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Esse não é um texto só para anarquistas, porque explica muita coisa sobre eleições. Ele vai desagradar a quem tenta tratar esse assunto de uma maneira “8 ou 80”. Vejo essa pergunta surgir diariamente nos grupos anarquistas de que participo, então pra não ter de escrever noventa vezes a mesma coisa, resolvi escrever aqui. Tentarei trazer as informações necessárias para que você tire suas conclusões, a partir do que está aqui e das duas próprias convicções. Essa, como várias outras perguntas sobre a anarquia, não tem uma resposta pronta.

 

“Anarquista não vota”

Essa máxima é a mais comum, e me arrisco a dizer, a mais “senso comum” também. Ela tem uma razão de existir, mas não acredito que a grande maioria das pessoas vá além dessa afirmação rasa na hora de argumentar e tirar suas conclusões. Afinal, anarquistas podem votar? Bem, anarquistas podem fazer o que bem entenderem. No contexto da ação direta como prática, não há quem te possa dizer o que você não possa fazer, desde que você tenha uma boa explicação pra isso. A grande questão aqui é: existe uma boa justificativa pra que um anarquista vote? Às vezes sim, às vezes não. Pra saber se você tem esse bom motivo ou não, é preciso entender algumas coisas e colocar numa balança.

 

Votos nulos, brancos e ausências

Existe muita desinformação na internet a respeito desse assunto, e muita gente tentando ensinar o que não sabe. Até mesmo a legislação eleitoral é um pouco confusa, favorecendo interpretações distorcidas. Entre anarquistas, é muito comum que existam campanhas de votos nulos, mas isso não ocorre com o objetivo de anular as eleições, como alguns supõem. O que pode chamar uma nova eleição são uma quantidade superior a 50% de votos “anulados”, nesse caso, por um TRE/TSE. Quando um candidato é impugnado, por exemplo, seus votos são anulados, e se forem superiores a 50% do eleitorado, uma nova eleição poderá ser chamada em que este candidato não poderá participar novamente (porque foi impugnado), mas os outros vão. Pela lei, nenhuma ação do eleitorado (prevista em lei) cancela um processo eleitoral. Pra isso seria necessário comprometer o processo eleitoral (com fraudes, por exemplo), o que o voto nulo não faz.

Então pra que serve o voto nulo? Isso também pode variar de pessoa pra pessoa, mas em geral, é uma das possíveis declarações de insatisfação com o processo eleitoral. Para fins de registro, é preciso entender os três tipos de “não voto”, sendo eles:

Voto Branco: O voto branco é um “tanto faz”, para fins de declaração ideológica. Eles têm uma contagem própria, mas geralmente são apresentados em conjunto dos nulos pelas mídias (ex.: “8% de brancos e nulos”). Estatisticamente, eles penas reduzem a quantidade de votos válidos, ou seja, não são contabilizados para as porcentagens finais do processo eleitoral. Vou explicar isso com calma adiante.

Voto Nulo: O voto nulo é um “nenhum deles(as)”, para fins de declaração ideológica. Também é contado separadamente para fins de registro, mas não é contabilizado entre os votos válidos. Os votos nulos, assim como os brancos, não vão “pra quem tem mais”, como se afirma por aí, mas eles também alteram a matemática final das eleições.

Ausência: A ausência, ideologicamente, é um “esse sistema não me representa, independente dos candidatos”. Por isso, entre anarquistas tem crescido a campanha não apenas para anular, mas também para não votar. A ausência pode ser justificada em outra cidade. Se não for justificada, o eleitor deverá pagar uma multa de R$3,51 para cada turno em que esteve ausente e ficará em dia com a legislação eleitoral. Esse processo é rápido e pode ser resolvido em poucas horas, e você receberá uma certidão de quitação que tem a mesma validade de um comprovante de participação nas eleições para fins de concursos públicos, ingresso em universidades, etc. Elas também reduzem o total de votos válidos.

 

Antes da matemática, algumas questões filosóficas

Algumas pessoas têm planejado usar a lei da “escusa de consciência” para não terem a obrigação de votar. A escusa de consciência é um pedido de não obrigatoriedade individual para algo determinado a todos os cidadãos por lei, em função de crença religiosa, convicção filosófica, etc. Por processo, esse cidadão receberia uma outra obrigação ou prestação de serviço social equivalente, deixando de ter a obrigação que entra em choque com seus valores. Na prática, isso já existe, e é exatamente essa multa. Como seriam milhares de brasileiros alegando escusa de consciência, cria-se um sistema padronizado, em que aquele que não se sente bem em votar poderá contribuir com essa multa.

O grande problema é que essas multas vão para o fundo partidário. Então quando você não vota por ser contra o sistema eleitoral, mas paga a multa para não perder direitos sociais, na prática está sustentando o financiamento público de campanha. Durma com esse barulho.

Eu venho estudando a possibilidade de alegar escusa de consciência no pagamento da multa, exigindo uma outra obrigação que não me envolva no processo eleitoral da democracia representativa, ainda que indiretamente. Mas até agora nada conclusivo. Se alguma alma iluminada por aí tiver embasamento jurídico sobre esse assunto e puder acrescentar nos comentários, eu atualizo a publicação. Até lá, ficaremos com esse mistério. Mas fica aí a dica para quem quiser pesquisar também.

 

Matemática eleitoral sinistra da morte

Pois bem. Até agora estava tudo lindo, eram apenas questões de convicções políticas, morais e filosóficas, e parecia lógico que, nesses contextos, anarquistas não votassem. Essa seção do texto atende ao propósito de mostrar um outro lado, onde a estratégia de cada um poderá levar a atitudes que, superficialmente, são contraditórias, mas radicalmente são válidas, legítimas e até mais plausíveis do que a negação do voto.

Como já dito, votos brancos, nulos e ausências, para fins de contagem final os votos, têm a mesma função, independente da proposta ideológica. Eles diminuem a quantidade total de votos válidos. Isso é um problema? Você é quem me diz… Veja:

 

– Eleições diretas para cargos de uma cadeira só (ex.: governador, presidente, prefeito)

Nesse tipo de processo eleitoral, o que conta é quem tiver a maior quantidade de votos na contagem absoluta. Caso essa contagem supere 50% dos voto válidos já no primeiro turno, não ocorre segundo turno. Vamos entender o tamanho dessa treta numa eleição hipotética, com números simplificados pra ficar mais claro:

SITUAÇÃO: 4 candidatos (PA, PB, PC, PD); 100 eleitores; 1 cadeira. Veja dois possíveis cenários:

1º Resultado das  eleições: PA 41 votos (41%), PB 35 votos (35%), PC 15 votos (15%), PD 9 votos (9%). Essas eleições vão para segundo turno, porque o candidato mais votado não superou 50% dos votos válidos.

2º Resultado das eleições: PA 41 votos (41%), PB 28 votos (28%), PC 8 votos (8%), PD 3 votos (3%), Brancos 7 (7%), Nulos 9 (9%), Ausências 4 (4%). Para calcular o resultado dessas eleições, primeiro retiramos os votos que não são válidos (brancos+nulos+ausências= 20 votos). Assim, o total de votos válidos passa a ser 80, e as porcentagens serão recalculadas em função desse total. O resultado final fica assim: PA 41 votos (51,2%), PB 28 votos (35%), PC 8 votos (10%), PD 3 votos (3,7%). O candidato do PA ganhou as eleições no primeiro turno com a mesma quantidade de votos.

Num eventual segundo turno, como só há 2 candidatos ganha quem tiver mais votos. Os votos não válidos só vão aumentar essa diferença proporcionalmente, mas não vão alterar significativamente os resultados. Mas num primeiro turno, uma quantidade alta de votos não válidos poderá acelerar a definição do processo eleitoral.

 

– Eleições diretas para cargos de múltiplas cadeiras, com distribuição por proporcionalidade (ex.: deputados e vereadores)

Esse caso é um pouco mais complexo, então tentarei simplificar. Após as eleições as cadeiras disponíveis serão distribuídas entre os partidos e/ou coligações conforme a proporção de votos. Se um partido tiver 50% dos votos para deputado, metade das cadeiras da câmara é desse partido. Nas eleições para deputados e vereadores, não ganham necessariamente os mais votados. Primeiro se distribui proporcionalmente as cadeiras aos partidos/coligações, e aí elas são preenchidas pelos mais votados dentro desses partidos/coligações. Se o PA consegue 3 cadeiras e p PB consegue 1 cadeira, mesmo que o segundo mais votado do PB tenha mais votos que o terceiro mais votado do PA, ele não vai entrar. Vamos colocar exemplos, novamente:

SITUAÇÃO: 3 partidos e uma coligação (PA, PB, PC e CO, esta última incluindo PD e PE); 100 eleitores; 20 cadeiras.

1º resultado das eleições: PA 40 votos (40% = 8 cadeiras), PB 30 votos (30% = 6 cadeiras), PC 20 votos (20% = 4 cadeiras), CO 10 votos (10% = 2 cadeiras). Ou seja, entram aí os 8 mais votados do PA, 6 mais votados do PB, 4 mais votados do PC e os 2 mais votados entre PD e PE. Mesmo se o 5º mais votado do PB tiver mais votos que o 8º mais votado do PA, ele não entra, porque primeiro são distribuídas as cadeiras (vagas). Agora veja a treta…

2º resultado das eleições: PA 40 votos (40%), PB 20 votos (20%), PC 15 votos (15%), CO 5 votos (5%), Brancos 4 (4%), Nulos 10 (10%) e Ausências 6 (6%). Os votos válidos contabilizam 80. Dessa forma, temos PA (50% = 10 cadeiras), PB (25% = 5 cadeiras), PC (18,7% = 4 cadeiras), CO (6,2% = 1 cadeira).  Com a mesma quantidade dos votos, o PA tem metade da câmara, e praticamente qualquer decisão nas mãos. Além disso, com a mesma quantidade de votos, o PA conseguiu colocar mais duas pessoas lá dentro, só porque houve uma quantidade expressiva de votos não válidos.

 

Tá, mas e aí?

De maneira mais objetiva, votos inválidos não vão pra quem tem mais, mas aumentam as proporcionalidades e as diferenças entre proporções. Embora eles não sejam contados pra ninguém, a diminuição do total favorece os mais votados, podendo acelerar uma eleição para que um favorito ganhe no primeiro turno ou ampliar a quantidade de cadeiras ocupada pelos partidos/coligações mais votados nas eleições.

Por que eu decidi congelar os valores dos partidos mais votados e reduzir os menores para acrescentar os não válidos? Porque na prática, costuma ser assim. O eleitorado dos grandes partidos ou candidatos “pop” é fiel. Essas pessoas não pensam muito pra votar, elas são “petistas” ou “tucanas” ou ainda “malufistas”, e têm seus cérebros congelados há 20 anos. Quem passa por esse processo de questionamento são as mesmas pessoas que considerariam votar em partidos menores, que são menores justamente por apresentarem propostas de transformações mais radicais ou valorizam setores da sociedade historicamente oprimidos.

 

Ou seja, eu tenho que votar?

Não, em absoluto. O objetivo desse texto não é te convencer a votar. Eu mesmo, das 10 eleições de que já participei, só votei em duas. A primeira por pura ingenuidade e numa outra específica vez em que eu acreditei que um candidato merecia mais visibilidade para o que estava dizendo, e que se ele fosse eleito eu teria muito mais condições de lutar pela construção da anarquia. Esse candidato era o Plínio, naquele momento no PSOL, concorrendo à presidência. Fiz isso não porque ele me representava dentro do contexto da democracia representativa. Eu não acredito nisso. Mas eu conhecia a história dele. Eu tive a oportunidade de o encontrar pessoalmente duas vezes, de fazer perguntas, e ele mantinha uma plataforma de comunicação aberta na internet. Eu julguei que valia a pena, por vários motivos, e votei. Ele não ganhou e já não está mais entre nós, mas eu não me arrependo. Aquele voto foi tático. Eu queria alguém na televisão falando sobre reforma agrária de verdade, falando em atacar banqueiros, falando em negar a dívida externa. Queria alguém falando que colocaria impostos sobre grandes fortunas e que retiraria, de fato, de quem mais, de riquezas ilegítimas e absurdas (se você é um liberalista e vai comentar apenas pra defender grandes fortunas me faça um favor e não perca seu tempo, eu só estou explicando meu contexto de decisão).

Então a pergunta que eu te faço é: Seu voto é tático? Ou: Sua anulação de voto é tática?

Um anarquista pode até mesmo se candidatar se isso for tático. Você poderia aproveitar segundos na TV ou panfletos e cartazes pra criar um personagem caricato que aponta as falhas do sistema eleitoral de dentro dele. Sem compromisso de ganhar, porque você provavelmente não vai, sem financiamento de grandes setores privados.

A anulação do voto também pode ser tática. Uma grande quantidade de votos nulos ou ausências são uma das maiores evidências que teremos para apresentar à sociedade que esse sistema está falido e que a democracia precisa ser aberta, participativa. Que não queremos mais terceirizar nossa cidadania a cada 4 anos para um capataz diferente.

Votar ou não, para um anarquista, não é a questão. A questão são os porquês. Se você não vota, mas quando te perguntam o motivo você diz “porque sou anarquista, e anarquistas não votam”, com o perdão da sinceridade, você é bem burrinho(a). Se não é burrinho, sua preguiça de explicar te faz parecer um, e isso só tira a credibilidade política da anarquia. As pessoas só vão abdicar de suas propostas pelas nossas se elas considerarem nossa proposta mais inteligente. Então se esforcem mais!

Por fim, pare de tentar fazer seus irmãos e irmãs parecerem “menos anarquistas que você” apenas porque eles decidem votar ou deixam de votar. É preciso haver respeito na diversidade tática anárquica, na mesma medida em que precisamos problematizar essas decisões, quando algum(a) compa anarco disser que vai votar ou não. No lugar de dizer “seu idiota, anarquistas fazem assim, mimimi”, comece com um “por quê?”.

Agradeço a paciência de quem chegou até aqui. Um mundo sem patrões não vai cair do céu apenas porque sentamos emburrados no canto. Mas é preciso sempre olhar pra si e repensar se não estamos nos vendendo por pouco. O processo eleitoral é uma grande fraude. Cabe a você saber o que pode tirar desa fraude ou se vale a pena destruí-la.

Faz várias luas que não escrevo nada aqui, mas me deu vontade de escrever, e prefiro que seja aqui mesmo. De repente eu reanimo esse espaço.

Quando eu era criança, lá pelos 5 anos, eu queria ser “cientista maluco”. Na minha cabeça, isso era uma profissão. Eu ficava brincando com os produtos de limpeza, tinta, óleo, vinagre, tudo em potinhos de iogurte que ficavam vazios. A escada do quintal era meu laboratório, cada degrau uma prateleira cheia de “experiências”, invenções que sempre que eu acreditava terem funcionado corria pra mostrar pra minha avó. Observava as formigas e, não me orgulho disso, enchia os formigueiros com água da mangueira, ou perseguia elas com uma lupa. Não era bem crueldade, mas uma sensibilidade que ainda não tinha se desenvolvido. Quando escurecia eu ficava olhando o céu e pensando o que havia naquelas estrelas, se tinha alguém olhando de volta, se as pessoas que morriam iam pra alguma delas, ou várias. E nas minhas orações eu pedia pra que Deus me desse uma nave espacial. Depois corria pra olhar pela janela e ela nunca estava lá. Às vezes eu sonhava com essas viagens, grandes laboratórios, monstros que eu fazia sem querer e corriam atrás de mim. E quando ia pra chácara com meus avós eu perguntava tudo. Queria saber o nome das plantas, porque algumas davam fruta e outras não, enfim… Eu enchia o saco de qualquer adulto com essas perguntas. Há quem diga que eu fui uma criança esquista, mas acredito que eu era bem saudável.

Cresci. Meu sonho passou a ser escritor. Adolescente ainda eu ensaiava livros, escrevia dezenas de páginas, depois achava ruim e apagava tudo. Tentei fazer quadrinhos, também não gostava e jogava fora. Poesias que depois de uns meses me cansavam e eu queimava. Uma porção de coisas que fisicamente se perdeu, mas de que eu ainda me lembro razoavelmente bem.

Nunca publiquei um livro, nem consegui me formar num curso de biologia que já se arrasta por vários anos. Não por falta de capacidade, mas de conformidade. Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido. E assim como livros largados pela metade, já se foram alguns TCCs e algumas disciplinas. Vou trabalhando como dá, numa luta por independência que também não se completou e eu nem sei quando vai se completar.

Mas o ponto aqui não é a conclusão de nada. Estava no quintal olhando para o céu noturno, da mesma forma como fazia aos cinco anos, e pensando muitas coisas que eu já pensava naquela época.

A ciência que eu faço, assim como a escrita que eu faço, raramente me dá dinheiro. Mas elas me dão prazer, e eu sinto que elas contribuem para alguém. Quando eu decidi ser articulista voluntário sem assinatura, produzindo para livre distribuição, não foi por falta de opção, mas por convicção. E eu não ganho atualmente nenhum centavo de editoras e direitos autorais (como a maioria dos escritores…), mas, puta merda, como eu escrevo! E felizmente eu consigo atingir muitas pessoas, interagir com elas, ensinar e aprender, emancipar.

Não vai ser um pedaço de papel ou um carimbo social que determinarão quem eu sou ou o que eu faço. Se eu faço ciência, sou cientista. Se eu escrevo, sou escritor. E seu julgamento sobre isso honestamente não me interessa. Me interessa investigar e escrever, obrigado.

E esse, como vários outros textos, não tem a pretensão de convencer ninguém de nada, nem de me afirmar para um grupo ou buscar legitimação. É apenas mais uma daquelas coisas que a gente faz só pra que outras pessoas saibam que não estão sozinhas, para que outras saibam que existem outros caminhos, e tantos outros além do tradicional e do meu.

Faço isso porque essas coisas, essas que as pessoas fazem pra que a gente saiba que não está sozinho, sempre foram muito importantes pra mim. Pra eu saber que não estou sozinho.

Vai ver essa é a concepção moderna de uma comunidade anarquista. Eu ainda vou precisar batalhar, e muito, pra sobreviver num sistema de merda. Mas o que eu puder fazer pra encurtar o tempo de vida desse sistema, vou fazer.

Aos anarcos, piratas, esquerdinhas, anônimos e libertários do meu convívio, meu sincero agradecimento. Somos um.

Sobre a Rabugice

Publicado: quarta-feira, 6 novembro - 2013 em Cultura, Filosofia
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Decidi tirar a poeira disso e voltar a escrever.  O Facebook me deixou mal acostumado e como estou querendo sair de lá, resolvi falar de um dos principais motivos: a rabugice.

A rabugice não é um defeito. Ela é uma característica com suas vantagens e desvantagens.

Ela é diferente da arrogância, porque não é “afetada” apenas por ser. O amargo da rabugice não é de ruindade ou superioridade, é o cansaço de um peso que se carrega, geralmente por escolha.

E justamente por isso o rabugento é assim. Ele sabe que escolheu, é o preço que ele quis pagar, mas isso não torna as coisas doces. E ele não sente a obrigação de sorrir satisfeito apenas porque fez como quis.

Ela difere da inveja, também, porque ela não se incomoda com a felicidade alheia. Ela se cansa; é diferente. Sabe aquela felicidade a qualquer preço? De gente que luta pra ser feliz? Então, pra um rabugento, só olhar essa felicidade já cansa.

O rabugento não quer ser feliz como você. Ele só não consegue entender porque ainda tem gente que batalha pra ser feliz quando isso não é uma demanda pessoal. Ser feliz pra mostrar pra alguém que se está feliz é algo como dizer que tem orgulho de ser explorado.

Ainda, a rabugice não se assemelha ao ser “mal comido(a)”. Na verdade, a maioria dos rabugentos que eu conheço estão comendo ou sendo comidos muito bem. É uma bobagem achar que o mau humor está necessariamente ligado à falta de sexo ou que o bom humor está ligado ao excesso.

Na verdade, o rabugento “caga e anda” pra essa ideia de “bom humor”. Porque o “mau humor”, pra ele, é bom. Isso não significa que ele não vá dar risada, que não vai se divertir, que não gosta de estar com amigos. Significa apenas que ele não sente a menor obrigação de forçar uma emoção pra cumprir uma expectativa social.

Que cada um fale por si, claro, mas minha rabugice é uma questão de liberdade também. Porque eu não quero sorrir e dizer “tudo bem” quando não estiver tudo bem. Porque eu não quero falar que a vida está boa enquanto tem gente morrendo de fome ou por pensar livremente. Eu não quero estar tranquilo com isso. Eu não gosto de natal, dia das mães, dia dos namorados, e todas essas outras datas dedicadas a uma emoção/sentimento, porque não faz sentido ter um dia pra sentir uma coisa.

E se bem no dia das mãe você estiver com ódio da sua? Nos outros 364 dias você pode ser o filho mais amoroso do mundo, mas isso, pros outros, vai indicar que você é rancoroso, insensível… Mas pera, quem é o insensível aqui? Quem é que está te obrigando a esconder o que você está sentindo?

O mesmo vale pra aniversários. A maioria dos meus amigos felizmente já se acostumou a não receber o parabéns… “Parabéns por ter sobrevivido mais 365 dias”… “Parabéns porque a Terra deu mais um giro inteiro em torno do Sol desde que você nasceu, independente de qualquer esforço seu”. É assim que soa pra mim. E isso não quer dizer que eu goste menos de ninguém!

Dias depois, às vezes eu mando uma mensagem desejando felicidade ou falando de coisas que eu penso da pessoa. Mas sem compromisso de ser num dia X, porque se ela for pensar que eu “esqueci” dela apenas por isso, eu honestamente quero mais é que ela chore sangue…

Estão vendo? Isso é a rabugice… E eu já cansei de ficar explicando. Vão tomar no cu! rs

Que fique uma mensagem final. Rabugentos não são necessariamente invejosos, insensíveis, rancorosos, arrogantes, ou a porra que for. Eles só colocam a sinceridade acima de tudo isso. Acima deles mesmos. E acima de você também.

E todo mundo deveria ser assim.

Conversando com estrelas 2: A poesia

Publicado: terça-feira, 7 maio - 2013 em Cultura, Filosofia, Literatura
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Estou num daqueles períodos de escrever pouco aqui e deixar o blog às moscas. Mas agora eu preciso mesmo escrever.

Estava em mais uma dessas madrugadas insones, das quais já perdi a conta e provavelmente já são mais da metade das madrugadas de toda a minha vida. Estava tentando escrever e não conseguia. Tentando pensar e me sabotando. Resolvi sair por cinco minutos, tomar um ar e ver o céu.

Peguei uma mantinha, um chá bem quente e decidi que iria ficar ali no quintal, olhando pra cima até que me viesse uma inspiração. Mal deu tempo de observar a fumaça que saía da caneca se misturar com a que eu expirava, e subindo o olhar com a neblina mentirosa que eu mesmo fiz, percebi o céu bastante limpo, deixando evidente a ponta do braço da Via Láctea onde dorme a humanidade.

Antes que eu pudesse terminar de dizer mentalmente o quando a natureza é maravilhosa, metade do céu foi cortado pela estrela cadente mais bonita que já vi até hoje. Branca, enorme, muito brilhante. E, em fração de um segundo, desapareceu.

Ainda estou um pouco perplexo, e com as mãos trêmulas, parte por frio e parte por êxtase.

No fim, essa capacidade de olharmos pro céu, pra fumaça, pra si… Não é isso que nos faz poetas.

Isso nos faz a própria poesia.

Conversando com estrelas

Publicado: quinta-feira, 28 março - 2013 em Cultura, Filosofia
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Às vezes eu preciso conversar com o céu. Contar coisas pra ele que eu não conto pra ninguém, perguntar coisas que ninguém me responderia.

Pra uns, nunca vai passar de um monólogo esquizofrênico, mas não dou a mínima. Hoje eu resolvi ir pro quintal, apagar as luzes e deixar a Lua cheia contar suas histórias. Ela certamente já mais acostumada que eu com toda essa porcaria que é o mundo. Mesmo assim, a danada brilha com uma intensidade…

Os mais chatos e céticos vão dizer “ah, a Lua não brilha”. Mas, justamente por isso, são chatos.

Sentei, olhei pra cima de relance e vi o rabo do Escorpião. E pronto, entendi. É isso… Às vezes as coisas são assim, e não adianta eu tentar explicar isso aqui, vocês teriam que ir pros seus quintais e olharem pro rabo do escorpião pra ver a mesma coisa que eu vi.

Não é diferente quando nos olhamos nos olhos e simplesmente enxergamos tudo o que tinha que ser dito e não é. Sufoca um pouco, mas liberta. Estamos tão acostumados à fala que essas comunicações subjetivas descem como fumaça quente pela garganta.

Engasga, até…

Mas às vezes as coisas simplesmente são assim.

Existe, no fim, um bom motivo pra serem assim? O rabo do escorpião me disse que não. E acho que ele entende melhor disso que eu. Respeitei.

Gosto de olhar pro céu, porque me ajuda a lembrar que eu sou, inteiro, um universo. E todo mundo é. E na nossa arrogância de tentarmos entender as pessoas, ainda temos aquele pensamento medíocre que de gira tudo ao nosso redor, que o centro de gravidade da nossa vida é nosso “eu”. E definitivamente não é… Não existe esse centro. Existe uma grade bagunça, uma dança cósmica onde, no fim, “culpa” é uma palavra burra.

E o sentido que tem o castigo, dessa perspectiva, é o mesmo sentido que tem fazer-se de vítima. Nenhum.

“Espera e olha, porque é poeira de estrela. Um forasteiro, sempre, mesmo em terra natal. Uma vida sempre pela metade, uma corrida sem linha de chegada, uma subida em espiral que às vezes está mais perto do início que do meio, mesmo tendo percorrido tanto.”

Assustei com os coleguinhas que chegaram de repente e pararam na minha frente, e naturalmente eu não percebi, porque estava em outra dimensão só minha. Não deu tempo do céu terminar de falar, mas acho que entendi o espírito da mensagem.

Eles trouxeram uma garrafa da vinho, e talvez o fim da mensagem seja essa. Então, que assim seja. Amém.

Amanhã eu continuo essa conversa estranha com o céu.

Ouriços no estômago

Publicado: sexta-feira, 22 março - 2013 em Cultura, Filosofia, Política
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Às vezes parece que eu vou vomitar um ouriço.

[Esse é um daqueles posts que não vai te deixar animado. Se estiver mal, talvez seja melhor não ler.]

Não que algum dia eu tenha vivido num ambiente confortável. Minha natureza anacrônica e alienígena nunca permitiu. Queria lembrar como é estar num útero pra poder ter essa certeza. Mas a essa altura, já é irrelevante.

Também nunca vi felicidade como obrigação, nunca fiz questão de sorrisos, e não acho que essa é a chave pra uma vida melhor. Mas porra… Quando você sente que o meio do mato, longe de tudo (ou quase tudo, ao menos) é o único lugar onde vai conseguir respirar em paz… Sei lá, as agulhinhas dos ouriços incomodam um pouco mais em dias assim.

Estou num momento da vida em que eu não analiso mais as pessoas pelas posturas que tem, pelas convicções, crenças ou orientações políticas. Já não faz mais tanto sentido. Meu critério é a capacidade delas serem sensíveis.

Dizem que pra você ser feliz e estar bem consigo mesmo, você precisa ignorar as expectativas do mundo meritocrático, ignorar os padrões de beleza, ignorar as relações históricas de poder de alguns grupos sobre outros, enfim… É fácil estar acima de tudo isso por dentro, mas em ambientes sociais, não tem como.

A gente tem que escolher um lado, e a partir do dia em que eu escolhi o lado mais fraco (e essa escolha foi completamente consciente) eu comecei a chorar. Não porque fiquei triste, nem porque a vida ficou mais difícil (embora ambos sejam verdade), mas porque eu comecei a me dar conta de todo esse sofrimento, e o assumi como meu.

Muitos dos meus amigos, creio que com boas intenções, me dizem que eu tenho que colocar isso de lado pra conseguir “seguir a vida”. E quando eu falo “não consigo”, dizem que eu tenho que me esforçar mais. Pois então que seja, não é questão de não conseguir. Eu sequer me esforço.

EU NÃO QUERO.

Eu não quero conseguir dormir sabendo que tem gente tacando fogo em favelas e jogando spray de pimenta em cara de criança, em mulher com bebê de colo, jogando granadas em jornalistas, só pra deixar um lugar mais bonitinho pra copa do mundo.

Eu não quero conseguir me concentrar pra escrever um TCC enquanto tem gente sem ter o que comer porque existe um complexo econômico que controla a produção e venda de alimentos no mundo.

Eu não quero deixar a vida pessoal pra fora do meu ambiente de trabalho enquanto homossexuais são espancados, transexuais são apedrejadas, mulheres apanham de maridos, meninas e meninos sofrem porque seus corpos não se adequam a um padrão.

A única coisa que eu quero agora é vomitar esses ouriços. Tirar cada espinho e enfiar nos olhos de cada desgraçado que finge que não vê.

Eu não sou depressivo. Eu não preciso de remédios. Eu não quero me tratar.

Eu sou um ser humano que aceita a própria natureza, visceralmente.

Eu preciso de mais seres humanos assim, vomitando ouriços.

E eu quero que quem guarda tudo isso numa caixinha e esconde em cima do guarda-roupas sofra o suficiente pra abrir a caixa e perceber que é tão humano quanto aqueles que estão sendo pisoteados nesse exato momento.

 

[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

A Falsa Luta

Publicado: sábado, 16 junho - 2012 em Cultura, Filosofia, Política
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Não é apenas triste que exista pouca gente dedicada a entender e se envolver em problemas políticos. Desses poucos, há uma parcela bem razoável de gente que está fazendo tudo errado, sem entender o que é uma luta política. Vamos partir do princípio.

Quando uma causa política se configura como luta política, pressupõe-se aí a figura de um inimigo (que não precisa ser uma pessoa; pode ser um grupo, um valor, um hábito etc). E esse é o primeiro e mais básico dos erros cometidos nas falsas lutas. Escolher o inimigo errado é equivalente a “descontar no vizinho”. Já que eu não sei com quem brigar, vou descarregar na primeira figura fragilizada que cruzar meu caminho.

Exemplificando: Quando fazia escola técnica, eu fazia 4 trajetos de ônibus por dia. Como foram 4 anos, vi a passagem subir algumas vezes. E quem sempre ouvia era o cobrador (o motorista um pouco menos). Agora vamos entender o porquê…

A passagem subiu e o grupo de atingidos é o de passageiros (sempre maioria). O motorista está dirigindo o ônibus. Nossa chegada ao trabalho depende dele, e um pouco também nossa vida. Sobra o cobrador, a figura mais fragilizada no ônibus, pra essa situação. E ele vai ouvir uma enxurrada de absurdos, talvez nem saiba do que estão falando, talvez esteja até ele mesmo indignado com o aumento da passagem, mas ali ele é a figura mais vulnerável pra ser responsabilizada.

Outras situações semelhantes acontecem nos supermercados. Quando as sacolinhas foram proibidas, em uma semana eu vi duas caixas ouvindo uma porção de desaforos. E por que os caixas? Porque se reagirem, tomam um esporro do gerente ou do dono do estabelecimento.

O jeito mais fácil de evitar ser este tipo de idiota é fazer uma análise bem rápida. Se o seu inimigo é mais fraco que você (para aquela situação social), então provavelmente ele não é seu inimigo, ou o problema já teria sido resolvido. O inimigo, numa causa política, sempre é “alguém” mais forte. Por isso é que surge a causa e a luta. E por isso as pessoas dificilmente assumem para si as causas mais íntegras.

E pra finalizar, se o inimigo é você, isso pode ser uma causa, mas definitivamente não é uma luta. Lutar pelo meio ambiente não é fechar a torneira. Fechar a torneira é prezar pelo meio ambiente. Lutar é fazer com que se feche uma porção de torneiras que não são suas, sobre as quais você não tem poder algum, sobretudo aquelas “torneiras” bem grandes, do agronegócio e do setor industrial, que se recusam a fechar.

Definido um inimigo, é preciso ter uma estratégia. Se não houver estratégia, não é luta, é uma “briga”… Ou chame do que você preferir. Eu geralmente chamo de chilique, porque acho que os chiliquentos se incomodam mais quando os chamamos assim. “Briguento” faz parecer que ele é uma pessoa cheia de convicções e de temperamento forte, o que geralmente não é.

Isso significa que se você entendeu que o aumento da passagem é de responsabilidade dos governos e das empresas conveniadas, o próximo passo é saber que reclamar com o cobrador não vai resolver absolutamente nada. Conversar com ele, por outro lado, pode trazer informações valiosas e, quem sabe, um companheiro de luta.

Quando o filtro do inimigo não funciona, a estratégia se aplica como uma malha fina. Removidos os 90% de chiliquentos, dos 10% restantes, talvez agora se vão mais da metade. É gente que coloca pano branco na janela pra reduzir a violência, por exemplo. Gente que veste uma camiseta “100% negro” e acha que isso vai coibir o racismo também. E tantas outras gentes que até sabem que têm que lutar, têm motivos pra isso e até querem fazer alguma coisa. Mas não sabem como.

E geralmente esse cidadão se coloca da seguinte forma “Tá errado, mas eu vou fazer o quê?”. Quem começa dessa forma geralmente perde minha atenção imediatamente. Lutadores de verdade buscam ou constroem um método de luta, não ficam esperando algo cair do céu. Todo lutador é um líder, ao menos de si. Mas essas pessoas sem estratégia e de bom coração acabam sendo importantes para dar volume. Eles são a maioria esmagadora em qualquer “marcha” que você ver por aí, seja pra Jesus ou seja pra maconha.

O último termômetro é talvez o mais perigoso. Todo guerreiro que volta vitorioso de suas batalhas começa a receber o aplauso das multidões. E em pouco tempo, ele poderá estar lutando pelo aplauso, e não pela guerra. Então, se as pessoas começarem perder mais tempo te aplaudindo (estou falando de um aplauso metafórico) do que guerreando ao seu lado, sinto dizer, mas você fez tudo errado.

Uma das coisas que mais me irrita, e acredito que outros ativistas partilham dessa aflição, é depois de um momento de luta, as pessoas te parabenizarem pelo que fez. São aquelas pessoas que dizem que apoiam sua causa, que admiram seu esforço, mas que não lutam ao seu lado.

Essa reação não é sincera. E podem me chamar de paranoico, mas estou convicto disso. A pessoa que realmente se compadece por sua luta, luta ao seu lado. As outras estão apenas cumprindo uma função social. Estão dizendo aquilo porque senão “fica feio”. Conscientemente ou não, é assim que acontece.

Não confundam, por favor, com o direcionamento de esforços para outra batalha. Algumas pessoas estão lutando por outras coisas. Mas se elas estão lutando, eu entendo que estão lutando ao meu lado. São lutadores. Mas se elas só admiram outros lutadores, elas estão mais do lado da figura do inimigo que do seu.

Por fim, cabe uma observação, que é o dos emotivos do avesso. Esses são os que se dizem lutadores, mas não têm coragem de afrontar, por exemplo,  um pai, por conta da relação de afeto estabelecida. Mas vou jogar outro balde de água fria na sua cara, se você é desses. Você não está respeitando uma relação afetiva, está se submetendo a uma relação de poder, porque se fosse um filho, você interviria. Quem ama intervém. Enfrentar valores daqueles que você ama não só é justificável, como é mais bonito, porque a razão primordial para enfrentar é que você ama.

Os que abdicam totalmente da luta, bem… Esses eu respeito como respeito uma folha de alface. Não é pouco, acreditem. Mas não os consigo olhar como iguais. Luto por eles, como lutaria por qualquer outro. Só não me peça para os amar tanto…

[Uma importante observação antes de começar: Aqui na UNESP de Rio Claro, como em diversas outras universidades públicas do estado e do país, estudantes estão se organizando para o estudo e planejamento de segurança pública, questionando o papel da polícia militar, e isso não tem sido visto com bons olhos pelo governo. Esse texto não é opinativo. Não defende estudantes da USP, não exige a retirada da PM de qualquer lugar. Estou apenas apresentando alguns dados para reflexão e cada um de vocês sinta-se livre para realizar também a própria pesquisa e parar de confiar nas mídias de massa que têm nos desinformado insistentemente em função da defesa de um plano de governo medonho que nos encaminha a uma ditadura que está deixando de ser velada para ser escancarada]

Para prestar um pouco de atenção: Quando se fala da criminalidade em São Paulo, cita-se homocídios e latrocínios em números absolutos.

[Fonte 1]

Em homicídios dolosos, perdemos apenas para o RJ. E em latrocínio, ganhamos até mesmo deles.

O que esqueceram (convenientemente?) de te dizer é que SP é o estado mais populoso do país, com mais que o dobro da população do segundo colocado (MG). Somamos mais de um quinto de toda a população brasileira.

Em valores relativos (ocorrência por 100 mil habitantes; que daqui em diante citarei como “oc/100m.hab.”), que é o valor mais lógico a se analisar, vamos ver como está nossa situação?

Homicídios dolosos (com intenção de matar): 10,8 (2008); 11,0 (2009).
São Paulo, dessa perspectiva, é o terceiro estado com MENOS homicídios dolosos por 100 mil habitantes (perdendo apenas para MG e PI).

Latrocínio (assassinato em função de roubo): 0,6 (2008); 0,7 (2009).
Aqui nossa situação não é exemplar, mas está longe de ser a mais crítica. Ainda somos o sétimo estado com MENOS casos de latrocínio (oc./100m.hab.) .

Ainda em números relativos, somos o terceiro estado com mais pessoas mortas em confrontos com a PM, e o segundo em vítimas (mortes) da PM em outras circunstâncias não identificadas como confronto (que eu entendi como execuções e acidentes).
Os gastos com policiamento (apenas policiamento e não segurança pública em geral) no ano de 2009 foram precisamente: R$8.626.688.263,48.

Querem saber o que acontecia com a educação no mesmo período? A ponta do iceberg pode ser contemplada aqui (pra quem estiver sem tempo, vale saber que a taxa de analfabetismo SUBIU 4,1%).

[Fonte 2]

Em porcentagem de despesas do orçamento do estado, a segurança pública recebeu mais que o dobro do investimento em educação nesse mesmo período. Agora, peço aos leitores uma reflexão de 5 minutos:

a) Pense em quantas vezes você precisou da polícia com sua ação preventiva (ação a que se destina) e ela estava lá para PREVENIR.

b) Pense na polícia que (por regimento e orientação da Constituição Federal) deveria atuar em conjunto com a população, e tente se lembrar se algum policial que faz (SE faz) ronda em seu bairro conhece você ou algum vizinho, se faz perguntas sobre a rotina local ou mostra algum interesse sobre a sua vida.

c) Pense em quanto tempo a polícia demora para chegar quando você precisa (eu, quando precisei, por três vezes, tive de esperar mais de uma hora).

d) Pense em quanto tempo demora para a polícia agir em casos de protestos, independente do motivo, do aumento salarial dos professores à marcha da maconha, e qual papel ela representa nessas situações (eu já vi a polícia chegar antes dos manifestantes ao menos 5 vezes).

Agora, peço uma reflexão um pouco mais longa:

a) Se a polícia se empenhasse com o mesmo rigor na prevenção do crime que tem na prevenção das reivindicações populares, será que precisaríamos esperar tanto?

b) Se o investimento em educação no estado de São Paulo fosse o dobro da segurança pública (o inverso da situação que vivemos hoje), daqui cerca de 30 anos, quem você acredita que estaria sendo criminalizado:

A polícia que abusa de seu poder e viola a lei para defender o interesse do estado enquanto espanca estudantes e professores… Ou os estudantes universitários que lutam por uma universidade livre, de acesso à toda a população?

Sem mais. Bom feriado a todos.

Fontes:

1. Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; ano 4, 2010 (o mais recente publicado); disponível em: http://www.forumseguranca.org.br
2. Relatório Oficial do Secretário da Fazenda do governo  e SP, 2009; disponível em: http://www.fazenda.sp.gov.br/download/relatorio.asp

A imagem do universitário, seja pela história ou pela mídia, é associada ao consumo de bebidas alcoólicas. Para alguns, é só uma forma de sustentar um nicho bem interessante do mercado. Para outros, é a mostra de como no início da vida adulta ainda carregamos uma mochila de irresponsabilidades nas costas. Para mim, como universitário, é apenas uma maneira de sobreviver.

Falarei de drogas de um modo geral, para não entrar nas particulares de cada uma e não me render à apologia, pois não é esse o intuito. Uma pessoa “saudável”, para os padrões de hoje (entenda por “acorda cedo, estuda, trabalha, acumula dinheiro, planeja uma vida, vira gente”), não tem tempo para pensar. E se nós, universitários, acatamos cada medida repressora que vem dos reis acadêmicos, lentamente nos dirigimos ao local onde nos querem: quietos numa cadeira, como sempre foi na vida escolar.

A universidade tem uma tendência natural a abrir mentes, ainda que ela venha sendo agredida lentamente. Não que ela seja o reduto dos pensadores, mas faz parte do processo de graduação abrir a visão sobre os problemas do mundo – ou deveria. Me chamem de fraco, de dependente, do que for, mas com uma cerveja gelada na mesa qualquer assunto flui melhor. E não estou falando do hábito social, ou dos reflexos psicológicos. Falo apenas da reação química. Ficamos menos inibidos, nos comunicamos com mais honestidade. Às vezes isso leva a brigas, outras leva a paixões. Mas não definiria melhor o álcool do que já o fazem comumente: “lubrificante social”.

Drogas alteram nosso modo de perceber as coisas, e por consequência nosso modo de interpretar as coisas. Isso não deveria ser visto como ruim. A parte ruim são os efeitos colaterais, mas sabendo escolher e medir, ninguém vai morrer disso. O problema é que o caretinha que vive em nós, o fantasma da repressão que fica acima do nosso ombro direito, não nos permite enxergar como as medidas autoritárias são complexas e intencionadas.

Quando uma lei, portaria ou ordem oficial de qualquer natureza diz que não podemos ingerir álcool dentro das universidades, indiretamente está dizendo que não quer festas e socializações que não sejam de foro estritamente acadêmico. É uma maneira de nos impedir de conversar, de nos conhecermos, de refletirmos sobre o espaço que visitamos diariamente, de criar sentimento de unidade com o local e com as pessoas.

Uma vez me disseram que o combustível do movimento estudantil era álcool e maconha. Assusta falando dessa forma, mas no fundo pode ser mesmo verdade. E não vejo nada de mal nisso. Se é o que está permitindo que o carro ande, 8 anos a menos de vida pra cada um ainda é uma medida altruísta.

A despeito da ironia desse último comentário, só gostaria de deixar claro que a medida repressora ainda é acatada por jovens universitários que ousam fazer comparações do tipo “se não podemos beber em hospitais, a lógica é não podermos beber aqui também”. Como se estivéssemos bebendo durante as aulas e fazendo festas dentro de laboratórios. Os coroados justificam pela “preservação do patrimônio”. Pois bem, do patrimônio deles. Porque não é interessante que o espaço acadêmico seja visto como nosso. Ele já pertence ao mercado, não pode haver concorrência.

O movimento estudantil, talvez pela predominância jovem, é interessante por não se fazer apenas de reuniões sérias e manifestações públicas. Há momentos de descontração pela descontração. Seja valorização ou destruição cultural, não é apenas um movimento político, mas também cultural. Isso o torna especificamente perigoso porque o objetivo não são reformas e sim transformações.

E se pensamos que estes meninos sem-lei serão os professores de amanhã, aí temos motivo para pânico. O que será de nossas crianças brancas, limpas, cristãs e obedientes na mão desses formadores degenerados? Eu imagino o que serão, pois os professores que me inspiraram em que me espelho durante toda minha vida são dessa porção degenerada. E aí fica mais claro porque os donos dessas crianças têm medo. Elas aprendem a latir, fugir e morder, no lugar de ficar choramingando na coleira por uma tigela de ração.

Aqui em Rio Claro perdemos um diretor que fazia vista grossa para nossa “bagunça” e o novo xerife está querendo mostrar serviço. Natural, pois ele também serve a um sistema que o obriga a isso, e nos apoiar, mesmo que com o próprio silêncio, é assinar embaixo. Mas covardia justificada ainda é covardia.

Ainda me pergunto o que faremos, eu e meus irmãozinhos degenerados, frente às recentes mudanças no código de conduta. Foi assim com nosso primos distantes: muros, cadeados, catracas, câmeras e restrições.

As festas são nosso local de socialização e nossa fonte de renda, enquanto grupo. E para todos os que aqui têm espírito de grupo, a sensação é a mesma: a de estar sem casa e sem emprego. Talvez a alternativa para a crise do combustível seja repensar o veículo para usar diesel ou gás natural.

Mas eu, ao menos, faço questão da minha gasolina. Nem que o custo seja cavar até encontrar petróleo. Nem que tenhamos que sair do continente pra extrair em alto mar. O que não se pode é parar de andar.