Sobre sonhos de infância e carimbos sociais

Publicado: terça-feira, 15 julho - 2014 em Ciência, Cultura, Filosofia, Literatura
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Faz várias luas que não escrevo nada aqui, mas me deu vontade de escrever, e prefiro que seja aqui mesmo. De repente eu reanimo esse espaço.

Quando eu era criança, lá pelos 5 anos, eu queria ser “cientista maluco”. Na minha cabeça, isso era uma profissão. Eu ficava brincando com os produtos de limpeza, tinta, óleo, vinagre, tudo em potinhos de iogurte que ficavam vazios. A escada do quintal era meu laboratório, cada degrau uma prateleira cheia de “experiências”, invenções que sempre que eu acreditava terem funcionado corria pra mostrar pra minha avó. Observava as formigas e, não me orgulho disso, enchia os formigueiros com água da mangueira, ou perseguia elas com uma lupa. Não era bem crueldade, mas uma sensibilidade que ainda não tinha se desenvolvido. Quando escurecia eu ficava olhando o céu e pensando o que havia naquelas estrelas, se tinha alguém olhando de volta, se as pessoas que morriam iam pra alguma delas, ou várias. E nas minhas orações eu pedia pra que Deus me desse uma nave espacial. Depois corria pra olhar pela janela e ela nunca estava lá. Às vezes eu sonhava com essas viagens, grandes laboratórios, monstros que eu fazia sem querer e corriam atrás de mim. E quando ia pra chácara com meus avós eu perguntava tudo. Queria saber o nome das plantas, porque algumas davam fruta e outras não, enfim… Eu enchia o saco de qualquer adulto com essas perguntas. Há quem diga que eu fui uma criança esquista, mas acredito que eu era bem saudável.

Cresci. Meu sonho passou a ser escritor. Adolescente ainda eu ensaiava livros, escrevia dezenas de páginas, depois achava ruim e apagava tudo. Tentei fazer quadrinhos, também não gostava e jogava fora. Poesias que depois de uns meses me cansavam e eu queimava. Uma porção de coisas que fisicamente se perdeu, mas de que eu ainda me lembro razoavelmente bem.

Nunca publiquei um livro, nem consegui me formar num curso de biologia que já se arrasta por vários anos. Não por falta de capacidade, mas de conformidade. Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido. E assim como livros largados pela metade, já se foram alguns TCCs e algumas disciplinas. Vou trabalhando como dá, numa luta por independência que também não se completou e eu nem sei quando vai se completar.

Mas o ponto aqui não é a conclusão de nada. Estava no quintal olhando para o céu noturno, da mesma forma como fazia aos cinco anos, e pensando muitas coisas que eu já pensava naquela época.

A ciência que eu faço, assim como a escrita que eu faço, raramente me dá dinheiro. Mas elas me dão prazer, e eu sinto que elas contribuem para alguém. Quando eu decidi ser articulista voluntário sem assinatura, produzindo para livre distribuição, não foi por falta de opção, mas por convicção. E eu não ganho atualmente nenhum centavo de editoras e direitos autorais (como a maioria dos escritores…), mas, puta merda, como eu escrevo! E felizmente eu consigo atingir muitas pessoas, interagir com elas, ensinar e aprender, emancipar.

Não vai ser um pedaço de papel ou um carimbo social que determinarão quem eu sou ou o que eu faço. Se eu faço ciência, sou cientista. Se eu escrevo, sou escritor. E seu julgamento sobre isso honestamente não me interessa. Me interessa investigar e escrever, obrigado.

E esse, como vários outros textos, não tem a pretensão de convencer ninguém de nada, nem de me afirmar para um grupo ou buscar legitimação. É apenas mais uma daquelas coisas que a gente faz só pra que outras pessoas saibam que não estão sozinhas, para que outras saibam que existem outros caminhos, e tantos outros além do tradicional e do meu.

Faço isso porque essas coisas, essas que as pessoas fazem pra que a gente saiba que não está sozinho, sempre foram muito importantes pra mim. Pra eu saber que não estou sozinho.

Vai ver essa é a concepção moderna de uma comunidade anarquista. Eu ainda vou precisar batalhar, e muito, pra sobreviver num sistema de merda. Mas o que eu puder fazer pra encurtar o tempo de vida desse sistema, vou fazer.

Aos anarcos, piratas, esquerdinhas, anônimos e libertários do meu convívio, meu sincero agradecimento. Somos um.

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comentários
  1. Toni Porsche disse:

    Tenha certeza de que vc não está sozinho. Se pudesse, lhe pediria para não largar os “livros pela metade”, talvez você não se satisfaça com os finais, mas o aprendizado está muito mais na caminhada do que na chegada.

  2. Edson Bueno de Camargo disse:

    O importante é manter a mente inquieta. Parar é pior que morrer.

  3. Ney Araujo disse:

    Factual e ficcional a história do blog André Estevam? Gostei demais e identifiquei muitos pontos em comum com o garoto descrito no primeiro capitulo deste texto.

    Percebi que o garoto sonhador e cientista, desiludiu-se… dos sonhos de futuro, das ciências e tecnologia espacial. Sua sede de conhecimento esvaiu-se em algo mais palpável, a escrita. Falta de incentivo ao realidade batendo a porta? Qualquer que seja a resposta, saiba que ambos ainda existem dentro de você e a fusão destes dois garotos que conheci hoje, ainda pode trazer algo surpreendente em sua vida…

    Já pensou em escrever sobre ficção cientifica fundindo assim o garoto sonhador e cientista, com o escritor, destemido e idealista?

    Como você mesmo disse:

    “Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido”.

    A não conformidade do ‘escritor destemido’, voraz incentivador de nobres causas, que visivelmente não desiste de nada, me faz refletir em qual momento o garoto cientista se perdeu e ficou emudecido em suas tantas perguntas aos adultos… Será que este brilhante resgate não seria conveniente, agora que sabes como lutar e por quem lutar??

    Torço pelo reencontro destes dois seres que almejavam o conhecimento de formas tão distintas, mais que tinham a nobreza das convicções como único pilar que alicerçava este caminho.

    A grande mudança necessária a este reencontro está obvia neste contexto…

    Desistir?? Porque?? Por quem??
    Vale a pena recomeçar e seguir um outro caminho toda vez que algum obstáculo é colocado?

    Talvez para sobrepujar os obstáculos adjacentes que surgem, precisaremos uma dose extra de perícia e atitude… Ainda bem que é somente isto que nos falta, pois o resto, nós já temos.

    Grande Abraço!!

    Ney Araujo

  4. Melissa disse:

    Me identifiquei muito , adorei e sorri muito. Delícia de texto.

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