Não, essa não será uma postagem “biologizante”. Não vim defender nenhum tipo de inatismo. Mas vai parecer que sim…
A maior parte de mim não acredita muito em dons ou coisas parecidas. E eu também não acredito em aptidões programadas por moléculas de DNA. Pra mim isso cruza a linha da metafísica e vai bem longe, apesar de pra boa parte dos cientistas fazer sentido. E até faz, mas quando a gente não explica como acontece eu não gosto de chamar de ciência.
Só o que conseguimos provar e explicar está no nível de estímulos. Alguns superestímulos ou até mesmo a falta deles podem levar pessoas a ter mais ou menos facilidades para certas coisas. Mas quando o assunto é personalidade, e não capacidade, fica mais difícil aferir qualquer coisa.
O Fantástico vai noticiar que descobriram o “gene do traidor”, mas isso é mentira, do mesmo jeito que a história do “gene da maldade”. Mas é fato que algumas coisas não mudam.
O que eu penso sobre isso é que viver é constantemente experimentar. Os estímulos ocorrem por diversos sentidos, em diversas situações, com diversos contextos, e nós assimilamos essa informação toda no esforço de construirmos um “eu”. E, por lógica, esse “eu” não poderia ser tão sólido, já que a vida continua.
Mas o fato é que algumas coisas, algumas pessoas, não mudam.
O meu silogismo barato me leva a pensar que talvez por se isolarem do estímulo. A maioria das pessoas não experimenta tanto e fica na própria zona de conforto (eu não gosto desse termo, porque não acredito em zona confortável, mas não consegui achar outra expressão).
Indo um pouco além, acredito que algumas experiências possam viciar, e então buscamos elas mais que as outras, e isso nos endurece em alguns aspectos. Pegando como exemplo eu mesmo e meu libertarismo. Não muda, e não vai mudar. E há momentos em que isso é um problema sério (conseguir me inserir no mercado de trabalho, por exemplo). Mas a experiência libertária me dá tanto prazer que eu não quero saber como é não ser libertário, nem por um dia. Mas essa zona bem que podia ser mais confortável…
Hoje eu passei o dia dentro de casa. Sequer abri a porta. Passei o dia lembrando de quando decidi sair mesmo de casa, me enfiar numa nova realidade distante e percebi o quanto isso me transformou. Algumas coisas, claro, não mudaram, mas muita coisa mudou.
O triste é que quando eu paro para olhar em volta… A maioria das pessoas não muda. A maioria das pessoas já foi viciada numa experiência tão cedo que não adianta mais se enfiar numa realidade nova e distante. A maioria das pessoas não se dá o direito de surtar, de entrar em crise, de se perguntar “quem eu sou?”, “por que caralhos eu estou aqui?”, “por que eu tenho que aprender isso?”, nada…
As pessoas que viviam escondidas continuam escondidas, as pessoas mesquinhas continuam mesquinhas, as pessoas covardes continuam covardes, as pessoas fracas continuam fracas, as pessoas sem caráter continuam sem caráter, as pessoas infantis continuam infantis, as pessoas carentes continuam carentes…
E não bastasse isso ser triste por ser, acho que no fundo é justamente isso que não me permite ter uma zona de conforto.
O conforto dos outros me é desconfortável.
