Arquivo da categoria ‘Literatura’

Faz várias luas que não escrevo nada aqui, mas me deu vontade de escrever, e prefiro que seja aqui mesmo. De repente eu reanimo esse espaço.

Quando eu era criança, lá pelos 5 anos, eu queria ser “cientista maluco”. Na minha cabeça, isso era uma profissão. Eu ficava brincando com os produtos de limpeza, tinta, óleo, vinagre, tudo em potinhos de iogurte que ficavam vazios. A escada do quintal era meu laboratório, cada degrau uma prateleira cheia de “experiências”, invenções que sempre que eu acreditava terem funcionado corria pra mostrar pra minha avó. Observava as formigas e, não me orgulho disso, enchia os formigueiros com água da mangueira, ou perseguia elas com uma lupa. Não era bem crueldade, mas uma sensibilidade que ainda não tinha se desenvolvido. Quando escurecia eu ficava olhando o céu e pensando o que havia naquelas estrelas, se tinha alguém olhando de volta, se as pessoas que morriam iam pra alguma delas, ou várias. E nas minhas orações eu pedia pra que Deus me desse uma nave espacial. Depois corria pra olhar pela janela e ela nunca estava lá. Às vezes eu sonhava com essas viagens, grandes laboratórios, monstros que eu fazia sem querer e corriam atrás de mim. E quando ia pra chácara com meus avós eu perguntava tudo. Queria saber o nome das plantas, porque algumas davam fruta e outras não, enfim… Eu enchia o saco de qualquer adulto com essas perguntas. Há quem diga que eu fui uma criança esquista, mas acredito que eu era bem saudável.

Cresci. Meu sonho passou a ser escritor. Adolescente ainda eu ensaiava livros, escrevia dezenas de páginas, depois achava ruim e apagava tudo. Tentei fazer quadrinhos, também não gostava e jogava fora. Poesias que depois de uns meses me cansavam e eu queimava. Uma porção de coisas que fisicamente se perdeu, mas de que eu ainda me lembro razoavelmente bem.

Nunca publiquei um livro, nem consegui me formar num curso de biologia que já se arrasta por vários anos. Não por falta de capacidade, mas de conformidade. Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido. E assim como livros largados pela metade, já se foram alguns TCCs e algumas disciplinas. Vou trabalhando como dá, numa luta por independência que também não se completou e eu nem sei quando vai se completar.

Mas o ponto aqui não é a conclusão de nada. Estava no quintal olhando para o céu noturno, da mesma forma como fazia aos cinco anos, e pensando muitas coisas que eu já pensava naquela época.

A ciência que eu faço, assim como a escrita que eu faço, raramente me dá dinheiro. Mas elas me dão prazer, e eu sinto que elas contribuem para alguém. Quando eu decidi ser articulista voluntário sem assinatura, produzindo para livre distribuição, não foi por falta de opção, mas por convicção. E eu não ganho atualmente nenhum centavo de editoras e direitos autorais (como a maioria dos escritores…), mas, puta merda, como eu escrevo! E felizmente eu consigo atingir muitas pessoas, interagir com elas, ensinar e aprender, emancipar.

Não vai ser um pedaço de papel ou um carimbo social que determinarão quem eu sou ou o que eu faço. Se eu faço ciência, sou cientista. Se eu escrevo, sou escritor. E seu julgamento sobre isso honestamente não me interessa. Me interessa investigar e escrever, obrigado.

E esse, como vários outros textos, não tem a pretensão de convencer ninguém de nada, nem de me afirmar para um grupo ou buscar legitimação. É apenas mais uma daquelas coisas que a gente faz só pra que outras pessoas saibam que não estão sozinhas, para que outras saibam que existem outros caminhos, e tantos outros além do tradicional e do meu.

Faço isso porque essas coisas, essas que as pessoas fazem pra que a gente saiba que não está sozinho, sempre foram muito importantes pra mim. Pra eu saber que não estou sozinho.

Vai ver essa é a concepção moderna de uma comunidade anarquista. Eu ainda vou precisar batalhar, e muito, pra sobreviver num sistema de merda. Mas o que eu puder fazer pra encurtar o tempo de vida desse sistema, vou fazer.

Aos anarcos, piratas, esquerdinhas, anônimos e libertários do meu convívio, meu sincero agradecimento. Somos um.

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Conversando com estrelas 2: A poesia

Publicado: terça-feira, 7 maio - 2013 em Cultura, Filosofia, Literatura
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Estou num daqueles períodos de escrever pouco aqui e deixar o blog às moscas. Mas agora eu preciso mesmo escrever.

Estava em mais uma dessas madrugadas insones, das quais já perdi a conta e provavelmente já são mais da metade das madrugadas de toda a minha vida. Estava tentando escrever e não conseguia. Tentando pensar e me sabotando. Resolvi sair por cinco minutos, tomar um ar e ver o céu.

Peguei uma mantinha, um chá bem quente e decidi que iria ficar ali no quintal, olhando pra cima até que me viesse uma inspiração. Mal deu tempo de observar a fumaça que saía da caneca se misturar com a que eu expirava, e subindo o olhar com a neblina mentirosa que eu mesmo fiz, percebi o céu bastante limpo, deixando evidente a ponta do braço da Via Láctea onde dorme a humanidade.

Antes que eu pudesse terminar de dizer mentalmente o quando a natureza é maravilhosa, metade do céu foi cortado pela estrela cadente mais bonita que já vi até hoje. Branca, enorme, muito brilhante. E, em fração de um segundo, desapareceu.

Ainda estou um pouco perplexo, e com as mãos trêmulas, parte por frio e parte por êxtase.

No fim, essa capacidade de olharmos pro céu, pra fumaça, pra si… Não é isso que nos faz poetas.

Isso nos faz a própria poesia.

 

[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

Grand Canyon (Tracey Thorn)

Publicado: sábado, 4 junho - 2011 em Cultura, Literatura, Música
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Faz um tempo razoável que não falo de música aqui. No meio de tanta revolta política e religiosa, pensamento profundos sobre o cotidiano fútil ou leituras simplistas da complexidadesenti vontade de divulgar sem propósito. Geralmente uso outras mídias pra fazer isso, dessa vez, isso fala para mim e por mim. É o tipo de coisa que eu gosto de ouvir, que eu diria aqui, e que eu diria a algumas pessoas.

A voz dessa mulher mexe muito comigo. Desde os tempos do Everything but the Girl, que também é uma delícia. E isso fica aí como prova de que “louge music” não é necessariamente música de elevador.

Como é de costume, minha livre tradução da letra:

Garoto, acho que você chegou ao lar
Abra a porta e entre
Tantas pessoas se sentem como você
Seus sonhos mais doces têm sido negados

Tranque o passado numa caixa e jogue fora a chave
E deixe pra trás os dias de noites intermináveis
Todos estão esperando, todos estão aqui
Saida da floresta e venha para a luz

Todos te amam aqui

Garoto, você andou por estradas erradas
Agindo como outra pessoa
Quem disse que você não era como tinha de ser?
E te fez cumprir deveres alheios?

Este é o lugar pra você só olhar para esta sala
Alguém aqui é feito de pedra?
Caído entre os hereges, os perdedores e os santos
Você aqui está entre os seus

Você está em casa

Olhe esse buraco dentro do seu coração
Ninguém poderá preencher
É como o Grand Canyon
Olhe essa conexão quebrada
Entre você e o mundo
É como o Grand Canyon

Mas todos te amam aqui
Você está em casa

Esse buraco que nada preenche. Se procuramos bem, o temos todos. É o buraco que fica quando abandonamos nossa condição de ser humano, enquanto espécie, e tentamos ser qualquer outra coisa “malparida” que não sabemos definir. E quando percebemos, até dói um pouco. Mas em grupos, ainda que seja um grupo de dois, aí sim fazemos sentido enquanto indivíduos.

Então fica aí pra todos os coleguinhas que se sentem à parte da realidade. Quando nos encontramos, estamos em casa. Quando estamos juntos, estamos em casa. E todos te amam aqui.

Sangue

Publicado: sábado, 29 janeiro - 2011 em Literatura
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Acordei de um sono profundo.

E eu tenho tentado acordar há um tempo… Mas quando abrimos os olhos pela manhã, uma mancha branca toma conta de tudo. Somos ofuscados pela realidade e demoramos a aceitar. Mas agora eu enxergo.

E é bonito o mundo que eu vejo.

O coágulo que me fazia zumbi voltou a circular, meu corpo está quente novamente.

E eu não faço a menor ideia do que está acontecendo. Mas é bom.

Hoje foi uma noite especial. Estive com pessoas queridas, compartilhei um momento de felicidade com uma amiga muito importante, tive surpresas estranhas, carinhos estranhos, de quem estava perto e de quem estava longe. E o céu fechado que cobria o início da noite estava aberto agora ao fim da madrugada.

Gosto quando vejo as estrelas sorrindo. E por isso minha casa metafórica é tão aconchegante. Elas são meu teto. E o meu chão pouco importa agora.

Vou construir essa residência de cima pra baixo. E seremos eu e a vida. Sob uma redoma translúcida.

O sangue vai correr em minhas veias. Eu, nas veias do mundo.

Os elos de corrente eu deixo no chão. Servirão de peso da porta que eu não tenho.

Por todos os deuses, alguém aí tem uma garrafa de vinho? Quero comemorar estar vivo.

Casa vazia

Publicado: sábado, 15 janeiro - 2011 em Filosofia, Literatura
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Nunca estou sozinho quando estou sozinho.

Há tantos morando dentro de mim, mas são acanhados.

É preciso uma casa vazia para que eles se sintam à vontade e ocupem cada cômodo, cada tímido cômodo, cada íntima rachadura da parede.

Há um que fuma muito, um que dança, um que anda nu, um que sonha em voz alta…

A paz de estar sozinho é a alegria de estar consigo.

Quem não suporta esta sensação não se agrada muito da própria companhia.

Desconfie de gente assim.

Fora do ritmo só há danação

Publicado: segunda-feira, 15 novembro - 2010 em Filosofia, Literatura
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“Fora do ritmo só há danação. Fora da poesia não há salvação.” (M.Q.)

Eu escrevi isso tudo na quinta-feira passada, mas esqueci de colocar aqui.

Hoje conversando com minha orientadora, em algum momento ela disse “se nós formos cruéis, no sentido de ver as coisas cruas…”. Não consegui ouvir muito o restante, porque isso me fez pensar. E se eu não parasse aqui pra escrever, não ouviria mais nada o dia todo, porque continuaria pensando. Escrevo não para parar de pensar, mas para colocar o pensamento adiante.

Nós temos sempre a pção de ver a vida crua. E se o fazemos, o que vemos é a crueldade. Gente que se atropela, compete, desrespeita, violenta. Gente que consome sem freios. Que produz sem recompensa. Uma juventude que não vai além do que a mídia permite, meninos e meninas construídos por telas espalhadas em todos os cantos. Telas de TV, de cinema, de computadores… telas gigantes de papel nas ruas, telas de vidro nas lojas. Lentes que exibem, mas também enxergam. E sabem muito bem com quem estão lidando.

A cada ano que passa, guardadas as exceções, ejo os jovens mais vazios. Não vazios completamente, mas vazios de si, pois não há espaço para que se construa um indivíduo no meio de tanta bagunça em forma de produto. Jovens que têm por hábito o desinteresse. Entram numa universidade e não se importam com o que já aconteceu ali. Apenas comemoram o mérito questionável do vestibular e esperam o diplima como um cão que espera o osso. Deitam e rolam se for esse o preço. Mais que isso, se fignem de mortos.

O mundo é sim uma desgraça e a esperança é pouca. Não é necessário pessimismo para ver isso, basta o senso crítico. Mas há algo além. A partir do ponto em que estamos vivos, nossa única certeza é a de que um dia morreremos. Mas já que estamos aqui, passamos a ter duas opções: a primeira é, naturalmente, morrer. A segunda é viver. E se não sabemos direito o que é vida, fica difícil saber viver…

Eu fiz minha opção. Viver é entrar no ritmo, viver é estar em poesia.

Entrar no ritmo consta de entender a natureza, observar seus quilíbrios, reconhecer suas capacidades e aplicá-las par aum bem comum. Quanto mais reinventamos a sociedade, mais lonve estamos de nós mesmos, de nossa natureza. Do meu ponto de vista, o caminho é desinventar tudo. Nem que seja só dentro da cabeça. Quando mudamos o modo de ver, mudamos o modo de agir, e muda o que os outros vêem em nós.

Eu ando desinventando muita coisa aqui dentro. Tudo aquilo que aprisiona. E tem mudado meu modo de agir. Me sinto mais livre, e sei que isso estimula que a liberdade floresça ao lado.

O segundo passo é estar em poesia. Isso costuma parecer difícil, pois a sociedade hoje é antipoética. Os poetas hoje são verdadeiros guerrilheiros. Mas eles fazem guerra de um jeito bem diferente, pois seu stiros continuam a bombardear nossos olhos por séculos, milênios, mesmo quando morrer em batalha. Basta que tiremos os olhos das telas e somos alvejados pelos poetas (os da escrita, os da dança, os da pintura, os da música e outros tantos). A natureza é, por si só, uma grande poeta. Se não for, ao menos ela tem fornecido armamentos aos nossos guerrilheiros. E armamento pesado.

O mais intrigante é que no lugar de causar dor, as armas dos poetas nos ajudam a exprimí-la, entendê-la, conviver e lidar com ela de modo que ainda compense escolher viver. É por isso que os meus “grandes filósofos” são, na verdade, poetas. Pois eles conseguem apresentar a realidade crua como é sem que eu sangre ao assstí-la.

Quando a gente perde o “tirmo”, a cadência poética da vida, a morte é atraente. E para que se interrompa a danação, para que eu pare de sangrar, eu acendo um cigarro e olho a paisagem, talvez enquanto tome um café forte. E é assim, na overdose plena dos sentidos, que eu sinto pulsar um coração grande, lá no centro da Terra. Aos poucos, eu volto pro ritmo, sincroinzo a respiração e minha própria “pulsação”. E mesmo parado, eu danço. E mesmo em silêncio, eu me comunico. E memso no pranto há beleza.

Mas fora da poesia… Fora da poesia não há salvação.

Como me tornei um leitor

Publicado: quinta-feira, 14 outubro - 2010 em Filosofia, Literatura
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Vão te dizer muitas coisas sobre leitura. Algumas são verdadeiras, como o fato de que ver adultos lendo te despertará interesse sobre livros. Outras são falsas, como aquela história de que temos que começar com as leituras mais fáceis e depois ir pras mais difíceis. Mas aqui eu gostaria de falar de uma experiência particular, minha. Cada um de vocês deve ter uma história dessas pra contar, pois se está aqui, em algum nível é também um leitor.

A leitura pra mim trasncende a folha de papel. E não estou falando das caixas iluminadas que têm substituído a celulose. Quando você observa alguém, está lendo um pouco da história daquela pessoa. Quando você ouve um depoimento, está incorporando uma nova leitura do mundo. Quando você admira uma paisagem, você está lendo uma poesia que a natureza escreveu.

Ler não é apenas prazeroso. Ler é fundamental. E nas suas diversas formas.

É na leitura que tiramos nossas primeiras impressões sobre um assunto. É a leitura que nos instiga a curiosidade por novas leituras, novos pontos de vista. É lendo que crescemos, acima disso.

Pois a cada página do universo que é lida, não bastasse só a mágica deste fenômeno, ocorre algo ainda mais encantador: Olhamos pras nossas próprias páginas e há algo mais escrito ali. Quanto mais absorvemos de nossas leituras de mundo, mais espesso fica o livro de nossa própria vida.

Podemos nos tornar bons leitores com a prática, mas no fundo não é um processo de “tornar-se”, e sim de “descobrir-se”. Todo ser humano tem capacidades maravilhosas de leitura. É questão apenas de se permitir parar um pouco o que estiver fazendo e tentar ler o que está à sua frente.

Alguns dos livros que lemos, voltamos a ler em outro momento da vida, ou várias vezes durante ela. Outros nós deixamos empoeirar numa prateleira ou caixa num sótão. Há ainda os que emprestamos aos amigos, damos de presente ou doamos a sebos e bibliotecas.

É assim com tudo na vida, pois da ótica do leitor, tudo são páginas.

E isso não é triste ou alegre. É apenas pleno.

Tristeza não tem fim, felicidade sim

Publicado: segunda-feira, 2 agosto - 2010 em Literatura
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Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

(…)

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

(…)

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

[A Felicidade – Tom Jobim e Vinicius de Moraes]

Acordou mesquinho? Leia Quintana!

Publicado: terça-feira, 20 julho - 2010 em Filosofia, Literatura
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Mário QuintanaFunciona sempre comigo. Mário Quintana não é um poeta pra ser lido, tão somente, mas pra ser desossado, cozinhado, preparado com paciência (sem panela de pressão) e degustado lentamente. Sempre que acordo com uma nuvem na cabeça, querendo mandar o mundo às favas, o velhinho me coloca nos eixos. Hoje procurando uma imagem para ilustrar essa postagem, me deparei com essa. E aí eu entendi que há mais em comum entre eu ele e algumas de minhas referências de vida do que imaginava minha vã filosofia.

E não é que o danado está bebendo vinho e fumando um cigarrinho?

Vou tentar mostrar em poucos trechos o que faz do homem um marco em minha vida enquanto aspirante a pensador:

As Indagações
“A resposta certa, não importa nada: o que importa é que as perguntas estejam certas”.

Devia vir no diploma de todo cientista, pra que nunca se esqueça. Ainda, um pouco mais, só pra deixar um pouco do gosto desse vinho aí da foto nas cabeças de cada um de vocês.

“Ah, esses moralistas… Não há nada que empeste mais do que um desinfetante!”

Diálogo Noite Adentro
– Mas há as que nos compreendem…
– Ah, essas são as piores!

Entre as minhas preferidas, estão as que de tão sinceras, soam brutas. Mas como ele as coloca, ficam doces.

[Inscrição para um portão de cemitério]
A morte não melhora ninguém…

[Da calúnia]
Sorri com tranquilidade
Quando alguém te calunia.
Quem sabe o que não seria
Se ele dissesse a verdade…

[Do Bem o do Mal]
No fundo, não há bons nem maus. Há apenas os que sentem prazer em fazer o bem e os que sentem prazer em fazer o mal. Tudo é volúpia…

Nós vivemos a temer o futuro,
mas é o passado que nos atropela e mata

Poderia ficar por longas páginas citando o homem, mas vou deixar para aquele que se interessar que o busque. Quando visitei seu museu no RS, saí de lá uma outra pessoa. Muito maior, de tão pequeno. Guardo apenas uma para o final, que foi justamente a que me roubou a mesquinhez do dia.

O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.

Agora, chega. Fica aí a indicação. Faz minha vida melhor, então que faça a de mais alguém.