Arrumando a bagunça

Publicado: quarta-feira, 26 abril - 2017 em Uncategorized

Estou deixando esse blog fechado por um tempo. Há muito material aqui com que já não me identifico, mas há coisas boas também que pretendo aproveitar numa outra plataforma.

Quando eu decidir pra onde eu vou e o que levo, aviso aqui e fecho a casa de vez.

Pode ser que muitos textos daqui sumam porque eu vou ocultar tudo o que achar ruim. E vai ser bastante coisa.

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Este é o primeiro guest post que eu coloco no blog. E espero que venham outros. Em outra ocasião eu divago sobre isso. O texto a seguir é do Lucas Vitorino, um compa que eu esbarrei por aí sem querer e que me deu novas noções de respeito. E que vai ter as portas do blog abertas pra escrever sempre que quiser.

maenegraUma heroína me salvou dessa droga de vida.

Em meio aos prantos, quieto, um pouco mais confortável e mais feliz em relação ao passado, mais precisamente quando tinha entre 7 e 10 anos, eu escrevo algo que provavelmente provém de toda energia das matrizes matriarcais africanas.

Homens cis héteros quando crescem tendem a relacionar seu pai como a sua primeira figura de inspiração e de representatividade, mas no terceiro mundo, no abismo periférico, o cenário muda um pouco:

Filho de mãe negra agredida sua vida toda por um homem branco, alguém já viu esse filme antes? Eu já! E ele era uma reprise constante em meio a uma rotina massante que era viver na favela.

Que figura heroica era essa? Que agredia, que silenciava? Que figura heroica era essa que tinha sede por sangue, que transpirava raiva e inspirava uma falta de humanização tremenda? Eu não sei. Eu estava confuso. Eu não tinha nenhuma referência de herói paterna internalizada em mim, minha heroína mesmo foi quem me abraçava em meio aos prantos para me confortar e dizer que estava tudo bem, apesar de serem visível os hematomas no seu corpo e em sua alma. Minha heroína mesmo foi quem fez bonecas Abayomis de felicidade com o pouco de força e de racionalidade que lhe restava, a verdadeira provedora foi que me trouxe afeto, carinho, foi quem me trouxe barcos de esperança em meio a um mar vazio de dores e de angústias, foi quem desde cedo olhava em meus olhos e dizia:

“Por favor, não seja assim. Você pode ser diferente, eu acredito em você.”

Pessoas heroínas estão por aí, são invisibilizadas, mas isso não significa que elas não existam. Pessoas heroínas estão por ai, tentando serem vistas e ouvidas. Pessoas heroínas, que são consideradas como uma droga para essa sociedade opressora, estão por ai gritando a todos os cantos:

“Parem de falar de amor, dos bons costumes, da família tradicional. Vocês são mesquinhos, egoístas, soberbos, já estão mortos. Pois quem segrega, morre. Quem invisibiliza, morre. E é totalmente incompreensível falar de amor e a preservação do mesmo, já que você é aquele que mata, já que você é aquele que agride.”

Pessoas heroínas estão por aí,vestindo suas mascaras como disfarce de sua verdadeira identidade para tentar sobreviver.

Pessoas heroínas estão por aí, resistindo, sangrando, mas ainda assim caminhando.

Pessoas heroínas, dentre elas, minha mãe! Que me subverteu, me reeducou, me trouxe para o outro lado da trincheira, o lado real da dor, dos oprimidos, de quem realmente sofre e de quem realmente merece ser reconhecido e proclamado como pessoa heroína. E foi assim:

Com toda sua ginga, me ensinou que tenho que me movimentar contra qualquer tipo de opressão.

Com sua capoeira, me ensinou que eu preciso lutar, dia após dia, incansavelmente….

Com sua mandinga, me subverteu, fez o impossível, o audacioso, me colocou como contra ponto rebelde e caótico ao mundo dos opressores.

Com sua coroa de raiz nagô, me lembrou da importância de saber que sim, que nossa história é linda, que preciso olhar sempre pra trás para poder seguir em frente, que preciso ouvir, principalmente, quem era pra estar usando a mesma coroa e não colecionando cicatrizes.

Pessoas heroínas são aquelas esquecidas, marginalizadas, oprimidas e que ainda sim, trilham e compõe uma história linda de resistência. Pessoas heroínas estão gritando nesse exato momento, um grito de existência, de persistência e de esperança.

Para o outro lado da trincheira, para quem promove guerras, sangue e carnificina; para quem oprime, para quem segrega, eu reforço os gritos dizendo:

Sim! Uma heroína me salvou dessa droga de vida.

O Lucas está desenvolvendo uma HQ junto com dois amigos baseada nesse texto. Vamos esperar enquanto eles desenvolvem. O trabalho é uma parceria dois amigos:

Matheus Pintor é estudante de História, escritor e desenhista nas horas vagas. Atualmente preso entre Rio-São Paulo, sendo confundido como mineiro em ambos os estados. Nunca foi pra Minas. E sim, é Pintor mesmo, tipo o de parede.

Ícaro Maciel é desenhista, quadrinista e acadêmico de design gráfico na ULBRA. A partir 1998 fez diversos cursos com Daniel HDR aperfeiçoando seu traço e já publicou na Revista TexBR, atualmente está produzindo uma HQ para a Revista do Peryc de Denilson Reis, com o qual tem colaborado, ilustrando fanzines como o Quadrante Sul. Participou de um projeto que envolve charges para uma promoção cultural do ENADE.

Esse post é bem doido e destoante. Eu fiz ele em função de uma discussão sobre esse assunto num fórum. Ele não traz respostas definitivas, apenas meus resultados sobre uns anos de pesquisa nesse assunto. Eu perdi muita coisa porque sou burro e não salvei, e várias páginas foram atualizadas. Mesmo assim falei algumas dessas coisas, deixando claro as que não podem mais ser comprovadas. Todo o resto, Google. Pra quem sabe usar, é a deep web dos preguiçosos. Mas como quase ninguém sabe usar, dei esse adianto aqui. Enjoy.

Olha, toda vez que esse assunto surgiu nesse grupo eu ignorei ou fui pelo caminho da zueira. Mas eu gostei de você. Lucky of you. Vou te dar umas perspectivas aqui e uns pontos de partida, daí vc é quem me diz o que pensa… [Eu mesmo]

 

SEM CONSPIRAÇÃO

O Verichip é um dispositivo RFID (radio-frequency identification), ou seja, que pode ser localizado e identificado através de frequência de rádio. É essa mesma tecnologia que o mantém funcionando (ele não tem baterias nem é carregado em tomadas, o próprio impulso eletromagnético ativa ele).

Dispositivos RFIDs já existem em abundância no mundo e o mercado atual já é parcialmente dependente deles, pra identificação e acompanhamento de cargas. Eles também têm aplicação médica atual para localização de crianças com necessidades especiais e idosos com doenças degenerativas. E também têm aplicação veterinária para localização de animais, além de aplicações em segurança para rastreamento de bens roubados.

A maioria das propostas de aplicação médica generalizada aponta para maior eficiência de pronto atendimento em emergências, porque se tem rapidamente acesso a histórico médico, alergias, tipo sanguíneo, doenças crônicas, etc. Contudo, algumas pesquisas já apontam para possibilidade de desenvolvimento de câncer, alergias e rejeição em camundongos. Quando esse resultado veio à tona pela FDA (Food and Drugs Association) as ações da VeriChip caíram em 40% e o assunto deu uma esfriada. Mesmo assim, o desenvolvimento de sarcomas (cancros/câncer) em roedores é muito mais frequente que em humanos para esse tipo de reação a implantes, mas ciência nesse mundo é mídia e geral ficou com medo (compreensível).

Essa é a origem da proposta do VeriChip. Mas daí tem um tanto de coisas que você gostaria de saber, eu acho…

 

COM PREOCUPAÇÃO

A VeriChip não atende mais por esse nome, e sim por PositiveID, subsidiária da Applied Digital Solutions (ADS). Quem começou a desenvolver essa tecnologia pra Verichip foi a Destron Fearing, uma empresa especializada em identificação animal. A principal linha de produção deles até então era com aquelas etiquetas que ficam na orelha principalmente de gado.

Verichip pra se tornar a PositiveID se fundiu com a Steel Vault Corp., especializada em computadores e hardware. A partir daí, se tornaram uma empresa especializada em biotecnologia.

É fundamental entender essa história, assim como é fundamental que as cabeças por trás dessas movimentações não são médicos, nem biólogos, nem engenheiros, mas sim especialistas em finanças, como é o caso do Richard Sullivan (ex-CEO da PositiveID, e ex-CEO da Digital Angel), atual membro da Global Digital Solutions (GDSI). Esse cara é responsável pela compra e aprimoramento de 42 grupos e atualmente trabalha com a GDSI em consultoria para negócios na área de… Segurança ;)

Nos relatórios de finanças da PositiveID (PSID) eles dizem que por serem uma empresa pequena, não precisam revelar seus financiadores. Isso é garantido por lei. Pela empresa, só dá pra saber que quem cuida disso é William Caragol (procure o perfil dele na Forbes e tire suas conclusões). O único financiador que eles foram obrigados a apresentar em relatório (a lei estadunidense protege corporações) é a VeriTeq. Quem é VeriTeq? O nome atual da Digital Angel.

Esses conglomerados se subdividem, mudam de nome, mas são basicamente o mesmo grupo, sob mesma gerência, e MUITO dinheiro, que fragmentado parece pouco. E baixos valores não precisam ser declarados publicamente. Saca?

O fundador da ADS é Jamie Sugar, que trabalhou antes na Dictaphone Corp. por 20 anos como diretor de soluções em segurança nacional para o governo federal dos EUA. Esses caras migram do setor público para o privado para fazer o mesmo trabalho com mais proteção de privacidade. E a partir desses conglomerados, os relatórios financeiros entram na categoria “Smaller reporting company”, que não obrigam uma série de declarações.

Bem-vindo ao mundo corporativo estadunidense e ao motivo de quase tudo que não presta buscar sede nos EUA.

Outro membro do conglomerado é a Blue Moon, especializada em tecnologias de energia, e mais tarde comprada pela PSID. Antes disso ela comprou uma boa parte da Digital Angel. Percebe a treta? O responsável por essas transações é Scott R. Silverman. No momento ele era chairman da IFTH, uma empresa especializada em aquisição de outras empresas. Mas sabe onde mais ele trabalhou? Na Steel Vault Corp, na VeriTeq e na PSID. Curioso, não?

Eu não consigo mais encontrar nos relatórios, mas nas versões antigas do site tinha rastros de negociação até com dinheiro da ADX (autoridade em prisões de segurança máxima). Os relatórios financeiros da PSID foram substituídos e todos datam de 2014. Provavelmente por uma mudança na legislação que os permitiu ocultar mais informações (que vão me dar um trabalho do cão pra conseguir de novo), mas havia mais umas três especializadas em segurança e homeland security (segurança nacional), vinculadas de alguma forma ao DHS (Department of Homeland Security), cuja missão é “garantir a segurança da nação [EUA] das muitas ameaças que enfrentamos”. Esse dado vai ficar de boa fé mesmo, não precisam acreditar porque não dá pra achar assim de boa na internet. Todo o resto que eu disse até agora é acessível pelo Google, pelas páginas oficiais das corporações, pela Forbes e nos relatórios financeiros (que estão nas páginas), além de fóruns de economia que acompanham essas transações e aparecem nos primeiros resultados do Google com uma busca simples.

Não vou me alongar muito nessa parte porque iria mudar de assunto, mas pra quem curte esse tipo de investigação, os secretários do DHS nos períodos que envolveram as negociações relativas à PSID são James Milton Loy (principalmente) e Michael Chertoff (pegou o fina das transações, e é um dos fundadores do Patriot ACT, que também vale a pena pesquisar, até mais que o Verichip). Gente boa, só que não. Ambos indicados pelo então presidente Bush. Agora voltando ao assunto.

 

COM ESPECULAÇÃO

Em linhas gerais, o Verichip (eu prefiro usar esse nome, mas já está claro que se trata de muitas corporações e pessoas envolvidas) se inicia com uma proposta médica-veterinária, mas desperta interesse de companhias de tecologia, energia e segurança, e principalmente do governo.

Ele chegou a ser testado em regiões mais conservadoras dos EUA durate a gestão Bush, mas a interferência negativa da FDA (cujas motivações eu ainda não entendi) atrasou o processo. Recentemente houve pressão sobre o Obama pra que ele voltasse a incorporar a ideia em seu projeto de saúde pública nos EUA, mas até agora sem apontamentos de que isso fosse dar resultados.

De lá pra cá, a principal especulação sobre o Verichip tem sido no setor comercial. Bancos e empresas de crédito têm flertado com a possibilidade de um “cartão” subcutâneo que facilitaria suas compras (e facilitaria mesmo) e é muito capaz que isso comecea ocorrer com ou sem consentimento do governo americano nos próximos anos.

O grande medo da maioria das pessoas (e meu também) é que se crie um sistema integrado de identificação, aproveitando a brecha que aparecer (seja médica ou financeira) para usar essa tecnologia para apresentar a “praticidade” de ter nesse chip seu RG, passaporte, etc.

Não é recente a literatura de ficção que aponta pra essa realidade. E num mundo onde você já pode ter sua face reconhecida por câmeras na rua e ser identificado num protesto, a presença desse tipo de chip poderia significar a possibilidade do seu rastreamento e localização por satélite em qualquer lugar do mundo com precisão de DOIS CENTÍMETROS. Louco. Essa é a tecnologia que já existe.

Há inúmeras razões pra ser contra esse tipo de medida, mas isso não vai acontecer do dia pra noite, porque não dá. Pra isso acontecer, eles vão precisar que as pessoas QUEIRAM isso. Bush chegou perto com a históra do terrorismo, mas ainda assim não deu. Por mais ignorante que seja o estadunidense médio (assim como o brasileiro) ainda existe uma cultura de liberdade, nem que seja da boca pra fora, que torna esse processo difícil. Eles vão atuar sobre essa cultura.

Ninguém vai forçar um chip no seu braço. Eles vão te fazer pedir por um chip no braço. E da mesma maneira que se criou emanda e dependência por telefonia celular e internet, vai se criar emanda e dependência para chips RFID. É questão de tempo.

 

SOBRE AS CONSPIRAÇÕES

Crença é crença. Não vou ficar aqui perdendo tempo dizendo se o anticristo vai voltar ou não, até porque não sou cristão. Mas é preciso deixar de lado as páginas da surface de fundo preto e acordar pra uma realidade: conspirações são uma arma REACIONÁRIA, não revolucionária.

A revolução se faz com fatos, não com medos. Quanto mais informação dispersa se tem sobre um assunto, mais difícil encontrar a verdade. E essas corporações e centros financeiros encontraram um grande escudo nessa galera que só sabe falar de Illuminatis e Chip da Besta. Não se esqueçam que os principais difusores dessas conspirações atuais são igrejas neopentecostais institucionalizadas, e que elas SEMPRE estiveram do lado do imperialismo global. Abandonem a inocência digital.

Ademais, um conspirador nunca faria o que eu fiz aqui. Obscurantistas ficam nessa de “eu sei de coisas que…”, “eu ouvi uma coisa que você não ouviu”, “eu conheci uma pessoa que me disse” e blablablabla… Posso ver meia dúzia deles se retorcendo enquanto leem isso aqui. Quero que o cu eles pegue fogo.

Comecem a pesquisar como gente grande. Investiguem a informação institucional antes de mais nada, e a partir dela procurem a mentira, não o contrário.

 

E COMO RESISTIR?

Não dá. Sorry.

A única maneira possível de resistir agora é destruir os EUA como centro financeiro internacional, mas dadas as perspectivas atuais, os BRICS se fortalecem, as corporações migram pra esse eixo e então as legislações russas e chinesas vão mudar pra protegê-las como ocorre nos EUA.

A gente só vai ganhar tempo, e ainda assim nem é muito. Quem tiver real preocupação nesse assunto é melhor que se prepare não pra como resistir, mas sim pra como fugir.

Queria terminar com final feliz, mas não vai rolar. É choque de realidade mesmo. Só a partir das palavras chave desse texto tem material suficiente pra cada um(a) correr atrás e tirar suas conclusões, como eu fiz, sem ninguém dar nada mastigadinho.

Não vou colocar todos os links por pura preguiça, porque escrever isso aqui já deu trabalho suficiente. É só usar o Google, vocês conseguem. E aprendam a falar/ler em inglês, pra ontem. Beijos.

Esse não é um texto só para anarquistas, porque explica muita coisa sobre eleições. Ele vai desagradar a quem tenta tratar esse assunto de uma maneira “8 ou 80”. Vejo essa pergunta surgir diariamente nos grupos anarquistas de que participo, então pra não ter de escrever noventa vezes a mesma coisa, resolvi escrever aqui. Tentarei trazer as informações necessárias para que você tire suas conclusões, a partir do que está aqui e das duas próprias convicções. Essa, como várias outras perguntas sobre a anarquia, não tem uma resposta pronta.

 

“Anarquista não vota”

Essa máxima é a mais comum, e me arrisco a dizer, a mais “senso comum” também. Ela tem uma razão de existir, mas não acredito que a grande maioria das pessoas vá além dessa afirmação rasa na hora de argumentar e tirar suas conclusões. Afinal, anarquistas podem votar? Bem, anarquistas podem fazer o que bem entenderem. No contexto da ação direta como prática, não há quem te possa dizer o que você não possa fazer, desde que você tenha uma boa explicação pra isso. A grande questão aqui é: existe uma boa justificativa pra que um anarquista vote? Às vezes sim, às vezes não. Pra saber se você tem esse bom motivo ou não, é preciso entender algumas coisas e colocar numa balança.

 

Votos nulos, brancos e ausências

Existe muita desinformação na internet a respeito desse assunto, e muita gente tentando ensinar o que não sabe. Até mesmo a legislação eleitoral é um pouco confusa, favorecendo interpretações distorcidas. Entre anarquistas, é muito comum que existam campanhas de votos nulos, mas isso não ocorre com o objetivo de anular as eleições, como alguns supõem. O que pode chamar uma nova eleição são uma quantidade superior a 50% de votos “anulados”, nesse caso, por um TRE/TSE. Quando um candidato é impugnado, por exemplo, seus votos são anulados, e se forem superiores a 50% do eleitorado, uma nova eleição poderá ser chamada em que este candidato não poderá participar novamente (porque foi impugnado), mas os outros vão. Pela lei, nenhuma ação do eleitorado (prevista em lei) cancela um processo eleitoral. Pra isso seria necessário comprometer o processo eleitoral (com fraudes, por exemplo), o que o voto nulo não faz.

Então pra que serve o voto nulo? Isso também pode variar de pessoa pra pessoa, mas em geral, é uma das possíveis declarações de insatisfação com o processo eleitoral. Para fins de registro, é preciso entender os três tipos de “não voto”, sendo eles:

Voto Branco: O voto branco é um “tanto faz”, para fins de declaração ideológica. Eles têm uma contagem própria, mas geralmente são apresentados em conjunto dos nulos pelas mídias (ex.: “8% de brancos e nulos”). Estatisticamente, eles penas reduzem a quantidade de votos válidos, ou seja, não são contabilizados para as porcentagens finais do processo eleitoral. Vou explicar isso com calma adiante.

Voto Nulo: O voto nulo é um “nenhum deles(as)”, para fins de declaração ideológica. Também é contado separadamente para fins de registro, mas não é contabilizado entre os votos válidos. Os votos nulos, assim como os brancos, não vão “pra quem tem mais”, como se afirma por aí, mas eles também alteram a matemática final das eleições.

Ausência: A ausência, ideologicamente, é um “esse sistema não me representa, independente dos candidatos”. Por isso, entre anarquistas tem crescido a campanha não apenas para anular, mas também para não votar. A ausência pode ser justificada em outra cidade. Se não for justificada, o eleitor deverá pagar uma multa de R$3,51 para cada turno em que esteve ausente e ficará em dia com a legislação eleitoral. Esse processo é rápido e pode ser resolvido em poucas horas, e você receberá uma certidão de quitação que tem a mesma validade de um comprovante de participação nas eleições para fins de concursos públicos, ingresso em universidades, etc. Elas também reduzem o total de votos válidos.

 

Antes da matemática, algumas questões filosóficas

Algumas pessoas têm planejado usar a lei da “escusa de consciência” para não terem a obrigação de votar. A escusa de consciência é um pedido de não obrigatoriedade individual para algo determinado a todos os cidadãos por lei, em função de crença religiosa, convicção filosófica, etc. Por processo, esse cidadão receberia uma outra obrigação ou prestação de serviço social equivalente, deixando de ter a obrigação que entra em choque com seus valores. Na prática, isso já existe, e é exatamente essa multa. Como seriam milhares de brasileiros alegando escusa de consciência, cria-se um sistema padronizado, em que aquele que não se sente bem em votar poderá contribuir com essa multa.

O grande problema é que essas multas vão para o fundo partidário. Então quando você não vota por ser contra o sistema eleitoral, mas paga a multa para não perder direitos sociais, na prática está sustentando o financiamento público de campanha. Durma com esse barulho.

Eu venho estudando a possibilidade de alegar escusa de consciência no pagamento da multa, exigindo uma outra obrigação que não me envolva no processo eleitoral da democracia representativa, ainda que indiretamente. Mas até agora nada conclusivo. Se alguma alma iluminada por aí tiver embasamento jurídico sobre esse assunto e puder acrescentar nos comentários, eu atualizo a publicação. Até lá, ficaremos com esse mistério. Mas fica aí a dica para quem quiser pesquisar também.

 

Matemática eleitoral sinistra da morte

Pois bem. Até agora estava tudo lindo, eram apenas questões de convicções políticas, morais e filosóficas, e parecia lógico que, nesses contextos, anarquistas não votassem. Essa seção do texto atende ao propósito de mostrar um outro lado, onde a estratégia de cada um poderá levar a atitudes que, superficialmente, são contraditórias, mas radicalmente são válidas, legítimas e até mais plausíveis do que a negação do voto.

Como já dito, votos brancos, nulos e ausências, para fins de contagem final os votos, têm a mesma função, independente da proposta ideológica. Eles diminuem a quantidade total de votos válidos. Isso é um problema? Você é quem me diz… Veja:

 

– Eleições diretas para cargos de uma cadeira só (ex.: governador, presidente, prefeito)

Nesse tipo de processo eleitoral, o que conta é quem tiver a maior quantidade de votos na contagem absoluta. Caso essa contagem supere 50% dos voto válidos já no primeiro turno, não ocorre segundo turno. Vamos entender o tamanho dessa treta numa eleição hipotética, com números simplificados pra ficar mais claro:

SITUAÇÃO: 4 candidatos (PA, PB, PC, PD); 100 eleitores; 1 cadeira. Veja dois possíveis cenários:

1º Resultado das  eleições: PA 41 votos (41%), PB 35 votos (35%), PC 15 votos (15%), PD 9 votos (9%). Essas eleições vão para segundo turno, porque o candidato mais votado não superou 50% dos votos válidos.

2º Resultado das eleições: PA 41 votos (41%), PB 28 votos (28%), PC 8 votos (8%), PD 3 votos (3%), Brancos 7 (7%), Nulos 9 (9%), Ausências 4 (4%). Para calcular o resultado dessas eleições, primeiro retiramos os votos que não são válidos (brancos+nulos+ausências= 20 votos). Assim, o total de votos válidos passa a ser 80, e as porcentagens serão recalculadas em função desse total. O resultado final fica assim: PA 41 votos (51,2%), PB 28 votos (35%), PC 8 votos (10%), PD 3 votos (3,7%). O candidato do PA ganhou as eleições no primeiro turno com a mesma quantidade de votos.

Num eventual segundo turno, como só há 2 candidatos ganha quem tiver mais votos. Os votos não válidos só vão aumentar essa diferença proporcionalmente, mas não vão alterar significativamente os resultados. Mas num primeiro turno, uma quantidade alta de votos não válidos poderá acelerar a definição do processo eleitoral.

 

– Eleições diretas para cargos de múltiplas cadeiras, com distribuição por proporcionalidade (ex.: deputados e vereadores)

Esse caso é um pouco mais complexo, então tentarei simplificar. Após as eleições as cadeiras disponíveis serão distribuídas entre os partidos e/ou coligações conforme a proporção de votos. Se um partido tiver 50% dos votos para deputado, metade das cadeiras da câmara é desse partido. Nas eleições para deputados e vereadores, não ganham necessariamente os mais votados. Primeiro se distribui proporcionalmente as cadeiras aos partidos/coligações, e aí elas são preenchidas pelos mais votados dentro desses partidos/coligações. Se o PA consegue 3 cadeiras e p PB consegue 1 cadeira, mesmo que o segundo mais votado do PB tenha mais votos que o terceiro mais votado do PA, ele não vai entrar. Vamos colocar exemplos, novamente:

SITUAÇÃO: 3 partidos e uma coligação (PA, PB, PC e CO, esta última incluindo PD e PE); 100 eleitores; 20 cadeiras.

1º resultado das eleições: PA 40 votos (40% = 8 cadeiras), PB 30 votos (30% = 6 cadeiras), PC 20 votos (20% = 4 cadeiras), CO 10 votos (10% = 2 cadeiras). Ou seja, entram aí os 8 mais votados do PA, 6 mais votados do PB, 4 mais votados do PC e os 2 mais votados entre PD e PE. Mesmo se o 5º mais votado do PB tiver mais votos que o 8º mais votado do PA, ele não entra, porque primeiro são distribuídas as cadeiras (vagas). Agora veja a treta…

2º resultado das eleições: PA 40 votos (40%), PB 20 votos (20%), PC 15 votos (15%), CO 5 votos (5%), Brancos 4 (4%), Nulos 10 (10%) e Ausências 6 (6%). Os votos válidos contabilizam 80. Dessa forma, temos PA (50% = 10 cadeiras), PB (25% = 5 cadeiras), PC (18,7% = 4 cadeiras), CO (6,2% = 1 cadeira).  Com a mesma quantidade dos votos, o PA tem metade da câmara, e praticamente qualquer decisão nas mãos. Além disso, com a mesma quantidade de votos, o PA conseguiu colocar mais duas pessoas lá dentro, só porque houve uma quantidade expressiva de votos não válidos.

 

Tá, mas e aí?

De maneira mais objetiva, votos inválidos não vão pra quem tem mais, mas aumentam as proporcionalidades e as diferenças entre proporções. Embora eles não sejam contados pra ninguém, a diminuição do total favorece os mais votados, podendo acelerar uma eleição para que um favorito ganhe no primeiro turno ou ampliar a quantidade de cadeiras ocupada pelos partidos/coligações mais votados nas eleições.

Por que eu decidi congelar os valores dos partidos mais votados e reduzir os menores para acrescentar os não válidos? Porque na prática, costuma ser assim. O eleitorado dos grandes partidos ou candidatos “pop” é fiel. Essas pessoas não pensam muito pra votar, elas são “petistas” ou “tucanas” ou ainda “malufistas”, e têm seus cérebros congelados há 20 anos. Quem passa por esse processo de questionamento são as mesmas pessoas que considerariam votar em partidos menores, que são menores justamente por apresentarem propostas de transformações mais radicais ou valorizam setores da sociedade historicamente oprimidos.

 

Ou seja, eu tenho que votar?

Não, em absoluto. O objetivo desse texto não é te convencer a votar. Eu mesmo, das 10 eleições de que já participei, só votei em duas. A primeira por pura ingenuidade e numa outra específica vez em que eu acreditei que um candidato merecia mais visibilidade para o que estava dizendo, e que se ele fosse eleito eu teria muito mais condições de lutar pela construção da anarquia. Esse candidato era o Plínio, naquele momento no PSOL, concorrendo à presidência. Fiz isso não porque ele me representava dentro do contexto da democracia representativa. Eu não acredito nisso. Mas eu conhecia a história dele. Eu tive a oportunidade de o encontrar pessoalmente duas vezes, de fazer perguntas, e ele mantinha uma plataforma de comunicação aberta na internet. Eu julguei que valia a pena, por vários motivos, e votei. Ele não ganhou e já não está mais entre nós, mas eu não me arrependo. Aquele voto foi tático. Eu queria alguém na televisão falando sobre reforma agrária de verdade, falando em atacar banqueiros, falando em negar a dívida externa. Queria alguém falando que colocaria impostos sobre grandes fortunas e que retiraria, de fato, de quem mais, de riquezas ilegítimas e absurdas (se você é um liberalista e vai comentar apenas pra defender grandes fortunas me faça um favor e não perca seu tempo, eu só estou explicando meu contexto de decisão).

Então a pergunta que eu te faço é: Seu voto é tático? Ou: Sua anulação de voto é tática?

Um anarquista pode até mesmo se candidatar se isso for tático. Você poderia aproveitar segundos na TV ou panfletos e cartazes pra criar um personagem caricato que aponta as falhas do sistema eleitoral de dentro dele. Sem compromisso de ganhar, porque você provavelmente não vai, sem financiamento de grandes setores privados.

A anulação do voto também pode ser tática. Uma grande quantidade de votos nulos ou ausências são uma das maiores evidências que teremos para apresentar à sociedade que esse sistema está falido e que a democracia precisa ser aberta, participativa. Que não queremos mais terceirizar nossa cidadania a cada 4 anos para um capataz diferente.

Votar ou não, para um anarquista, não é a questão. A questão são os porquês. Se você não vota, mas quando te perguntam o motivo você diz “porque sou anarquista, e anarquistas não votam”, com o perdão da sinceridade, você é bem burrinho(a). Se não é burrinho, sua preguiça de explicar te faz parecer um, e isso só tira a credibilidade política da anarquia. As pessoas só vão abdicar de suas propostas pelas nossas se elas considerarem nossa proposta mais inteligente. Então se esforcem mais!

Por fim, pare de tentar fazer seus irmãos e irmãs parecerem “menos anarquistas que você” apenas porque eles decidem votar ou deixam de votar. É preciso haver respeito na diversidade tática anárquica, na mesma medida em que precisamos problematizar essas decisões, quando algum(a) compa anarco disser que vai votar ou não. No lugar de dizer “seu idiota, anarquistas fazem assim, mimimi”, comece com um “por quê?”.

Agradeço a paciência de quem chegou até aqui. Um mundo sem patrões não vai cair do céu apenas porque sentamos emburrados no canto. Mas é preciso sempre olhar pra si e repensar se não estamos nos vendendo por pouco. O processo eleitoral é uma grande fraude. Cabe a você saber o que pode tirar desa fraude ou se vale a pena destruí-la.

Faz várias luas que não escrevo nada aqui, mas me deu vontade de escrever, e prefiro que seja aqui mesmo. De repente eu reanimo esse espaço.

Quando eu era criança, lá pelos 5 anos, eu queria ser “cientista maluco”. Na minha cabeça, isso era uma profissão. Eu ficava brincando com os produtos de limpeza, tinta, óleo, vinagre, tudo em potinhos de iogurte que ficavam vazios. A escada do quintal era meu laboratório, cada degrau uma prateleira cheia de “experiências”, invenções que sempre que eu acreditava terem funcionado corria pra mostrar pra minha avó. Observava as formigas e, não me orgulho disso, enchia os formigueiros com água da mangueira, ou perseguia elas com uma lupa. Não era bem crueldade, mas uma sensibilidade que ainda não tinha se desenvolvido. Quando escurecia eu ficava olhando o céu e pensando o que havia naquelas estrelas, se tinha alguém olhando de volta, se as pessoas que morriam iam pra alguma delas, ou várias. E nas minhas orações eu pedia pra que Deus me desse uma nave espacial. Depois corria pra olhar pela janela e ela nunca estava lá. Às vezes eu sonhava com essas viagens, grandes laboratórios, monstros que eu fazia sem querer e corriam atrás de mim. E quando ia pra chácara com meus avós eu perguntava tudo. Queria saber o nome das plantas, porque algumas davam fruta e outras não, enfim… Eu enchia o saco de qualquer adulto com essas perguntas. Há quem diga que eu fui uma criança esquista, mas acredito que eu era bem saudável.

Cresci. Meu sonho passou a ser escritor. Adolescente ainda eu ensaiava livros, escrevia dezenas de páginas, depois achava ruim e apagava tudo. Tentei fazer quadrinhos, também não gostava e jogava fora. Poesias que depois de uns meses me cansavam e eu queimava. Uma porção de coisas que fisicamente se perdeu, mas de que eu ainda me lembro razoavelmente bem.

Nunca publiquei um livro, nem consegui me formar num curso de biologia que já se arrasta por vários anos. Não por falta de capacidade, mas de conformidade. Eu sou uma dessas pessoas que larga as coisas quando acredita que elas perderam o sentido. E assim como livros largados pela metade, já se foram alguns TCCs e algumas disciplinas. Vou trabalhando como dá, numa luta por independência que também não se completou e eu nem sei quando vai se completar.

Mas o ponto aqui não é a conclusão de nada. Estava no quintal olhando para o céu noturno, da mesma forma como fazia aos cinco anos, e pensando muitas coisas que eu já pensava naquela época.

A ciência que eu faço, assim como a escrita que eu faço, raramente me dá dinheiro. Mas elas me dão prazer, e eu sinto que elas contribuem para alguém. Quando eu decidi ser articulista voluntário sem assinatura, produzindo para livre distribuição, não foi por falta de opção, mas por convicção. E eu não ganho atualmente nenhum centavo de editoras e direitos autorais (como a maioria dos escritores…), mas, puta merda, como eu escrevo! E felizmente eu consigo atingir muitas pessoas, interagir com elas, ensinar e aprender, emancipar.

Não vai ser um pedaço de papel ou um carimbo social que determinarão quem eu sou ou o que eu faço. Se eu faço ciência, sou cientista. Se eu escrevo, sou escritor. E seu julgamento sobre isso honestamente não me interessa. Me interessa investigar e escrever, obrigado.

E esse, como vários outros textos, não tem a pretensão de convencer ninguém de nada, nem de me afirmar para um grupo ou buscar legitimação. É apenas mais uma daquelas coisas que a gente faz só pra que outras pessoas saibam que não estão sozinhas, para que outras saibam que existem outros caminhos, e tantos outros além do tradicional e do meu.

Faço isso porque essas coisas, essas que as pessoas fazem pra que a gente saiba que não está sozinho, sempre foram muito importantes pra mim. Pra eu saber que não estou sozinho.

Vai ver essa é a concepção moderna de uma comunidade anarquista. Eu ainda vou precisar batalhar, e muito, pra sobreviver num sistema de merda. Mas o que eu puder fazer pra encurtar o tempo de vida desse sistema, vou fazer.

Aos anarcos, piratas, esquerdinhas, anônimos e libertários do meu convívio, meu sincero agradecimento. Somos um.

Sobre a Rabugice

Publicado: quarta-feira, 6 novembro - 2013 em Cultura, Filosofia
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Decidi tirar a poeira disso e voltar a escrever.  O Facebook me deixou mal acostumado e como estou querendo sair de lá, resolvi falar de um dos principais motivos: a rabugice.

A rabugice não é um defeito. Ela é uma característica com suas vantagens e desvantagens.

Ela é diferente da arrogância, porque não é “afetada” apenas por ser. O amargo da rabugice não é de ruindade ou superioridade, é o cansaço de um peso que se carrega, geralmente por escolha.

E justamente por isso o rabugento é assim. Ele sabe que escolheu, é o preço que ele quis pagar, mas isso não torna as coisas doces. E ele não sente a obrigação de sorrir satisfeito apenas porque fez como quis.

Ela difere da inveja, também, porque ela não se incomoda com a felicidade alheia. Ela se cansa; é diferente. Sabe aquela felicidade a qualquer preço? De gente que luta pra ser feliz? Então, pra um rabugento, só olhar essa felicidade já cansa.

O rabugento não quer ser feliz como você. Ele só não consegue entender porque ainda tem gente que batalha pra ser feliz quando isso não é uma demanda pessoal. Ser feliz pra mostrar pra alguém que se está feliz é algo como dizer que tem orgulho de ser explorado.

Ainda, a rabugice não se assemelha ao ser “mal comido(a)”. Na verdade, a maioria dos rabugentos que eu conheço estão comendo ou sendo comidos muito bem. É uma bobagem achar que o mau humor está necessariamente ligado à falta de sexo ou que o bom humor está ligado ao excesso.

Na verdade, o rabugento “caga e anda” pra essa ideia de “bom humor”. Porque o “mau humor”, pra ele, é bom. Isso não significa que ele não vá dar risada, que não vai se divertir, que não gosta de estar com amigos. Significa apenas que ele não sente a menor obrigação de forçar uma emoção pra cumprir uma expectativa social.

Que cada um fale por si, claro, mas minha rabugice é uma questão de liberdade também. Porque eu não quero sorrir e dizer “tudo bem” quando não estiver tudo bem. Porque eu não quero falar que a vida está boa enquanto tem gente morrendo de fome ou por pensar livremente. Eu não quero estar tranquilo com isso. Eu não gosto de natal, dia das mães, dia dos namorados, e todas essas outras datas dedicadas a uma emoção/sentimento, porque não faz sentido ter um dia pra sentir uma coisa.

E se bem no dia das mãe você estiver com ódio da sua? Nos outros 364 dias você pode ser o filho mais amoroso do mundo, mas isso, pros outros, vai indicar que você é rancoroso, insensível… Mas pera, quem é o insensível aqui? Quem é que está te obrigando a esconder o que você está sentindo?

O mesmo vale pra aniversários. A maioria dos meus amigos felizmente já se acostumou a não receber o parabéns… “Parabéns por ter sobrevivido mais 365 dias”… “Parabéns porque a Terra deu mais um giro inteiro em torno do Sol desde que você nasceu, independente de qualquer esforço seu”. É assim que soa pra mim. E isso não quer dizer que eu goste menos de ninguém!

Dias depois, às vezes eu mando uma mensagem desejando felicidade ou falando de coisas que eu penso da pessoa. Mas sem compromisso de ser num dia X, porque se ela for pensar que eu “esqueci” dela apenas por isso, eu honestamente quero mais é que ela chore sangue…

Estão vendo? Isso é a rabugice… E eu já cansei de ficar explicando. Vão tomar no cu! rs

Que fique uma mensagem final. Rabugentos não são necessariamente invejosos, insensíveis, rancorosos, arrogantes, ou a porra que for. Eles só colocam a sinceridade acima de tudo isso. Acima deles mesmos. E acima de você também.

E todo mundo deveria ser assim.

Conversando com estrelas 2: A poesia

Publicado: terça-feira, 7 maio - 2013 em Cultura, Filosofia, Literatura
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Estou num daqueles períodos de escrever pouco aqui e deixar o blog às moscas. Mas agora eu preciso mesmo escrever.

Estava em mais uma dessas madrugadas insones, das quais já perdi a conta e provavelmente já são mais da metade das madrugadas de toda a minha vida. Estava tentando escrever e não conseguia. Tentando pensar e me sabotando. Resolvi sair por cinco minutos, tomar um ar e ver o céu.

Peguei uma mantinha, um chá bem quente e decidi que iria ficar ali no quintal, olhando pra cima até que me viesse uma inspiração. Mal deu tempo de observar a fumaça que saía da caneca se misturar com a que eu expirava, e subindo o olhar com a neblina mentirosa que eu mesmo fiz, percebi o céu bastante limpo, deixando evidente a ponta do braço da Via Láctea onde dorme a humanidade.

Antes que eu pudesse terminar de dizer mentalmente o quando a natureza é maravilhosa, metade do céu foi cortado pela estrela cadente mais bonita que já vi até hoje. Branca, enorme, muito brilhante. E, em fração de um segundo, desapareceu.

Ainda estou um pouco perplexo, e com as mãos trêmulas, parte por frio e parte por êxtase.

No fim, essa capacidade de olharmos pro céu, pra fumaça, pra si… Não é isso que nos faz poetas.

Isso nos faz a própria poesia.

Conversando com estrelas

Publicado: quinta-feira, 28 março - 2013 em Cultura, Filosofia
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Às vezes eu preciso conversar com o céu. Contar coisas pra ele que eu não conto pra ninguém, perguntar coisas que ninguém me responderia.

Pra uns, nunca vai passar de um monólogo esquizofrênico, mas não dou a mínima. Hoje eu resolvi ir pro quintal, apagar as luzes e deixar a Lua cheia contar suas histórias. Ela certamente já mais acostumada que eu com toda essa porcaria que é o mundo. Mesmo assim, a danada brilha com uma intensidade…

Os mais chatos e céticos vão dizer “ah, a Lua não brilha”. Mas, justamente por isso, são chatos.

Sentei, olhei pra cima de relance e vi o rabo do Escorpião. E pronto, entendi. É isso… Às vezes as coisas são assim, e não adianta eu tentar explicar isso aqui, vocês teriam que ir pros seus quintais e olharem pro rabo do escorpião pra ver a mesma coisa que eu vi.

Não é diferente quando nos olhamos nos olhos e simplesmente enxergamos tudo o que tinha que ser dito e não é. Sufoca um pouco, mas liberta. Estamos tão acostumados à fala que essas comunicações subjetivas descem como fumaça quente pela garganta.

Engasga, até…

Mas às vezes as coisas simplesmente são assim.

Existe, no fim, um bom motivo pra serem assim? O rabo do escorpião me disse que não. E acho que ele entende melhor disso que eu. Respeitei.

Gosto de olhar pro céu, porque me ajuda a lembrar que eu sou, inteiro, um universo. E todo mundo é. E na nossa arrogância de tentarmos entender as pessoas, ainda temos aquele pensamento medíocre que de gira tudo ao nosso redor, que o centro de gravidade da nossa vida é nosso “eu”. E definitivamente não é… Não existe esse centro. Existe uma grade bagunça, uma dança cósmica onde, no fim, “culpa” é uma palavra burra.

E o sentido que tem o castigo, dessa perspectiva, é o mesmo sentido que tem fazer-se de vítima. Nenhum.

“Espera e olha, porque é poeira de estrela. Um forasteiro, sempre, mesmo em terra natal. Uma vida sempre pela metade, uma corrida sem linha de chegada, uma subida em espiral que às vezes está mais perto do início que do meio, mesmo tendo percorrido tanto.”

Assustei com os coleguinhas que chegaram de repente e pararam na minha frente, e naturalmente eu não percebi, porque estava em outra dimensão só minha. Não deu tempo do céu terminar de falar, mas acho que entendi o espírito da mensagem.

Eles trouxeram uma garrafa da vinho, e talvez o fim da mensagem seja essa. Então, que assim seja. Amém.

Amanhã eu continuo essa conversa estranha com o céu.

Ouriços no estômago

Publicado: sexta-feira, 22 março - 2013 em Cultura, Filosofia, Política
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Às vezes parece que eu vou vomitar um ouriço.

[Esse é um daqueles posts que não vai te deixar animado. Se estiver mal, talvez seja melhor não ler.]

Não que algum dia eu tenha vivido num ambiente confortável. Minha natureza anacrônica e alienígena nunca permitiu. Queria lembrar como é estar num útero pra poder ter essa certeza. Mas a essa altura, já é irrelevante.

Também nunca vi felicidade como obrigação, nunca fiz questão de sorrisos, e não acho que essa é a chave pra uma vida melhor. Mas porra… Quando você sente que o meio do mato, longe de tudo (ou quase tudo, ao menos) é o único lugar onde vai conseguir respirar em paz… Sei lá, as agulhinhas dos ouriços incomodam um pouco mais em dias assim.

Estou num momento da vida em que eu não analiso mais as pessoas pelas posturas que tem, pelas convicções, crenças ou orientações políticas. Já não faz mais tanto sentido. Meu critério é a capacidade delas serem sensíveis.

Dizem que pra você ser feliz e estar bem consigo mesmo, você precisa ignorar as expectativas do mundo meritocrático, ignorar os padrões de beleza, ignorar as relações históricas de poder de alguns grupos sobre outros, enfim… É fácil estar acima de tudo isso por dentro, mas em ambientes sociais, não tem como.

A gente tem que escolher um lado, e a partir do dia em que eu escolhi o lado mais fraco (e essa escolha foi completamente consciente) eu comecei a chorar. Não porque fiquei triste, nem porque a vida ficou mais difícil (embora ambos sejam verdade), mas porque eu comecei a me dar conta de todo esse sofrimento, e o assumi como meu.

Muitos dos meus amigos, creio que com boas intenções, me dizem que eu tenho que colocar isso de lado pra conseguir “seguir a vida”. E quando eu falo “não consigo”, dizem que eu tenho que me esforçar mais. Pois então que seja, não é questão de não conseguir. Eu sequer me esforço.

EU NÃO QUERO.

Eu não quero conseguir dormir sabendo que tem gente tacando fogo em favelas e jogando spray de pimenta em cara de criança, em mulher com bebê de colo, jogando granadas em jornalistas, só pra deixar um lugar mais bonitinho pra copa do mundo.

Eu não quero conseguir me concentrar pra escrever um TCC enquanto tem gente sem ter o que comer porque existe um complexo econômico que controla a produção e venda de alimentos no mundo.

Eu não quero deixar a vida pessoal pra fora do meu ambiente de trabalho enquanto homossexuais são espancados, transexuais são apedrejadas, mulheres apanham de maridos, meninas e meninos sofrem porque seus corpos não se adequam a um padrão.

A única coisa que eu quero agora é vomitar esses ouriços. Tirar cada espinho e enfiar nos olhos de cada desgraçado que finge que não vê.

Eu não sou depressivo. Eu não preciso de remédios. Eu não quero me tratar.

Eu sou um ser humano que aceita a própria natureza, visceralmente.

Eu preciso de mais seres humanos assim, vomitando ouriços.

E eu quero que quem guarda tudo isso numa caixinha e esconde em cima do guarda-roupas sofra o suficiente pra abrir a caixa e perceber que é tão humano quanto aqueles que estão sendo pisoteados nesse exato momento.

Carta de um leopardo a Dionísio

Publicado: quarta-feira, 30 janeiro - 2013 em Uncategorized
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Entre savanas e florestas, caçadas e descansos, o que permanece é o hábito de correr.

Porque aquilo que é hábito, não muda. E cada um de nós possui sua natureza. Eu sou um leopardo. Territorial, agressivo, orgulhoso. E meu sangue é fúria.

Porque eu não consigo me adaptar a um rebanho. Porque meus sonhos vão além do desejo coletivo. Porque minha fome não é saciável por pastos.

Porque eu aprendi que morrer nunca é pra sempre.

E hoje eu olhei nos seus olhos, pai, e você me ofereceu tudo aquilo que eu precisava. Amor intenso e verdadeiro. Amor louco, insano, descontrolado, único… E meu. Só meu.

Amor suficiente pra cruzar um oriente, pra perder-me em oceanos, pra ir ao Hades e voltar.

E que pra você é algo tão simples… Mas tão difícil de conquistar.

Aprendi, sob o preço de cortar os pés descalços, que fiz o certo. Que não se entrega sua loucura a quem tem medo do escuro. Deixe a luz para os que gostam de viver na luz. Eu aprendi a enxergar foi no escuro do inverno.

E num mundo de dor e sofrimento, onde a cada esquina há corações dilacerados, me sinto grato. Grato em dor, grato em sofrimento, grato em desespero… Grato por estar, eu, por inteiro, dilacerado. Mas me resta o coração. E é só disso que eu preciso.

Cubro a face das tempestades de areia e respiro fundo ao encarar o deserto. Pois além dele, talvez, haja espaço para um amor insano, desses que não cabe no padrão dos homens, desses que o teatro e os livros não são capazes de padronizar, desses que não aprendemos nas histórias que nos contam.

Um amor desses que inventamos. A mais bela obra em minha criação. Um coração, e tão somente um coração.

É hora de correr.

Correr num deserto onde o acaso é a ordem, onde a sua perdição dá sentido às pequenas desarrumações dos grãos de areia. E na noite silenciosa do deserto, não há necessidade em ouvir-te, pois sinto.

Na paisagem noturna,as estrelas voltarão a desvendar mistérios, e somente a luz da Lua será capaz de me elevar a elas. Brilhar na profundidade bela do escuro, e só.

E não importa que eu não possa ver, se puder visto e curado.

E na paisagem noturna,as estrelas voltarão a desvendar mistérios, e somente a luz da Lua será capaz de me elevar a elas. Brilhar na profundidade bela do escuro.

E só.