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Ano passado fiz uma postagem no dia do rock onde falava que o rock’n’roll, pra mim, é justamente o grito. Esse ano vou falar de outro aspecto.

Se alguém quiser, veja aqui.

Não precisa ser nada único pra contaminar as linhas do tempo do facebook ou do twitter. Mas ao contrário das finais de campeonato de futebol ou MMA, logo o estilo de música visto como o mais “pesado” está promovendo o bom e velho “paz e amor”.

O que eu gosto do conceito de “paz e amor” é que paz sozinha corre o risco de ser mal interpretada, vista como comodismo, adequação. Amor é um processo ativo que exige movimento e transformação. Faz bem aos dois andarem juntos.

O rock’n’roll tem uma história confusa, mas o fato é que foi preciso uma guerra para que as pessoas parassem e prestassem atenção no que a população marginalizada, em sua maioria negros, estavam fazendo. E acho que é assim que a maioria das pessoas encontra o rock’n’roll. Você está na merda, aí olha outro alguém, que também está fodido, e ele está ouvindo uma música que mexe com você.

Tendo origem no blues, é natural que o motor tenha gosto amargo. O primeiro motivo pra gritar estava ali. Com as guitarras elétricas e o som mais forte, surgiu o segundo motivo. A essa altura já não tinha como voltar atrás.

O rock quebrou paradigmas físicos da dança. Você não precisaria mais se comportar e fazer os passinhos que sua mãe fazia. A sexualidade da dança passou a ser escancarada, transparente. E assim também a sexualidade das pessoas. E a contravenção estava longe de parar aí. Nao se cantava apenas das mulheres princesas, mas também das mulheres selvagens.

Anos depois, a psicodelia deu o ingrediente que faltava. Questionar a sociedade era pouco. Questionar o próprio corpo era pouco. Era preciso questionar a realidade, o “ser”. Acredito que uma porção do rock se perdeu nesse processo e deve estar num lugar bem melhor que o nosso. O rock conectou modos de pensar ocidental e oriental, deixou claro pra sociedade conservadora que a música tinha mais poder de união do que as armas.

O rock não mudou o mundo completamente. A primeira figura de pelvis rebolante a conquistar o olhar mundial tinha pele branca. Mas o rock abriu essa portas, trouxe à tona também o soul, o jazz e o R&B que estavam escondidos em bares emaconhados de vagabundos (e devemos quase tudo isso a esses “vagabundos”).

Depois se misturou com a música country, o que parecia impossível acontecer. E se por um lado hoje temos rock’n’roll conservador, temos conservadores que ouvem rock’n’roll, arte que saiu dos povos que eles mesmos oprimiram por tanto tempo. Dá pra comparar essa explosão artística ao Big Bang, com migalhas de rock’n’roll se espalhando por aí e virando de tudo, música negra religiosa, baladinhas de rancho, viagens psicodélicas intermináveis, guitarras quebradas no chão ou pegando fogo, e até menininhos arrumados na Inglaterra. Aí o rock progressivo mostrou que dava pra ser vários rocks em um só.

A ameaça do sonho acabando pode ter deixado o Flower Power fora de cena por conta de um ou outro escândalo, as campanhas contra as drogas, os fanáticos religiosos. Mas não deu tempo do rock morrer e já estavam nascendo os rockeiros emplumados do hard rock e a molecada brava do punk. E na sequência, a necessidade de um grito mais alto fez nascer o metal, um grito mais cansado e rabugento e nasceu o grunge. E nunca mais parou.

O movimento gay, o movimento feminista, o movimento negro, o movimento estudantil e tantos outros movimentos por onde os jovens se espalham devem muito ao rock’n’roll, porque ele sempre esteve ali, porque ele sempre foi, por si só, uma manifestação de contravensão.

Até mesmo o lado podre da história, os festivais multimilionários, a grande indústria da música, também só cresceram por pegar carona numa onda que era independente disso.

Rockabilly, country rock, high-school rock, classic rock, rock psicodélico, rock progressivo, surf music, ópera rock, garage rock, hard rock, glam rock, punk, hair, new wave, heavy metal, thrash metal, black metal, death metal, gótico, hardcore, rock brasileiro, britpop, grunge, funk metal, metal melódico, indie, new metal, post punk… E até a porcaria do pop-rock com seus filhinhos tristes e coloridos.

Todos são espaço de contracultura. E é  justamente por isso que desagradam. Ninguém gosta de qualquer rock. Mas todo mundo gosta de algum.

Até minha avó evangélica gosta de ACDC.

E vou fechar com uma frase do Bob Dylan, que eu particularmente acho bastante irritante (o Bob, não a frase), mas que explica bem o que quero dizer:

“Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas.”

 

É isso =]

Minha história do Rock

Publicado: quarta-feira, 13 julho - 2011 em Cultura, Música
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Não sei quanto tempo faz que não escrevia nada aqui. Mas hoje me ocorreu uma mistura tão forte de sensações que não tinha como engolir.

Começou com uma brincadeira no Facebook, onde as pessoas trocaram suas fotos por ídolos do Rock. De início, estava muito engraçado. Em um chat, conversavam Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Johnny Cash. Em outro, Robert Smith, Siouxsie, Debbie Harry e Bono Vox. Aos poucos fui percebendo o quanto aquelas imagens e as músicas desses ídolos falavam sobre as pessoas.

Agora no fim da tarde, vi uma imagem da Joan Baez. Automaticamente me veio à mente a cena em que, no Woodstock, ela cantou “Swing slow sweet chariot” sem instrumento algum, apenas com uma luz azul sobre o corpo, e calou um dos maiores festivais de rock da história.

Isso me fez lembrar como a música, especialmente o “rock’n’roll” mudou minha vida. Eu sei que toda música tem potencial transformador, expressa sentimentos e tudo mais. Mas o rock pra mim é sempre um grito. Seja de dor, de tristeza, de raiva ou de alegria. É a música que definitivamente coloca pedras para rolar.

Eu cresci ouvindo Led Zeppelin, Raul Seixas, Legião Urbana, Alice in Chains, Ramones, The Doors, Deep Purple, entre tantas outras coisas fantásticas. Já tive meus momentos punks, meus momentos hardrock chorosos, meus surtos flower power e eventualmente síncopes furiosas de metal. Já chorei ouvindo Renato Russo e Cazuza. Já curti fossa ouvindo Heart. Já “peguei balada” ouvindo Blondie. Já virei a noite ouvindo Smiths. E cada momento desses fez de mim uma pessoa diferente.

Eu não sei em que proporção eu procurei o rock’n’roll pelo processo de revolta que foi minha vida ou ele mesmo contribuiu para que eu começasse a jogar tudo pro alto. A história do rock é a história dos jovens, muitas vezes contada por “velhos” que nunca envelheceram de verdade.

O rock também foi o cenário onde a psicodelia se manifestou em sua forma mais bonita. E também foi o primeiro a pedir pra pararem de jogar bombas. É hoje através do rock (ainda que a gente não entenda muito) que a maioria dos jovens chora suas dores (que a gente também não entende muito).

O que entedemos hoje por “espetáculo de música”, o modo como os shows se transformaram em apresentações circenses de proporção absurda, é culpa do rock. E das faces mais libertadoras às mais aprisionantes do universo das drogas se espalharam pelo mundo com sua ajuda.

E cada vez mais vejo gente da minha idade dizer que vive na época errada. Particularmente, esse anacronismo pra mim é bom, porque me sinto menos só. Mas por outro lado me preocupa, pois é sinal de que alguém não está fazendo as coisas direito. E não estou falando de música comercial, pois o que temos hoje por “clássicos do rock” sempre foi muito comercial. Estou falando dos gritos que fazem pedras rolarem.

Algumas angústias são grandes demais para serem gritadas. Às vezes se fazem necessários baixos, baterias e guitarras, ligados num bom amplificador, para que a alma possa gritar.

Pode ser prepotência, pensando nos holocaustos e guerras do passado, dizer que hoje vivemos tempos de angústia como nunca antes. É muito provavel que seja prepotência. Mas defendo a idéia de que a angústia só existe no presente, como tudo o que existe. Mesmo a lembrança das angústias do passado são angústias que vivemos no presente. E as grandes bandas nos ajudam, quando falam por nós, a gritar por toda essa angústia.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi alguém dizer “isso não é música, isso é gritaria”. Nem todo mundo consegue entender. Mas é que quando a gritaria vira música… Acho que quando gritaria se torna música, passa a ser o grito de um grupo. Algumas vezes, de todo um povo.

A história do rock pra mim é uma história de gritos. E a minha própria história é uma história de gritos.

E alguém aqui tem uma história que não seja feita de gritos?

Grand Canyon (Tracey Thorn)

Publicado: sábado, 4 junho - 2011 em Cultura, Literatura, Música
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Faz um tempo razoável que não falo de música aqui. No meio de tanta revolta política e religiosa, pensamento profundos sobre o cotidiano fútil ou leituras simplistas da complexidadesenti vontade de divulgar sem propósito. Geralmente uso outras mídias pra fazer isso, dessa vez, isso fala para mim e por mim. É o tipo de coisa que eu gosto de ouvir, que eu diria aqui, e que eu diria a algumas pessoas.

A voz dessa mulher mexe muito comigo. Desde os tempos do Everything but the Girl, que também é uma delícia. E isso fica aí como prova de que “louge music” não é necessariamente música de elevador.

Como é de costume, minha livre tradução da letra:

Garoto, acho que você chegou ao lar
Abra a porta e entre
Tantas pessoas se sentem como você
Seus sonhos mais doces têm sido negados

Tranque o passado numa caixa e jogue fora a chave
E deixe pra trás os dias de noites intermináveis
Todos estão esperando, todos estão aqui
Saida da floresta e venha para a luz

Todos te amam aqui

Garoto, você andou por estradas erradas
Agindo como outra pessoa
Quem disse que você não era como tinha de ser?
E te fez cumprir deveres alheios?

Este é o lugar pra você só olhar para esta sala
Alguém aqui é feito de pedra?
Caído entre os hereges, os perdedores e os santos
Você aqui está entre os seus

Você está em casa

Olhe esse buraco dentro do seu coração
Ninguém poderá preencher
É como o Grand Canyon
Olhe essa conexão quebrada
Entre você e o mundo
É como o Grand Canyon

Mas todos te amam aqui
Você está em casa

Esse buraco que nada preenche. Se procuramos bem, o temos todos. É o buraco que fica quando abandonamos nossa condição de ser humano, enquanto espécie, e tentamos ser qualquer outra coisa “malparida” que não sabemos definir. E quando percebemos, até dói um pouco. Mas em grupos, ainda que seja um grupo de dois, aí sim fazemos sentido enquanto indivíduos.

Então fica aí pra todos os coleguinhas que se sentem à parte da realidade. Quando nos encontramos, estamos em casa. Quando estamos juntos, estamos em casa. E todos te amam aqui.

I just came to say hello!

Publicado: segunda-feira, 22 novembro - 2010 em Música
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Essa música (a letra) não tem tanto a ver com o meu momento, e eu não sei exatamente porque resolvi colocar ela aqui. No meio desse ritmo político e revoltado que o blog tomou, acho que ela vem para descontrair. O fato é que não consigo parar de ouví-la há dias.

É muito gostosa de ouvir, e de certa forma explica bem o modo como eu me comporto nas festas. E toda aquela coisa do “sou legal, não estou te dando mole”. Ou “sou mole, não estou te dando legal”, enfim…

Só quis mesmo dividir uma brisinha. Me irritam pessoas que vão pra balada pela “pegação”. Sou do tipo que vai pra dançar, que até arrisca fazer amigos… Mas essas coisas de pegar no braço e dizer “GATA, SUA LINDA” não. Não mesmo.

Se alguém quiser conhecer: Martin Solveig feat Dragonette – Hello

Eu poderia ficar por aqui e curtir um tempo com você
O que não significa que eu esteja afim
Você é firmeza, mas eu estou aqui, querido, pra curtir a festa
Não se empolga, porque é o máximo que vai ter de mim

Sim, eu te acho bonitinho, mas há algo que você precisa saber
Eu só vim pra dizer “e aí?”

Não sou o tipode garota que ficaria confusa com você
Vou deixar você tentar me convencer
Tudo bem, estou ficando zonza, mas só pra curtir a festa
Por mim tudo bem se você não tiver muito a dizer

Até gosto disso e tal, mas há algo que você precisa saber Eu só vim pra dizer “e aí?”

Indicando: The Dead Weather

Publicado: quinta-feira, 15 julho - 2010 em Música
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The Dead WeatherWhite Stripes e The Kills (não necessariamente nesta mesma ordem) estiveram durante muito tempo entre os sons que eu mais ouvia. Sei que a notícia não é nova, mas eu quase tive uma parada cardiorrespiratória quando soube que Jack White e Alison Mosshart (um de cada duo, respectivamente) estavam dando as mãozinhas pra fazer a obra do divino espírito santo na Terra. O grupo ainda conta com Dean Fertita (QOTSA) e Jack Lawrence (Raconteurs).

Lançaram um álbum ano passado e outro agora em Maio. Curiosos, vejam aqui.

Quem quiser mais, tem no myspace.

E eu colocaria links pra download, mas não pretendo ter problemas com a lei tão cedo (apenas aproveito a brecha pra dizer que não sou muito fã dessa história de direitos autorais).

PS: Alison é um TESÃO!