Arquivo da categoria ‘Cultura’

Este é o primeiro guest post que eu coloco no blog. E espero que venham outros. Em outra ocasião eu divago sobre isso. O texto a seguir é do Lucas Vitorino, um compa que eu esbarrei por aí sem querer e que me deu novas noções de respeito. E que vai ter as portas do blog abertas pra escrever sempre que quiser.

maenegraUma heroína me salvou dessa droga de vida.

Em meio aos prantos, quieto, um pouco mais confortável e mais feliz em relação ao passado, mais precisamente quando tinha entre 7 e 10 anos, eu escrevo algo que provavelmente provém de toda energia das matrizes matriarcais africanas.

Homens cis héteros quando crescem tendem a relacionar seu pai como a sua primeira figura de inspiração e de representatividade, mas no terceiro mundo, no abismo periférico, o cenário muda um pouco:

Filho de mãe negra agredida sua vida toda por um homem branco, alguém já viu esse filme antes? Eu já! E ele era uma reprise constante em meio a uma rotina massante que era viver na favela.

Que figura heroica era essa? Que agredia, que silenciava? Que figura heroica era essa que tinha sede por sangue, que transpirava raiva e inspirava uma falta de humanização tremenda? Eu não sei. Eu estava confuso. Eu não tinha nenhuma referência de herói paterna internalizada em mim, minha heroína mesmo foi quem me abraçava em meio aos prantos para me confortar e dizer que estava tudo bem, apesar de serem visível os hematomas no seu corpo e em sua alma. Minha heroína mesmo foi quem fez bonecas Abayomis de felicidade com o pouco de força e de racionalidade que lhe restava, a verdadeira provedora foi que me trouxe afeto, carinho, foi quem me trouxe barcos de esperança em meio a um mar vazio de dores e de angústias, foi quem desde cedo olhava em meus olhos e dizia:

“Por favor, não seja assim. Você pode ser diferente, eu acredito em você.”

Pessoas heroínas estão por aí, são invisibilizadas, mas isso não significa que elas não existam. Pessoas heroínas estão por ai, tentando serem vistas e ouvidas. Pessoas heroínas, que são consideradas como uma droga para essa sociedade opressora, estão por ai gritando a todos os cantos:

“Parem de falar de amor, dos bons costumes, da família tradicional. Vocês são mesquinhos, egoístas, soberbos, já estão mortos. Pois quem segrega, morre. Quem invisibiliza, morre. E é totalmente incompreensível falar de amor e a preservação do mesmo, já que você é aquele que mata, já que você é aquele que agride.”

Pessoas heroínas estão por aí,vestindo suas mascaras como disfarce de sua verdadeira identidade para tentar sobreviver.

Pessoas heroínas estão por aí, resistindo, sangrando, mas ainda assim caminhando.

Pessoas heroínas, dentre elas, minha mãe! Que me subverteu, me reeducou, me trouxe para o outro lado da trincheira, o lado real da dor, dos oprimidos, de quem realmente sofre e de quem realmente merece ser reconhecido e proclamado como pessoa heroína. E foi assim:

Com toda sua ginga, me ensinou que tenho que me movimentar contra qualquer tipo de opressão.

Com sua capoeira, me ensinou que eu preciso lutar, dia após dia, incansavelmente….

Com sua mandinga, me subverteu, fez o impossível, o audacioso, me colocou como contra ponto rebelde e caótico ao mundo dos opressores.

Com sua coroa de raiz nagô, me lembrou da importância de saber que sim, que nossa história é linda, que preciso olhar sempre pra trás para poder seguir em frente, que preciso ouvir, principalmente, quem era pra estar usando a mesma coroa e não colecionando cicatrizes.

Pessoas heroínas são aquelas esquecidas, marginalizadas, oprimidas e que ainda sim, trilham e compõe uma história linda de resistência. Pessoas heroínas estão gritando nesse exato momento, um grito de existência, de persistência e de esperança.

Para o outro lado da trincheira, para quem promove guerras, sangue e carnificina; para quem oprime, para quem segrega, eu reforço os gritos dizendo:

Sim! Uma heroína me salvou dessa droga de vida.

O Lucas está desenvolvendo uma HQ junto com dois amigos baseada nesse texto. Vamos esperar enquanto eles desenvolvem. O trabalho é uma parceria dois amigos:

Matheus Pintor é estudante de História, escritor e desenhista nas horas vagas. Atualmente preso entre Rio-São Paulo, sendo confundido como mineiro em ambos os estados. Nunca foi pra Minas. E sim, é Pintor mesmo, tipo o de parede.

Ícaro Maciel é desenhista, quadrinista e acadêmico de design gráfico na ULBRA. A partir 1998 fez diversos cursos com Daniel HDR aperfeiçoando seu traço e já publicou na Revista TexBR, atualmente está produzindo uma HQ para a Revista do Peryc de Denilson Reis, com o qual tem colaborado, ilustrando fanzines como o Quadrante Sul. Participou de um projeto que envolve charges para uma promoção cultural do ENADE.

Esse post é bem doido e destoante. Eu fiz ele em função de uma discussão sobre esse assunto num fórum. Ele não traz respostas definitivas, apenas meus resultados sobre uns anos de pesquisa nesse assunto. Eu perdi muita coisa porque sou burro e não salvei, e várias páginas foram atualizadas. Mesmo assim falei algumas dessas coisas, deixando claro as que não podem mais ser comprovadas. Todo o resto, Google. Pra quem sabe usar, é a deep web dos preguiçosos. Mas como quase ninguém sabe usar, dei esse adianto aqui. Enjoy.

Olha, toda vez que esse assunto surgiu nesse grupo eu ignorei ou fui pelo caminho da zueira. Mas eu gostei de você. Lucky of you. Vou te dar umas perspectivas aqui e uns pontos de partida, daí vc é quem me diz o que pensa… [Eu mesmo]

 

SEM CONSPIRAÇÃO

O Verichip é um dispositivo RFID (radio-frequency identification), ou seja, que pode ser localizado e identificado através de frequência de rádio. É essa mesma tecnologia que o mantém funcionando (ele não tem baterias nem é carregado em tomadas, o próprio impulso eletromagnético ativa ele).

Dispositivos RFIDs já existem em abundância no mundo e o mercado atual já é parcialmente dependente deles, pra identificação e acompanhamento de cargas. Eles também têm aplicação médica atual para localização de crianças com necessidades especiais e idosos com doenças degenerativas. E também têm aplicação veterinária para localização de animais, além de aplicações em segurança para rastreamento de bens roubados.

A maioria das propostas de aplicação médica generalizada aponta para maior eficiência de pronto atendimento em emergências, porque se tem rapidamente acesso a histórico médico, alergias, tipo sanguíneo, doenças crônicas, etc. Contudo, algumas pesquisas já apontam para possibilidade de desenvolvimento de câncer, alergias e rejeição em camundongos. Quando esse resultado veio à tona pela FDA (Food and Drugs Association) as ações da VeriChip caíram em 40% e o assunto deu uma esfriada. Mesmo assim, o desenvolvimento de sarcomas (cancros/câncer) em roedores é muito mais frequente que em humanos para esse tipo de reação a implantes, mas ciência nesse mundo é mídia e geral ficou com medo (compreensível).

Essa é a origem da proposta do VeriChip. Mas daí tem um tanto de coisas que você gostaria de saber, eu acho…

 

COM PREOCUPAÇÃO

A VeriChip não atende mais por esse nome, e sim por PositiveID, subsidiária da Applied Digital Solutions (ADS). Quem começou a desenvolver essa tecnologia pra Verichip foi a Destron Fearing, uma empresa especializada em identificação animal. A principal linha de produção deles até então era com aquelas etiquetas que ficam na orelha principalmente de gado.

Verichip pra se tornar a PositiveID se fundiu com a Steel Vault Corp., especializada em computadores e hardware. A partir daí, se tornaram uma empresa especializada em biotecnologia.

É fundamental entender essa história, assim como é fundamental que as cabeças por trás dessas movimentações não são médicos, nem biólogos, nem engenheiros, mas sim especialistas em finanças, como é o caso do Richard Sullivan (ex-CEO da PositiveID, e ex-CEO da Digital Angel), atual membro da Global Digital Solutions (GDSI). Esse cara é responsável pela compra e aprimoramento de 42 grupos e atualmente trabalha com a GDSI em consultoria para negócios na área de… Segurança ;)

Nos relatórios de finanças da PositiveID (PSID) eles dizem que por serem uma empresa pequena, não precisam revelar seus financiadores. Isso é garantido por lei. Pela empresa, só dá pra saber que quem cuida disso é William Caragol (procure o perfil dele na Forbes e tire suas conclusões). O único financiador que eles foram obrigados a apresentar em relatório (a lei estadunidense protege corporações) é a VeriTeq. Quem é VeriTeq? O nome atual da Digital Angel.

Esses conglomerados se subdividem, mudam de nome, mas são basicamente o mesmo grupo, sob mesma gerência, e MUITO dinheiro, que fragmentado parece pouco. E baixos valores não precisam ser declarados publicamente. Saca?

O fundador da ADS é Jamie Sugar, que trabalhou antes na Dictaphone Corp. por 20 anos como diretor de soluções em segurança nacional para o governo federal dos EUA. Esses caras migram do setor público para o privado para fazer o mesmo trabalho com mais proteção de privacidade. E a partir desses conglomerados, os relatórios financeiros entram na categoria “Smaller reporting company”, que não obrigam uma série de declarações.

Bem-vindo ao mundo corporativo estadunidense e ao motivo de quase tudo que não presta buscar sede nos EUA.

Outro membro do conglomerado é a Blue Moon, especializada em tecnologias de energia, e mais tarde comprada pela PSID. Antes disso ela comprou uma boa parte da Digital Angel. Percebe a treta? O responsável por essas transações é Scott R. Silverman. No momento ele era chairman da IFTH, uma empresa especializada em aquisição de outras empresas. Mas sabe onde mais ele trabalhou? Na Steel Vault Corp, na VeriTeq e na PSID. Curioso, não?

Eu não consigo mais encontrar nos relatórios, mas nas versões antigas do site tinha rastros de negociação até com dinheiro da ADX (autoridade em prisões de segurança máxima). Os relatórios financeiros da PSID foram substituídos e todos datam de 2014. Provavelmente por uma mudança na legislação que os permitiu ocultar mais informações (que vão me dar um trabalho do cão pra conseguir de novo), mas havia mais umas três especializadas em segurança e homeland security (segurança nacional), vinculadas de alguma forma ao DHS (Department of Homeland Security), cuja missão é “garantir a segurança da nação [EUA] das muitas ameaças que enfrentamos”. Esse dado vai ficar de boa fé mesmo, não precisam acreditar porque não dá pra achar assim de boa na internet. Todo o resto que eu disse até agora é acessível pelo Google, pelas páginas oficiais das corporações, pela Forbes e nos relatórios financeiros (que estão nas páginas), além de fóruns de economia que acompanham essas transações e aparecem nos primeiros resultados do Google com uma busca simples.

Não vou me alongar muito nessa parte porque iria mudar de assunto, mas pra quem curte esse tipo de investigação, os secretários do DHS nos períodos que envolveram as negociações relativas à PSID são James Milton Loy (principalmente) e Michael Chertoff (pegou o fina das transações, e é um dos fundadores do Patriot ACT, que também vale a pena pesquisar, até mais que o Verichip). Gente boa, só que não. Ambos indicados pelo então presidente Bush. Agora voltando ao assunto.

 

COM ESPECULAÇÃO

Em linhas gerais, o Verichip (eu prefiro usar esse nome, mas já está claro que se trata de muitas corporações e pessoas envolvidas) se inicia com uma proposta médica-veterinária, mas desperta interesse de companhias de tecologia, energia e segurança, e principalmente do governo.

Ele chegou a ser testado em regiões mais conservadoras dos EUA durate a gestão Bush, mas a interferência negativa da FDA (cujas motivações eu ainda não entendi) atrasou o processo. Recentemente houve pressão sobre o Obama pra que ele voltasse a incorporar a ideia em seu projeto de saúde pública nos EUA, mas até agora sem apontamentos de que isso fosse dar resultados.

De lá pra cá, a principal especulação sobre o Verichip tem sido no setor comercial. Bancos e empresas de crédito têm flertado com a possibilidade de um “cartão” subcutâneo que facilitaria suas compras (e facilitaria mesmo) e é muito capaz que isso comecea ocorrer com ou sem consentimento do governo americano nos próximos anos.

O grande medo da maioria das pessoas (e meu também) é que se crie um sistema integrado de identificação, aproveitando a brecha que aparecer (seja médica ou financeira) para usar essa tecnologia para apresentar a “praticidade” de ter nesse chip seu RG, passaporte, etc.

Não é recente a literatura de ficção que aponta pra essa realidade. E num mundo onde você já pode ter sua face reconhecida por câmeras na rua e ser identificado num protesto, a presença desse tipo de chip poderia significar a possibilidade do seu rastreamento e localização por satélite em qualquer lugar do mundo com precisão de DOIS CENTÍMETROS. Louco. Essa é a tecnologia que já existe.

Há inúmeras razões pra ser contra esse tipo de medida, mas isso não vai acontecer do dia pra noite, porque não dá. Pra isso acontecer, eles vão precisar que as pessoas QUEIRAM isso. Bush chegou perto com a históra do terrorismo, mas ainda assim não deu. Por mais ignorante que seja o estadunidense médio (assim como o brasileiro) ainda existe uma cultura de liberdade, nem que seja da boca pra fora, que torna esse processo difícil. Eles vão atuar sobre essa cultura.

Ninguém vai forçar um chip no seu braço. Eles vão te fazer pedir por um chip no braço. E da mesma maneira que se criou emanda e dependência por telefonia celular e internet, vai se criar emanda e dependência para chips RFID. É questão de tempo.

 

SOBRE AS CONSPIRAÇÕES

Crença é crença. Não vou ficar aqui perdendo tempo dizendo se o anticristo vai voltar ou não, até porque não sou cristão. Mas é preciso deixar de lado as páginas da surface de fundo preto e acordar pra uma realidade: conspirações são uma arma REACIONÁRIA, não revolucionária.

A revolução se faz com fatos, não com medos. Quanto mais informação dispersa se tem sobre um assunto, mais difícil encontrar a verdade. E essas corporações e centros financeiros encontraram um grande escudo nessa galera que só sabe falar de Illuminatis e Chip da Besta. Não se esqueçam que os principais difusores dessas conspirações atuais são igrejas neopentecostais institucionalizadas, e que elas SEMPRE estiveram do lado do imperialismo global. Abandonem a inocência digital.

Ademais, um conspirador nunca faria o que eu fiz aqui. Obscurantistas ficam nessa de “eu sei de coisas que…”, “eu ouvi uma coisa que você não ouviu”, “eu conheci uma pessoa que me disse” e blablablabla… Posso ver meia dúzia deles se retorcendo enquanto leem isso aqui. Quero que o cu eles pegue fogo.

Comecem a pesquisar como gente grande. Investiguem a informação institucional antes de mais nada, e a partir dela procurem a mentira, não o contrário.

 

E COMO RESISTIR?

Não dá. Sorry.

A única maneira possível de resistir agora é destruir os EUA como centro financeiro internacional, mas dadas as perspectivas atuais, os BRICS se fortalecem, as corporações migram pra esse eixo e então as legislações russas e chinesas vão mudar pra protegê-las como ocorre nos EUA.

A gente só vai ganhar tempo, e ainda assim nem é muito. Quem tiver real preocupação nesse assunto é melhor que se prepare não pra como resistir, mas sim pra como fugir.

Queria terminar com final feliz, mas não vai rolar. É choque de realidade mesmo. Só a partir das palavras chave desse texto tem material suficiente pra cada um(a) correr atrás e tirar suas conclusões, como eu fiz, sem ninguém dar nada mastigadinho.

Não vou colocar todos os links por pura preguiça, porque escrever isso aqui já deu trabalho suficiente. É só usar o Google, vocês conseguem. E aprendam a falar/ler em inglês, pra ontem. Beijos.

Faz várias luas que não escrevo nada aqui, mas me deu vontade de escrever, e prefiro que seja aqui mesmo. De repente eu reanimo esse espaço.

Quando eu era criança, lá pelos 5 anos, eu queria ser “cientista maluco”. Na minha cabeça, isso era uma profissão. Eu ficava brincando com os produtos de limpeza, tinta, óleo, vinagre, tudo em potinhos de iogurte que ficavam vazios. A escada do quintal era meu laboratório, cada degrau uma prateleira cheia de “experiências”, invenções que sempre que eu acreditava terem funcionado corria pra mostrar pra minha avó. Observava as formigas e, não me orgulho disso, enchia os formigueiros com água da mangueira, ou perseguia elas com uma lupa. Não era bem crueldade, mas uma sensibilidade que ainda não tinha se desenvolvido. Quando escurecia eu ficava olhando o céu e pensando o que havia naquelas estrelas, se tinha alguém olhando de volta, se as pessoas que morriam iam pra alguma delas, ou várias. E nas minhas orações eu pedia pra que Deus me desse uma nave espacial. Depois corria pra olhar pela janela e ela nunca estava lá. Às vezes eu sonhava com essas viagens, grandes laboratórios, monstros que eu fazia sem querer e corriam atrás de mim. E quando ia pra chácara com meus avós eu perguntava tudo. Queria saber o nome das plantas, porque algumas davam fruta e outras não, enfim… Eu enchia o saco de qualquer adulto com essas perguntas. Há quem diga que eu fui uma criança esquista, mas acredito que eu era bem saudável.

Cresci. Meu sonho passou a ser escritor. Adolescente ainda eu ensaiava livros, escrevia dezenas de páginas, depois achava ruim e apagava tudo. Tentei fazer quadrinhos, também não gostava e jogava fora. Poesias que depois de uns meses me cansavam e eu queimava. Uma porção de coisas que fisicamente se perdeu, mas de que eu ainda me lembro razoavelmente bem.

Nunca publiquei um livro, nem consegui me formar num curso de biologia que já se arrasta por vários anos. Não por falta de capacidade, mas de conformidade. Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido. E assim como livros largados pela metade, já se foram alguns TCCs e algumas disciplinas. Vou trabalhando como dá, numa luta por independência que também não se completou e eu nem sei quando vai se completar.

Mas o ponto aqui não é a conclusão de nada. Estava no quintal olhando para o céu noturno, da mesma forma como fazia aos cinco anos, e pensando muitas coisas que eu já pensava naquela época.

A ciência que eu faço, assim como a escrita que eu faço, raramente me dá dinheiro. Mas elas me dão prazer, e eu sinto que elas contribuem para alguém. Quando eu decidi ser articulista voluntário sem assinatura, produzindo para livre distribuição, não foi por falta de opção, mas por convicção. E eu não ganho atualmente nenhum centavo de editoras e direitos autorais (como a maioria dos escritores…), mas, puta merda, como eu escrevo! E felizmente eu consigo atingir muitas pessoas, interagir com elas, ensinar e aprender, emancipar.

Não vai ser um pedaço de papel ou um carimbo social que determinarão quem eu sou ou o que eu faço. Se eu faço ciência, sou cientista. Se eu escrevo, sou escritor. E seu julgamento sobre isso honestamente não me interessa. Me interessa investigar e escrever, obrigado.

E esse, como vários outros textos, não tem a pretensão de convencer ninguém de nada, nem de me afirmar para um grupo ou buscar legitimação. É apenas mais uma daquelas coisas que a gente faz só pra que outras pessoas saibam que não estão sozinhas, para que outras saibam que existem outros caminhos, e tantos outros além do tradicional e do meu.

Faço isso porque essas coisas, essas que as pessoas fazem pra que a gente saiba que não está sozinho, sempre foram muito importantes pra mim. Pra eu saber que não estou sozinho.

Vai ver essa é a concepção moderna de uma comunidade anarquista. Eu ainda vou precisar batalhar, e muito, pra sobreviver num sistema de merda. Mas o que eu puder fazer pra encurtar o tempo de vida desse sistema, vou fazer.

Aos anarcos, piratas, esquerdinhas, anônimos e libertários do meu convívio, meu sincero agradecimento. Somos um.

Sobre a Rabugice

Publicado: quarta-feira, 6 novembro - 2013 em Cultura, Filosofia
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Decidi tirar a poeira disso e voltar a escrever.  O Facebook me deixou mal acostumado e como estou querendo sair de lá, resolvi falar de um dos principais motivos: a rabugice.

A rabugice não é um defeito. Ela é uma característica com suas vantagens e desvantagens.

Ela é diferente da arrogância, porque não é “afetada” apenas por ser. O amargo da rabugice não é de ruindade ou superioridade, é o cansaço de um peso que se carrega, geralmente por escolha.

E justamente por isso o rabugento é assim. Ele sabe que escolheu, é o preço que ele quis pagar, mas isso não torna as coisas doces. E ele não sente a obrigação de sorrir satisfeito apenas porque fez como quis.

Ela difere da inveja, também, porque ela não se incomoda com a felicidade alheia. Ela se cansa; é diferente. Sabe aquela felicidade a qualquer preço? De gente que luta pra ser feliz? Então, pra um rabugento, só olhar essa felicidade já cansa.

O rabugento não quer ser feliz como você. Ele só não consegue entender porque ainda tem gente que batalha pra ser feliz quando isso não é uma demanda pessoal. Ser feliz pra mostrar pra alguém que se está feliz é algo como dizer que tem orgulho de ser explorado.

Ainda, a rabugice não se assemelha ao ser “mal comido(a)”. Na verdade, a maioria dos rabugentos que eu conheço estão comendo ou sendo comidos muito bem. É uma bobagem achar que o mau humor está necessariamente ligado à falta de sexo ou que o bom humor está ligado ao excesso.

Na verdade, o rabugento “caga e anda” pra essa ideia de “bom humor”. Porque o “mau humor”, pra ele, é bom. Isso não significa que ele não vá dar risada, que não vai se divertir, que não gosta de estar com amigos. Significa apenas que ele não sente a menor obrigação de forçar uma emoção pra cumprir uma expectativa social.

Que cada um fale por si, claro, mas minha rabugice é uma questão de liberdade também. Porque eu não quero sorrir e dizer “tudo bem” quando não estiver tudo bem. Porque eu não quero falar que a vida está boa enquanto tem gente morrendo de fome ou por pensar livremente. Eu não quero estar tranquilo com isso. Eu não gosto de natal, dia das mães, dia dos namorados, e todas essas outras datas dedicadas a uma emoção/sentimento, porque não faz sentido ter um dia pra sentir uma coisa.

E se bem no dia das mãe você estiver com ódio da sua? Nos outros 364 dias você pode ser o filho mais amoroso do mundo, mas isso, pros outros, vai indicar que você é rancoroso, insensível… Mas pera, quem é o insensível aqui? Quem é que está te obrigando a esconder o que você está sentindo?

O mesmo vale pra aniversários. A maioria dos meus amigos felizmente já se acostumou a não receber o parabéns… “Parabéns por ter sobrevivido mais 365 dias”… “Parabéns porque a Terra deu mais um giro inteiro em torno do Sol desde que você nasceu, independente de qualquer esforço seu”. É assim que soa pra mim. E isso não quer dizer que eu goste menos de ninguém!

Dias depois, às vezes eu mando uma mensagem desejando felicidade ou falando de coisas que eu penso da pessoa. Mas sem compromisso de ser num dia X, porque se ela for pensar que eu “esqueci” dela apenas por isso, eu honestamente quero mais é que ela chore sangue…

Estão vendo? Isso é a rabugice… E eu já cansei de ficar explicando. Vão tomar no cu! rs

Que fique uma mensagem final. Rabugentos não são necessariamente invejosos, insensíveis, rancorosos, arrogantes, ou a porra que for. Eles só colocam a sinceridade acima de tudo isso. Acima deles mesmos. E acima de você também.

E todo mundo deveria ser assim.

Conversando com estrelas 2: A poesia

Publicado: terça-feira, 7 maio - 2013 em Cultura, Filosofia, Literatura
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Estou num daqueles períodos de escrever pouco aqui e deixar o blog às moscas. Mas agora eu preciso mesmo escrever.

Estava em mais uma dessas madrugadas insones, das quais já perdi a conta e provavelmente já são mais da metade das madrugadas de toda a minha vida. Estava tentando escrever e não conseguia. Tentando pensar e me sabotando. Resolvi sair por cinco minutos, tomar um ar e ver o céu.

Peguei uma mantinha, um chá bem quente e decidi que iria ficar ali no quintal, olhando pra cima até que me viesse uma inspiração. Mal deu tempo de observar a fumaça que saía da caneca se misturar com a que eu expirava, e subindo o olhar com a neblina mentirosa que eu mesmo fiz, percebi o céu bastante limpo, deixando evidente a ponta do braço da Via Láctea onde dorme a humanidade.

Antes que eu pudesse terminar de dizer mentalmente o quando a natureza é maravilhosa, metade do céu foi cortado pela estrela cadente mais bonita que já vi até hoje. Branca, enorme, muito brilhante. E, em fração de um segundo, desapareceu.

Ainda estou um pouco perplexo, e com as mãos trêmulas, parte por frio e parte por êxtase.

No fim, essa capacidade de olharmos pro céu, pra fumaça, pra si… Não é isso que nos faz poetas.

Isso nos faz a própria poesia.

Conversando com estrelas

Publicado: quinta-feira, 28 março - 2013 em Cultura, Filosofia
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Às vezes eu preciso conversar com o céu. Contar coisas pra ele que eu não conto pra ninguém, perguntar coisas que ninguém me responderia.

Pra uns, nunca vai passar de um monólogo esquizofrênico, mas não dou a mínima. Hoje eu resolvi ir pro quintal, apagar as luzes e deixar a Lua cheia contar suas histórias. Ela certamente já mais acostumada que eu com toda essa porcaria que é o mundo. Mesmo assim, a danada brilha com uma intensidade…

Os mais chatos e céticos vão dizer “ah, a Lua não brilha”. Mas, justamente por isso, são chatos.

Sentei, olhei pra cima de relance e vi o rabo do Escorpião. E pronto, entendi. É isso… Às vezes as coisas são assim, e não adianta eu tentar explicar isso aqui, vocês teriam que ir pros seus quintais e olharem pro rabo do escorpião pra ver a mesma coisa que eu vi.

Não é diferente quando nos olhamos nos olhos e simplesmente enxergamos tudo o que tinha que ser dito e não é. Sufoca um pouco, mas liberta. Estamos tão acostumados à fala que essas comunicações subjetivas descem como fumaça quente pela garganta.

Engasga, até…

Mas às vezes as coisas simplesmente são assim.

Existe, no fim, um bom motivo pra serem assim? O rabo do escorpião me disse que não. E acho que ele entende melhor disso que eu. Respeitei.

Gosto de olhar pro céu, porque me ajuda a lembrar que eu sou, inteiro, um universo. E todo mundo é. E na nossa arrogância de tentarmos entender as pessoas, ainda temos aquele pensamento medíocre que de gira tudo ao nosso redor, que o centro de gravidade da nossa vida é nosso “eu”. E definitivamente não é… Não existe esse centro. Existe uma grade bagunça, uma dança cósmica onde, no fim, “culpa” é uma palavra burra.

E o sentido que tem o castigo, dessa perspectiva, é o mesmo sentido que tem fazer-se de vítima. Nenhum.

“Espera e olha, porque é poeira de estrela. Um forasteiro, sempre, mesmo em terra natal. Uma vida sempre pela metade, uma corrida sem linha de chegada, uma subida em espiral que às vezes está mais perto do início que do meio, mesmo tendo percorrido tanto.”

Assustei com os coleguinhas que chegaram de repente e pararam na minha frente, e naturalmente eu não percebi, porque estava em outra dimensão só minha. Não deu tempo do céu terminar de falar, mas acho que entendi o espírito da mensagem.

Eles trouxeram uma garrafa da vinho, e talvez o fim da mensagem seja essa. Então, que assim seja. Amém.

Amanhã eu continuo essa conversa estranha com o céu.

Ouriços no estômago

Publicado: sexta-feira, 22 março - 2013 em Cultura, Filosofia, Política
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Às vezes parece que eu vou vomitar um ouriço.

[Esse é um daqueles posts que não vai te deixar animado. Se estiver mal, talvez seja melhor não ler.]

Não que algum dia eu tenha vivido num ambiente confortável. Minha natureza anacrônica e alienígena nunca permitiu. Queria lembrar como é estar num útero pra poder ter essa certeza. Mas a essa altura, já é irrelevante.

Também nunca vi felicidade como obrigação, nunca fiz questão de sorrisos, e não acho que essa é a chave pra uma vida melhor. Mas porra… Quando você sente que o meio do mato, longe de tudo (ou quase tudo, ao menos) é o único lugar onde vai conseguir respirar em paz… Sei lá, as agulhinhas dos ouriços incomodam um pouco mais em dias assim.

Estou num momento da vida em que eu não analiso mais as pessoas pelas posturas que tem, pelas convicções, crenças ou orientações políticas. Já não faz mais tanto sentido. Meu critério é a capacidade delas serem sensíveis.

Dizem que pra você ser feliz e estar bem consigo mesmo, você precisa ignorar as expectativas do mundo meritocrático, ignorar os padrões de beleza, ignorar as relações históricas de poder de alguns grupos sobre outros, enfim… É fácil estar acima de tudo isso por dentro, mas em ambientes sociais, não tem como.

A gente tem que escolher um lado, e a partir do dia em que eu escolhi o lado mais fraco (e essa escolha foi completamente consciente) eu comecei a chorar. Não porque fiquei triste, nem porque a vida ficou mais difícil (embora ambos sejam verdade), mas porque eu comecei a me dar conta de todo esse sofrimento, e o assumi como meu.

Muitos dos meus amigos, creio que com boas intenções, me dizem que eu tenho que colocar isso de lado pra conseguir “seguir a vida”. E quando eu falo “não consigo”, dizem que eu tenho que me esforçar mais. Pois então que seja, não é questão de não conseguir. Eu sequer me esforço.

EU NÃO QUERO.

Eu não quero conseguir dormir sabendo que tem gente tacando fogo em favelas e jogando spray de pimenta em cara de criança, em mulher com bebê de colo, jogando granadas em jornalistas, só pra deixar um lugar mais bonitinho pra copa do mundo.

Eu não quero conseguir me concentrar pra escrever um TCC enquanto tem gente sem ter o que comer porque existe um complexo econômico que controla a produção e venda de alimentos no mundo.

Eu não quero deixar a vida pessoal pra fora do meu ambiente de trabalho enquanto homossexuais são espancados, transexuais são apedrejadas, mulheres apanham de maridos, meninas e meninos sofrem porque seus corpos não se adequam a um padrão.

A única coisa que eu quero agora é vomitar esses ouriços. Tirar cada espinho e enfiar nos olhos de cada desgraçado que finge que não vê.

Eu não sou depressivo. Eu não preciso de remédios. Eu não quero me tratar.

Eu sou um ser humano que aceita a própria natureza, visceralmente.

Eu preciso de mais seres humanos assim, vomitando ouriços.

E eu quero que quem guarda tudo isso numa caixinha e esconde em cima do guarda-roupas sofra o suficiente pra abrir a caixa e perceber que é tão humano quanto aqueles que estão sendo pisoteados nesse exato momento.

 

[Editado em 18 de setembro de 2012, ver observações ao final]

Nessa madrugada fui surpreendido com a revolta de alguns dos estudantes daqui quanto a uma pichação. A maioria deles alegava vandalismo.

Ora, veja bem… Não sei por onde começar.

Vou falar primeiro de uma experiência pessoal. Em 2006 estive na UFRGS, onde pude ver várias paredes de prédios cheias de pixações dos próprios estudantes. Em 2008 em Araraquara, me lembro de uma parede de um dos prédios das Ciências Sociais que também era toda pixada. Tinha de tudo. Poesia, pensamentos, ofensas a outros alunos, reivindicações, devaneios.

Alguns poderiam olhar pra essas paredes e verem sujeira, bagunça, desrespeito. Eu via uma coisa que fazia muita falta aqui: identidade.

Não que uma palavra escrita na parede possa conferir identidade histórica de uma universidade a ele. Mas o conjunto de todas expressões, que é construído com o tempo, sem dúvida pode. O que temos ali é um “Fora Geoplan”. Não vem ao caso aqui, pra o que eu quero dizer, o que é a Geoplan. A questão não é concordar ou não com a ideia escrita ali. Mas pra mim, aquilo foi um primeiro grito. Provavelmente, vai ser limpo e apagado. Mas foi um grito.

Em 2007, quando colávamos cartazes nas paredes com qualquer cunho político, durante a madrugada os “guardinhas” da UNESP retiravam tudo, para que pela manhã os alunos não vissem nada. Algumas vezes, nós passamos a madrugada lá dentro pra garantir que colocaríamos os informativos num tempo que não pudessem ser arrancados e os alunos pudessem ver.

Mas isso aí não vão conseguir arrancar. A maioria das pessoas não está brava com o vandalismo. Essa mensagem não impede ninguém de entrar na biblioteca, nem atrapalha seu funcionamento. Ela também não agride diretamente tantos alunos assim. Sabe o que verdadeiramente está incomodando essas pessoas? Uma verdade bem doída:

Eles não têm a opção de não ver.

É a partir desse ponto que pra mim, parte disso aí é política, parte é agressão, parte é muita coisa, mas a parte que me cativa é a parte terrorista: a parte artística.

E eu queria de verdade que alguém que discorda da mensagem pegasse seu spray e fosse ali responder. E que cada muro desses prédios pudesse ser o nosso facebook da vida real. E que isso ficasse ali, nossa história rabiscada, nossos registros duráveis para as próximas turmas, e os deles para as próximas. O grito de um grupo diverso, misto, fluido e renovável.

Não é, afinal, um espaço de repensar a sociedade? De construir diálogos?

Nossas paredes, todas cheias de escritas, não prejudicariam em nada o funcionamento da universidade. Não se estão fechando portas, não se está cortando a energia elétrica, nem se estão quebrado janelas. Não se está roubando equipamentos, não se está destruindo mesas e cadeiras, nem queimando livros. Não é vandalismo, sejamos honestos. É o extremo oposto de vandalismo! É brigar para que a cultura estudantil resista. É o direito de poder ir até a porta do banheiro e fazer uma piadinha pra quem está cagando. E não tem nada de absurdo nisso.

Mas  verdade é que boa parte dos meus coleguinhas não é capaz de conviver com verdades escancaradas.

Eles são carolas demais. E atrás desse senso comum babaca de que tudo o que é pichado é ruim, todo mundo que picha é bandido, eles podem esconder a verdade cruel que é: eles não querem ver.

Pois que fechem os olhos. Até o dia em que não tiver onde rabiscar, e aí quem sabe vamos ter que tatuar suas pálpebras, por dentro.

A imagem de hoje me trouxe uma motivação que eu não sentia há muito tempo.

Vontade de pintar a cidade toda de amarelo =]

Essa imagem não é minha. Retirei do Facebook e esses comentários em amarelo já estavam nela quando eu peguei, não são meus. Se você possui os direitos dessa imagem e não quer ela aqui, me avise e eu tentarei correr pra UNESP e fotografar antes que mandem limpar, aí eu terei os direitos sobre a imagem e vou deixar todo mundo compartilhar como quiser.
EDIÇÃO 18/09: Soube que o comentário que eu destaquei no início da postagem causou desconforto, e a pessoa alegou que eu teria destacado um trecho fora de contexto. Pra mim, o contexto era claro, mas achei por bem retirar. Se alguém se interessar, a postagem original compartilhada no grupo da UNESP se encontra aqui.
Não posso comentar lá, mas fica aqui meu pedido de desculpas. Quem quiser, leia o texto todo e tire suas próprias conclusões, sem destaques meus.

Ano passado fiz uma postagem no dia do rock onde falava que o rock’n’roll, pra mim, é justamente o grito. Esse ano vou falar de outro aspecto.

Se alguém quiser, veja aqui.

Não precisa ser nada único pra contaminar as linhas do tempo do facebook ou do twitter. Mas ao contrário das finais de campeonato de futebol ou MMA, logo o estilo de música visto como o mais “pesado” está promovendo o bom e velho “paz e amor”.

O que eu gosto do conceito de “paz e amor” é que paz sozinha corre o risco de ser mal interpretada, vista como comodismo, adequação. Amor é um processo ativo que exige movimento e transformação. Faz bem aos dois andarem juntos.

O rock’n’roll tem uma história confusa, mas o fato é que foi preciso uma guerra para que as pessoas parassem e prestassem atenção no que a população marginalizada, em sua maioria negros, estavam fazendo. E acho que é assim que a maioria das pessoas encontra o rock’n’roll. Você está na merda, aí olha outro alguém, que também está fodido, e ele está ouvindo uma música que mexe com você.

Tendo origem no blues, é natural que o motor tenha gosto amargo. O primeiro motivo pra gritar estava ali. Com as guitarras elétricas e o som mais forte, surgiu o segundo motivo. A essa altura já não tinha como voltar atrás.

O rock quebrou paradigmas físicos da dança. Você não precisaria mais se comportar e fazer os passinhos que sua mãe fazia. A sexualidade da dança passou a ser escancarada, transparente. E assim também a sexualidade das pessoas. E a contravenção estava longe de parar aí. Nao se cantava apenas das mulheres princesas, mas também das mulheres selvagens.

Anos depois, a psicodelia deu o ingrediente que faltava. Questionar a sociedade era pouco. Questionar o próprio corpo era pouco. Era preciso questionar a realidade, o “ser”. Acredito que uma porção do rock se perdeu nesse processo e deve estar num lugar bem melhor que o nosso. O rock conectou modos de pensar ocidental e oriental, deixou claro pra sociedade conservadora que a música tinha mais poder de união do que as armas.

O rock não mudou o mundo completamente. A primeira figura de pelvis rebolante a conquistar o olhar mundial tinha pele branca. Mas o rock abriu essa portas, trouxe à tona também o soul, o jazz e o R&B que estavam escondidos em bares emaconhados de vagabundos (e devemos quase tudo isso a esses “vagabundos”).

Depois se misturou com a música country, o que parecia impossível acontecer. E se por um lado hoje temos rock’n’roll conservador, temos conservadores que ouvem rock’n’roll, arte que saiu dos povos que eles mesmos oprimiram por tanto tempo. Dá pra comparar essa explosão artística ao Big Bang, com migalhas de rock’n’roll se espalhando por aí e virando de tudo, música negra religiosa, baladinhas de rancho, viagens psicodélicas intermináveis, guitarras quebradas no chão ou pegando fogo, e até menininhos arrumados na Inglaterra. Aí o rock progressivo mostrou que dava pra ser vários rocks em um só.

A ameaça do sonho acabando pode ter deixado o Flower Power fora de cena por conta de um ou outro escândalo, as campanhas contra as drogas, os fanáticos religiosos. Mas não deu tempo do rock morrer e já estavam nascendo os rockeiros emplumados do hard rock e a molecada brava do punk. E na sequência, a necessidade de um grito mais alto fez nascer o metal, um grito mais cansado e rabugento e nasceu o grunge. E nunca mais parou.

O movimento gay, o movimento feminista, o movimento negro, o movimento estudantil e tantos outros movimentos por onde os jovens se espalham devem muito ao rock’n’roll, porque ele sempre esteve ali, porque ele sempre foi, por si só, uma manifestação de contravensão.

Até mesmo o lado podre da história, os festivais multimilionários, a grande indústria da música, também só cresceram por pegar carona numa onda que era independente disso.

Rockabilly, country rock, high-school rock, classic rock, rock psicodélico, rock progressivo, surf music, ópera rock, garage rock, hard rock, glam rock, punk, hair, new wave, heavy metal, thrash metal, black metal, death metal, gótico, hardcore, rock brasileiro, britpop, grunge, funk metal, metal melódico, indie, new metal, post punk… E até a porcaria do pop-rock com seus filhinhos tristes e coloridos.

Todos são espaço de contracultura. E é  justamente por isso que desagradam. Ninguém gosta de qualquer rock. Mas todo mundo gosta de algum.

Até minha avó evangélica gosta de ACDC.

E vou fechar com uma frase do Bob Dylan, que eu particularmente acho bastante irritante (o Bob, não a frase), mas que explica bem o que quero dizer:

“Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas.”

 

É isso =]

Este é o segundo post da série “Higienização Insana”. No primeiro, introduzi o assunto, então quem tiver interesse veja o link no final dessa postagem.

De onde veio essa bobagem?

Eu também custei a descobrir. Faz tempo que já sabia que era mito e os motivos, mas não imaginava de onde isso tinha saído. Encontrei uma porção de hipóteses a esse respeito, mas a mais convincente tem embasamento científico, então vou adotá-la. Caso alguém conheça outra explicação, por favor, comente!

O fato é que a água na Europa (local de onde vêm muitos produtos de beleza e cosméticos) é muito mais “dura” que a nossa, ou seja, possui maior concentração de sais (provenientes de calcário, sobretudo). Por conta disso, para que os produtos tenham ação de limpeza eficiente com esse tipo de água, é preciso uma maior concentração de detergentes na fórmula.

Esses produtos passaram a ser vistos como “melhores”, porque o desenvolvimento cosmético desses países de fato foi superior ao brasileiro durante muito tempo (hoje isso é questionável). Assim, quando alguém tinha contato com um produto “bom” percebia maior volume de espuma. Vieram então os comerciais e os produtos nacionas resolveram acompanhar a tendência para se manterem no mercado.

Então não é melhor?

Depende. Em locais com águas mais duras, é importante que exista maior concentração de detergentes para que eles funcionem apropriadamente. Mas não é o nosso caso, e esse excesso pode ser (e geralmente é) prejudicial à nossa saúde e, principalmente, ao ambiente.

Muita espuma aqui não é sinal de limpeza. É sinal de excesso!

O que, afinal, é a espuma e por que ela se forma?

Resumindo, espuma é ar. Quando algum sabão está disperso em água, a organização molecular de seus sais em relação à água faz com que, com o atrito e a entrada de ar na mistura, pequenas bolhas sejam revestidas por uma película de moléculas de sabão que impedem que esse ar escape.  Nessa perspectiva, pensar que mais espuma resulta em mais limpeza é como bater clras em neve esperando que a agitação deixe ela mais doce. Ou seja, não tem cabimento algum.

A espuma é um sinal de que as substâncias detergentes estão presentes, mas apartir do ponto em que a espuma se torna persistente (aquelas que as modelos assopram na banheira nos comerciais, e não se desmancham), isso é um claro sinal de excesso.

Quais as alternativas?

Você pode procurar produtos no mercado com menor concentração de detergentes, mas já aviso, vai ser muito esforço pra pouco resultado, porque esses produtos têm pouco sucesso no mercado. E o motivo é porque não sabemos consumir, mas isso não vai mudar tão cedo. O que nos resta são medidas práticas que vão tornar sua limpeza mais eficiente.

Pra não me alongar muito, o que for detergente, dilua por 4, e o que for xampú, dilua por 2.

Você já deve ter visto nas propagandas a Suzana Vieira colocar uns poucos pingos de detergente na esponja dizendo que ele “rende mais”, então você usa menos. Isso é verdade, desde que você faça ele render mais. Pra isso, dilua em água. Se ficar com medinho, dilua um frasco para dois e faça o teste. É mais fácil de espalhar esse detergente pela esponja e pela superficie a ser limpa, e isso faz ele funcionar melhor (embora com menos espuma).

Um detergente, pra fazer efeito, precisa se diluir na água. Se você fizer isso antes de usar, o processo fica muito mais simples. O mesmo vale para xampú em relação aos cabelos. Ele vai ficar com mais líquido e fazer menos espuma, então parece que limpa menos. Mas ele vai se espalhar melhor pelo cabelo e qualquer componente ativo da fórmula vai ser melhor incorporado pelos fios ou pelo coro cabeludo.

Pra entender, na prática, essa diferença, tente lambuzar um prato inteiro com uma colher de óleo e com uma colher de margarina.

Se você simplesmente tentar colocar poucas gotas de detergente na esponja ou pouco xampú na mão, ele vai se diluir com dificuldade porque a consistência é viscosa, e não vai funcionar. Então, dilua antes. O motivo de esses produtos serem viscosos é porque diluem menos, aí você usa mais, acaba antes e tem que comprar outro.

Diluir não é um ato de inteligência. É questão de procedimento. Não diluir é que é a burrice.

Mas o que tem a espuma de tão ruim?

O excesso de detergentes deixa a pele ressecada. Já falamos sobre isso na primeira postagem, então não vou insistir nos perigos da pele ressecada, mas ela fica mais frágil contra infecções e alguns ferimentos.

Esse é o motivo de se colocar outros produtos hidratantes (geralmente óleos) nos xampús e sabonetes. Mas se não tivesse detergente em excesso, boa parte deles não precisaria estar ali e haveria muito menos agentes químicos no produto (menos risco de alergias, menos poluentes pelo ralo). Eles não estão ali pra proteger sua pele do ressecamento natural. Eles estão ali pra aliviar os efeitos do ressecamento que o próprio produto causa.

Mas o maior problema com as espumas dos detergentes (sabões não formam esse tipo de espuma, mas tanto sabonetes quanto xampús geralmente possuem detergentes, então se tiver bastante espuma, eles estão ali) é ambiental. A espuma custa a se desmanchare sobre a superfície da água. Quem já viu saída de esgotos industriais ou locais onde ocorre agitação de água de esgotos sabe bem como é. Isso dificulta a entrada de oxigênio nos rios e destrói boa parte da vida ali. Isso também favorece o desenvolvimento de microorganismos anaeróbicos, que geralmente liberam um cheiro extremamente desagradável.

Os detergente não-biodegradáveis ainda apresentam o inconveniente de poderem se infiltrar no solo e em águas subterrâneas, podendo chegar a consumo humano e causar problemas digestivos e intestinais. A fabricação destes é atualmente proibida no Brasil e em vários outros países. Mas mesmo os biodegradáveis em excesso causam problemas ambientais. São tóxicos para os peixes, podem destruir microorganismos necessários à manutenção do ambiente aquático e sua decomposição resulta na eutrofização de águas, o que significa um crescimento populacional desordenado de álgas e consumidores primários (aumento de biomassa), que impedem a entrada de luz e reduzem o teor de oxigênio na água.

Produtos realmente diferentes

Há ainda os detergentes sem fosfatos e até mesmo sem qualquer derivado de petróleo. Ecologicamente são muito melhores, mas são sigificativamente mais caros. Um sabão em pó destes chega a sair por mais de 20 reais o quilo e muitos desses produtos acabam sendo importados, pois as produções nacionais não alcançam o grande mercado.

Outro inconveniente é que detergente com pouco ou nenhum fosfato depende muito mais do atrito. Ou seja, vai ter que lavar no braço mesmo, porque em máquinas de lavar louça, por exemplo, o desempenho é bem ruim. No Japão se desenvolveu um produto para lavagem de roupas em máquina com bolas de cerâmica que duram até 3 anos com uso diário. E não usam nada de detergente. Mas acredito que não valha a pena para a indústria, pois voce não vai ter que repor toda semana. Esses produtos devem demorar até atingirem um custo-benefício satisfatório e agradar o consumidor, então até que isso aconteça, o mais prático é diluir.

Eduque sua mente!

Precisamos nos educar quanto aos processos de limpeza. O consumidor escolhe mal porque não sabe o que está ali, nem como funciona. Peço que façam a experiência com o detergente. As marcas mais baratas vêm mais diluídas, então vamos arriscar uma diluição de um volume para dois. Quando seu frasco acabar, transfira metade de um novo para ele e preencha os dois com água. Use esses dois até acabarem e depois tente voltar pro concentrado. Veja você mesmo como o diluído funciona igual ou até melhor. O mesmo vale ara xampús. Se tiver medo, faça a diluição na sua mão.

Quando você se acostumar com a ideia de que a espuma não estar ali não quer dizer nada, no dia em que tentar usar o produto concentrado vai perceber como ele ataca sua mão, é mais difícil de usar e acaba muito mais rápido.

Nosso maior gasto de detergentes é apertando a esponja pra tirar o “excesso de espuma”. Reparem.

Posts anteriores da série:
Sabonetes Bactericidas