara, e praticamente qualquer decisão nas mãos. Além disso, com a mesma quantidade de votos, o PA conseguiu colocar mais duas pessoas lá dentro, só porque houve uma quantidade expressiva de votos não válidos.

 

Tá, mas e aí?

De maneira mais objetiva, votos inválidos não vão pra quem tem mais, mas aumentam as proporcionalidades e as diferenças entre proporções. Embora eles não sejam contados pra ninguém, a diminuição do total favorece os mais votados, podendo acelerar uma eleição para que um favorito ganhe no primeiro turno ou ampliar a quantidade de cadeiras ocupada pelos partidos/coligações mais votados nas eleições.

Por que eu decidi congelar os valores dos partidos mais votados e reduzir os menores para acrescentar os não válidos? Porque na prática, costuma ser assim. O eleitorado dos grandes partidos ou candidatos “pop” é fiel. Essas pessoas não pensam muito pra votar, elas são “petistas” ou “tucanas” ou ainda “malufistas”, e têm seus cérebros congelados há 20 anos. Quem passa por esse processo de questionamento são as mesmas pessoas que considerariam votar em partidos menores, que são menores justamente por apresentarem propostas de transformações mais radicais ou valorizam setores da sociedade historicamente oprimidos.

 

Ou seja, eu tenho que votar?

Não, em absoluto. O objetivo desse texto não é te convencer a votar. Eu mesmo, das 10 eleições de que já participei, só votei em duas. A primeira por pura ingenuidade e numa outra específica vez em que eu acreditei que um candidato merecia mais visibilidade para o que estava dizendo, e que se ele fosse eleito eu teria muito mais condições de lutar pela construção da anarquia. Esse candidato era o Plínio, naquele momento no PSOL, concorrendo à presidência. Fiz isso não porque ele me representava dentro do contexto da democracia representativa. Eu não acredito nisso. Mas eu conhecia a história dele. Eu tive a oportunidade de o encontrar pessoalmente duas vezes, de fazer perguntas, e ele mantinha uma plataforma de comunicação aberta na internet. Eu julguei que valia a pena, por vários motivos, e votei. Ele não ganhou e já não está mais entre nós, mas eu não me arrependo. Aquele voto foi tático. Eu queria alguém na televisão falando sobre reforma agrária de verdade, falando em atacar banqueiros, falando em negar a dívida externa. Queria alguém falando que colocaria impostos sobre grandes fortunas e que retiraria, de fato, de quem mais, de riquezas ilegítimas e absurdas (se você é um liberalista e vai comentar apenas pra defender grandes fortunas me faça um favor e não perca seu tempo, eu só estou explicando meu contexto de decisão).

Então a pergunta que eu te faço é: Seu voto é tático? Ou: Sua anulação de voto é tática?

Um anarquista pode até mesmo se candidatar se isso for tático. Você poderia aproveitar segundos na TV ou panfletos e cartazes pra criar um personagem caricato que aponta as falhas do sistema eleitoral de dentro dele. Sem compromisso de ganhar, porque você provavelmente não vai, sem financiamento de grandes setores privados.

A anulação do voto também pode ser tática. Uma grande quantidade de votos nulos ou ausências são uma das maiores evidências que teremos para apresentar à sociedade que esse sistema está falido e que a democracia precisa ser aberta, participativa. Que não queremos mais terceirizar nossa cidadania a cada 4 anos para um capataz diferente.

Votar ou não, para um anarquista, não é a questão. A questão são os porquês. Se você não vota, mas quando te perguntam o motivo você diz “porque sou anarquista, e anarquistas não votam”, com o perdão da sinceridade, você é bem burrinho(a). Se não é burrinho, sua preguiça de explicar te faz parecer um, e isso só tira a credibilidade política da anarquia. As pessoas só vão abdicar de suas propostas pelas nossas se elas considerarem nossa proposta mais inteligente. Então se esforcem mais!

Por fim, pare de tentar fazer seus irmãos e irmãs parecerem “menos anarquistas que você” apenas porque eles decidem votar ou deixam de votar. É preciso haver respeito na diversidade tática anárquica, na mesma medida em que precisamos problematizar essas decisões, quando algum(a) compa anarco disser que vai votar ou não. No lugar de dizer “seu idiota, anarquistas fazem assim, mimimi”, comece com um “por quê?”.

Agradeço a paciência de quem chegou até aqui. Um mundo sem patrões não vai cair do céu apenas porque sentamos emburrados no canto. Mas é preciso sempre olhar pra si e repensar se não estamos nos vendendo por pouco. O processo eleitoral é uma grande fraude. Cabe a você saber o que pode tirar desa fraude ou se vale a pena destruí-la.

Ouriços no estômago

Publicado: sexta-feira, 22 março - 2013 em Cultura, Filosofia, Política
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Às vezes parece que eu vou vomitar um ouriço.

[Esse é um daqueles posts que não vai te deixar animado. Se estiver mal, talvez seja melhor não ler.]

Não que algum dia eu tenha vivido num ambiente confortável. Minha natureza anacrônica e alienígena nunca permitiu. Queria lembrar como é estar num útero pra poder ter essa certeza. Mas a essa altura, já é irrelevante.

Também nunca vi felicidade como obrigação, nunca fiz questão de sorrisos, e não acho que essa é a chave pra uma vida melhor. Mas porra… Quando você sente que o meio do mato, longe de tudo (ou quase tudo, ao menos) é o único lugar onde vai conseguir respirar em paz… Sei lá, as agulhinhas dos ouriços incomodam um pouco mais em dias assim.

Estou num momento da vida em que eu não analiso mais as pessoas pelas posturas que tem, pelas convicções, crenças ou orientações políticas. Já não faz mais tanto sentido. Meu critério é a capacidade delas serem sensíveis.

Dizem que pra você ser feliz e estar bem consigo mesmo, você precisa ignorar as expectativas do mundo meritocrático, ignorar os padrões de beleza, ignorar as relações históricas de poder de alguns grupos sobre outros, enfim… É fácil estar acima de tudo isso por dentro, mas em ambientes sociais, não tem como.

A gente tem que escolher um lado, e a partir do dia em que eu escolhi o lado mais fraco (e essa escolha foi completamente consciente) eu comecei a chorar. Não porque fiquei triste, nem porque a vida ficou mais difícil (embora ambos sejam verdade), mas porque eu comecei a me dar conta de todo esse sofrimento, e o assumi como meu.

Muitos dos meus amigos, creio que com boas intenções, me dizem que eu tenho que colocar isso de lado pra conseguir “seguir a vida”. E quando eu falo “não consigo”, dizem que eu tenho que me esforçar mais. Pois então que seja, não é questão de não conseguir. Eu sequer me esforço.

EU NÃO QUERO.

Eu não quero conseguir dormir sabendo que tem gente tacando fogo em favelas e jogando spray de pimenta em cara de criança, em mulher com bebê de colo, jogando granadas em jornalistas, só pra deixar um lugar mais bonitinho pra copa do mundo.

Eu não quero conseguir me concentrar pra escrever um TCC enquanto tem gente sem ter o que comer porque existe um complexo econômico que controla a produção e venda de alimentos no mundo.

Eu não quero deixar a vida pessoal pra fora do meu ambiente de trabalho enquanto homossexuais são espancados, transexuais são apedrejadas, mulheres apanham de maridos, meninas e meninos sofrem porque seus corpos não se adequam a um padrão.

A única coisa que eu quero agora é vomitar esses ouriços. Tirar cada espinho e enfiar nos olhos de cada desgraçado que finge que não vê.

Eu não sou depressivo. Eu não preciso de remédios. Eu não quero me tratar.

Eu sou um ser humano que aceita a própria natureza, visceralmente.

Eu preciso de mais seres humanos assim, vomitando ouriços.

E eu quero que quem guarda tudo isso numa caixinha e esconde em cima do guarda-roupas sofra o suficiente pra abrir a caixa e perceber que é tão humano quanto aqueles que estão sendo pisoteados nesse exato momento.

 

[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

Ano passado fiz uma postagem no dia do rock onde falava que o rock’n’roll, pra mim, é justamente o grito. Esse ano vou falar de outro aspecto.

Se alguém quiser, veja aqui.

Não precisa ser nada único pra contaminar as linhas do tempo do facebook ou do twitter. Mas ao contrário das finais de campeonato de futebol ou MMA, logo o estilo de música visto como o mais “pesado” está promovendo o bom e velho “paz e amor”.

O que eu gosto do conceito de “paz e amor” é que paz sozinha corre o risco de ser mal interpretada, vista como comodismo, adequação. Amor é um processo ativo que exige movimento e transformação. Faz bem aos dois andarem juntos.

O rock’n’roll tem uma história confusa, mas o fato é que foi preciso uma guerra para que as pessoas parassem e prestassem atenção no que a população marginalizada, em sua maioria negros, estavam fazendo. E acho que é assim que a maioria das pessoas encontra o rock’n’roll. Você está na merda, aí olha outro alguém, que também está fodido, e ele está ouvindo uma música que mexe com você.

Tendo origem no blues, é natural que o motor tenha gosto amargo. O primeiro motivo pra gritar estava ali. Com as guitarras elétricas e o som mais forte, surgiu o segundo motivo. A essa altura já não tinha como voltar atrás.

O rock quebrou paradigmas físicos da dança. Você não precisaria mais se comportar e fazer os passinhos que sua mãe fazia. A sexualidade da dança passou a ser escancarada, transparente. E assim também a sexualidade das pessoas. E a contravenção estava longe de parar aí. Nao se cantava apenas das mulheres princesas, mas também das mulheres selvagens.

Anos depois, a psicodelia deu o ingrediente que faltava. Questionar a sociedade era pouco. Questionar o próprio corpo era pouco. Era preciso questionar a realidade, o “ser”. Acredito que uma porção do rock se perdeu nesse processo e deve estar num lugar bem melhor que o nosso. O rock conectou modos de pensar ocidental e oriental, deixou claro pra sociedade conservadora que a música tinha mais poder de união do que as armas.

O rock não mudou o mundo completamente. A primeira figura de pelvis rebolante a conquistar o olhar mundial tinha pele branca. Mas o rock abriu essa portas, trouxe à tona também o soul, o jazz e o R&B que estavam escondidos em bares emaconhados de vagabundos (e devemos quase tudo isso a esses “vagabundos”).

Depois se misturou com a música country, o que parecia impossível acontecer. E se por um lado hoje temos rock’n’roll conservador, temos conservadores que ouvem rock’n’roll, arte que saiu dos povos que eles mesmos oprimiram por tanto tempo. Dá pra comparar essa explosão artística ao Big Bang, com migalhas de rock’n’roll se espalhando por aí e virando de tudo, música negra religiosa, baladinhas de rancho, viagens psicodélicas intermináveis, guitarras quebradas no chão ou pegando fogo, e até menininhos arrumados na Inglaterra. Aí o rock progressivo mostrou que dava pra ser vários rocks em um só.

A ameaça do sonho acabando pode ter deixado o Flower Power fora de cena por conta de um ou outro escândalo, as campanhas contra as drogas, os fanáticos religiosos. Mas não deu tempo do rock morrer e já estavam nascendo os rockeiros emplumados do hard rock e a molecada brava do punk. E na sequência, a necessidade de um grito mais alto fez nascer o metal, um grito mais cansado e rabugento e nasceu o grunge. E nunca mais parou.

O movimento gay, o movimento feminista, o movimento negro, o movimento estudantil e tantos outros movimentos por onde os jovens se espalham devem muito ao rock’n’roll, porque ele sempre esteve ali, porque ele sempre foi, por si só, uma manifestação de contravensão.

Até mesmo o lado podre da história, os festivais multimilionários, a grande indústria da música, também só cresceram por pegar carona numa onda que era independente disso.

Rockabilly, country rock, high-school rock, classic rock, rock psicodélico, rock progressivo, surf music, ópera rock, garage rock, hard rock, glam rock, punk, hair, new wave, heavy metal, thrash metal, black metal, death metal, gótico, hardcore, rock brasileiro, britpop, grunge, funk metal, metal melódico, indie, new metal, post punk… E até a porcaria do pop-rock com seus filhinhos tristes e coloridos.

Todos são espaço de contracultura. E é  justamente por isso que desagradam. Ninguém gosta de qualquer rock. Mas todo mundo gosta de algum.

Até minha avó evangélica gosta de ACDC.

E vou fechar com uma frase do Bob Dylan, que eu particularmente acho bastante irritante (o Bob, não a frase), mas que explica bem o que quero dizer:

“Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas.”

 

É isso =]

Este é o segundo post da série “Higienização Insana”. No primeiro, introduzi o assunto, então quem tiver interesse veja o link no final dessa postagem.

De onde veio essa bobagem?

Eu também custei a descobrir. Faz tempo que já sabia que era mito e os motivos, mas não imaginava de onde isso tinha saído. Encontrei uma porção de hipóteses a esse respeito, mas a mais convincente tem embasamento científico, então vou adotá-la. Caso alguém conheça outra explicação, por favor, comente!

O fato é que a água na Europa (local de onde vêm muitos produtos de beleza e cosméticos) é muito mais “dura” que a nossa, ou seja, possui maior concentração de sais (provenientes de calcário, sobretudo). Por conta disso, para que os produtos tenham ação de limpeza eficiente com esse tipo de água, é preciso uma maior concentração de detergentes na fórmula.

Esses produtos passaram a ser vistos como “melhores”, porque o desenvolvimento cosmético desses países de fato foi superior ao brasileiro durante muito tempo (hoje isso é questionável). Assim, quando alguém tinha contato com um produto “bom” percebia maior volume de espuma. Vieram então os comerciais e os produtos nacionas resolveram acompanhar a tendência para se manterem no mercado.

Então não é melhor?

Depende. Em locais com águas mais duras, é importante que exista maior concentração de detergentes para que eles funcionem apropriadamente. Mas não é o nosso caso, e esse excesso pode ser (e geralmente é) prejudicial à nossa saúde e, principalmente, ao ambiente.

Muita espuma aqui não é sinal de limpeza. É sinal de excesso!

O que, afinal, é a espuma e por que ela se forma?

Resumindo, espuma é ar. Quando algum sabão está disperso em água, a organização molecular de seus sais em relação à água faz com que, com o atrito e a entrada de ar na mistura, pequenas bolhas sejam revestidas por uma película de moléculas de sabão que impedem que esse ar escape.  Nessa perspectiva, pensar que mais espuma resulta em mais limpeza é como bater clras em neve esperando que a agitação deixe ela mais doce. Ou seja, não tem cabimento algum.

A espuma é um sinal de que as substâncias detergentes estão presentes, mas apartir do ponto em que a espuma se torna persistente (aquelas que as modelos assopram na banheira nos comerciais, e não se desmancham), isso é um claro sinal de excesso.

Quais as alternativas?

Você pode procurar produtos no mercado com menor concentração de detergentes, mas já aviso, vai ser muito esforço pra pouco resultado, porque esses produtos têm pouco sucesso no mercado. E o motivo é porque não sabemos consumir, mas isso não vai mudar tão cedo. O que nos resta são medidas práticas que vão tornar sua limpeza mais eficiente.

Pra não me alongar muito, o que for detergente, dilua por 4, e o que for xampú, dilua por 2.

Você já deve ter visto nas propagandas a Suzana Vieira colocar uns poucos pingos de detergente na esponja dizendo que ele “rende mais”, então você usa menos. Isso é verdade, desde que você faça ele render mais. Pra isso, dilua em água. Se ficar com medinho, dilua um frasco para dois e faça o teste. É mais fácil de espalhar esse detergente pela esponja e pela superficie a ser limpa, e isso faz ele funcionar melhor (embora com menos espuma).

Um detergente, pra fazer efeito, precisa se diluir na água. Se você fizer isso antes de usar, o processo fica muito mais simples. O mesmo vale para xampú em relação aos cabelos. Ele vai ficar com mais líquido e fazer menos espuma, então parece que limpa menos. Mas ele vai se espalhar melhor pelo cabelo e qualquer componente ativo da fórmula vai ser melhor incorporado pelos fios ou pelo coro cabeludo.

Pra entender, na prática, essa diferença, tente lambuzar um prato inteiro com uma colher de óleo e com uma colher de margarina.

Se você simplesmente tentar colocar poucas gotas de detergente na esponja ou pouco xampú na mão, ele vai se diluir com dificuldade porque a consistência é viscosa, e não vai funcionar. Então, dilua antes. O motivo de esses produtos serem viscosos é porque diluem menos, aí você usa mais, acaba antes e tem que comprar outro.

Diluir não é um ato de inteligência. É questão de procedimento. Não diluir é que é a burrice.

Mas o que tem a espuma de tão ruim?

O excesso de detergentes deixa a pele ressecada. Já falamos sobre isso na primeira postagem, então não vou insistir nos perigos da pele ressecada, mas ela fica mais frágil contra infecções e alguns ferimentos.

Esse é o motivo de se colocar outros produtos hidratantes (geralmente óleos) nos xampús e sabonetes. Mas se não tivesse detergente em excesso, boa parte deles não precisaria estar ali e haveria muito menos agentes químicos no produto (menos risco de alergias, menos poluentes pelo ralo). Eles não estão ali pra proteger sua pele do ressecamento natural. Eles estão ali pra aliviar os efeitos do ressecamento que o próprio produto causa.

Mas o maior problema com as espumas dos detergentes (sabões não formam esse tipo de espuma, mas tanto sabonetes quanto xampús geralmente possuem detergentes, então se tiver bastante espuma, eles estão ali) é ambiental. A espuma custa a se desmanchare sobre a superfície da água. Quem já viu saída de esgotos industriais ou locais onde ocorre agitação de água de esgotos sabe bem como é. Isso dificulta a entrada de oxigênio nos rios e destrói boa parte da vida ali. Isso também favorece o desenvolvimento de microorganismos anaeróbicos, que geralmente liberam um cheiro extremamente desagradável.

Os detergente não-biodegradáveis ainda apresentam o inconveniente de poderem se infiltrar no solo e em águas subterrâneas, podendo chegar a consumo humano e causar problemas digestivos e intestinais. A fabricação destes é atualmente proibida no Brasil e em vários outros países. Mas mesmo os biodegradáveis em excesso causam problemas ambientais. São tóxicos para os peixes, podem destruir microorganismos necessários à manutenção do ambiente aquático e sua decomposição resulta na eutrofização de águas, o que significa um crescimento populacional desordenado de álgas e consumidores primários (aumento de biomassa), que impedem a entrada de luz e reduzem o teor de oxigênio na água.

Produtos realmente diferentes

Há ainda os detergentes sem fosfatos e até mesmo sem qualquer derivado de petróleo. Ecologicamente são muito melhores, mas são sigificativamente mais caros. Um sabão em pó destes chega a sair por mais de 20 reais o quilo e muitos desses produtos acabam sendo importados, pois as produções nacionais não alcançam o grande mercado.

Outro inconveniente é que detergente com pouco ou nenhum fosfato depende muito mais do atrito. Ou seja, vai ter que lavar no braço mesmo, porque em máquinas de lavar louça, por exemplo, o desempenho é bem ruim. No Japão se desenvolveu um produto para lavagem de roupas em máquina com bolas de cerâmica que duram até 3 anos com uso diário. E não usam nada de detergente. Mas acredito que não valha a pena para a indústria, pois voce não vai ter que repor toda semana. Esses produtos devem demorar até atingirem um custo-benefício satisfatório e agradar o consumidor, então até que isso aconteça, o mais prático é diluir.

Eduque sua mente!

Precisamos nos educar quanto aos processos de limpeza. O consumidor escolhe mal porque não sabe o que está ali, nem como funciona. Peço que façam a experiência com o detergente. As marcas mais baratas vêm mais diluídas, então vamos arriscar uma diluição de um volume para dois. Quando seu frasco acabar, transfira metade de um novo para ele e preencha os dois com água. Use esses dois até acabarem e depois tente voltar pro concentrado. Veja você mesmo como o diluído funciona igual ou até melhor. O mesmo vale ara xampús. Se tiver medo, faça a diluição na sua mão.

Quando você se acostumar com a ideia de que a espuma não estar ali não quer dizer nada, no dia em que tentar usar o produto concentrado vai perceber como ele ataca sua mão, é mais difícil de usar e acaba muito mais rápido.

Nosso maior gasto de detergentes é apertando a esponja pra tirar o “excesso de espuma”. Reparem.

Posts anteriores da série:
Sabonetes Bactericidas

A Falsa Luta

Publicado: sábado, 16 junho - 2012 em Cultura, Filosofia, Política
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Não é apenas triste que exista pouca gente dedicada a entender e se envolver em problemas políticos. Desses poucos, há uma parcela bem razoável de gente que está fazendo tudo errado, sem entender o que é uma luta política. Vamos partir do princípio.

Quando uma causa política se configura como luta política, pressupõe-se aí a figura de um inimigo (que não precisa ser uma pessoa; pode ser um grupo, um valor, um hábito etc). E esse é o primeiro e mais básico dos erros cometidos nas falsas lutas. Escolher o inimigo errado é equivalente a “descontar no vizinho”. Já que eu não sei com quem brigar, vou descarregar na primeira figura fragilizada que cruzar meu caminho.

Exemplificando: Quando fazia escola técnica, eu fazia 4 trajetos de ônibus por dia. Como foram 4 anos, vi a passagem subir algumas vezes. E quem sempre ouvia era o cobrador (o motorista um pouco menos). Agora vamos entender o porquê…

A passagem subiu e o grupo de atingidos é o de passageiros (sempre maioria). O motorista está dirigindo o ônibus. Nossa chegada ao trabalho depende dele, e um pouco também nossa vida. Sobra o cobrador, a figura mais fragilizada no ônibus, pra essa situação. E ele vai ouvir uma enxurrada de absurdos, talvez nem saiba do que estão falando, talvez esteja até ele mesmo indignado com o aumento da passagem, mas ali ele é a figura mais vulnerável pra ser responsabilizada.

Outras situações semelhantes acontecem nos supermercados. Quando as sacolinhas foram proibidas, em uma semana eu vi duas caixas ouvindo uma porção de desaforos. E por que os caixas? Porque se reagirem, tomam um esporro do gerente ou do dono do estabelecimento.

O jeito mais fácil de evitar ser este tipo de idiota é fazer uma análise bem rápida. Se o seu inimigo é mais fraco que você (para aquela situação social), então provavelmente ele não é seu inimigo, ou o problema já teria sido resolvido. O inimigo, numa causa política, sempre é “alguém” mais forte. Por isso é que surge a causa e a luta. E por isso as pessoas dificilmente assumem para si as causas mais íntegras.

E pra finalizar, se o inimigo é você, isso pode ser uma causa, mas definitivamente não é uma luta. Lutar pelo meio ambiente não é fechar a torneira. Fechar a torneira é prezar pelo meio ambiente. Lutar é fazer com que se feche uma porção de torneiras que não são suas, sobre as quais você não tem poder algum, sobretudo aquelas “torneiras” bem grandes, do agronegócio e do setor industrial, que se recusam a fechar.

Definido um inimigo, é preciso ter uma estratégia. Se não houver estratégia, não é luta, é uma “briga”… Ou chame do que você preferir. Eu geralmente chamo de chilique, porque acho que os chiliquentos se incomodam mais quando os chamamos assim. “Briguento” faz parecer que ele é uma pessoa cheia de convicções e de temperamento forte, o que geralmente não é.

Isso significa que se você entendeu que o aumento da passagem é de responsabilidade dos governos e das empresas conveniadas, o próximo passo é saber que reclamar com o cobrador não vai resolver absolutamente nada. Conversar com ele, por outro lado, pode trazer informações valiosas e, quem sabe, um companheiro de luta.

Quando o filtro do inimigo não funciona, a estratégia se aplica como uma malha fina. Removidos os 90% de chiliquentos, dos 10% restantes, talvez agora se vão mais da metade. É gente que coloca pano branco na janela pra reduzir a violência, por exemplo. Gente que veste uma camiseta “100% negro” e acha que isso vai coibir o racismo também. E tantas outras gentes que até sabem que têm que lutar, têm motivos pra isso e até querem fazer alguma coisa. Mas não sabem como.

E geralmente esse cidadão se coloca da seguinte forma “Tá errado, mas eu vou fazer o quê?”. Quem começa dessa forma geralmente perde minha atenção imediatamente. Lutadores de verdade buscam ou constroem um método de luta, não ficam esperando algo cair do céu. Todo lutador é um líder, ao menos de si. Mas essas pessoas sem estratégia e de bom coração acabam sendo importantes para dar volume. Eles são a maioria esmagadora em qualquer “marcha” que você ver por aí, seja pra Jesus ou seja pra maconha.

O último termômetro é talvez o mais perigoso. Todo guerreiro que volta vitorioso de suas batalhas começa a receber o aplauso das multidões. E em pouco tempo, ele poderá estar lutando pelo aplauso, e não pela guerra. Então, se as pessoas começarem perder mais tempo te aplaudindo (estou falando de um aplauso metafórico) do que guerreando ao seu lado, sinto dizer, mas você fez tudo errado.

Uma das coisas que mais me irrita, e acredito que outros ativistas partilham dessa aflição, é depois de um momento de luta, as pessoas te parabenizarem pelo que fez. São aquelas pessoas que dizem que apoiam sua causa, que admiram seu esforço, mas que não lutam ao seu lado.

Essa reação não é sincera. E podem me chamar de paranoico, mas estou convicto disso. A pessoa que realmente se compadece por sua luta, luta ao seu lado. As outras estão apenas cumprindo uma função social. Estão dizendo aquilo porque senão “fica feio”. Conscientemente ou não, é assim que acontece.

Não confundam, por favor, com o direcionamento de esforços para outra batalha. Algumas pessoas estão lutando por outras coisas. Mas se elas estão lutando, eu entendo que estão lutando ao meu lado. São lutadores. Mas se elas só admiram outros lutadores, elas estão mais do lado da figura do inimigo que do seu.

Por fim, cabe uma observação, que é o dos emotivos do avesso. Esses são os que se dizem lutadores, mas não têm coragem de afrontar, por exemplo,  um pai, por conta da relação de afeto estabelecida. Mas vou jogar outro balde de água fria na sua cara, se você é desses. Você não está respeitando uma relação afetiva, está se submetendo a uma relação de poder, porque se fosse um filho, você interviria. Quem ama intervém. Enfrentar valores daqueles que você ama não só é justificável, como é mais bonito, porque a razão primordial para enfrentar é que você ama.

Os que abdicam totalmente da luta, bem… Esses eu respeito como respeito uma folha de alface. Não é pouco, acreditem. Mas não os consigo olhar como iguais. Luto por eles, como lutaria por qualquer outro. Só não me peça para os amar tanto…

Essa postagem não será uma crítica ou defesa sobre qualquer das recentes polêmicas socioambientais no Brasil. As pessoas (eu incluso) já estão saturadas disso e eu particularmente ando irritado com o grande volume de hipocrisia que circula pela internet.

Só a título de curiosidade, sou contra, em âmbito geral, o projeto da usina Belo Monte e também a reforma no Código Florestal. Mas pra todos os meus amigos ambientalistas que ficam “putinhos” com a minha postura neutra na maioria desses debates, talvez esse texto explique alguma coisa.  Ou talvez confunda mais. Despretensiosamente, vamos ao blablabla…

Vou falar de energia em termos gerais, também, pra não parecer que estou puxando sardinha ou pegando rabeira em movimentos.

Crise Energética não é novidade!

Apesar de os termos “Belo Monte” e “Dilma” estarem presentes no cotidiano de qualquer usuário de facebook, twitter ou leitor de jornais, esse problema não é novo. Ele só virou destaque nas grandes mídias agora porque é interessante politicamente. O que chamamos hoje de “crise energética” é algo que começou no último mandato de FHC, por conta de um programa de expansão da produção energética que desrespeitava o sistema hídrico brasileiro (que, diga-se de passagem, é um dos mais, se não o mais adequado no mundo para a utilização de energia de hidrelétricas). Resumindo como deveria funcionar, o sistema de armazenamento faz com que se guarde água nos anos de maior precipitação para que isso seja compensado nos anos de menor precipitação. As hidrelétricas são projetadas para isso. Toda hidrelétrica passa por esse tipo de problema (fase “cheia” e fase “seca”), pois é natural do sistema hídrico.

Pois bem, lá por 2000, 2001, alguns alertas começaram a surgir sobre o mau uso desses sistemas, e um futuro com possíveis racionamentos (que, pra quem lembra, chegou a acontecer, e é um dos motivos de pagarmos tão caro em nossas contas de energia elétrica hoje). Mas a questão não se resume simplesmente a “má gestão das hidrelétricas”. Houve espansão da rede elétrica, que aumentou o consumo, e não teria mesmo outro jeito, a não ser que se buscasse novas fontes de energia (e em termos práticos estamos falando de mais hidrelétricas). Isso não quer dizer que Belo Monte seja necessária para o consumo de energia do Brasil. Mas quer dizer que é natural que se instalem mais hidrelétricas. E não dá pra fugir disso se não estivermos dispostos a outro período de racionamento, e energia ainda mais cara.

Faltou, sem dúvida, investimento na transmissão dessa energia. E continua faltando. O sistema de hidrelétricas no Brasil é interligado (e pode ser mais interligado), ou seja, usinas conectadas podem compensar as necessidades umas das outras em períodos de necessidade (dado o tamanho do nosso país e a diferença entre os regimes de cada bacia hidrográfica). Isso é uma enorme vantagem pois permite que não se desperdice energia que “sobra” em alguns processos. Só para ter noção da diferença que isso faz, o acréscimo da linha Norte-Sul acrescentou à disponibilidade energética do país uma quantidade de energia equivalente à produção de Angra I.

Por que faltou investimento? Brasileiro tem mesmo a memória bem curta, mas nesse mesmo período, do governo de FHC, foi que se iniciou a esperança das termelétricas usando gás natural que viria da Bolívia. Felizmente não deu certo, mas as razões foram econômicas, pra que conste. E muita gente, na época, que assistia televisão, achava que isso era progresso! Sem nem imaginar que termelétricas produzem energia que passam de dez vezes mais cara que hidrelétricas. E que poluem mais no processo. Muito dinheiro público foi investido na criação de quase 50 dessas usinas (boa parte mascarado pela Petrobrás).  Só que gás natural acaba, ao contrário de água.

O que se está fazendo hoje com a expansão de hidrelétricas não é um absurdo econômico, tampouco ambiental. Já se fez muito pior por muito menos há bem pouco tempo atrás. E nenhum engomadinho da rede globo se manifestou, nem deu entrevista pra Veja.

É óbvio que o processo de desapropriação que ocorre em muitas dessas instalações é grotesco. Não estou isentando este governo dos absurdos que tem cometido. Sequer sou eleitor do PT. Só não gosto de circo. E é isso que se está fazendo. A maioria das pessoas que tem se colocado contra as hidrelétricas sequer sabe como uma delas funciona. A maioria das pessoas que diz que temos que investir em energias “renováveis” não tem idéia do impacto que causam as usinas eólicas e/ou solares (células fotovoltaicas). E a maioria dessas pessoas, como forma de “protesto”, simplesmente replica informação pela internet.

Energia solar e eólica nunca serão vatagem para o Brasil porque nós não investimos em tecnologia própria. Ficamos dependendo de países desenvolvidos para comprar uma tecnologia, para investir na implantação e para ganhar dinheiro às nossas custas. Não foi diferente em outros países, ditos “pioneiros” da energia limpa na europa. Quem domina as grandes usinas eólicas são os mesmos barões do petróleo de outrora, que ao perceber que uma hora vai mesmo acabar, já estão fazendo seu pé de meia pelo resto do mundo.

Se querem saber o que eu penso ser o problema central nessa questão, podem continuar a ler, mas agora vem a parte doída. Vivemos num país burro, governado por burros, movido por burros. E, pior que isso, num país onde a classe preparada pra se pronunciar com autoridade no assunto fica calada. O corpo docente das universdades públicas brasileiras é muito covarde. Não dá pra saber se é medo, vergonha ou preguiça. Mas o fato é que deveriam se enxergar como CLASSE e fazer movimentos sólidos a respeito do avanço centífico do país. E não se contentarem em pagar anuidade a seus conselhos de profissão ou deixar a voz de comando às instituições de fomento (que o governo banca, então naturalmente defendem o governo).

Professor universitário é muito bunda mole. Quem deveria estar projetando hidrelétricas são eles. E deveriam procurar a população com um projeto em mãos, pra dizer “isso aqui é melhor do que esse programa que o governo quer fazer”. Porque muitos deles enxergam o problema, conhecem a solução, mas não fazem muito diferente da velha rabugenta que vê tudo isso do sofá de casa.

O Brasil precisa de mais que uma revolução estudantil. Ele precisa de uma revolução científica. Pra ontem. Não adianta de nada ser o mais rico entre os pobrinhos. Parece aquele orgulho imbecil de ser “a escrava branca”.

Conhecimento é poder, não é de hoje que sabemos. Mas quando a classe que detém esse conhecimento não entrega ele ao povo, então essa classe está do lado de outra coisa.

Algumas informações vieram daqui, a quem interessar:
http://www.scielo.br/pdf/asoc/n6-7/20435.pdf

[Uma importante observação antes de começar: Aqui na UNESP de Rio Claro, como em diversas outras universidades públicas do estado e do país, estudantes estão se organizando para o estudo e planejamento de segurança pública, questionando o papel da polícia militar, e isso não tem sido visto com bons olhos pelo governo. Esse texto não é opinativo. Não defende estudantes da USP, não exige a retirada da PM de qualquer lugar. Estou apenas apresentando alguns dados para reflexão e cada um de vocês sinta-se livre para realizar também a própria pesquisa e parar de confiar nas mídias de massa que têm nos desinformado insistentemente em função da defesa de um plano de governo medonho que nos encaminha a uma ditadura que está deixando de ser velada para ser escancarada]

Para prestar um pouco de atenção: Quando se fala da criminalidade em São Paulo, cita-se homocídios e latrocínios em números absolutos.

[Fonte 1]

Em homicídios dolosos, perdemos apenas para o RJ. E em latrocínio, ganhamos até mesmo deles.

O que esqueceram (convenientemente?) de te dizer é que SP é o estado mais populoso do país, com mais que o dobro da população do segundo colocado (MG). Somamos mais de um quinto de toda a população brasileira.

Em valores relativos (ocorrência por 100 mil habitantes; que daqui em diante citarei como “oc/100m.hab.”), que é o valor mais lógico a se analisar, vamos ver como está nossa situação?

Homicídios dolosos (com intenção de matar): 10,8 (2008); 11,0 (2009).
São Paulo, dessa perspectiva, é o terceiro estado com MENOS homicídios dolosos por 100 mil habitantes (perdendo apenas para MG e PI).

Latrocínio (assassinato em função de roubo): 0,6 (2008); 0,7 (2009).
Aqui nossa situação não é exemplar, mas está longe de ser a mais crítica. Ainda somos o sétimo estado com MENOS casos de latrocínio (oc./100m.hab.) .

Ainda em números relativos, somos o terceiro estado com mais pessoas mortas em confrontos com a PM, e o segundo em vítimas (mortes) da PM em outras circunstâncias não identificadas como confronto (que eu entendi como execuções e acidentes).
Os gastos com policiamento (apenas policiamento e não segurança pública em geral) no ano de 2009 foram precisamente: R$8.626.688.263,48.

Querem saber o que acontecia com a educação no mesmo período? A ponta do iceberg pode ser contemplada aqui (pra quem estiver sem tempo, vale saber que a taxa de analfabetismo SUBIU 4,1%).

[Fonte 2]

Em porcentagem de despesas do orçamento do estado, a segurança pública recebeu mais que o dobro do investimento em educação nesse mesmo período. Agora, peço aos leitores uma reflexão de 5 minutos:

a) Pense em quantas vezes você precisou da polícia com sua ação preventiva (ação a que se destina) e ela estava lá para PREVENIR.

b) Pense na polícia que (por regimento e orientação da Constituição Federal) deveria atuar em conjunto com a população, e tente se lembrar se algum policial que faz (SE faz) ronda em seu bairro conhece você ou algum vizinho, se faz perguntas sobre a rotina local ou mostra algum interesse sobre a sua vida.

c) Pense em quanto tempo a polícia demora para chegar quando você precisa (eu, quando precisei, por três vezes, tive de esperar mais de uma hora).

d) Pense em quanto tempo demora para a polícia agir em casos de protestos, independente do motivo, do aumento salarial dos professores à marcha da maconha, e qual papel ela representa nessas situações (eu já vi a polícia chegar antes dos manifestantes ao menos 5 vezes).

Agora, peço uma reflexão um pouco mais longa:

a) Se a polícia se empenhasse com o mesmo rigor na prevenção do crime que tem na prevenção das reivindicações populares, será que precisaríamos esperar tanto?

b) Se o investimento em educação no estado de São Paulo fosse o dobro da segurança pública (o inverso da situação que vivemos hoje), daqui cerca de 30 anos, quem você acredita que estaria sendo criminalizado:

A polícia que abusa de seu poder e viola a lei para defender o interesse do estado enquanto espanca estudantes e professores… Ou os estudantes universitários que lutam por uma universidade livre, de acesso à toda a população?

Sem mais. Bom feriado a todos.

Fontes:

1. Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; ano 4, 2010 (o mais recente publicado); disponível em: http://www.forumseguranca.org.br
2. Relatório Oficial do Secretário da Fazenda do governo  e SP, 2009; disponível em: http://www.fazenda.sp.gov.br/download/relatorio.asp