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Esse post é bem doido e destoante. Eu fiz ele em função de uma discussão sobre esse assunto num fórum. Ele não traz respostas definitivas, apenas meus resultados sobre uns anos de pesquisa nesse assunto. Eu perdi muita coisa porque sou burro e não salvei, e várias páginas foram atualizadas. Mesmo assim falei algumas dessas coisas, deixando claro as que não podem mais ser comprovadas. Todo o resto, Google. Pra quem sabe usar, é a deep web dos preguiçosos. Mas como quase ninguém sabe usar, dei esse adianto aqui. Enjoy.

Olha, toda vez que esse assunto surgiu nesse grupo eu ignorei ou fui pelo caminho da zueira. Mas eu gostei de você. Lucky of you. Vou te dar umas perspectivas aqui e uns pontos de partida, daí vc é quem me diz o que pensa… [Eu mesmo]

 

SEM CONSPIRAÇÃO

O Verichip é um dispositivo RFID (radio-frequency identification), ou seja, que pode ser localizado e identificado através de frequência de rádio. É essa mesma tecnologia que o mantém funcionando (ele não tem baterias nem é carregado em tomadas, o próprio impulso eletromagnético ativa ele).

Dispositivos RFIDs já existem em abundância no mundo e o mercado atual já é parcialmente dependente deles, pra identificação e acompanhamento de cargas. Eles também têm aplicação médica atual para localização de crianças com necessidades especiais e idosos com doenças degenerativas. E também têm aplicação veterinária para localização de animais, além de aplicações em segurança para rastreamento de bens roubados.

A maioria das propostas de aplicação médica generalizada aponta para maior eficiência de pronto atendimento em emergências, porque se tem rapidamente acesso a histórico médico, alergias, tipo sanguíneo, doenças crônicas, etc. Contudo, algumas pesquisas já apontam para possibilidade de desenvolvimento de câncer, alergias e rejeição em camundongos. Quando esse resultado veio à tona pela FDA (Food and Drugs Association) as ações da VeriChip caíram em 40% e o assunto deu uma esfriada. Mesmo assim, o desenvolvimento de sarcomas (cancros/câncer) em roedores é muito mais frequente que em humanos para esse tipo de reação a implantes, mas ciência nesse mundo é mídia e geral ficou com medo (compreensível).

Essa é a origem da proposta do VeriChip. Mas daí tem um tanto de coisas que você gostaria de saber, eu acho…

 

COM PREOCUPAÇÃO

A VeriChip não atende mais por esse nome, e sim por PositiveID, subsidiária da Applied Digital Solutions (ADS). Quem começou a desenvolver essa tecnologia pra Verichip foi a Destron Fearing, uma empresa especializada em identificação animal. A principal linha de produção deles até então era com aquelas etiquetas que ficam na orelha principalmente de gado.

Verichip pra se tornar a PositiveID se fundiu com a Steel Vault Corp., especializada em computadores e hardware. A partir daí, se tornaram uma empresa especializada em biotecnologia.

É fundamental entender essa história, assim como é fundamental que as cabeças por trás dessas movimentações não são médicos, nem biólogos, nem engenheiros, mas sim especialistas em finanças, como é o caso do Richard Sullivan (ex-CEO da PositiveID, e ex-CEO da Digital Angel), atual membro da Global Digital Solutions (GDSI). Esse cara é responsável pela compra e aprimoramento de 42 grupos e atualmente trabalha com a GDSI em consultoria para negócios na área de… Segurança ;)

Nos relatórios de finanças da PositiveID (PSID) eles dizem que por serem uma empresa pequena, não precisam revelar seus financiadores. Isso é garantido por lei. Pela empresa, só dá pra saber que quem cuida disso é William Caragol (procure o perfil dele na Forbes e tire suas conclusões). O único financiador que eles foram obrigados a apresentar em relatório (a lei estadunidense protege corporações) é a VeriTeq. Quem é VeriTeq? O nome atual da Digital Angel.

Esses conglomerados se subdividem, mudam de nome, mas são basicamente o mesmo grupo, sob mesma gerência, e MUITO dinheiro, que fragmentado parece pouco. E baixos valores não precisam ser declarados publicamente. Saca?

O fundador da ADS é Jamie Sugar, que trabalhou antes na Dictaphone Corp. por 20 anos como diretor de soluções em segurança nacional para o governo federal dos EUA. Esses caras migram do setor público para o privado para fazer o mesmo trabalho com mais proteção de privacidade. E a partir desses conglomerados, os relatórios financeiros entram na categoria “Smaller reporting company”, que não obrigam uma série de declarações.

Bem-vindo ao mundo corporativo estadunidense e ao motivo de quase tudo que não presta buscar sede nos EUA.

Outro membro do conglomerado é a Blue Moon, especializada em tecnologias de energia, e mais tarde comprada pela PSID. Antes disso ela comprou uma boa parte da Digital Angel. Percebe a treta? O responsável por essas transações é Scott R. Silverman. No momento ele era chairman da IFTH, uma empresa especializada em aquisição de outras empresas. Mas sabe onde mais ele trabalhou? Na Steel Vault Corp, na VeriTeq e na PSID. Curioso, não?

Eu não consigo mais encontrar nos relatórios, mas nas versões antigas do site tinha rastros de negociação até com dinheiro da ADX (autoridade em prisões de segurança máxima). Os relatórios financeiros da PSID foram substituídos e todos datam de 2014. Provavelmente por uma mudança na legislação que os permitiu ocultar mais informações (que vão me dar um trabalho do cão pra conseguir de novo), mas havia mais umas três especializadas em segurança e homeland security (segurança nacional), vinculadas de alguma forma ao DHS (Department of Homeland Security), cuja missão é “garantir a segurança da nação [EUA] das muitas ameaças que enfrentamos”. Esse dado vai ficar de boa fé mesmo, não precisam acreditar porque não dá pra achar assim de boa na internet. Todo o resto que eu disse até agora é acessível pelo Google, pelas páginas oficiais das corporações, pela Forbes e nos relatórios financeiros (que estão nas páginas), além de fóruns de economia que acompanham essas transações e aparecem nos primeiros resultados do Google com uma busca simples.

Não vou me alongar muito nessa parte porque iria mudar de assunto, mas pra quem curte esse tipo de investigação, os secretários do DHS nos períodos que envolveram as negociações relativas à PSID são James Milton Loy (principalmente) e Michael Chertoff (pegou o fina das transações, e é um dos fundadores do Patriot ACT, que também vale a pena pesquisar, até mais que o Verichip). Gente boa, só que não. Ambos indicados pelo então presidente Bush. Agora voltando ao assunto.

 

COM ESPECULAÇÃO

Em linhas gerais, o Verichip (eu prefiro usar esse nome, mas já está claro que se trata de muitas corporações e pessoas envolvidas) se inicia com uma proposta médica-veterinária, mas desperta interesse de companhias de tecologia, energia e segurança, e principalmente do governo.

Ele chegou a ser testado em regiões mais conservadoras dos EUA durate a gestão Bush, mas a interferência negativa da FDA (cujas motivações eu ainda não entendi) atrasou o processo. Recentemente houve pressão sobre o Obama pra que ele voltasse a incorporar a ideia em seu projeto de saúde pública nos EUA, mas até agora sem apontamentos de que isso fosse dar resultados.

De lá pra cá, a principal especulação sobre o Verichip tem sido no setor comercial. Bancos e empresas de crédito têm flertado com a possibilidade de um “cartão” subcutâneo que facilitaria suas compras (e facilitaria mesmo) e é muito capaz que isso comecea ocorrer com ou sem consentimento do governo americano nos próximos anos.

O grande medo da maioria das pessoas (e meu também) é que se crie um sistema integrado de identificação, aproveitando a brecha que aparecer (seja médica ou financeira) para usar essa tecnologia para apresentar a “praticidade” de ter nesse chip seu RG, passaporte, etc.

Não é recente a literatura de ficção que aponta pra essa realidade. E num mundo onde você já pode ter sua face reconhecida por câmeras na rua e ser identificado num protesto, a presença desse tipo de chip poderia significar a possibilidade do seu rastreamento e localização por satélite em qualquer lugar do mundo com precisão de DOIS CENTÍMETROS. Louco. Essa é a tecnologia que já existe.

Há inúmeras razões pra ser contra esse tipo de medida, mas isso não vai acontecer do dia pra noite, porque não dá. Pra isso acontecer, eles vão precisar que as pessoas QUEIRAM isso. Bush chegou perto com a históra do terrorismo, mas ainda assim não deu. Por mais ignorante que seja o estadunidense médio (assim como o brasileiro) ainda existe uma cultura de liberdade, nem que seja da boca pra fora, que torna esse processo difícil. Eles vão atuar sobre essa cultura.

Ninguém vai forçar um chip no seu braço. Eles vão te fazer pedir por um chip no braço. E da mesma maneira que se criou emanda e dependência por telefonia celular e internet, vai se criar emanda e dependência para chips RFID. É questão de tempo.

 

SOBRE AS CONSPIRAÇÕES

Crença é crença. Não vou ficar aqui perdendo tempo dizendo se o anticristo vai voltar ou não, até porque não sou cristão. Mas é preciso deixar de lado as páginas da surface de fundo preto e acordar pra uma realidade: conspirações são uma arma REACIONÁRIA, não revolucionária.

A revolução se faz com fatos, não com medos. Quanto mais informação dispersa se tem sobre um assunto, mais difícil encontrar a verdade. E essas corporações e centros financeiros encontraram um grande escudo nessa galera que só sabe falar de Illuminatis e Chip da Besta. Não se esqueçam que os principais difusores dessas conspirações atuais são igrejas neopentecostais institucionalizadas, e que elas SEMPRE estiveram do lado do imperialismo global. Abandonem a inocência digital.

Ademais, um conspirador nunca faria o que eu fiz aqui. Obscurantistas ficam nessa de “eu sei de coisas que…”, “eu ouvi uma coisa que você não ouviu”, “eu conheci uma pessoa que me disse” e blablablabla… Posso ver meia dúzia deles se retorcendo enquanto leem isso aqui. Quero que o cu eles pegue fogo.

Comecem a pesquisar como gente grande. Investiguem a informação institucional antes de mais nada, e a partir dela procurem a mentira, não o contrário.

 

E COMO RESISTIR?

Não dá. Sorry.

A única maneira possível de resistir agora é destruir os EUA como centro financeiro internacional, mas dadas as perspectivas atuais, os BRICS se fortalecem, as corporações migram pra esse eixo e então as legislações russas e chinesas vão mudar pra protegê-las como ocorre nos EUA.

A gente só vai ganhar tempo, e ainda assim nem é muito. Quem tiver real preocupação nesse assunto é melhor que se prepare não pra como resistir, mas sim pra como fugir.

Queria terminar com final feliz, mas não vai rolar. É choque de realidade mesmo. Só a partir das palavras chave desse texto tem material suficiente pra cada um(a) correr atrás e tirar suas conclusões, como eu fiz, sem ninguém dar nada mastigadinho.

Não vou colocar todos os links por pura preguiça, porque escrever isso aqui já deu trabalho suficiente. É só usar o Google, vocês conseguem. E aprendam a falar/ler em inglês, pra ontem. Beijos.

Faz várias luas que não escrevo nada aqui, mas me deu vontade de escrever, e prefiro que seja aqui mesmo. De repente eu reanimo esse espaço.

Quando eu era criança, lá pelos 5 anos, eu queria ser “cientista maluco”. Na minha cabeça, isso era uma profissão. Eu ficava brincando com os produtos de limpeza, tinta, óleo, vinagre, tudo em potinhos de iogurte que ficavam vazios. A escada do quintal era meu laboratório, cada degrau uma prateleira cheia de “experiências”, invenções que sempre que eu acreditava terem funcionado corria pra mostrar pra minha avó. Observava as formigas e, não me orgulho disso, enchia os formigueiros com água da mangueira, ou perseguia elas com uma lupa. Não era bem crueldade, mas uma sensibilidade que ainda não tinha se desenvolvido. Quando escurecia eu ficava olhando o céu e pensando o que havia naquelas estrelas, se tinha alguém olhando de volta, se as pessoas que morriam iam pra alguma delas, ou várias. E nas minhas orações eu pedia pra que Deus me desse uma nave espacial. Depois corria pra olhar pela janela e ela nunca estava lá. Às vezes eu sonhava com essas viagens, grandes laboratórios, monstros que eu fazia sem querer e corriam atrás de mim. E quando ia pra chácara com meus avós eu perguntava tudo. Queria saber o nome das plantas, porque algumas davam fruta e outras não, enfim… Eu enchia o saco de qualquer adulto com essas perguntas. Há quem diga que eu fui uma criança esquista, mas acredito que eu era bem saudável.

Cresci. Meu sonho passou a ser escritor. Adolescente ainda eu ensaiava livros, escrevia dezenas de páginas, depois achava ruim e apagava tudo. Tentei fazer quadrinhos, também não gostava e jogava fora. Poesias que depois de uns meses me cansavam e eu queimava. Uma porção de coisas que fisicamente se perdeu, mas de que eu ainda me lembro razoavelmente bem.

Nunca publiquei um livro, nem consegui me formar num curso de biologia que já se arrasta por vários anos. Não por falta de capacidade, mas de conformidade. Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido. E assim como livros largados pela metade, já se foram alguns TCCs e algumas disciplinas. Vou trabalhando como dá, numa luta por independência que também não se completou e eu nem sei quando vai se completar.

Mas o ponto aqui não é a conclusão de nada. Estava no quintal olhando para o céu noturno, da mesma forma como fazia aos cinco anos, e pensando muitas coisas que eu já pensava naquela época.

A ciência que eu faço, assim como a escrita que eu faço, raramente me dá dinheiro. Mas elas me dão prazer, e eu sinto que elas contribuem para alguém. Quando eu decidi ser articulista voluntário sem assinatura, produzindo para livre distribuição, não foi por falta de opção, mas por convicção. E eu não ganho atualmente nenhum centavo de editoras e direitos autorais (como a maioria dos escritores…), mas, puta merda, como eu escrevo! E felizmente eu consigo atingir muitas pessoas, interagir com elas, ensinar e aprender, emancipar.

Não vai ser um pedaço de papel ou um carimbo social que determinarão quem eu sou ou o que eu faço. Se eu faço ciência, sou cientista. Se eu escrevo, sou escritor. E seu julgamento sobre isso honestamente não me interessa. Me interessa investigar e escrever, obrigado.

E esse, como vários outros textos, não tem a pretensão de convencer ninguém de nada, nem de me afirmar para um grupo ou buscar legitimação. É apenas mais uma daquelas coisas que a gente faz só pra que outras pessoas saibam que não estão sozinhas, para que outras saibam que existem outros caminhos, e tantos outros além do tradicional e do meu.

Faço isso porque essas coisas, essas que as pessoas fazem pra que a gente saiba que não está sozinho, sempre foram muito importantes pra mim. Pra eu saber que não estou sozinho.

Vai ver essa é a concepção moderna de uma comunidade anarquista. Eu ainda vou precisar batalhar, e muito, pra sobreviver num sistema de merda. Mas o que eu puder fazer pra encurtar o tempo de vida desse sistema, vou fazer.

Aos anarcos, piratas, esquerdinhas, anônimos e libertários do meu convívio, meu sincero agradecimento. Somos um.

Este é o segundo post da série “Higienização Insana”. No primeiro, introduzi o assunto, então quem tiver interesse veja o link no final dessa postagem.

De onde veio essa bobagem?

Eu também custei a descobrir. Faz tempo que já sabia que era mito e os motivos, mas não imaginava de onde isso tinha saído. Encontrei uma porção de hipóteses a esse respeito, mas a mais convincente tem embasamento científico, então vou adotá-la. Caso alguém conheça outra explicação, por favor, comente!

O fato é que a água na Europa (local de onde vêm muitos produtos de beleza e cosméticos) é muito mais “dura” que a nossa, ou seja, possui maior concentração de sais (provenientes de calcário, sobretudo). Por conta disso, para que os produtos tenham ação de limpeza eficiente com esse tipo de água, é preciso uma maior concentração de detergentes na fórmula.

Esses produtos passaram a ser vistos como “melhores”, porque o desenvolvimento cosmético desses países de fato foi superior ao brasileiro durante muito tempo (hoje isso é questionável). Assim, quando alguém tinha contato com um produto “bom” percebia maior volume de espuma. Vieram então os comerciais e os produtos nacionas resolveram acompanhar a tendência para se manterem no mercado.

Então não é melhor?

Depende. Em locais com águas mais duras, é importante que exista maior concentração de detergentes para que eles funcionem apropriadamente. Mas não é o nosso caso, e esse excesso pode ser (e geralmente é) prejudicial à nossa saúde e, principalmente, ao ambiente.

Muita espuma aqui não é sinal de limpeza. É sinal de excesso!

O que, afinal, é a espuma e por que ela se forma?

Resumindo, espuma é ar. Quando algum sabão está disperso em água, a organização molecular de seus sais em relação à água faz com que, com o atrito e a entrada de ar na mistura, pequenas bolhas sejam revestidas por uma película de moléculas de sabão que impedem que esse ar escape.  Nessa perspectiva, pensar que mais espuma resulta em mais limpeza é como bater clras em neve esperando que a agitação deixe ela mais doce. Ou seja, não tem cabimento algum.

A espuma é um sinal de que as substâncias detergentes estão presentes, mas apartir do ponto em que a espuma se torna persistente (aquelas que as modelos assopram na banheira nos comerciais, e não se desmancham), isso é um claro sinal de excesso.

Quais as alternativas?

Você pode procurar produtos no mercado com menor concentração de detergentes, mas já aviso, vai ser muito esforço pra pouco resultado, porque esses produtos têm pouco sucesso no mercado. E o motivo é porque não sabemos consumir, mas isso não vai mudar tão cedo. O que nos resta são medidas práticas que vão tornar sua limpeza mais eficiente.

Pra não me alongar muito, o que for detergente, dilua por 4, e o que for xampú, dilua por 2.

Você já deve ter visto nas propagandas a Suzana Vieira colocar uns poucos pingos de detergente na esponja dizendo que ele “rende mais”, então você usa menos. Isso é verdade, desde que você faça ele render mais. Pra isso, dilua em água. Se ficar com medinho, dilua um frasco para dois e faça o teste. É mais fácil de espalhar esse detergente pela esponja e pela superficie a ser limpa, e isso faz ele funcionar melhor (embora com menos espuma).

Um detergente, pra fazer efeito, precisa se diluir na água. Se você fizer isso antes de usar, o processo fica muito mais simples. O mesmo vale para xampú em relação aos cabelos. Ele vai ficar com mais líquido e fazer menos espuma, então parece que limpa menos. Mas ele vai se espalhar melhor pelo cabelo e qualquer componente ativo da fórmula vai ser melhor incorporado pelos fios ou pelo coro cabeludo.

Pra entender, na prática, essa diferença, tente lambuzar um prato inteiro com uma colher de óleo e com uma colher de margarina.

Se você simplesmente tentar colocar poucas gotas de detergente na esponja ou pouco xampú na mão, ele vai se diluir com dificuldade porque a consistência é viscosa, e não vai funcionar. Então, dilua antes. O motivo de esses produtos serem viscosos é porque diluem menos, aí você usa mais, acaba antes e tem que comprar outro.

Diluir não é um ato de inteligência. É questão de procedimento. Não diluir é que é a burrice.

Mas o que tem a espuma de tão ruim?

O excesso de detergentes deixa a pele ressecada. Já falamos sobre isso na primeira postagem, então não vou insistir nos perigos da pele ressecada, mas ela fica mais frágil contra infecções e alguns ferimentos.

Esse é o motivo de se colocar outros produtos hidratantes (geralmente óleos) nos xampús e sabonetes. Mas se não tivesse detergente em excesso, boa parte deles não precisaria estar ali e haveria muito menos agentes químicos no produto (menos risco de alergias, menos poluentes pelo ralo). Eles não estão ali pra proteger sua pele do ressecamento natural. Eles estão ali pra aliviar os efeitos do ressecamento que o próprio produto causa.

Mas o maior problema com as espumas dos detergentes (sabões não formam esse tipo de espuma, mas tanto sabonetes quanto xampús geralmente possuem detergentes, então se tiver bastante espuma, eles estão ali) é ambiental. A espuma custa a se desmanchare sobre a superfície da água. Quem já viu saída de esgotos industriais ou locais onde ocorre agitação de água de esgotos sabe bem como é. Isso dificulta a entrada de oxigênio nos rios e destrói boa parte da vida ali. Isso também favorece o desenvolvimento de microorganismos anaeróbicos, que geralmente liberam um cheiro extremamente desagradável.

Os detergente não-biodegradáveis ainda apresentam o inconveniente de poderem se infiltrar no solo e em águas subterrâneas, podendo chegar a consumo humano e causar problemas digestivos e intestinais. A fabricação destes é atualmente proibida no Brasil e em vários outros países. Mas mesmo os biodegradáveis em excesso causam problemas ambientais. São tóxicos para os peixes, podem destruir microorganismos necessários à manutenção do ambiente aquático e sua decomposição resulta na eutrofização de águas, o que significa um crescimento populacional desordenado de álgas e consumidores primários (aumento de biomassa), que impedem a entrada de luz e reduzem o teor de oxigênio na água.

Produtos realmente diferentes

Há ainda os detergentes sem fosfatos e até mesmo sem qualquer derivado de petróleo. Ecologicamente são muito melhores, mas são sigificativamente mais caros. Um sabão em pó destes chega a sair por mais de 20 reais o quilo e muitos desses produtos acabam sendo importados, pois as produções nacionais não alcançam o grande mercado.

Outro inconveniente é que detergente com pouco ou nenhum fosfato depende muito mais do atrito. Ou seja, vai ter que lavar no braço mesmo, porque em máquinas de lavar louça, por exemplo, o desempenho é bem ruim. No Japão se desenvolveu um produto para lavagem de roupas em máquina com bolas de cerâmica que duram até 3 anos com uso diário. E não usam nada de detergente. Mas acredito que não valha a pena para a indústria, pois voce não vai ter que repor toda semana. Esses produtos devem demorar até atingirem um custo-benefício satisfatório e agradar o consumidor, então até que isso aconteça, o mais prático é diluir.

Eduque sua mente!

Precisamos nos educar quanto aos processos de limpeza. O consumidor escolhe mal porque não sabe o que está ali, nem como funciona. Peço que façam a experiência com o detergente. As marcas mais baratas vêm mais diluídas, então vamos arriscar uma diluição de um volume para dois. Quando seu frasco acabar, transfira metade de um novo para ele e preencha os dois com água. Use esses dois até acabarem e depois tente voltar pro concentrado. Veja você mesmo como o diluído funciona igual ou até melhor. O mesmo vale ara xampús. Se tiver medo, faça a diluição na sua mão.

Quando você se acostumar com a ideia de que a espuma não estar ali não quer dizer nada, no dia em que tentar usar o produto concentrado vai perceber como ele ataca sua mão, é mais difícil de usar e acaba muito mais rápido.

Nosso maior gasto de detergentes é apertando a esponja pra tirar o “excesso de espuma”. Reparem.

Posts anteriores da série:
Sabonetes Bactericidas

Este é o primeiro de uma série de futuros posts sobre nossa mania de esterilizar o mundo, e que tem deixado quase todo mundo louco, pra não dizer idiota. Será grande porque é introdutório. Os próximos não repetirão a informação aqui registrada.

Desculpem-me as donas de casa com “mania de limpeza” (que é doença!!!) e as mamães que esterilizam suas crianças, mas a ignorância de vocês pode estar condenando seus pequenos a problemas de saúde muito mais sérios do que as bactérias do nosso cotidiano poderiam causar.

Sabonetes bactericidas devem ser usados conforme as instruções!

Se você usa Protex, Lifebuoy ou variáveis como usaria um sabonete normal, você só está jogando antibióticos (e dinheiro) pelo ralo. As substâncias bactericidas ativas nestes produtos precisam de no mínimo dois minutos sobre a pele para surtirem efeito. Algum de vocês deixa as mãos ensaboadas por dois minutos antes de enxaguar? Eu duvido. Então, surpresa, todo o dinheiro que você gastou nestes sabonetes foi inútil até agora para melhorar sua saúde. Mas ele trouxe outras coisas…

“Achamos que estamos esterilizando o mundo, mas estamos mudando ele”

Palavras dos pesquisadores McMurry e Levy, numa edição da Nature de 1998 (sim, a indústria tem escondido isso de você há mais de 10 anos). Interessados podem ler o artigo “Antibacterial household products: cause for concern”. [Abstract; PDF]

Esses produtos bactericidas foram desenvolvidos inicialmente para uso em ambientes potencialmente contaminantes (hospitais, locais de coleta e análise de água poluída, laboratórios etc). Mas a partir no fim da década de 90, já estavam presentes em mais de 700 produtos destinados a uso doméstico. Isso não porque as pessoas estavam ficando doentes por conta de bactérias, mas porque estavam ficando doentes mentais (com a licença para o exagero, mas esse texto tem o propósito de ser um “alerta vermelho”).

Os problemas do uso cotidiano e excessivo desses produtos são muitos. Vou listar apenas os mais relevantes.

  • Quanto mais substâncias presentes num agente (de tratamento ou não) maior o risco de reação do organismo. Por isso não é raro encontrar pessoas que apresentam reação alérgica ao uso desses sabonetes. E reações alérgicas não são apenas pele vermelha. Elas podem se manifestar de diversas formas, muitas delas internas, difíceis de identificar. Podem envolver dores de cabeça, enfraquecimento do sistema imunológico, irritação do intestino ou do estômago, dores musculares, entre muitos outros. Isso vai da pessoa, mas é fato que essas substâncias são absorvidas pela pele e podem chegar a diversas partes do organismo.
  • Os bactericidas não escolhem a bactéria que vão atacar, e nossa pele é naturalmente revestida por bactérias ditas “boas”, ou seja, que atuam na absorção do excesso de suor e como barreira contra outras infecções. Destruir essas bactérias é deixar o organismo mais vulnerável a infecções. Vale ressaltar aqui que a relação “pacífica” que temos com esses microrganismos foram construídas ao longo de milhares de anos da evolução. E justamente por isso elas funcionam muito bem (do contrário, não estaríamos aqui).
  • Antibióticos usados dessa forma colaboram para a seleção de bactérias mutantes resistentes. Na prática, isso significa que a administração desorientada dessas substâncias, no lugar de proteger seu organismo, irá agir sobre um população de bactérias fazendo com que os menos resistentes morram e os mais resistentes possam se reproduzir. A mídia frequentemente usa o termo “superbactéria”, que você já deve ter ouvido, pra falar desse fenômeno.
  • Por fim, em decorrência disso tudo, essas substâncias podem alterar a microflora do indivíduo (a população natural de bactérias do corpo humano). Como resultado, isso pode alterar o processo de maturação de células T do seu sistema imunológico, potencializando, e muito, a chance de crianças desenvolverem alergias.

Calma, ainda não acabou.

Até mesmo a indústria já está reconhecendo o problema

O Triclosan foi a substância líder desse ramo durante um bom tempo (mas já foi banido ao menos pelas marcas mais importantes). Além desses problemas, já foi associado até mesmo a casos de desregulação hormonal e prejuízos ambientais. Os outros ativos químicos (clorocarbonos, active 5, cloroxilenol) ainda não foram tão bem estudados, mas é bom ficarmos atentos. Geralmente os bactericidas vêm com essa mensagem gritante na embalagem, porque o consumidor ainda valoriza essa propriedade, mas não custa verificar a composição do sabonete para ter certeza.

Sabonetes normais são mais seguros, mas também não devem ser usados em excesso!

Mesmo o sabonete comum, se usado em excesso, pode prejudicar a saúde do organismo. Para a limpeza corporal cotidiana, não é recomendado usar sabonete mais de uma vez ao dia. Se tomar vários banhos, não use sabonete em todos. Se lavar as mãos muitas vezes no dia, pense em usar cremes com silicone ou óleos vegetais.

O uso excessivo de sabões na pele a deixa ressecada. Isso, em outras palavras, significa que a barreira lipídica natural é removida, deixando a pele mais vulnerável a infecções. Ainda, prefira os sabonetes glicerinados, ou mesmo os infantis, que apresentam risco muito menor de reação alérgica.

Devo remover completamente estes produtos da minha vida? Quais as alternativas?

No geral, sim. Se você não for um profissional da área de saúde, não lida com agentes contaminantes (como num laboratório) e não está fazendo coleta de água em córregos poluídos, definitivamente sim. Em qualquer outra situação, água e sabão normal já fazem o serviço. E em casos onde não for possível, prefira o álcool em gel, que age apenas topicamente (não penetra na pele e não atinge a microflora interna). Mas não seja neurótico. Não leve isso na bolsa todos os dias. Álcool em gel usado com frequência também desidrata a pele.

Uma breve cutucada política/mercadológica sobre a situação

Pra finalizar, uma cutucada. A indústria se aproveita das histerias coletivas para vender. A indústria farmacêutica é especialmente campeã nesse ramo. Quando a histeria não existe, eles dão um jeito de criar uma. Álcool em gel e sabonetes bactericidas não vão re proteger da gripe suína, nem de nenhuma outra doença viral!

Sua casa não é um ambiente hostil, seu filho precisa de contato com sujeira para desenvolver o próprio sistema imunológico e não ser um merdinha quando crescer. Aquela bolha que aparece em volta das crianças nos comerciais não é uma proteção à saúde, é uma barreira contra o próprio desenvolvimento.

O mesmo vale para sabão em pó. Se você não está lavando um avental cirúrgico, não pense em usar sabões bactericidas. Além de inútil e caro, os tecidos ficam impregnados com a substância (que poderá ser absorvida pela pele, e também poderá causar alergias), além da grande quantidade de água com antibióticos liberada no ambiente.

Não seja um imbecil nas mãos dos agentes publicitários destas empresas. Proteja seu bolso, sua saúde, o ambiente e dê um basta nessa epidemia de higienização do mundo. Antes que ele esteja tão estéril que nem nós possamos sobreviver.

Algumas ironias, só pra não dizerem que não sou biólogo

O número de células bacterianas do seu corpo é maior do que o número de células do seu corpo. Umas dez vezes maior! Você é mais bactéria que gente, respeite as pequeninas! Até uns 4Kg do seu peso são bactérias.

As bactérias foram indispensáveis no processo evolutivo que formou nosso sistema imunológico. Seja grato, no mínimo.

As bactérias foram indispensáveis em todo o processo de evolução da vida na Terra. Elas foram, inclusive, a primeira forma de vida presente em nosso planeta.  Algumas são patológicas, mas a maioria delas não é. Se todas as bactérias fossem extintas hoje, a vida em nosso planeta estaria condenada. E nós conhecemos somente cerca de 50% das espécies de bactérias presentes no mundo. Elas também são importantíssimas no processo de desenvolvimento de inúmeros remédios.

Cerca de mil dessas espécies podem viver em paz em nossos intestinos. E cada um de nós possui em média 160 espécies diferentes delas. 99% dos genes presentes em seu intestino são bacterianos, e não humanos. O número de espécies de bactérias no seu intestino aumenta ao longo da vida. Elas começam a invadir seu corpo a partir do nascimento e aumenta de acordo com seu contato com o mundo (comer terra quando criança, por exemplo) e sua dieta (comer terra quando criança, por exemplo).

Por fim, a ciência ainda não decifrou completamente como as bactérias auxiliam em nosso processo digestivo, mas é fato que o fazem. E se ao longo desses milhares de anos de evolução nosso sistema imunológico permite que elas vivam ali em paz enquanto nos ajudam a sobreviver, isso já é motivo pra pensar duas (ou mais) vezes antes de mandar um antibiótico pra dentro.

Já chega. Os próximos posts serão mais sucintos e vou direcionar para esse aqui caso alguém queira saber de mais informações sobre bactérias. Daqui em diante, vou me focar nos produtos, danos específicos à saúde (que não esses genéricos) e impactos ambientais.

Essa postagem não será uma crítica ou defesa sobre qualquer das recentes polêmicas socioambientais no Brasil. As pessoas (eu incluso) já estão saturadas disso e eu particularmente ando irritado com o grande volume de hipocrisia que circula pela internet.

Só a título de curiosidade, sou contra, em âmbito geral, o projeto da usina Belo Monte e também a reforma no Código Florestal. Mas pra todos os meus amigos ambientalistas que ficam “putinhos” com a minha postura neutra na maioria desses debates, talvez esse texto explique alguma coisa.  Ou talvez confunda mais. Despretensiosamente, vamos ao blablabla…

Vou falar de energia em termos gerais, também, pra não parecer que estou puxando sardinha ou pegando rabeira em movimentos.

Crise Energética não é novidade!

Apesar de os termos “Belo Monte” e “Dilma” estarem presentes no cotidiano de qualquer usuário de facebook, twitter ou leitor de jornais, esse problema não é novo. Ele só virou destaque nas grandes mídias agora porque é interessante politicamente. O que chamamos hoje de “crise energética” é algo que começou no último mandato de FHC, por conta de um programa de expansão da produção energética que desrespeitava o sistema hídrico brasileiro (que, diga-se de passagem, é um dos mais, se não o mais adequado no mundo para a utilização de energia de hidrelétricas). Resumindo como deveria funcionar, o sistema de armazenamento faz com que se guarde água nos anos de maior precipitação para que isso seja compensado nos anos de menor precipitação. As hidrelétricas são projetadas para isso. Toda hidrelétrica passa por esse tipo de problema (fase “cheia” e fase “seca”), pois é natural do sistema hídrico.

Pois bem, lá por 2000, 2001, alguns alertas começaram a surgir sobre o mau uso desses sistemas, e um futuro com possíveis racionamentos (que, pra quem lembra, chegou a acontecer, e é um dos motivos de pagarmos tão caro em nossas contas de energia elétrica hoje). Mas a questão não se resume simplesmente a “má gestão das hidrelétricas”. Houve espansão da rede elétrica, que aumentou o consumo, e não teria mesmo outro jeito, a não ser que se buscasse novas fontes de energia (e em termos práticos estamos falando de mais hidrelétricas). Isso não quer dizer que Belo Monte seja necessária para o consumo de energia do Brasil. Mas quer dizer que é natural que se instalem mais hidrelétricas. E não dá pra fugir disso se não estivermos dispostos a outro período de racionamento, e energia ainda mais cara.

Faltou, sem dúvida, investimento na transmissão dessa energia. E continua faltando. O sistema de hidrelétricas no Brasil é interligado (e pode ser mais interligado), ou seja, usinas conectadas podem compensar as necessidades umas das outras em períodos de necessidade (dado o tamanho do nosso país e a diferença entre os regimes de cada bacia hidrográfica). Isso é uma enorme vantagem pois permite que não se desperdice energia que “sobra” em alguns processos. Só para ter noção da diferença que isso faz, o acréscimo da linha Norte-Sul acrescentou à disponibilidade energética do país uma quantidade de energia equivalente à produção de Angra I.

Por que faltou investimento? Brasileiro tem mesmo a memória bem curta, mas nesse mesmo período, do governo de FHC, foi que se iniciou a esperança das termelétricas usando gás natural que viria da Bolívia. Felizmente não deu certo, mas as razões foram econômicas, pra que conste. E muita gente, na época, que assistia televisão, achava que isso era progresso! Sem nem imaginar que termelétricas produzem energia que passam de dez vezes mais cara que hidrelétricas. E que poluem mais no processo. Muito dinheiro público foi investido na criação de quase 50 dessas usinas (boa parte mascarado pela Petrobrás).  Só que gás natural acaba, ao contrário de água.

O que se está fazendo hoje com a expansão de hidrelétricas não é um absurdo econômico, tampouco ambiental. Já se fez muito pior por muito menos há bem pouco tempo atrás. E nenhum engomadinho da rede globo se manifestou, nem deu entrevista pra Veja.

É óbvio que o processo de desapropriação que ocorre em muitas dessas instalações é grotesco. Não estou isentando este governo dos absurdos que tem cometido. Sequer sou eleitor do PT. Só não gosto de circo. E é isso que se está fazendo. A maioria das pessoas que tem se colocado contra as hidrelétricas sequer sabe como uma delas funciona. A maioria das pessoas que diz que temos que investir em energias “renováveis” não tem idéia do impacto que causam as usinas eólicas e/ou solares (células fotovoltaicas). E a maioria dessas pessoas, como forma de “protesto”, simplesmente replica informação pela internet.

Energia solar e eólica nunca serão vatagem para o Brasil porque nós não investimos em tecnologia própria. Ficamos dependendo de países desenvolvidos para comprar uma tecnologia, para investir na implantação e para ganhar dinheiro às nossas custas. Não foi diferente em outros países, ditos “pioneiros” da energia limpa na europa. Quem domina as grandes usinas eólicas são os mesmos barões do petróleo de outrora, que ao perceber que uma hora vai mesmo acabar, já estão fazendo seu pé de meia pelo resto do mundo.

Se querem saber o que eu penso ser o problema central nessa questão, podem continuar a ler, mas agora vem a parte doída. Vivemos num país burro, governado por burros, movido por burros. E, pior que isso, num país onde a classe preparada pra se pronunciar com autoridade no assunto fica calada. O corpo docente das universdades públicas brasileiras é muito covarde. Não dá pra saber se é medo, vergonha ou preguiça. Mas o fato é que deveriam se enxergar como CLASSE e fazer movimentos sólidos a respeito do avanço centífico do país. E não se contentarem em pagar anuidade a seus conselhos de profissão ou deixar a voz de comando às instituições de fomento (que o governo banca, então naturalmente defendem o governo).

Professor universitário é muito bunda mole. Quem deveria estar projetando hidrelétricas são eles. E deveriam procurar a população com um projeto em mãos, pra dizer “isso aqui é melhor do que esse programa que o governo quer fazer”. Porque muitos deles enxergam o problema, conhecem a solução, mas não fazem muito diferente da velha rabugenta que vê tudo isso do sofá de casa.

O Brasil precisa de mais que uma revolução estudantil. Ele precisa de uma revolução científica. Pra ontem. Não adianta de nada ser o mais rico entre os pobrinhos. Parece aquele orgulho imbecil de ser “a escrava branca”.

Conhecimento é poder, não é de hoje que sabemos. Mas quando a classe que detém esse conhecimento não entrega ele ao povo, então essa classe está do lado de outra coisa.

Algumas informações vieram daqui, a quem interessar:
http://www.scielo.br/pdf/asoc/n6-7/20435.pdf

Um dia de biólogo

Publicado: sábado, 3 setembro - 2011 em Ciência, Cultura, Filosofia
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Hoje, 3 de setembro, é dia do biólogo. E no meio de tantos parabéns, é impossível não parar pra pensar: “Por que estão nos parabenizando?”. Mas esta não será uma postagem ranzinza sobre não merecermos parabéns. Pelo contrário. Vou exaltar um pouquinho a experiência do nosso campo de estudo.

A minha proposta é que no lugar de comemorarmos o da do biólogo, tentemos todos ter um dia de biólogo. E eu vou explicar como fazer isso, não é tão difícil.

Pra começar, você deve retirar da sua cabeça aquele medo medieval irracional de tudo o que tem perninhas, de tudo o que se esconde nas frestas, de tudo o que se rasteja silenciosamente, das criaturas que voam na noite, das que moram em cavernas, das que fazem do seu guardarroupa um lar. O segundo passo é não ter “nojinho”.

Lembra quando você tinha uns 3 ou 4 anos? Provavelmente não, mas se não conseguir, pense nas crianças que você conhece. Dessas que colocam a mão em tudo, enfiam as coisas na boca, ficam sujas e felizes.

A biologia, entre todas as ciências naturais, é a mais sensorial. E talvez isso a afaste da exatidão da química e da física (que também não são assim tão exatas…). Aquele prazer de entrar no meio do mato com a vovó e sair perguntando que árvore é essa. Depois subir na árvore, achar uma goiaba cheia de bichinhos, deixar eles de lado e comer mesmo assim. Imitar macaco antes de descer, claro.

Fazer buracos no chão, encher de água e dizer que fez um rio pra criar peixes. Prender joaninha numa ilha dentro de um pote de plástico pra ver se ela vai nadar ou voar. Brincar com o cachorro como se ele fosse um irmãozinho e não um objeto de decoração.

Acho que o que nos arrasta para a biologia é essa criança. Das ciências, também acho que seja a mais próxima da arte. A ver por todos os documentários e exposições fotográficas com a temática biológica e ambiental, que nos causam fascínio até mesmo na catástrofe.

Mas também há uma dose de crescimento. De entender que não existe normal. Que estatística é metáfora da realidade e não a realidade em si. Que a diferença é vantagem. Que a cooperação te mantém vivo. Que não existe perfeito, tampouco imperfeito. Que é irrelevante a presença de um criador. que não somos únicos, nem mais importantes. Que também não somos menos importantes. Que tudo o que é vivo merece respeito, pois temos origem comum. Quue o que não é vivo também o merece, pois somos feitos dessa mesma matéria morta.

A biologia enquanto carreira já me cansou. Porque boa parte dos biólogos acaba esquecendo a maioria dessas coisas, e eu não tenho saco pra trabalhar com “gente grande”. Mas mesmo sabendo disso, é um caso de amor que não acaba. Um caso de amor com o objeto de estudo, pois pra mim é assim que se faz ciência. E se falta espaço pra amar, eu devo procurar outro lugar pra fazer minha ciência.

Mas nós, sem modéstia, somos os mais qualificados pra falar do tal “sentido da vida”. Porque, curioso que pareça, ao contrário das outras ciências, não o buscamos. O bonito do biólogo é que vê a vida como fenômeno, então ela não precisa de um sentido.

Sem precisar procurar onça no mato, sem precisar se trancafiar num laboratório por horas, sem precisar explicar os mistérios da genética para 40 pré-adolescentes em chamas… Sem precisar de nada disso, tenha um dia de biólogo. Saia de casa, ouça o vento, os pássaros, os insetos, observe as nuvens, procure um curso d’água, deixe a chuva cair na sua cabeça, suje os pés e perceba que tudo isso está interligado, pois vida é interdependente e intradependente. Não existe vida em isolamento. Então, sem tudo isso o que está em volta, você não é porra nenhuma…

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
– Sem medo,
Sem remorsos,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
– Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova.

(Manuel Bandeira, em Lua Nova)

O discurso da maioria daqueles que vivem o sonho da licenciatura (e não estou usando tom pejorativo aqui) geralmente é o de educar para a transformação.

Somos ensinados a acreditar que se nos dedicarmos a educar, com o tempo isso irá resultar na emancipação intelectual de todo um povo, que passará a lutar pelo que realmente importa, fará efetiva sua participação nos espaços de construção democrática ou, de modo sucinto e direto, se tornará de fato cidadão.

Eis uma explosão de sinceridade: eu não acredito nisso.

Nos meus processos de educar, seja enquanto figura clássica do professor ou seja enquanto agente formador informal, eu não acredito nessa educação transformadora. O sistema financeiro em que estamos inseridos está muito bem treinado, adaptado e selecionado. De um modo semelhante à história natural das baratas que as tem feito indestrutíveis há centenas de milhões de anos.

Eu gosto das baratas, e já disse isso várias vezes, mas é difícil para um biólogo falar de qualquer coisa sem “enfiar” um exemplo vivo no assunto. As espécies generalistas são mais resistentes à extinção. E talvez por isso estamos aqui hoje vivendo insustentavelmente com 7 milhões de indivíduos, em sua maioria descartáveis.

E é assim com o que se chama “capitalismo”. Eu não gosto muito desse termo, pois pra mim o capitalismo deu origem a esse sistema (generalista e insustentável, porém resistente à extinção), mas ele já sofreu adaptações demais pra ser considerado aquela mesma coisa.

Para não parecer que mudei bruscamente de assunto, o que estou querendo dizer é que nosso sistema é resistente a nossas técnicas de transformação. E quem tem contato com a rede de ensino, pública ou privada, provavelmente entende o que estou dizendo. Educar para a transformação é como escalar uma cachoeira pelas gotas que caem. E qualquer um que se declare hoje um educador, está fadado a uma vida de opressões que vão de um salário miserável ao olhar de piedade das pessoas. Mas falar disso é chover no molhado.

Quando falo em educar para a catástrofe, estou querendo dizer que, como já ocorreu em nosso passado evolutivo, é muito provável que em breve nossa população comece a ser reduzida drasticamente. Evidentemente as mídias de massa não vão te dizer isso, pois é importante que você se sinta confortável para comprar, mas é fato científico.

O aquecimento atmosférico e oceânico, as mudanças de acidez da água, a esterilização dos mares, derretimento das geleiras, desertificação de florestas, tudo isso está caminhando mais rápido do que nossos melhores sistemas previram. Muito mais rápido. E quando encararmos a primeira grande crise energética, as mortes serão inevitáveis.

E seja lá quem for sobreviver, eu espero que tenha algo em mente para que não ocorra tudo de novo.

Por estranho que possa parecer, essa é minha perspectiva otimista. Não quero criar uma nação consciente e rebelde que se levantará contra o sistema e criará outro fadado ao fracasso. Quero investir o possível para que, caso alguém sobreviva, seja capaz de viver fora de um sistema.

Nossa espécie se tornou dependente de uma alegoria econômica que nos escraviza. E não será diferente com qualquer sistema econômico proposto, pois economia não existe (é outro mito da ultramodernidade, eu diria).

Essa desabafo caiu aqui de modo disforme, mas cheio de pretensões. Reflitam sobre isso e se possível opinem (sobretudo os educadores que me visitam eventualmente). É possível trabalharmos nessa perspectiva? Ou alguém acredita de verdade na educação para a transformação?

É muita pretensão querer dar uma resposta a essa pergunta. Mas pretensão é algo que transborda por minhas orelhas, então ouso me arriscar. Essa semana foi atípica. Estive doente, não fui às aulas, não encontrei muitas pessoas, não fui a festas, não participei dos habituais grupos de discussão.

E como cabeça vazia é morada do diabo, nosso senhor me trouxe mais um feixe de luz. Me coloquei a pensar. O dia das mães foi um pouco do ápice da história, e o fato de não conseguir dormir por mais de duas horas sem acordar com ânsia de vômito me impulsonou a escrever. Então esta postagem será também um vômito.

Se soar amargo, não confundam com qualquer experiência de tristeza ou trauma que eu possa ter tido relacionados à maternidade. É apenas o gosto de bile.

Não vou dar os parabéns. Não há nada de especial em ser mãe, da ótica biológica. Todas as fêmeas dos mamíferos possuem a experiência da maternidade de modo semelhante ao nosso em algum grau, e muitas outras espécies não mamíferas também. Essa figura mítica da mãe santa e virgem de Jesus Cristo é que estamos a aplaudir no dia de hoje. Pior ainda, com sentimentos travestidos que poderiam ser expressos a qualquer outro momento, mas “hoje, mamãe, eu me lembrei de você”… Há anos que eu não compro ou faço mais presentes no dia das mães. Não pela ausência de uma, mas pela falta de sentido no hábito.

Isso é porque, entre outros fatores anti-cristãos da minha indivudualidade, há algo nessa história que me irrita profundamente: a supervalorização da família. A família vista como célula fundamental da espécie. Um erro grotesco que tem nos afastado radicalmente do conceito de espécie, e da nossa própria natureza.

É difícil definir espécie. A própria biologia não conseguiu ainda. O que temos são as chamadas “ontodefinições”, ou seja, definições que dependem de outras definições para estarem corretas (se estiverem também corretas as demais definições em que se apoiam). Um jogo de palavras conveniente para que não se despenque toda uma ciência. Justo e prático.

Mas o que vou dizer hoje talvez seja rasgar prematuramente um diploma que sequer tenho em mãos. Um aborto profissional, se assim preferirem. Não que seja grande impasse – sem dramas ou martirizações.

A “célula fundamental da espécie” não é a família, tampouco um casal com filhos. Sequer é o casal. Esta unidade básica é tão somente o indivíduo. E entre ele e o conceito de espécie (o todo) não há grau intermediário. Há apenas uma mentira covarde que nos divide em famílias, tribos, castas, núcleos sociais e essa patifaria toda.

Mentira porque esses grupos são virtuais. Podem ser montados e desmontados, alterados e desfigurados. São transitórios, temporários. Intercruzam-se, se quiserem. O isolamento é psicológico. E covarde porque esse hábito surge do medo de termos a rolar pelo chão nossas próprias cabecinhas – à espécie, irrelevates.

E a má interpetação de um egoísmo genético vem a reforçar essa babaquice. Quando uma alegoria cristã ganha o respaldo científico (quase sempre, ao menos aqui no ocidente), a coisa fica mais grave. A diversidade genética é um dos bens mais fundamentais para a segurança de uma espécie. Isso significa que seu “DNAzinho” tem valor inestimável.

Mas apenas quando se mistura.

Mais importante, a evolução não ocorre apenas no nível da transmissão biológica de caracteres. A seleção natural também age sobre hábitos e comportamentos aprendidos, transmitidos culturalmente. E essa pluralidade a ciência ainda reluta em reconhecer como fundamental à espécie. E eu entendo as razões. Não podemos provar isso empiricamente.

Portanto, deste parágrafo em diante, abandono o jargão biológico, dispo-me do jaleco e caio no que, anos atrás, eu chamaria de um discursinho pedante.

Para o ser humano, o conceito de espécie vai um pouco além do que as ontodefinições têm conseguido trazer. Para entendermos o que é a espécie humana eu recomendo a concepção oriental de “olhar pra dentro”. “Metafísica”, diriam. Alguns chamam de escutar o coração, outros chamam de espírito. Eu humildemente chamo de intuição, algo do que há de melhor em nossos instintos.

O pedido de hoje é que, por um dia, no lugar de valorizar um útero como célula geradora do seu universo, pensem em si próprios como células de um organismo que é muito imenso, de um tamanho do qual nenhum de nós tem, hoje, consciência plena. E peço que dêem um singelo adeus ao útero que foi nosso ponto de partida, mas para o qual não devemos tentar retornar.

E quando os economistas dizem que “a história acabou”, que a revolução industrial e o capitalismo trouxeram nossa jornada a um platô, é disso que estão falando: uma grade nação mongolóide que cava diariamente o caminho de volta ao útero.

A maternidade é algo lindo, até invejável. E para esse tipo de descrição, gosto das mais antigas: é mágica.

Mas apenas enquanto o útero é uma porta de saída, não uma jaula.

E que isso (esse escarro libertário) valha pra mães e filhos.

É estranho como mesmo em fases boas da vida temos aquele momento em que as coisas soam sem muita graça. Não todas as coisas, mas algumas coisas. Especificamente, hoje minha falta de perspectiva está relacionada ao mundo do trabalho.

Infelizmente, pra nós não faz sentido pensar o trabalho fora do organismo capitalista. E para aqueles de bom coração que não conseguem ser felizes no capitalismo, o trabalho é sempre uma coisa triste. Tem seus altos, seus ganhos, proveitos, aprendizados e até pequenas realizações. Mas é impossível obter satisfação.

A começar pelo fato de que somos, geralmente, mal pagos. Você que tem um bom salário, meus parabéns, mas saiba que bons salários em nosso sistema existem às custas de muitos baixos salários. E isso ja bastaria para que eu estivesse sempre insatisfeito.

E ainda que não bastasse, entra a questão da perspectiva de ascenção, e as diferenças de salário. Definir o quanto uma pessoa trabalha a mais ou o quanto o trabalho dela é mais importate, ao menos à minha humilde mente, é algo inconcebível, com exceção, talvez, de alguns extremos.

Se o trabalho é uma função social, existe lógica em qualquer carreira “privada”? Todo e qualquer trabalho, numa sociedade, para uma sociedade, é ou ao menos deveria ser considerado uma carreira pública.

Nesta semana, resolvi xeretar o tal do Linux (o Ubuntu, no caso). Para mim, a idéia sempre soou maravilhosa e interessante, admirável em diversos aspectos, mas eu nunca tinha tido a coragem de perder a segurança que tenho com o Windows. E não tive ainda. Na verdade estava trabalhando no computador do meu namorado, tentando trocar uma versão recente do Windows para uma mais antiga e resolvemos tentar a experiência (já que a partir da versão Vista o Windows tem um poderoso sistema de “não me tire daqui”, e quem já tentou seguramente sofreu com isso).

Qual foi o meu espanto? Ao contrário do que eu imaginava, o Ubuntu não é incapaz de fazer a maioria das coisas que o Windows faz. Eu é que era incapaz de fazê-las no Ubuntu. Ainda sou um pouco, mas isso está mudando aos poucos. Não me julgo, ainda, em condições de fazer comparações de desempenho e funcionalidade. Mas me arrisco a fazer uma análise de outra natureza.

Quando queremos um Windows, temos duas opções: Pagar uma fortuna (sim, é um preço absurdo) ou apelar para a ilegalidade. Não que eu seja avesso à ilegalidade, mas a questão aqui é outra. Cedo ou tarde, temos problemas. Seja com atualizações, com versões, com restrições, com amolações ou com a própria consciência. A ilegalidade seria mais justificável se não houvessem alternativas, mas há.

O Ubuntu, Sucintamente, pelo próprio projeto:

“Ubuntu é um sistema operacional baseado em Linux desenvolvido pela comunidade”

  • O Ubuntu sempre será gratuito, e não cobrará adicionais por uma “versão enterprise” ou atualizações de segurança. Nosso melhor trabalho está disponível para todos sob as mesmas condições.
  • Uma nova versão do Ubuntu é lançada periodicamente a cada seis meses. Cada nova versão possui suporte completo, incluindo atualizações de segurança pela Canonical por pelo menos 18 meses, tudo isto gratuitamente.
  • O Ubuntu possui a melhor infraestrutura de tradução e acessibilidade que a comunidade do Software Livre tem a oferecer, tornando o Ubuntu usável por tantas pessoas quanto for possível.
  • O CD do Ubuntu possui apenas Software Livre, nós encorajamos você a usar software de código aberto, melhorá-lo e distribui-lo.

“Ubuntu é uma antiga palavra africana que significa algo como ‘Humanidade para os outros’ ou ainda ‘Sou o que sou pelo que nós somos’.”

É verdade que boa parte do conteúdo livre, nos dias de hoje, já não é tão livre assim. Mas saber que grupos, dentro ou fora de universidades, trabalham para que o mundo inteiro consiga avançar sem que alguém precise ficar rico com isso, me animou um pouco. Fiquei me perguntando por que todos nós, estudantes e/ou acadêmicos, não nos dedicamos a projetos semelhantes.

Por que, por exemplo, no lugar de tentarmos isolar genes da cana-de-açúcar e entregar isso nas mãos da empresa que financiou o projeto, não juntamos o pouco recurso que temos numa salinha simples e começamos a trabalhar de verdade por um mundo mais livre?

Eu não estou dizendo que seja fácil. Eu mesmo sofro com isso diariamente. As bolsas de fomento vindas do mercado ou das instituições que ele mantêm são sempre as mais gordinhas. E as bolsas de extensão funcionam como auxílio alimentício. Mas talvez baste ter o que comer.

Longe desse espírito decrepto de Páscoa, de um “menino santo” que morre por todos nós, não venho falar de sacrifício. Estou falando de trabalho. Carreira pública, seja ela onde for, mas posta em prática como pública, dentro do nosso possível. Um trabalho que você possa concluir e tornar acessível a qualquer um para aprimorar. Um trabalho que tenha aplicação social direta.

“Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, assegurada pelos outros, não sente intimidada que os outros sejam capazes e bons, para ele ou ela ter própria auto-confiança que vem do conhecimento que ele ou ela tem o seu próprio lugar no grande todo.” — Arcebispo Desmond Tutu em Nenhum Futuro Sem Perdão (No Future Without Forgiveness).

Toda a ciência deveria ser guiada por esse princípio. Todo o trabalho deveria ser guiado por esse princípio.

Eu não quero trabalhar por mim. Nem sou capaz. E se por um lado isso traz a frustração de não conseguir ter um plano de carreira ou projeto de vida dentro de nosso sistema financeiro, por outro me faz crer num plano de carreira para a humanidade como um todo. É assim que funciona com as espécies na natureza. Não é uma batalha de indivíduos, é uma batalha de grupos. Nosso ego imbecil, um dos “bagaços” que trazemos carregados em nossa história evolutiva, é que nos faz pensar que somos indivíduos especiais. E ainda tem gente que considera isso uma bênção…

Pois bem, que seja. Se o mais louvável dos filhos do deus cristão, dessa perspectiva, abdicou do próprio plano de carreira para que todos pudessem ter alguma melhoria em suas próprias, por que nossa sociedade, extraoficialmente cristã, não adota a prática?

Altruísmo sempre foi vantajoso no processo de seleção natural, ainda que más interpretações de Dawkins (até por ele próprio) tenham feito parecer que não.

Mas eu já escrevi demais, não queria contagiar ninguém com meu cansaço…

Ano passado adotamos uma gatinha aqui em casa, a Oprah. No fim do ano, ela teve a primeira cria: 4 filhotes. Comentei desse processo aqui. Quando voltei para Rio Claro com ela e os filhotes, poucos dias depois encontramos uma ninhada abandonada, com mais 5 gatinhos que estavam um pouco judiados (os bigodes queimados e alguns machucados). Eles acabaram vindo pra cá também.

Essa história, bem resumida, vai servir pra falar um pouco de nós, seres humanos. Animais, mamíferos, lactantes, peludinhos e de sangue quente, assim como os gatos.

Depois de alguns dias de desentendimento, a Oprah “adotou” os novos filhotes. Permitiu que eles mamassem como os outros, limpava eles como limpava os seus próprios, favorecia eles na hora de se alimentar, como se fosse realmente mãe. Por que os animais fazem isso? É difícil dizer. Eles se reconhecem inicialmente por cheiro. E durante uns dois ou três dias, ela até bateu em alguns. Os filhotes dela também não se entendiam muito com os novos filhotes (que eram um pouco menores). Mas em menos de uma semana, tratavam-se como do mesmo sangue.

Gatos têm personalidade bastante forte, gostos definidos, preferências por ambientes. E tendo 10 aqui em casa (a Oprah, os 4 filhotes dela e mais 5 da cria abandonada), isso ficou mais evidente do que sempre foi. Meu espírito de cientista não me permite não observar essas sutilezas.

Mugetsu é o nome do único macho da primeira cria. Ele cresceu mais rápido e é nitidamente maior e mais forte. Desses 4, também sempre foi o mais agitado. Talvez por ser macho (gatas costumam ser mais calmas). Ele sempre cuidou dos mais novos. Quando algum dos gatos se isolava, ele sempre tentava brincar; quando algum deles estava dormindo separado dos demais, ele tentava se aproximar. Quando percebia que algum dos menores estava com os olhos sujos, ele também limpava. E mesmo sendo grande e forte, sempre cobra atenção. E chora como um bebezinho quando se sente de lado.

As duas fêmeas brancas se chamam Blanca e Yuki. A Blanca já está na casa de uma amiga. Era a mais mal-humoradinha. Já a Yuki tem postura de matriarca. Vigia os outros gatos enquanto brincam, separa brigas, e costuma ficar mais em volta da brincadeira que dentro, como a mãe faz.

A menorzinha deles, Catatau, não acompanhou os outros no crescimento. Na última semana, dava pra ver que ela estava ainda menor que os gatos da segunda cria. A Catatau desde muito cedo era bastante inclusa. Não brincava muito, gostava de dormir sozinha e frequentemente ficava parada em locais aleatórios, como o meio da cozinha, por horas. A mãe tratava ela com um pouco de diferença. Quem ficava mais em volta dela era o Mugie (o maior).

Da segunda cria, o Frajola está morando com a Blanca, e o outro gatinho malhado que saiu ainda antes de ter nome também está na casa de uma amiga. Twix é o único macho que ficou dessa cria. É muito inquieto, me acorda com mordidas nos pés quando quer atenção, escala as pessoas com as garras, e não fica parado por 5 minutos. Mas é o mais carente de atenção, mia sempre pra chamar as pesoas, e faz um escândalo absurdo pra tomar remédios.

Totoro e Shoshanna são as mais delicadas. Têm postura de caçulinhas, ficam esperando agrados, raramente se irritam, e gostam de deitar perto da gente quando estamos deitados ou no sofá. A Shoshanna especialmente gosta de deitar no pescoço e no ombro das pessoas. E a Totoro é o típico gato de propaganda, com pelo macio, brilhante, toda cinza com as patinhas brancas e cara de “me ame, me alimente, numa me deixe”.

Até aqui pode ter parecido que estou apenas falando dos meus gatos. Mas eis o primeiro erro: tratá-los como meus. Os gatos que moraram ou moram comigo, trato todos como amigos ou irmãos, que ocupam uma mesma casa. Desenvolvo um tipo de relacionamento com cada um, tenho modos diferentes de tratá-los, assim com é com meus amigos, de fato. E é assim que eles me tratam também, na maior parte do tempo.

Hoje aconteceu uma coisa um pouco triste. Perdemos a pequena, Catatau. Ontem ela apresentou reação a uma superdosagem de vermífugo (tomem MUITO cuidado na escolha de seus veterinários!), e como eu já tinha acompanhado isso com outros filhotes, já esperava o pior. Durante a madrugada, ela foi perdendo um pouco a reação, e parou de comer e brincar. Só ficava parada e respirava mal. Tentei fazê-la comer ou ingerir leite, mas com pouco sucesso. Deixei ela no meu colo o tempo que consegui, pra mantê-la quente. O Mugie ficava em volta o tempo todo, lambia ela constantemente e deitava do lado. Ele sabia que ela não estava bem.

Próximo das 6 da manhã, ela desceu do meu colo e se deitou no sofá. Os outros gatos, todos, se deitaram em volta dela.Quando percebi que estaria quentinha, fui dormir. Acordei as 11 da manhã com um dos amigos que mora comigo me chamando. Ele me despertou de um pesadelo onde eu conversava com a menina que seria a futura dona da Catatau e explicava pra ela que a gata não iria mais com ela. Enquanto eu sonhava com isso, a pequena estava dando o último suspiro.

Ainda não consegui enterrá-la, pois só terei acesso às ferramentas amanhã. Mas vou fazer. O curioso foi o que aconteceu hoje. E que na verdade é a parte importante deste relato, mas que só faz sentido após dizer tudo isso.

Eu tenho uma relação com a morte muito particular. Eu não costumo chorar, nem lamentar. Talvez por ter perdido pessoas muito próximas e importantes, eu tenha entendido que faz parte da vida. Embrulhei a gatinha com naturalidade de modo que ficase protegida até amanhã e guardei numa caixinha. E depois de algumas horas, essa casa se tranformou num inferno psicológico que me faria refletir sobre minha própria condição…

Passei o dia sozinho, e ainda estou. Entre 3 da tarde umas 10 da noite, a Oprah miava sem parar procurando a filhote. E os outros gatos estavam mais carente que o normal, miando muito e indo atrás de mim onde eu fosse. O Mugie especialmente chorou bastante. Saía sozinho para o quintal e miava, miava pelos cômodos da casa. O Twix não podia me perder de vista e começava a miar de medo. E a Yuki, embora quieta como de costume, ficou perto de mim o dia todo, fosse no meu colo ou sentada do lado. Me transmitindo uma tranquilidade que, não fosse por ela, talvez estivesse eu miando também pelo quintal.

Mais ou menos meia hora atrás, esses miados todos me comoveram. E eu já não entendia mais como eu podia estar tão indiferente a tudo isso. Sentei no chão e comecei a chorar. Em minutos, estavam todos em volta de mim, com um miadinho choroso que eu não estava acostumado a ouvir. E ali ficamos chorando por um tempinho. Menos a Yuki, que ficou no meu colo quieta, transmitindo calma de um jeito que só gatos fazem (às vezes eu acho que aprendi com eles). E a Oprah, que estava sozinha miando no quintal.

E passou. Agora estamos num silêncio confortante.

Para alguns de vocês isso pode ter sido apenas minha leitura ingênua. Eu humanizando as relações dos gatos.

Mas a ingenuidade, saibam, está em vocês.

Eu não humanizo estes gatos. Eles é que me animalizam.

Nessas criautras que tantas vezes julgamos sujas, traiçoeiras, fedidas, ou nos piores casos dizemos ter “parte com o demônio”… Nessas criaturas há muito mais de solidariedade do que jamais haverá em nós.

Eu nunca chorei num velório. Mas hoje abri uma exceção, por eles.